O Alquimista - O Oriente
À medida que as águas do lago se aquietavam, desenhava-se a mancha ovalada de um rosto. Por fim, as linhas tornaram-se precisas: cabeça e cara rapadas, olhos ligeiramente abatidos e faces delgadas, porém firmes. Sim, nem ele mesmo podia reconhecer naquela aparência Pablo Simón Fosoletoe, aquele professor de química do Colégio paroquial, ou o discípulo vacilante e um pouco atormentado do irmão Onze.
Já fazia dez anos que tinha abandonado «As Ruínas», e mais de seis que estava unido ao filósofo-mendigo, ao Guru (1) que percorria a Índia e a China, deixando um sulco de paz nas almas e saúde nos corpos enfermos.
- Lanú (2)! Aonde estás, «meu filho» (3)?
- Aqui, Mestre, contemplando-me nas águas...
- Cuida de não acreditar que o reflexo és tu...
Aquele que assim falava tinha uma idade extremamente indefinida, era pequeno, de corpo magro da cor do ouro, a cabeça e o rosto rapados; tanto podia ter cinquenta anos como cem ou mais. Uma túnica branquíssima de linho e uma espécie de capa de lã toscamente tecida, crua, eram todo o seu vestuário. Um par de anéis e um colar de estranhos metais e pedras preciosas completavam misteriosamente o seu adorno. Talvez o mais extraordinário nessa personalidade fossem os seus olhos, de tal profundidade e poder que atraíam como o fascínio das estrelas nas noites serenas.
- Desse modo, que estavas a contemplar nas águas? – perguntou o asceta, sorrindo bondoso. – Parece-me que não te vias...
Pablo Simón, ou Sani, como se chamava no Oriente, sorriu por sua vez, captando o duplo sentido da frase.
- Falei impensadamente, seduzido por Maya (4)...
- Esse é um dos maiores erros dos homens; sabem como fazer as coisas, mas, chegado o momento, realizam-nas como se não soubessem. Como vês, o problema não está em saber mais, senão em viver o que se sabe. A tua confusão trouxe-me à memória uma parábola desse grande instrutor religioso que foi Siddharta Gautama, o Buda, porém tu conhece-la tanto quanto eu...
- Mas encantar-me-ia ouvi-la de novo dos teus lábios. Será sempre a mesma, mas ao mesmo tempo diferente, como as flores que observamos todos os dias com renovada satisfação.
- Diz-se que, faz mais de dois mil anos, abundavam extraordinariamente as manadas de elefantes nos grandes bosques, e um deles, um macho de singular corpulência, tinha intimidado à sua passagem um monge peregrino, que se ocultou para se proteger e observá-lo a seu gosto. O animal, que parecia a encarnação da potência física, aproximou-se de um lado e estirou a tromba para beber, mas, mal viu a sua imagem na água, recuou espantado e as suas trombetas retumbaram a grande distância. O peregrino deu uma grande gargalhada, e zombava do paquiderme. O Iluminado, que estaria a passar por ali, encontrou-o e repreendeu-o pelas suas zombarias para com um animal como o elefante, acrescentando que ele era tão digno de zombaria como a besta. «Porquê, Irmão?», inquiriu o monge. E Gautama respondeu-lhe: «Porque também tu te enganas. Ris-te do elefante, pois acreditou que viu outro elefante a ameaçá-lo e, no entanto, afirmas que o elefante se via a si próprio... Grande erro! Apenas olhava para a imagem de um dos seus veículos, o mais denso; não se via a ‘si’. Assim, os homens observam o seu corpo e dizem ‘este sou eu’, mas o ‘Eu’ não deve identificar-se com nenhum dos seus servos. Deste modo, uma vez libertado, alcançará o Nirvana, ou seja, a actividade pura no seio do Amor e da Mente de Deus, longe de todo o movimento grosseiro, das paixões, psiquismos e angústias, todos motivos dos sucessivos renascimentos. Enquanto quiserdes viver no mundo, aqui vivereis, pois os desejos do homem traçam a sua rota futura». Assim falou o Buda, ó Lanú!, e as suas palavras, junto às dos demais Mestres da Humanidade, são as nossas amorosas lâmpadas nocturnas...
- Mas é absolutamente verdade que a vontade do homem forja os limites da sua liberdade futura? – perguntou o discípulo.
- Tu sabes o que é o Karma...
