Para Chamoux “a arte grega na época arcaica e clássica não deve ser unicamente saboreada, mas compreendida. Não é de maneira alguma uma arte gratuita, para diversão dos refinados, dirigindo-se à simples delação do espírito e dos sentidos”.

Aristóteles diz: “entre o uso dos instrumentos e do exercício da arte, nós proscrevemos a instrução profissional, entendendo por esta a que tem como fim a preparação para as competições. Quem pratica a arte neste sentido não trata a música como um meio para realizar a virtude, mas atende exclusivamente ao prazer dos ouvintes, sem preocupar-se se é ou não elevado: precisamente por isto, consideramos que esta actividade é servil e indigna do homem livre.” (Política, Livro VII.)

Stendhal afirmou que “entre os antigos, o belo não é mais que a coroação do útil” e Chamoux acrescentou que “a arte pela arte é uma teoria estrangeira à consciência helénica. Nas manifestações artísticas da antiguidade a beleza jamais era “por si mesma” senão que estava imbrincada na utilidade prática e na funcionalidade simbólica. Qualquer obra devia ser materialmente útil, psicologicamente prazeirosa e espiritualmente fecunda”.

Ao que parece, um grego jamais poderia entender um feito artístico como um fim em si mesmo. Esta visão grega da música é algo superado, ou tomamos rumos confusos que distanciam-nos de uma vivência natural desse feito artístico-musical?

“Podemos usar a música como adorno ou para conseguir dinheiro, mas a sua função essencial vai muito mais além que uns interesses pessoais e umas modas passageiras.(…)”

Existe uma palavra grega a partir da qual deriva o nome de “música”, mousiké (a arte das Musas). Definia no século V não só como a arte dos sons, mas também a poesia e a dança. Estas facetas unificadas eram meios de transmissão de uma cultura que, até aos finais do século IV, foi essencialmente oral;

Uma cultura que se manifestava e difundia através das execuções públicas onde não só a palavra mas também a melodia e o gesto tinham uma função determinante. Estes três elementos artísticos eram parte de uma mesma manifestação estética. A arte figurativa testemunha uma antiguidade milenar desta união.

A música esteve presente em todos os momentos da vida social: cerimónias religiosas, concorrências agonísticas (ou seja, algo parecido aos nossos “concursos”) banquetes, festas solenes e até em contendas políticas. “Os gregos não chegavam a conhecer uma canção mais que através do canto: mas ao ouvi-la sentiam também a unidade íntima da palavra e música. Nós, que nos criamos sob o influxo da grosseria artística moderna, sob o isolamento das artes, apenas somos capazes de disfrutar juntos o texto e a música. Habituamo-nos precisamente a disfrutar, em separado, o texto na leitura e a música na audição. Também achamos suportável o texto mais absurdo desde de que a música seja bela: algo que a um grego pareceria propriamente uma barbárie”.

A este respeito diz Nietzsche: “Além desta irmandade recém realçada entre poesia e arte musical, a música antiga tinha outras características, a sua simplicidade e inclusive pobreza de harmonia e a sua riqueza de meios de expressão rítmica (…) A exigência primeira de todas era que se entendesse o conteúdo da canção interpretada (…) ao lado da estrutura rítmica-musical em períodos, que se movia em estreitíssimo paralelismo com o texto, ia por outro lado, como meio de expressão externa o movimento do baile, a orquestra. Nas evoluções dos coreutas, que desenhavam ante os olhos dos espectadores algo assim como arabescos sobre a superfície da orquestra, as pessoas sentiam a música visível (…) enquanto a música incrementava o afecto da poesia, a orquestra aclarava a música. Com isto se originava ao mesmo tempo o poeta e compositor, a tarefa de ser além disso um maestro de ballet”.

A arte pela arte é uma invenção tardia, e haveria que acrescentar distorção da função artística, já que elimina outros objectivos muito importantes. Podemos usar a música como adorno ou para conseguir dinheiro, mas a sua função essencial vai muito mais além que uns interesses pessoais e umas modas passageiras.

Todas estas ideias enfrentam uma tarefa difícil para o artista actual: superar as participações artificiais que realizamos. Esta esquecida ciência “holística”, capaz de combinar múltiplas facetas dentro de uma cosmovisão harmónica, em perfeita simbiose com o meio ecológico e com o homem, é algo que hoje em dia, em plena época do alto desenvolvimento tecnológico, impacta-nos profundamente.

É certo que esta união maravilhosa e natural ao mesmo tempo é um elemento raro no mundo contemporâneo. Acostumamo-nos a desligar e não a unir. Somos capazes de dissecar até aos limites insuspeitados as partes do todo, no entanto, custa-nos obter uma ideia de totalidade mais além do detalhado conhecimento das partes. Realmente não nos fará falta uma renovação?

 

Carlos A. Farraces

Outubro 2012