Esta etnia, também de origem bantú e que partilha mitos e ensinamentos religiosos com os zulus, provém, como eles, de migrações dos Grandes Lagos de África (a chamada migração, Nguni a que alguns historiadores dão 400 anos e outros muitos mais). Localizados principalmente na África do Sul são, neste país, 10 milhões com uma língua própria e certos costumes assimilados de povos contra os quais tiveram de lutar para estabelecer-se nestas terras: os san (bosquimanos) e Khoi-lhoi (hotentotes). Muitos termos, e inclusive algumas consoantes do seu alfabeto, são das linguagens khoison, por exemplo, com mais de 15 estalidos diferentes. É espantoso como constroem sons fazendo estalidos que se dividem em dentais, palatais, laterais e outros. O intérprete da vontade dos Antepassados é o Sangona, sacerdócio que frequentemente é assumido pelo género feminino.

São profetas, médicos, zelosos guardiães da tradição oral, mediadores e filósofos; e são certificados como tal depois de 5 a 10 anos de preparação. A história é conservada através de uma linhagem de heróis que remonta ao primeiro Homem, TSHAWE, pai de todos os xhosa. É considerado como o arquétipo que assume a forma humana e entra na natureza (desde o plano divino?). Naquele tempo a morte não existia como tal, não de forma violenta, numa clara referência à Idade de Ouro onde não existe o sofrimento e a própria vida se consome naturalmente, indoloramente, como uma chama que se apaga. A garganta da pessoa ia-se fechando até que só podia ser alimentada com leite e mel, mas sem angústia, pois não existia o temor à morte, a respiração ficava suspensa e os que assim viviam eram retirados para lugar secreto, pois não era necessário enterrar os mortos, pois não existia a morte. Claro, isto variou com o correr do tempo e o degenerar humano e eles próprios têm agora um refrão que diz: “a morte não avisa”.

A divindade principal é chamada MDALI, o criador e modelador de todas as coias, seu governador, que surge de uma caverna no Este, também deu leis aos seres humanos. Numa outra versão, xhosa criou-os dividindo uma cana em partes das quais surgiram um homem e duas mulheres, os progenitores do género humano. Outra lenda diz que desta caverna sagrada do Este que os xhosa chamam uhlanga, surgiram também, além do seu Deus, como um Sol criador, os homens e as bestas. Primeiro o gado, logo os seres humanos e depois o resto dos animais. Esta direcção, o Este, assume, como na maior parte dos povos, grande importância na sua cosmovisão. A entrada da casa principal está virada para Este e os chefes são enterrados também para Este.

Numa das suas lendas narram como um jovem que procurava trabalho, GXAM, foi roubado e ferido por dois dos seus amigos nos olhos, ficando cego. Dois corvos, enviados por Deus, como os que acompanham o Wotan germânico, ou numa versão mais moderna, o barco sarcófago de São Vicente; devolvem-lhe magicamente numa nova visão, com a que pode continuar à sua procura (uma espécie de demanda, como a do Santo Gral do cristianismo templário) chegando à Casa da Morte, MALIKOPHU, um génio aterrador que quer despedaçar o herói. Este é ajudado pela irmã da Morte e vence-a, desposando com ela, revestido uma nova identidade.

Nesta religião e cultura são muito importantes os imbongi, uma espécie de trovadores místicos, personagem chave na sociedade e que geralmente vivem junto ao palácio real, e que recitam os seus cantos e orações em todos os acontecimentos relevantes social ou historicamente.

Nelson Mandela, filho de um rei xhosa, e de certo modo rei natural, e mesmo de toda a África do Sul (ou de grande parte dela), ao viajar pelo seu país dando discursos ou em eventos de importância, faz-se acompanhar por um destes imbongi que, musicalmente, invoca e recorda as gestas heróicas dos governantes, guerreiros ou antepassados nas suas preces. Esta poesia, de carácter sacro, é chamada isibomgo e é usada para propagar os valores morais da comunidade.

 

José Carlos Fernández

Director da Nova Acrópole em Portugal