- Sim, é a lei de causa e efeito que rege os mundos manifestados. Explicaste-me, ó Sábio!, que ela é semelhante à corrente de um rio.
- Exactamente; se um homem mergulhado nele se deixa arrastar inerte pela corrente, a água bate-lhe suavemente só para o impulsionar, e ele executa o menor esforço possível. Se, pelo contrário, se afasta insensatamente até às bordas semeadas de penhascos, ou se se rebela contra o impulso do rio, nadando contra a corrente, receberá o choque violento das ondas, tão fortes quanto sejam os seus esforços. Mais cedo ou mais tarde, o nadador volta ao centro do rio sem mais lutas, pois o impulso da água não conhece o cansaço, nem diminui, nem aumenta; o nadador volta ao seio da lei em virtude do cansaço e da dor produzidos por ele mesmo. Assim, Lanú, contempla que o sofrimento é o mais piedoso dos deuses, pois anuncia as irregularidades, e trabalha sempre a nosso favor. Ele é a prova palpável do nosso relativo livre arbítrio, pois, não existindo, não poderíamos (não quereríamos) opor-nos em nada à Lei, e o sofrimento seria desconhecido. Não agindo, não provocaríamos reacção.
- Irmão, e aqueles que, mediante esforços, se antecipam aos demais, e cujos trabalhos que realizam para o bem da humanidade lhes proporcionam inúmeras dores?
- Esses não vão nos braços da Lei normal, do rio que leva a todos os demais homens; esses, amado jovem, por seguirem outro rio mais celeste, superior aos conformados à água, adiantam-se à correnteza e têm de combater com a sua relativa inércia; pelo maior esforço no físico, colhem mais dor, pois o Anjo que cuida da sua evolução individual carece da visão que têm os homens quando penetram nos Mistérios Internos do Templo do Serviço. Ao fim de uma época, chegam ao lago em que desemboca o rio, e os muito piedosos costumam lançar-se novamente à correnteza, para ajudarem os seus irmãos. A estes chamamos, no Oriente, Nirmanakayas, os que renunciam por amor ao Nirvana ou Moksha, o lago tranquilo e sereno, o Céu ou Paraíso dos ocidentais cristãos.
- Sim, Guru; mas esse rio, a Grande Lei a que chamamos Dharma, quem lhe deu o impulso? Por que marcha o rio, levando no seu seio os homens e todos os seres da presente emanação?
- Quem motivou as alternativas da tua actual existência física?
- Eu mesmo; aprendi que sou o herdeiro das minhas próprias obras, e assim o reafirma a vida ao meu redor.
- E não te disseram que «como é em cima é também em baixo»? O discernimento e a intuição são eficazmente auxiliados pela lei da analogia. Tu mesmo deste o primeiro impulso, e tu sufocarás o último. Quando algum viajante costuma visitar estas regiões, escarnece do brâmane que lhe diz nas suas litanias: «Eu sou Brahma», ou seja, «Eu sou Deus». Porém, ele está mais próximo da verdade e da natureza que todos os filósofos especulativos e teólogos dogmáticos das religiões populares. Na verdade, ele, tu e eu somos Deus, pois, se não o fôssemos, a Divindade estaria limitada por nós, e isso não é possível.
- Assim deve ser.
- Toda a especulação sobre a Divindade é muito aprazível, pois ensina-nos a olhar para o alto, mas é tão inútil como fazer buracos na água. A nossa mente é finita; como tal, trabalha com elementos finitos, mesmo nas abstracções, pelo que lhe é impossível compreender ou abarcar o infinito. Tu vens do Ocidente; lá, costuma falar-se e discutir-se sobre Deus; limitam-no, personificam-no, reduzem-no a um ser comum, o maior, mas não distinto, nem na sua bondade nem na sua ira, do resto dos manifestados, dos limitados. O conceito oriental, mesmo o das religiões na sua face externa, é distinto e idêntico ao que tinham os filósofos ocidentais em épocas anteriores à florescência e queda do grande Império Romano. O oriental afirma que o homem só pode conhecer o «seu Deus», ou seja, o Espírito Regente deste sistema solar, mas jamais o Absoluto. Antes de se projectar para as alturas, convém a todo o aspirante à sabedoria conhecer o mundo em que vive, pois nele estão os arcanos, as chaves dos outros superiores. Buscai a vossa alma, e achareis a Alma de Deus; estudai a génese dos corpos e deduzireis outras criações mais subtis; investigai os gnomos, as fadas, silfos e demais «elementais», e então estareis em condições de tratar dos Anjos ou Demónios, como aqui lhes chamamos.
