“O amor surgirá como o sol ao amanhecer, quando o coração se abra, livre de toda a rigidez e egocentrismo”
N. Sri Ram (Pensamentos para Aspirantes)

“Percebe a verdade ante ti: uma vida sã, um espírito aberto, um coração puro, um intelecto ardente, uma percepção espiritual sem véu (…) Tais são os degraus de ouro sobre as quais o aprendiz deve subir para chegar ao templo da bondade divina”.
H.P. Blavatsky. (Collected  Writays)

“…querer de uma maneira tão intensa e superior que qualquer paixão humana, por sublimada que seja, não é mais que uma sombra deformada daquele Arquétipo. É o “Querer-com-o-coração”, como dizem os textos de Magia egípcios. Um querer para-racional, insaciado, incansável. É o Amor por todos os Seres e todas as coisas que, ao aproximar-nos deles e ao Mistério que neles habita, torna-nos Sábios…”
J.A.Livraga (1)

“Quando o coração, nó dos vasos e fonte de sangue que circula rapidamente por todos os membros, foi colocado, por assim dizer, no posto de guarda”.

Tais são as palavras do divino Platão no seu Timeu, enigmática obra que é o compêndio dos ensinamentos secretos sobre o homem e o universo. Este ensina sobre o coração, o sábio grego que bebeu nas fontes de sabedoria de Heliópolis. Explica que é o coração quem permite que a parte melhor mande no todo, e que só a voz do coração é escutada por “tudo o que no corpo tem sensibilidade”.

É por isso, como ensinaram os Iniciados egípcios, que o coração é a sede da consciência moral, o trono onde mora o deus que é rei do Homem. Como todo o sangue é impulsionado pelo coração e a ele volta, toda a vida deixa a sua pegada no coração, os egípcios representaram-no por uma vasilha onde se encontra a essência das experiências vividas. No peso do Coração do Defunto é o que é pesado num dos pratos da balança; no outro a pluma da Verdade (Maat). É necessário para superar esta difícil – a mais difícil, a definitiva prova – um coração de fogo, que reduza a cinzas as acções. É necessário um coração de luz, como é de luz símbolo, a pluma, de luz, de verdade e de justiça.

Platão chama ao coração “NÓ dos vasos”, tal e como fizeram os sábios aztecas ao representar no coração o movimento, o nó que ata o espírito à matéria, a alma à sua ferramenta. Aí fica presa a alma e é por isso que é o testemunho do homem, da sua incessante marcha.

O Budhismo Tibetano distingue “a Sabedoria da Cabeça da Sabedoria da Alma, a doutrina do Olho da do Coração” e insistem em que “mesmo a própria ignorância é preferível à Sabedoria da Cabeça, se esta não tem a Sabedoria da Alma para ilumina-la e dirigi-la (…) a Doutrina do Olho é para a multitude, a Doutrina do Coração é para os eleitos”. (2)

O coração é o Sol do homem, como o Sol é o Coração do Mundo. (3) Brota ou não luz do coração? Qual é a natureza desta luz? Perguntaram-se os sábios egípcios. Não é necessário o laboratório para saber que há seres humanos que são como tochas na noite, e outros que parecem que tem as suas entranhas de pedra. O coração é-o quando bate. Um coração de pedra não é um coração, era um coração! Os egípcios chamaram ao Coração o Pai-Mãe, aquele que permite as transformações. Porque toda a mudança real, toda a renovação devia surgir do coração. Wallis Budge refere-se, por exemplo a um amuleto em forma de coração com os simbolos de Neith, Benu, e nele inscritos em caracteres hieroglíficos: “EU SOU A ALMA DE KEPHER-RA” Kepher-Ra é o Ser-que-avança, que supera as provas experimentando em cada uma delas uma transformação que o faz mais luminoso. Porque Kepher Ra é o Sol ao amanhecer que se eleva até ao Sol do Meio-dia.

Neith é a Atena egípcia, a Deusa da Sabedoria viva em acção. O seu símbolo são duas flechas em cruz, com ou sem escudo, e também uma argola para tecer. É quem tudo tece e destece e o seu selo aparece no capuz das Serpentes-Cobra.

Bennu é a Fenix egípcia que aparece representada sobre uma montanha mágica ou ilha em chamas. Símbolo da ressurreição, é a ave – a garça-real – que posa sobre a Colina Primigénia e que vela pelo Ovo Áureo que deu lugar ao Sol. É nos textos egípcios a Alma de Rá, “o que leva a conta de tudo o que existe e o que existirá”.

É como se os egípcios, ao gravarem estas imagens no amuleto, estivessem a recordar o seu portador: “Não te detenhas, tece e destece, sê fiel à sabedoria, surge puro e renovado das cinzas, morre e renasce cada dia, como o Sol, e que o teu coração seja como uma ilha em chamas. Entesoura na alma todas as tuas experiências passadas, lê nos desígnios o que fazer, aqui e agora. Sabe que és um espelho, mais ou menos polimentado, de ti depende onde é que vê o teu Destino e o teu Deus”.

Estes amuletos coração são de cornalina, jaspe vermelho, cerâmica vitreada vermelha ou pasta de cor. Tanto a cornalina como o jaspe vermelho simbolizam o dinamismo, a coragem necessária para enfrentar os inimigos invisíveis. Relacionam-se com a ira das divindades defendendo os seus lugares, com os “furores heroicos”, cuja raiz deve ser o céu e não as paixões animais. É a exaltação que é filha do Céu. No Livro da Oculta Morada (H. 172), referindo-se ao vigor e coragem do defunto ou do Iniciado diz-se: “Teus peitos são dos ovos de cornalina que Horus realçou com lápis-lazúli”, ou seja, que a chama do seu peito, a chama de essa IRA é AZUL, serve ao céu e não à carne. E os hieroglíficos que determinam esta pedra – a cornalina – são “ENTRANÇAR – TU, (DENTRO) – QUEIMAR”.

