Os 47 Ronin e a Moral dos Samurais
Origem e contexto
Japão, 1876. A antiga casta dos samurais vê abolidos todos os seus privilégios, é o fim de uma era, um espaço de tempo que se prolongou por 700 anos e em que estes guerreiros dominaram.
A origem dos samurais situa-se no século IX, quando os senhores ricos e proprietários de terras começaram, devido à quebra da estrutura de clãs que existia no Japão, a recrutar guerreiros para a protecção dos seus arroteios. Com o tempo e apoio da nobreza, este grupo de guerreiros simples e reunidos em confraria, inicialmente denominados por bushidan, dará origem aos samurais.
O termo samurai apareceu entre os séculos IX e XI e provém do verbo saburau cujo significado é “servir junto de um nobre”, podendo deste modo afirmar-se que o samurai é “aquele que serve”.
Esta casta de guerreiros formava a elite militar do Japão, sendo constituída pelos Daimio (samurais proprietários de um importante domínio e chefe de uma linhagem local); o Shogun (generalíssimo), que, num certo período da história, obteve poderes superiores ao do Imperador; e os leais guerreiros que os serviam.
Dentro dos samurais existiam várias designações para diferenciar os diferentes tipos de guerreiros: o kenin (homem de casa), guerreiro sem parentesco com um chefe; o go kenin (servo honrado), que era um samurai subalterno; o ronin (homem flutuante), guerreiro sem nenhum vínculo; o sohei, que era o monge-samurai.
O Bushido
Apesar da diferenciação entre os diferentes tipos de guerreiros, todos eles tinham em comum uma coisa: seguiam o mesmo código de ética. Esse código estrito e rigoroso era o bushido, que reunia todos os preceitos morais específicos dos samurais.
Todas as antigas sociedades concebiam várias vias para a realização espiritual do homem. O bushido era a “via do guerreiro” (bushi - guerreiro, do - via).
É quase impossível datar historicamente o aparecimento do código. Este foi-se constituindo lentamente incorporando elementos diversos, espirituais e temporais para, então, confluir numa disciplina ascética e formativa. No princípio, só existia na forma oral mas apesar disso, quem quebrasse o código era severamente punido, mesmo com a morte. Com o passar do tempo foi compilado para a forma escrita e foi adquirindo dados espirituais vindos do budismo - sobretudo do budismo das seitas e principalmente do zen - do confucionismo e do shinto (religião autóctone do Japão).
O bushido orientava a acção dos samurais e incluía valores básicos como a coragem, a lealdade, o dever filial, o respeito pelos outros, a verdade e a humildade.
A essência do código situa-se no conceito do dever e no facto de se estar preparado para morrer.
As seguintes qualidades eram importantes para um samurai poder seguir a sua própria natureza interior e realizar o seu destino:
• ‑a fidelidade: encontrava expressão na lealdade até à morte que o samurai tinha em relação ao senhor que servia;
• ‑o dever: consistia no facto do guerreiro viver o dia presente sem se preocupar com o amanhã, cumprindo deste modo com zelo e método todas as tarefas que tivesse que realizar;
• ‑a coragem: esta qualidade não era só demonstrada em batalha, quando se tinha que controlar o medo, mas também em tempos de paz, pois um samurai corajoso era fiel ao seu senhor e aos seus pais, não se deixando contaminar pelas coisas mundanas, mantendo um autocontrolo inflexível;
• ‑a auto-disciplina: necessária para conseguir submeter os instintos e emoções, não se deixando deste modo controlar pelas paixões nem ser corrompido pelos vícios e tentações várias. Também era de extrema importância para a prática das artes marciais;
• ‑o espírito de sacrifício: expresso no facto do samurai abdicar do conforto, caso fosse necessário, e de aguentar as mais diversas situações adversas (meteorológicas, psicológicas, etc.) se com isso pudesse cumprir o seu dever.
Qualquer samurai que se prezasse seguia estas qualidades com rigor, sendo aquele que não as seguisse e fosse preguiçoso, desleal ou mentiroso, renegado pelos outros samurais, que não se deviam relacionar com alguém assim.
O guerreiro que tivesse presentes todos estes preceitos e os praticasse no dia a dia era o expoente máximo da realização como samurai e como homem.
Os 47 ronin
O bushido estava tão entranhado entre os samurais que mesmo aqueles que não tivessem a quem servir (quer pela morte do seu amo, quer por não terem o desejo servir a nenhum amo em particular), os denominados ronin, seguiam este código.

É famosa a história dos 47 ronin, que ainda hoje são considerados heróis no Japão e que reflecte de maneira perfeita o conceito de honra e lealdade de um samurai.
A história conta-se da seguinte maneira: um nobre samurai de nome Asano, relativamente bem abastado, é pressionado por um alto funcionário do Estado, que pretendia obter alguns ganhos com eventuais presentes que o nobre lhe pudesse oferecer. Asano recusa-se a entrar nesse jogo pois um samurai nunca deve corromper ou ser corrompido de qualquer maneira. Estando os representantes do Imperador de visita à cidade onde viviam e tendo-se preparado um enorme aparato protocolar, o alto funcionário procura humilhar Asano e obrigá-lo a falhar em algum acto do protocolo. O nobre resiste até onde pode, mas acaba por perder a cabeça e ferir o corrupto.
Devido a esse acto é obrigado a suicidar-se através do seppukku (ritual em que o ventre era cortado pelo próprio samurai que se ia matar, sendo ao mesmo tempo decapitado por outro). O funcionário corrupto escapa sem nenhuma reprimenda.
Os vassalos do nobre morto, não tendo então ninguém a quem servir tornam-se ronins. Em vez de seguirem a sua vida servindo a outros senhores, eles procuram lavar a honra do seu amo e planeiam a vingança contra a pessoa que provocou a morte daquele a quem serviam.
O plano é elaborado meticulosamente e pacientemente e chegada a altura atacam a residência onde vivia o funcionário corrupto (que se orgulhava de não ser samurai, pois assim podia desfrutar dos prazeres da vida) e levam a cabo o seu acto de justiça. De salientar que este acto não está imbuído de ódio e desprezo, quando capturam a pessoa a primeira coisa que fazem é dar a oportunidade de ele cometer seppukku, somente avançando para o matar depois da recusa deste em suicidar-se. A justiça estava feita e a honra do nobre Asano estava limpa.
Não se pense, no entanto, que eles foram considerados heróis por este acto. Não, eles tinham consciência de que, ao cometerem o acto de vingança estariam a quebrar as leis imperiais e que, por isso, teriam de ser punidos cometendo o seppukku. Isso, porém, não foi impeditivo para que eles recuassem, e ficou assim demonstrado até que ponto podia ir a lealdade de um samurai para com aquele a quem servia.
Como verdadeiros guerreiros nenhum deles procurou fugir do castigo pois isso implicaria perder a honra e, para um guerreiro viver sem honra era pior do que morrer.
Era este o samurai, modelo excepcional de homem, onde se encontra subjacente uma profunda espiritualidade unida a uma ética insubornável.
Cleto Saldanha
Investigador e Formador da Nova Acrópole