- Algum dia o Ocidente há-de ressurgir do poço em que está sepultado e lançar-se-á ao encontro do seu Destino que, segundo entendo, não é o de servir de matadouro de homens nem de cemitério de ideias espirituais!
- Se dizes isso por simples amor aos homens, congratulo-me contigo; mas se apenas impulsionam as tuas palavras um nacionalismo ou um sectarismo atávicos, digo-te que o importante é que a humanidade se eleve acima dos miasmas da ignorância, da crueldade e do egoísmo; não importa que povo a encabeça, mas que nenhum fique para trás. E, para além desse trabalho, fica ainda por estabelecer uma síntese filosófica que nos permita ver totalmente o «tabuleiro de xadrez», aqueles que jogam e para que o fazem. Pode matar-se com a análise, mas só com a síntese, com a integração, se pode vivificar.
O instrutor calou-se e ficou a contemplar como passavam a correr, à distância, por um trilho, uns meninos enegrecidos, sujíssimos e quase despidos. Estavam acostumados a correr agachados como as bestas débeis da selva. Sani voltou-se para ele e perguntou-lhe:
- Não se pode fazer nada por aqueles infelizes «párias»?
- Eles têm um «karma» muito mau, pois todos os egos de evolução inferior encarnam nos corpos da sua raça; porém, são um exemplo da corrupção bramânica, no que se refere ao aspecto popular. Na Antiguidade, os Brâmanes mais inteligentes e elevados eram os protectores amorosos das classes inferiores e colocavam os seus componentes em trabalhos adequados, simples, mas não humilhantes, comuns sem serem inumanos. Porém, pouco a pouco, «embriagaram-se» com a sua força, e os que antes eram irmãos menores converteram-se em desprezíveis semi-homens, os «intocáveis». O Buda veio para restituir a primitiva grandeza desse culto, assim como Jesus procurou regenerar o judaísmo primitivo, tão corrompido à época do seu advento... Ambos os instrutores fracassaram parcialmente, pois os que verdadeiramente seguem os seus exemplos e ensinamentos são relativamente poucos; os demais permaneceram na sua degradada situação moral ou invocaram aqueles nomes santos para se apropriarem do direito de matar, roubar e destruir em proveito próprio. Todas estas religiões, ó Lanú!, são fracassos que acumulam nos homens e nos seus reitores imediatos experiência suficiente para se chegar, no fim desta época, à Grande Religião Universal, sem seitas, dirigida unicamente ao «sem-nome» Deus do Amor, e serão seus representantes na Terra todos os homens puros, bons e sábios.
Terminadas estas palavras, o instrutor caminhou lentamente até à cabana de galhos e pedras que lhes servia de habitação. Aquelas terras, nevadas e frias no Inverno, gozavam agora de uma exuberante vegetação de arbustos ao amparo da cálida temperatura.
O sábio peregrino entregou-se sem mais trâmites à sua meditação do entardecer; frente a ele ardia uma lâmpada alimentada com um azeite de secreta e complicadíssima obtenção.
Sani imitou-o silenciosamente, e fixou os seus olhos firmemente no avermelhado disco do sol poente. O verdadeiro Yoga, que não consiste nos diversos exercícios de purificação, ou Hatha Yoga, que tinham transcendido até ao Ocidente; a União real com o Eu superior mediante a meditação; o estudo da natureza e da recta acção tinham-no tornado doce e caridoso para com os outros, mas férreo, estrito e exigente para consigo mesmo. A bondade, a pureza e o trabalho tinham-no tornado poderoso. Via indistintamente os seres que se revestiam de corpos físicos. Conhecia muitas virtudes secretas das plantas e das pedras preciosas. Os animais da montanha vinham comer às suas mãos, e mantinha frequentes entrevistas com misteriosos seres que habitavam nos cumes das montanhas e no coração do grande deserto.
- Sani! Escuta... – a voz do ancião chamou a sua atenção e prontamente o jovem acudiu; o seu tom de voz parecia emergir das mesmas mansões do Mistério; tinha solenidade.
- Esta noite consultarei os Anjos do Fogo sobre o roteiro da tua viagem. Acabaram de avisar-me que deves continuar sem a minha presença física...
