A Alma da Cidade
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Espaço humano por excelência, a alma (da Cidade) torna-a proporcional, harmónica e rítmica.
A Cidade, como expressão da sociedade, deixou de sustentar-se no humano e foi privilegiando-se de forma excessiva a função do intercâmbio comercial. Sem dúvida o mercado é uma das funções da cidade, como vimos, mas não a única, e a cidade também se organizou para a máquina, seja como meio de transporte ou como indústria. Faz alguns anos Le Corbusier chamava à atenção sobre este aspecto na Carta de Atenas:
A utilização da máquina transformou por completo as condições do trabalho. Quebrou um equilíbrio milenar encetando um golpe mortal ao artesanato, esvaziando os campos, aumentando as cidades e, deitou a perder harmonias seculares, perturbando as relações naturais que existiam entre o lar e os lugares de trabalho. Um ritmo furioso, unido a uma precaridade desalentadora, desorganiza as condições de vida ao opor-se à conformidade das necessidades fundamentais. As casas abrigam mal as famílias, corrompem a vida íntima; e o desconhecimento das necessidades vitais, tanto físicas como morais, dá um fruto envenenado: doença, decadência, rebelião. O mal é universal; expressa-se nas cidades, por um aglomerado que as prende na desordem e no campo pelo abandono de numerosas terras.
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Não se pode então, tratar da Cidade como uma realidade simplesmente material, como uma espécie de palco neutro que deve permitir o livre fluxo das iniciativas privadas, que na actualidade se entendiam quase exclusivamente como iniciativas comerciais ou vinculadas a elas. Por cima das conveniências particulares, existe aquilo que justifica a existência da sociedade, o bem público. Esse bem público é a Alma da Cidade.
Abandonando-se a si mesmo, o homem rapidamente fica esmagado por dificuldades de todo tipo que tem de superar. Pelo contrário, sujeita-se a demasiadas coações coletivas, resultando numa personalidade submersa. O direito individual e o direito coletivo devem, pois, suster-se e reforçar-se mutuamente e manter em comum tudo o que têm em si de infinitamente construtivo. O direito individual não guarda relação alguma com o vulgar interesse privado. Este último, sacia uma minoria enquanto condena o resto da massa social a uma vida medíocre, merece severas restrições. Deve estar subordinado sempre ao interesse coletivo, de modo a que cada indivíduo tenha acesso a essas satisfações fundamentais que são o bem-estar do lar e a beleza da cidade (Carta de Atenas, Le Corbusier).
A busca do bem público é o que entre os clássicos se entendia por Política, o que agora também mudou de paradigma e se entende, na nossa cultura ocidental, pela elaboração de campanhas eleitorais, sorrisos em frente das câmaras, promessas de todo o tipo, t-shirts, cartazes, frases impactantes, etc. Mas na prática, também com as excepções que confirmam a regra, é um sistema de privilégios mais do que deveres, de conveniências mais do que de obrigações, que levou a formar um novo grupo que vive preocupado pelos seus interesses pessoais ou os do seu partido. Afastamo-nos tanto da noção original de Política que se sustenta na Lei Natural para alcançar o Bem Público, que hoje parece-nos bem um presidente que defende os interesses do país ou de um presidente de câmara que defende os da cidade, sejam estes justos ou não. Já ninguém fala do justo, do correcto, do nobre, do digno, só de interesses materiais, que embora sejam de grandes grupos nem por isso deixam de ser egoístas.
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A perda das virtudes humanas, as individuais e as cívicas, vão destruindo a Alma da Cidade e por isso, hoje, apesar de que muitas cidades (não todas, não esqueçamos, mas este seria outro problema) contam com os recursos necessários, boas infraestruturas urbanas, estradas, sinalizações, edificações, espaços de lazer, centros comerciais, sistemas de transporte, etc., não conseguem, todavia, tirar a tristeza dos corações humanos.
Embora em espectáculos e em campanhas de todo o tipo, muita gente apareça a rir, e a publicidade costuma mostra-nos pessoas aparentemente felizes, como no Mundo Feliz de Aldous Huxley, esta tristeza e desgaste dos corações que é o desgaste da Alma, expressa-se no incremento da corrupção, do terrorismo, dos assaltos, das violações, dos vícios em todas as suas formas.
