I. Os símbolos:

Todas as culturas e civilizações clássicas utilizaram símbolos na sua expressão artística ou literária que mantinham relação com o modo de expressar-se na sua época, com a sua cultura. Assim, no mundo grego, a coruja representava a sabedoria e a prudência, sendo adoptada como emblema ou atributo da deusa Atena. Para aqueles que estavam alheios a essa esfera cultural ou religiosa, o símbolo mantinha então a sua boca selada e não era reconhecido. Citemos o símbolo egípcio do ouroboros, serpente que morde a cauda simbolizando a eternidade; em outras chaves, este símbolo representa o eterno retorno dos ciclos, o renascimento interior, o processo alquímico, a unidade, etc.

Uma característica comum das culturas antigas, consistia na utilização para compor os seus símbolos de imagens e padrões poderosos que foram além do nível individual e dos limites próprios da sua cultura.

Muitas vezes, esses símbolos são inseridos numa ordem universal, arquetípica ou atemporal, a qual é a herança do conhecimento humano, tal como já demostraram C.G.Jung, Micea Eliade, Erich From e Gilbert Durand. Poderiamos citar, então, a espiral como símbolo do caminho evolutivo, o labirinto como busca do próprio centro, o Yin-Yang como harmonia dos opostos (Yin representa o negativo, o obscuro e o passivo, enquanto Yang refere-se ao positivo, ao brilhante e ao activo), a ave fénix como símbolo da renovação e capacidade de renascer das próprias cinzas, a Mãe Terra como um grande ser vivo que cuida das espécies que o habitam, e assim por diante.

Além dos símbolos criados de modo individual ou por acordo entre grupos culturais ou religiosos ou sociais, podemos afirmar que os símbolos arquetípicos ou universais constituem a representação de uma ideia profunda: excedem as características próprias de um ícone ou emblema, alheando-se da forma aparente para captar as essências.

Os símbolos são próprios do ser humano, pois já formavam parte da linguagem nas culturas pre-alfabetizadas; não é em vão, que as imagens sempre foram o modo mais directo de transmitir as ideias, estiveram esculpidas no dorso de um menir ou no pórtico de uma catedral gótica. Veja-se como, a sobrevivência de alguns símbolos que foram transferidos de uma cultura a outra cultura ou religião: o crismon, como metamorfose do Ankh egipcio; o Santo Graal que aparece igualmente na tradição cristã e no círculo do rei Artur; São Cristóvão babuíno como transposição do Anúbis egipcio que acompanha os mortos à outra margem.

II. Os símbolos na literatura:

Dizem que os grandes autores não se limitam a escrever com um sentido literal, porque nas entrelinhas das suas obras advinha-se um aspecto simbólico.

Ao contrário de um sinal, que tem um significado literal assumido por convenção, o símbolo é um figura literária que acrescenta ao texto um significado oculto que não é percebido à primeira vista, já que se refere a um objecto, conceito, ou à qualidade de um personagem. Por isso relaciona-se a balança com a equidade ou a justiça, e a espada com a rectidão ou a força de vontade.

Muitos autores têm reiterado temas que foram objecto de preocupação, alcançando a posição de símbolos na sua literatura. Tal é o caso de Jorge L. Borges. Quando ele escreve sobre a ideia recorrente do tempo e da sua carreira fugaz; do infinito e do universo insondável como símbolos da eternidade; dos labirintos e das bibliotecas como símbolos da impossibilidade humana de alcançar a sabedoria total; e dos espelhos, os quais devolvem ao homem a imagem da sua realidade, ou talvez, da sua etérea vaidade.

Os símbolos também têm sido utilizados na literatura que inconscientemente forma parte de um arquétipo universal, tal como se pode ver nas obras de Rabindranath Tagore “O Carteiro do Rei”. Nesta bela obra, que pode ser classificada no género da “poesia dramática”, o órfão Amal, que foi proibido pelo médico de sair à rua, sonha em ver o mundo.

O chefe do povo, o guarda, o leiteiro, a menina que vende flores e as crianças, todos vêm falar-lhe à janela mas ele continua recolhido por causa da sua doença. Quando é instalado um posto de correios perto de sua casa, Amal deseja tornar-se carteiro para poder ir a qualquer lugar e sonha em receber uma carta do Rei.

Tal é a sua convicção, que estando à beira da morte chamam à sua porta o Heraldo e o Médico do Rei. Eles anunciam-lhe a próxima visita do monarca. Finalmente, Amal envía uma mensagem ao Rei pedindo-lhe que lhe mostre a Estrela Polar. Então, a criança dorme e entra num sonho do qual já não despertará…No momento da morte, a alma da criança, representada aqui pelos seus melhores desejos (o real Heraldo), vem ao seu encontro para levá-lo ao seu soberano (o Rei), o espírito.

Os escritores modernos utilizam qualquer objecto para dar representação simbólica aos seus pensamentos. Estes são símbolos individuais criados por convenção, como ocorre nas Aventuras de Huckleberry Finn de Mark Twain, onde o rio é uma senda que atravessa terras distantes e pode levar-nos à liberdade, ou como, Nas Vinhas da ira, de John Steimbeck, onde a mulher grávida personifica a esperança de um novo futuro.

Entre outros exemplos, para alguns autores as rosas vermelhas são símbolo das emoções apaixonadas que nos encadeiam; a água um elemento que limpa a consciência de impurezas vividas, por meio de um ritual de baptismo; a lua e a prata representam o feminino, enquanto o ouro e o pôr-do-sol o masculino; o azul é a quietude, enquanto o violeta encarna a mística. Portanto, como leitores, é necessário observar com atenção os objectos que cada autor descreve frequentemente, as imagens que utiliza, os coloridos e os temas que reitera nos seus escritos, a fim de reconhecer o seu mundo simbólico.


Arquivo Nova Acrópole