- Oh, amado instrutor! Acreditei que a teu lado alcançaria a libertação... Na verdade, não desejo separar-me de ti nem mesmo fisicamente. Na tua companhia, aprendi a entender o mistério do murmúrio das folhas, o dos rubis no centro das rochas e a voz misteriosa do mar, que sempre repete a mesma nota musical e testemunha a mesma palavra: AUM... Tu iniciaste-me em línguas sagradas que são mais antigas que a forma dos pássaros...
- E tudo isso te deu libertação, paz, bondade, sabedoria interna?
- Se não tudo isso, proporcionou-me parte desses divinos atributos.
- Bem, agora abandono-te para que encontres o resto. As virtudes da alma, querido jovem, são também seres vivos; se as vivisseccionamos sem habilidade e não unimos a tempo as suas partes, todas elas morrem e perde-se o trabalho. O grande mal é o homem não discernir com clareza; tenta muitas vezes extrair mais polpa de um fruto, do qual só ficam sementes e cascas. Não: quando uma fonte nos deu tudo, devemos buscar outra que nos dê mais, pois não nos enamoramos das fontes, mas da água que emana de todas. Há um período na evolução do indivíduo em que este necessita amar o próprio Mestre para progredir; porém, depois, superada esta infantil etapa, ama a sabedoria única em todos os Mestres. Não devemos amar as pessoas pela sua divindade, mas a divindade através das pessoas.
- Compreendo, ó Sem Idade! Não me pedes que não te aprecie, mas sim que o faça estendendo-o a todo o Universo, pois o que amo em ti é o mesmo Deus; dentro de quinhentos ou mil anos, encontrar-te-ei novamente e terás outro rosto. Não obstante, amar-te-ei da mesma maneira, pois tu não mudarás de expressão; tu transcendes as formas. Sei-o, porque também as transcendo...
- O Espírito não nasce nem morre, senão as suas misteriosas projecções e imagens. Tudo é ilusão, efémero jogo das linhas, assassinas do corpo do real.
- E para quê, Guru, ó Santo Iluminado, todo este jogo diabólico de imagens, de formas perecíveis, de chispas loucas que supõem ter distinto fogo?
- Ah, a tua mente ocidental! Não sabes porque sobe a seiva pelos troncos das árvores, nem que civilizações aduziram as suas ideias e obras há cem séculos, e queres conhecer a razão da existência do Universo e ainda, a da Divindade...
O misterioso velhinho sorriu um pouco ironicamente para depois acrescentar:
- Tomemos algum alimento e, à meia-noite, interrogaremos o Grande Devorador.
Sani lavou a sua escudela no riacho e caminhou sob a impalpável chuva da Lua. O silêncio era cortado de quando em quando pelos uivos das feras longínquas ou pelos estranhos murmúrios que sempre povoam os grandes bosques e extensões agrestes. As poucas árvores, de copas chatas e altas, formavam alguns grupos que emergiam como ilhas daquele mar de arbustos espinhosos e de altos e duros pastos.
Por fim, o jovem deteve-se frente a uma pequena gruta aberta na encosta das montanhas que, quase insensivelmente, se elevavam sobre os terrenos mais baixos. Um estranho cansaço passou as suas adormecedoras carícias por todos os seus membros, e ele deitou-se na cavidade com a intenção de dormir. Os seus olhos semicerrados divisavam sombras branquinhas e pequeninas dançando nos claros sem árvores e sem as espessas sombras inimigas desses adoradores da Lua. Ao longe, o tecto de um templo assinalava silenciosamente a ideal morada dos homens: o céu.
Uma visão bem conhecida do aspirante aos Mistérios aproximou-se lentamente do seu refúgio:
- És tu, Hipátia? – perguntou em voz baixíssima e emocionada. O estado hipnótico que o envolvia fazia com que não visse outra coisa ante si e impossibilitava o menor movimento do seu corpo.
A visão afirmou com a cabeça. Os seus diversos movimentos demonstravam alegria, enquanto a aura que a envolvia se tingia com matizes não conhecidos na Terra, parecidos aos que guardam as pedras preciosas no coração.
- Diz-me, Hipátia, por que é que, à medida que o tempo passa, te vejo mais esplêndida e nítida, salvo o teu rosto, que se torna paulatinamente mais indefinido?
Como resposta, um braço espectral apontou para o deserto próximo e toda ela se desintegrou nas mãos da brisa.