Os homens actuais caminham cabisbaixos, e já não sabem amar nem lutar, e as suas religiões são mais ou menos funerárias. Choram diante da morte como crianças e tremem diante da vida como velhos.
Os homens não se desorientam por gosto, ou por pura maldade interior, mas sim por culpa dos governos, que parecem ter vindo ao mundo mais para martírio dos povos do em sua ajuda.
Será que não podem haver bons governos, que continuem unidos a outros dando estabilidade e segurança à existência? (Jorge A. Livraga)
Não basta o desenvolvimento económico, porque este desenvolvimento mais do que qualidade é um simples acréscimo de acordo com o paradigma comum.
A Política subordinada à economia é como o cavaleiro subordinado ao cavalo. Se perdeu o governo, já não se governa, só se promove; promovem-se candidatos e logo os já eleitos promovem os seus países e cidades.
A economia deve ser um meio e não um fim, e é evidente que dar prioridade ao económico não resultou nem sequer no económico. Para mencionar um só exemplo, de acordo com a Organização Mundial da Saúde, no mundo morrem diariamente mais de 30.000 pessoas de fome, a maioria crianças. Isto supõe mais de 10 milhões de pessoas em cada ano, sem bombardeamentos nem explosivos, utilizam como arma a desumanização das cidades e da política.
Mas, ainda que se conseguisse um crescimento económico completo nas diferentes sociedades do mundo, isso permitiria satisfazer as necessidades físicas, mas não restaurar a Alma das cidades nem das gentes.
Suponhamos que temos um Estado e que, com medidas certeiras, baixamos o preço dos alimentos essenciais, oferecemos medicamentos, construímos estradas. Notaremos, depois da euforia inicial, que as pessoas não são mais felizes e que também não são melhores. Nem ninguém se encontra a si mesmo, nem se encontra com os outros, nem se encontra com o Estado. Se conseguíssemos continuar a aumentar o nível de vida, chegaria ao fim uma crise em que os cidadãos, cujas iniciativas foram favorecidas por gerações de vida fácil, não poderiam resistir, e tudo se derrubaria e havia que começar de novo (Jorge A. Livraga).
"Que mundo belo não se formaria se combinássemos harmonicamente a filosofia grega, o misticismo hindu, a ordem romana, a parapsicologia egípcia, a piedade cristã, o conhecimento científico e as técnicas actuais, tudo transportado de um novo e fortíssimo espírito?"
A busca dos valores interiores não é uma utopia, mas sim uma necessidade legítima e natural. Assim como o Cosmos, tomado como a ordem natural, é proporcionado, harmónico e rítmico, porque se assim não fosse não poderia existir, também a Cidade, como espaço humano por excelência, deve ser proporcionada, harmónica e rítmica. Isso não se pode conseguir exclusivamente pela ciência urbana, há que resgatar a Alma da Cidade e conseguir uma sociedade mais bela, melhor e mais justa. É necessário recuperar o sentido básico da fraternidade entre os seres humanos, aquele que respeitando as diferenças e singularidades pessoais nos leva a compreender que somos todos seres humanos em todo o significado do termo, quer dizer, não só pelas nossas debilidades mas também, fundamentalmente, pelas nossas virtudes.
Cada sociedade humana contribuiu com os seus valores neste esforço. O facto de cada um ser diferente é uma vantagem que nos permite recompor o rico mosaico humano, e com ele a Alma da cidade, que é a Alma do ser humano.
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Que mundo belo não se formaria se combinássemos harmonicamente a filosofia grega, o misticismo hindu, a ordem romana, a parapsicologia egípcia, a piedade cristã, o conhecimento científico e as técnicas actuais, tudo transportado de um novo e fortíssimo espírito?
Isto não é uma utopia: quem diga que isto é impossível, carece de inteligência ou tem interesse em que persista a desordem, a persecução, a exploração do homem pelo homem. (Jorge A. Livraga)
Leonardo Santelices
In revista Esfinge número 47 – Junho 2004