Já nas primeiras dinastias nos encontramos com tábuas em que se representa a RA, o Fazedor, – o coração que transforma em luz a realidade – e no interior de RA, o Íbis.

Horapollo, sacerdote grego do Séc. III d.C., na sua Hieroglífica, o primeiro tratado sistemático da língua hieroglífica egípcia, ensina-nos que os egípcios representavam o coração como um íbis. “Pois o animal está intimamente unido a Hermes, senhor de todo coração e raciocínio, porque também o íbis em si mesmo é semelhante ao coração”.

E em Plínio: “Os Egípcios com a pintura desta ave pretendem representar o coração do homem e dedicaram-no a Mercúrio, a quem tinham por presidente e governador das palavras e dos conceitos do coração”.

Na época grega o íbis (hibi) é o signo hieroglífico do coração (ib). E Plutarco, no seu Isis e Osíris recorda-nos que o Íbis era “a primeira letra do seu alfabeto”. Pois deste Deus, Thot, vinha toda a inteligência e memoria. A ele estavam consagrados a linguagem dos hieroglíficos. Também querendo aludir a que todo conhecimento real chega do coração e vive nele. A verdadeira beleza brota do coração dos seres. O hieroglífico que expressa a bondade, a beleza, a música, a eterna juventude é NEFER. É – já nos advertiu Horapollo – um coração de onde surge a traqueia. A voz que surge do coração da vida, tal é a beleza e a bondade.

O mesmo nome de Egipto nos diz Horapollo significa “CORAÇÃO em chamas”: “Para escrever Egipto pintam um tocheiro ardendo e por cima um coração, indicando que assim como o coração do cevo abraça-se continuamente, do mesmo modo o Egipto pelo calor produz continuamente os seres vivos que estão em si ou a seu lado”.

Este hieroglífico ou “coração flamejante” é também um dos epítetos dos faraós. O nome “Egipto” com que os gregos se referiam a esta terra de sabedoria, significa “o mistério”. Os académicos querem-no derivar de uma contração de um dos nomes de Menfis “Heka-Ka-Ptah” ou o Castelo do ka de Ptah. Mas jamais os egípcios chamaram com este nome a sua bendita terra, mas com o de KEM, ou “Terra de Fogo”, “Terra negra” ou “terra queimada”. Significando Kem tanto “negro” como “consumação final”.(4)

Os sublimes e milenares ensinamentos do vizir Ptahotep veêm o coração como chave de moral: é aí onde vive a regra de Maat. O coração dá a verdadeira medida. Todo excesso é um impedimento para o coração. Diz: “SEGUE O TEU CORAÇÃO DURANTE TODA A TUA VIDA” ou “NÃO VIVER DE ACORDO COM O CORAÇÃO FAZ DESAPARECER O CORAÇÃO”.

Erra, ensina Pthahotep quem ignora e esquece o coração. Que um bom coração é o melhor dom de Deus. Nada, nem bens, nem saúde, nem riquezas podem ser-nos mais uteis que o coração. Pois “PARA UM HOMEM O SEU CORAÇÃO É VIDA, SAÚDE E PROSPERIDADE (ANKH – OUDJAT – SENEB). A linguagem do coração é a linguagem da alma, o distintivo do nobre: “Só pode mandar aquele que chega ao coração” e “chega ao coração aquele cujas palavras não giram egoistamente em torno a si”. É para Ptahotep desde o coração que se ordenam todas as potências da alma. Pois é aí onde vive Maat, a pedra angular que dá a cada um o seu justo lugar. “Quem obedece ao seu coração estará em ordem”.

Para os egípcios obedecer é ouvir e entender, ambas faculdades do coração. Sem entender os ditames da vida um golpeia-se contra as margens de pedra da fatalidade: “Deus (a Vida-Una) ama o que entende; o que não entende (a vida) Deus rejeita-o”.

Para este sábio Deus vive no coração: “É o coração quem faz nascer o Mestre”. Um coração puro e em chamas abre as nossas sendas. É quem guia aos deuses neste mundo de sombras e reflexos fugidios. No papiro de Ani, um texto junto à vinheta de um coração reza: “Eu sou o pássaro Benu; eu sou a alma de Rá; eu sou o guia dos deuses no Duat”. O Duat é, em certo sentido, o mundo inferior, a vida na terra. Representa-se por uma estrela de 5 pontas encerrada num círculo, o homem na sua circunstância. Um coração puro amarra forças divinas, tece luz celeste, chama aos Deuses e guia-os pelas sendas que não são suas. Não eram suas, antes de que se acende-se um fogo. Se Platão ensinou que os homens são Deuses que se haviam esquecido da sua condição – consciência; o coração puro e em chamas desperta a recordação.

José Carlos Fernández
Director da Nova Acrópole em Portugal

Ler parte II

Notas:

(1) Artigo “Como se despertam os poderes ocultos do homem”

(2) A Voz do Silêncio

(3) Entendo aqui por Mundo Sistema Solar

(4) Em grego arcaico Ai é o artigo determinado e KUPTO é “curvando-se para pegar algo”, “inclinação de reverência face ao sagrado”, “inclinação da cabeça” similar ao egípcio Jept – abater, destruir, fazer cair e a jef – inclinar-se. Jept significa “órgãos genitais (masculinos ou femininos) ” referindo-se àquilo que se deve guardar e manter oculto. A referência ao “mistério” é idêntica na “GUPTA” sânscrito que significa “oculto, secreto, reservado, guardado”, ou em egípcio lugar escondido, refugio.