Sani ficou profundamente adormecido e no seu sonho voltou a repetir-se a primeira visão de uma grande árvore, e, debaixo dela, um peregrino desconhecido, de olhar mágico e penetrante.
A luz de uma tocha chamou suavemente às portas dos seus olhos. À sua frente, o seu Mestre, imagem de bondade e sabedoria, observava sorridente.
- Já é quase meia-noite, Lanú; devemos consultar os Espíritos do Fogo...
- Vi-a outra vez, ó sábio!
- Que te indicou?
- O grande deserto... O seu rosto, amado Guru, vê-se cada vez mais apagado... Que significa isso?
O ancião sorriu enigmaticamente e empreendeu o regresso em silêncio.
Um vento forte e frio enchia as copas das árvores de ruidosos pássaros ilusórios, e a lua velava-se de quando em quando com máscaras transparentes de nuvens. Ambos os homens caminhavam com passo vivo e seguro para a residência temporária do filósofo-mendigo. Uma vez ali, o ancião recolheu uns feixes de ervas secas e extraiu da sua túnica algumas cintas de seda vivamente coloridas. Com um gesto, indicou a Sani que levasse o primitivo instrumento com o qual acenderia o fogo.
A Lua, ao incidir sobre as jóias do ancião, despertava nelas estranhos reflexos, talvez adormecidos há dezenas de séculos. Ao cabo de meia hora de marcha, detiveram-se à beira de uma meseta cujas bases assentavam no deserto de grandes pedras e finíssima areia.
Sem dizer nenhuma palavra, o Sábio indicou ao seu discípulo que se sentasse na posição correspondente e traçou no arenoso solo algumas figuras que, embora se parecessem a círculos entrelaçados, não o eram. Em seguida, tomou o maço e começou a girá-lo no «Yoni», a matriz de madeira de onde o elemento masculino fazia saltar a chispa. A difícil operação concluiu-se ao acender-se o primeiro feixe de ervas, que o Iniciado colocou sobre os símbolos em conjunto com outras ofertas. Tomando a posição necessária, pareceu evadir-se do mundo por instantes e, quando reabriu os olhos, o seu rosto transformou-se numa gloriosa máscara de Poder. Sani jamais tinha colaborado nessa cerimónia e esforçava-se por cumprir à altura do seu Mestre.
O fogo que ardia vivamente, reparado pelas saliências do terreno, tornava-se cada vez mais escuro; por fim, ganhou no centro uma tonalidade lilás, sendo os extremos das línguas de um azul escuro. O discípulo não pôde reprimir um ligeiro estremecimento; à sua frente estava o «Fogo Negro», um dos seres mágicos mais terrivelmente perigosos. Só um profundo conhecedor da natureza e das mais recônditas leis podia conjurar tão grande poder e utilizá-lo.
Primeiro, a fogueira tinha irradiado um enorme calor, mas, pouco a pouco, este foi diminuindo, e embora Sani não pudesse comprová-lo, deu-lhe a sensação de se ter tornado frio; sim, era um fogo escuro e gelado...
Lentamente, um estranho ser foi objectivando o seu corpo no meio do fumo. Assemelhava-se em algo aos anjos das figuras, mas tinha uma aparência menos humana. As suas asas, se se podia chamar-lhes assim, estavam unidas ao longo de todo o seu corpo, como acontece com algumas mariposas, e constituíam a sua parte menos densa, a de mais alta frequência vibratória. Sani tinha de recorrer à sua visão interior para poder apreciá-las com algum detalhe. A sua cabeça terminava num cone agudíssimo, parecido com o chapéu de alguns magos ocidentais, e as suas pernas pareciam unidas a algo semelhante a um talo, delgado e flexível.
O ancião estendeu as suas mãos através do fogo até à visão, e violentíssimas rajadas de vento sacudiram o lugar sem afectar os arbustos mais distantes, enquanto os animais dos arredores gritavam espavoridos. A natureza parecia querer exprimir algo; talvez adoração, talvez medo ou horror.
A voz do sábio soou baixa e impessoal. Pronunciava as palavras muito lentamente.
- É um Deva (Anjo) da Natureza, um Deus do Ar. Servir-te-á até que abandones o deserto. Ama-o. Já o porei em liberdade, pois sofre muito ao permanecer imóvel; é contrariar a sua tónica vital... Agora, o fogo indicar-te-á a direcção; caminha até esse ponto e não voltes para te despedir, pois, na verdade, não nos separaremos. Não caias na rede de Maya.
