Ler Parte I

A avidez e o desejo sem freio são de quem não acha o seu coração e devora o que está ao seu alcance para encher aquele que sem coração não pode ser cheio. Como no “Mercador de Veneza” de Shakespeare, nada pode substituir o “peso exacto” do coração. A avidez é uma enfermidade incurável: “o que é ávido de coração carecerá de TUMBA (IS)”. Esta palavra egípcia IS significa tanto “tumba” como “oficina” – o lugar em que se preparam os objetos cerimoniais que eram levados para a tumba”- e “ser antigo” – o valor da tradição. Quanto invoca este ensinamento egípcio! O ávido carece de descanso. Não descansa a sua alma na vida nem mais além. Não pode forjar as ferramentas mágicas que permitem construir moradas; lugares de refúgio. O ávido afasta de si todos os bens que são herança natural do homem. O ávido de coração foge do seu “ser antigo”, de este ser antigo que faria dele um senhor do momento presente. Sem este “ser antigo” o homem é um escravo do agora. Os egípcios ensinaram-nos os perigos de ser escravos de aquilo que sempre foge.

As piores faltas são aquelas que atentam contra o coração:

“O que é violento carece de coração”
“Quem é frívolo de coração não fundará morada”

Que joia da Filosofia Antiga não é herdeira do pensamento egípcio? Onde os egípcios representaram um Ibis – coração – face à pluma de Maat, os gregos e romanos ensinaram “NADA EM EXCESSO! NADA EM EXCESSO! Proclamaram os Sete Sábios da Grécia, “NADA EM EXCESSO (MEDE AGAM)” escreveram no Templo do Deus da Harmonia: ESTE É O ENSINAMENTO DO CORAÇÃO! Como o coração está no centro do ser humano, o perfeito encontra-se sempre no Justo Meio. É o Sattva dos hindus, “o repouso no conhecimento divino” e que se traduz como “bondade, pureza, harmonia, equilíbrio”. O Talmud, a sabedoria hebraica, herança da egípcia, proclama: “Se corre o teu coração, faz que volte ao seu lugar”.

No Livro dos Mortos fala-se dos corações: IB e HATY.

IB, com o hieroglífico de uma vasilha em forma de coração. É a sede da consciência. O coração que é pesado no juízo. É o coração IB o saber que vê, a intuição. Chega, dizem os hinos egípcios, ao homem desde a Mãe Celeste. Aí vive o homem verdadeiro. Este coração é o Pai-Mãe, o das transformações”. O coração de Ar e Fogo dos textos ocultistas, uma imagem viva de Maat, da luz celeste que guia. Nos hinos do Livro dos Mortos pede-se “Que o coração IB não seja arrebatado”. IB é o cálice místico onde se verte a chama divina. Ilumina ou não, mas não pode perder a sua pureza sem mancha. Está ou não está no homem. É uma posse natural do coração humano e nele vive-se, é a morada natural. Dizemos que é “arrebatado” quando aquela luz espiritual se retira do coração humano, ao oferecer este más condições para poder viver nele. É o coração que é responsável pelos actos, sede do pensamento, a memória, a inteligência, o valor e a força da vida.

HATI: literalmente – “o que está de frente, o peito”. Representa-se pela parte dianteira do leão. Nos hinos Egípcios diz-se que “chega de mim a vida sobre a Terra”. E se pede que “não sofra transformações”, que pode estar imóvel, não perseguir as imagens dos sentidos, mas desde o centro domá-lo. Pode não transformar-se com o que tocar, não tingir-se de vida, mas alumiar a vida com o seu próprio fogo. É uma imagem do karma, da acção, do passado que volta, do poder de transformar a realidade. O coração de Água e Terra dos ocultistas. Neste coração reside o poder mágico, porque se IB é o lugar da Alma, HATI é o seu braço, o seu poder.

No Livro dos Mortos fala-se do Coração Ib, o Hati e as entranhas correntes: “O coração extravia-se ouvindo o seu ventre” (Ptahotep). O ventre ou entranhas representa o indómito e instintivo no homem, os caminhos sombrios e tortuosos na alma, o inconsciente da psicologia actual, o seu egoísmo atávico, a pedra, o arbusto e a fera aderidos à alma. Aqui está a constituição da Alma humana de Platão, quando na República descreve que nela vivem: a alma prudente, a irrascível e a concupiscível. Os destorcimentos do dragão são os das entranhas insaciáveis, os do labirinto humano, os dos intestinos e a sua voz. IB e HATI, insiste-se uma e outra vez devem-se encontrar e permanecer no seu lugar, afastadas das entranhas.

As entranhas – noutra chave – também representam a personalidade humana. São o fígado, rins, pulmões, estômago… depositados nos vasos canópicos e vigiados pelos 4 filhos de Hórus, senhores dos 4 Elementos e das 4 direcções do espaço.
O Livro dos Mortos dedica ao coração vários hinos, entre eles:

  1. Sobre como dar um coração a Osíris – Ani.
  2. Sobre como não permitir que se arrebate o coração
  3. Para que o coração não seja arrebatado ao defunto
  4. Sobre um coração de CORNALINA e como afirmar-se como BENNU
  5. Sobre o Coração Pai-Mãe, o das transformações

São profundos, muito profundos os ensinamentos destas passagens: fala-se, por exemplo, como desde o coração deve-se edificar o Ser Humano. Como achar paz no coração. Como no coração está a chave dos estados de consciência luminosos: “Que pode subir e descer com a minha Barca o Nilo Celeste”. Que desde o coração dirigem-se os poderes da alma, e que permite que “as duas pernas obedeçam”. Que um coração vivo e desperto impede que a alma seja aprisionada no cadáver da personalidade. Como libertar o coração Ib e Haty das fauces devoradoras do tempo e os seus Regentes. Vê uma estrela, e nesse único olhar o coração bate incontáveis vezes, nasce e morre.