O Deva tinha-se esfumado e, poucos minutos depois, face a um novo montículo de ervas lançadas para a sua garganta, o fogo saltou, formando uma grande chama de cor mais clara; esta vacilou ante o empurrão de novos golpes de vento, mas, por fim, inclinou-se em direcção a Norte e separou-se vários palmos da raiz do fogo, reintegrando-se quase instantaneamente.
Pouco demorou para que o fogo se apagasse, e o médico-mago ficou outra vez imóvel para voltar às suas feições habituais, de extrema e infantil doçura. Sani meditava em silêncio. Devia tanto àquele homenzinho que não queria deixá-lo. Tinha-o visto fazer tanto bem e ser tão austero que lhe parecia uma monstruosidade abandoná-lo naquela inclemente região infestada de perigos de toda a índole. Valia mais a sua paz interna que o amor simples e puro que devotava ao ancião? A sua voz tirou-o do labirinto mental em que vagueava.
- Manú disse-nos no seu livro de Leis que «assim é como, por um despertar e um repouso alternativos, o ser imutável faz reviver ou morrer eternamente todo este conjunto de criaturas móveis e imóveis». Portanto, sendo estas palavras acertados reflexos da verdade que já pressentes, não te escravizes à forma, porque ela é efémera ilusão. Vai até ao deserto, busca e medita. Não te separas de mim; é o meu corpo que se afasta um pouco do teu.
Assim dizendo, tirou do peito um medalhão que pendia do seu pescoço e pôs-lho. Consistia numa pedra preciosa parecida com jade, e conformada com uma arte quase sobre-humana na figuração de uma delicadíssima flor. Talvez tivesse sido uma flor verdadeira convertida em pedra por um processo alquímico que reduzisse a horas o tempo enorme que a natureza leva na petrificação dos vegetais, pensou Sani. Com um esforço dolorosíssimo, saudou respeitosamente o sábio e começou a descer até ao grande deserto de Gobi, sem voltar a cabeça.
Os seus supra-sentidos, activados mediante a prática, dirigiam-no rectamente para Norte, não o desviando da sua rota a tendência física de andar em círculos quando se carece de pontos de referência. O deserto, com as suas extensas planícies arenosas e essas estranhas formações de rochas soltas que o caracterizavam, foi-o engolindo lentamente; agora tentaria digeri-lo, ao transformar a sua psique e dissecar o seu corpo. Ao meio-dia, o calor era enlouquecedor, e tal como calculara, chegou até aos restos de um pagode budista do século II. a. C., junto ao qual nascia um pequeno riacho que morria entre as areias, a poucos metros de distância. O lugar era um refúgio apropriado para quantos peregrinos sofressem as provas do deserto.
Sani encontrou-se com um asceta da escola Karma Yoga que se encontrava em êxtase meditativo. Pareceu não reparar nele, e assemelhava-se mais a uma estátua coberta de pó que a um homem vivo.
Aplacou a sua sede e encheu o seu cântaro. Com não pouca surpresa, encontrou entre as suas roupas uma pequena torta de arroz preparada ao estilo tibetano. Não se recordava de a ter tomado, porém o seu instrutor tinha realizado outros prodígios parecidos na sua presença.
Descansou até ao pôr-do-sol e, depois de realizar os sacrifícios rotineiros, retomou a rota do Norte. O asceta, imóvel e de olhos fechados, não tinha dado o menor sinal de actividade biológica durante mais de seis horas.
A maré de sombras foi submergindo as ribanceiras, e aos poucos alcançou o cume das rochas mais altas. O «buscador da verdade» avançava agora guiado pelas estrelas, mas fazia-o com dificuldade, pois o frio tinha compartido o império das sombras, e as pedras, até há poucas horas aquecidas pelo sol, estalavam ao perder violentamente temperatura. Sani estava bastante acostumado às terríveis peregrinações através de desertos e selvas, onde se arriscava a vida de cada vez que se dava um passo, ou quando se dormia ou comia. De outro modo, sentiria terror ao ver-se no meio daquela infinita solidão.
Nem pássaros ou insectos, talvez nem serpentes, viviam no enorme deserto da Ásia Central. O rio Amarelo corria à direita, a não mais de cinco jornadas de marcha, mas não podia desviar-se do seu caminho por nenhuma razão. Lentos, mas inexoráveis, os seus passos iam-se aproximando do lugar do estranho encontro. Não importava se era um doce Mestre, ou a tortura e a morte; atrás de tudo isso estaria a Verdade.
Sani sabia que não podia dormir de noite naquela região, pois o frio acabava com o imprudente. Então, apressou a marcha e fez exercícios de respiração para carregar o seu corpo de energias. Andou toda a noite e recebeu o sol como uma benção da Divindade. Porém, uma nova moléstia tentou interromper a sua viagem: um forte vento que levantava as areias e queimava o nariz, a boca e os olhos. Instintivamente, face a uma rajada que por pouco não o derruba, apertou com a mão direita a medalha, presente do seu Guru, e pôde apreciar como os ventos à sua volta se entrechocavam, não chegando até ele a mais pequena rajada. Confortado pela maravilhosa experiência, continuou o seu caminho, agradecendo mentalmente aos Brancos Mestres de Compaixão a instrução e protecção oferecidas.
Ainda o disco solar não se tinha elevado muito sobre o horizonte quando, depois de se aplacar um redemoinho de areias, mil metros à sua frente, viu surgir das mesmas uma estrutura colossal, parecida com um grande templo quadrado, de pedra vermelha e uma altura superior a uns sessenta metros. A soberana imponência e sobriedade do edifício fizeram-no deter-se a poucos passos da porta. Lembrava-lhe uma versão primitiva e ciclópica dos grandes templos egípcios. Sem os seus relevos, colunatas ou detalhes, superava-os em tamanho e força. Uma linha de grandes colunas quase dolménicas sustentava a sua fachada desnuda de imagens e adornos de qualquer espécie. As pedras estavam em parte carcomidas pelas areias e, em numerosos lugares, faltavam tão grandes pedaços que se formavam pequenas cavernas.
Sani subiu pela escadaria semidestruída com grande dificuldade, pois os degraus tinham quase setenta centímetros de altura. Atrás do templo, uma pequena montanha erguia o seu topo, que apenas o duplicava em altura. A fenda da porta, de uns dez metros de altura, carecia de folhas, pelo que Sani se aventurou a explorar o local, no que lhe pareceu ser a mais negra escuridão. Tinha dado dois passos, quando uma voz rouca e metálica ressoou várias vezes pela grande sala. Surpreendido e atemorizado, levou as mãos até ao medalhão, mas nada ocorreu, e a voz, que a princípio tinha produzido confusamente várias notas musicais, começou a articular palavras:
- Nada temas, excepto tu mesmo. Escuta, estrangeiro. Este deserto foi um mar, e nesse mar levantavam-se ilhas e costas onde cresciam as flores vegetais e humanas. A revolução dos tempos levou cidades aos desertos e converteu em desertos as nações poderosas. Nada escapa ao Karma! A humanidade alvitrada degenerou e degenerou; tenta agora levantar-se do pó. Conseguirá. Estas ruínas aguardam para se mostrarem ao mundo no dia em que este, demasiado orgulhoso das suas obras, acreditar ter chegado ao máximo. Aqui se conservam tesouros artísticos e científicos tais que os homens baixarão as cabeças, pois verão que mesmo os povos mais elevados, os que vencem as enfermidades, descem ao fundo do mar e tocam os astros, caem e transformam-se em selvagem, se não são morais, bondosos e espirituais. Oh, homens! Temei as potências da Alma do Mundo! Dizei à vossa arte sensual, à ciência serva do ódio e da injustiça, e às actuais infantis formas religiosas, que o homem é muito maior do que crêem, e que ciclicamente cai sobre os joelhos, porque não se atreve a ser um Deus e voar para os céus.
Sani ficou confuso e atordoado. Ao erguer a vista, acreditou ver formidáveis anjos que o observavam das abóbadas superiores e complicadíssimas figuras geométricas. Acometeu-o tal sensação de pequenez e impotência que fugiu a toda a pressa para o deserto. Desceu com saltos os poucos e altos degraus desenterrados, e começou a subir os inseguros declives das dunas. Um vento terrível tirou aos seus pés o apoio e, semi-inconsciente, quase sepultado, ficou vários minutos de bruços. Ao pôr-se novamente de pé, o templo estava quase totalmente coberto e trombas enormes despejavam sobre ele centenas de toneladas de areia.
Durante um longo tempo, ficou a pensar se não teria sido uma enganosa ilusão dos seus sentidos, vítimas propícias do deserto.