Ensinam que a quem se julga é ao CORAÇÃO, e onde se vê o coração é nas pegadas sobre a terra, a conduta do homem.

Que o CORAÇÃO PERTENCE A UM DEUS, e é ele quem conduziu o Seu coração – Tu próprio! – até essas entranhas de sangre e carne, e “os renovou perante os Deuses”. Que podes renovar o teu coração unindo-te ao Deus que nele mora, renovar-te a ti mesmo, inteiramente, renovando o teu coração, encontrando-o no seu lugar. Que é Deus quem renova o teu coração e teu coração quem renova a tua vida e é a vida renovada quem purifica os teus membros. E não abandonarás jamais o teu Deus, o teu coração, pois não será já coração quando o abandonares, será cadáver. E é o coração a pedra angular do domínio de si mesmo, da ordem e disciplina da personalidade.

No hino XXIX fala-se do CORAÇÃO como a melhor possessão, que havia que defender com a própria vida. Deve defender-se dos dedos da morte e do frio. O coração está a salvo quando em todos os lugares há oferendas e orações em sua honra. Ou seja, quando o eco que faz a sua voz no mundo é um eco de bendições. Há que velar – ensina – estar atento e manter puro tudo aquilo que é do domínio do coração. Fala-se do Eu-Superior, HORUS, o combatente peregrino, o Senhor dos Corações que outorga duração e vida aos corações que vivem em Maat. É um coração cada vida a ela oferendada. Horus vive no coração, no meio do corpo.

Porque é que o coração é tão importante para os egípcios? Porque é o centro do homem, a morada da luz divina, porque escreve na Terra os desígnios do Céu, e faz chegar ao Céu a voz da Terra. Está no meio, é a semente do Céu, que cresce, se expande, se abre e dá fruto na terra. São seu pai e mãe o céu e a terra. “Eu habito no corpo de Geb, meu pai, e no de Nut, minha mãe divina!”. Ensinam os egípcios que as provas dão vigor ao coração quando obtém a Vitória. A vitória é como uma luz que se expande no reino do coração.

Só danificam o coração as acções que o Céu abomina. “Que não se exerça violência sobre mim! Rezam os textos egípcios. Porque a verdadeira dor é a que danifica o coração. Todos os demais carecem de real importância, não danificam o Homem Interno.

O “coração do defunto” devia continuar a bater para abrir as portas do mundo invisível. Junto a ele um escaravelho de lápis-lazúli, símbolo da renovação perpétua. “Que possa atravessar todas as mudanças”. “O coração, dom de Deus”, devia ser-lhe restituído. O coração, testemunho da luz dos deuses: Eu coloquei o teu coração no interior do corpo para ti,  para que tu possas recordar o que esqueceste”. (Textos dos Sarcófagos)
E porque devia continuar a bater, e porque não devia ser arrebatado, e porque não devia testemunhar contra o seu portador, o defunto tinha escritas nas suas vendas, em papiros ou na dura pedra dos seus sarcófagos textos de fogo que o recordassem QUEM ERA, O QUE SE ESPERAVA DELE, AINDA MAIS ALÉM DAS PORTAS DA MORTE.

“Salvé, oh Deus da dupla cabeça de leão
Vê-me!: Eu sou uma planta em flor
Por tal causa o cadafalso me aterroriza!
Oxalá meu coração não seja separado das minhas entranhas!
Tu que enfrentaste, feriste e abateste a Seth
Observa-me. Meu coração que chora ante Osíris
rogando está por mim …
E em Khemenu apoderei-me de oferendas para ele
Nenhum espírito arrebataria o meu coração pois
meu Deus tem o caminho aberto até ele, e nele mora.
E em breve podereis, oh Espíritos Celestes! Restituir este
coração convosco aos lugares da perpetua alegria”.

O Deus da dupla cabeça de leão é o tempo que olha para trás e para a frente. A planta em flor a alma do Discípulo, um coração terno de menino, que deve fazer-se forte e puro. Aterroriza a morte e os dentes do tempo porque a alma não está – assim o proclama no hino – segura de poder vencer o seu poder devorador. O que enfrenta e fere a Seth é HORUS, o Eu-Superior.
O coração que chore ante Osíris diz sobre o drama do homem, que é, e que não é uno com o seu coração. E o coração roga ante o seu Deus pelos erros, pela falta de compreensão e de eficácia.
Khemenu (Hermópolis) é o reino de Thot, a cidade dos 8, o lugar das contradições, das encruzilhadas, onde a alma encontra o alimento para o seu Deus. Cada vez que bate o coração flameja a vida. Cada vez que bate o CORAÇÃO a senda abre-se.

“NÃO DEIXES QUE O TEU CORAÇÃO DESFALEÇA”
Papiro de Ani

José Carlos Fernández
Director da Nova Acrópole em Portugal