Retomou a marcha, cabisbaixo, embora as dunas em seu redor mudassem constantemente de forma e lugar. Um pequeno monte, ao desintegrar-se, mostrou-lhe várias ânforas de beleza indescritível. Correu para elas, mas, ao tocá-las, pulverizaram-se entre as suas mãos. Essa prova, ainda que efémera, bastou para o convencer da realidade de tudo aquilo que tinha observado.
Enquanto andava, recordou algo que o seu último instrutor lhe tinha ensinado há dois anos. Referia-se à antiquíssima civilização desenvolvida há centenas de milhares de anos naquelas hoje terríveis e desoladas regiões. Recordou também a advertência de que ninguém podia penetrar nesses Templos nem resgatar os seus objectos, pois ainda não tinha chegado a época da sua revelação. Esses tesouros eram guardados pelos «Battis», raça de elementais poderosíssimos que sobreviveriam até ao momento adequado. Ninguém que tivesse tentado roubar algo desses guardas conseguiu sair vivo do deserto; os poucos que tentaram, sobreviveram alguns meses em estado de absoluta e desesperada loucura.
Deitado à sombra de uma caverna, dormiu um par de horas, mas estava ansioso demais para chegar à sua meta e, forçando os músculos doridos, obrigou-os a funcionar, mantendo um passo rápido e seguro.
As rochas eram cada vez mais escassas e de menor tamanho, substituindo-as amplas planícies de areia grossíssima e muito solta. A pouca água que levava tinha acabado há mais de doze horas, e o sol abrasador castigou-o, penetrando-o até aos ossos.
Após a meditação que costumava efectuar ao ocaso, notou, ao retomar a marcha, que o frio o afectava mais e que um estranho sono o assaltava, atraindo-o. Sani sabia o que significava dormir de noite no deserto, e ele queria chegar. Aonde? Não sabia, mas, fosse onde fosse, aguardá-lo-iam a Verdade, o Amor, o rosto fecundo e maravilhoso do Mistério.
Ao amanhecer, comprovou que, desprezando o sofrimento físico, paulatinamente o tinha anulado; quase não padecia do terrível cansaço que por pouco não o tinha abatido horas antes, e a sua garganta, seca e áspera como pedra-pomes, apergaminhada, parecia adaptar-se e tornar-se mais suave. Quando o sol ficou alto, deitou-se debaixo de uma saliência de uma rocha. Permaneceu afastado do mundo por mais de dez horas; quando despertou, a sua pele enegrecida estava rachada e ardente por causa dos raios. Um formigueiro terrível percorreu-lhe os membros ao mesmo tempo que lhe latejavam as têmporas.
Com muita dificuldade, conseguiu levantar-se sobre as suas vacilantes pernas, mas só pôde chegar a uma fenda num conjunto rochoso das imediações. Ali, mediante a sua iniciação nos mistérios da natureza, foi retomando o controle de todas as partes do seu corpo e harmonizando a sua corrente energética. Depois de bastante tempo a praticar exercícios respiratórios, sentiu-se ágil, forte e optimista, desejoso de tirar maior proveito da jornada.
Ao realizar os sacrifícios ao pôr-do-sol, percebeu que se tinha acabado o incenso, e como se esse detalhe fosse a última gota que faz transbordar o copo, sentiu que uma angústia terrível o envolvia e reconheceu-se só, só em toda a extensão da palavra. Esqueceu mestres, anjos, guardiães e destrezas psíquicas e mentais. Sabia apenas que estava só; nem sequer sentia medo. O medo ainda é companhia, pois é uma forma de esperança, de algo que se acerca. Se pelo menos a dor o tivesse aliviado, pois a dor não deixa pensar. Porém, Sani não sofria; o seu corpo, reconstituído praticamente pelo poder da sua vontade, permanecia silencioso e não temia, pois nada esperava.
A paisagem sombria e estática assemelhava-se à imagem de uma lembrança, definitivamente imóvel, sem possibilidade de mudança.
Reconheceu a existência da Divindade e da multidão dos seres que conformam o Universo, mas sentia-os distantes. As pequenas areias que pisava afiguravam-se-lhe tão inacessíveis como as outras, cósmicas, que tocava com o seu olhar. Ele estava no meio, suspenso. Só, só, só!
Olhou uma vez mais o delimitado horizonte e, com um grito agonizante, caiu de bruços na areia. Entorpecido de angústia, permaneceu muito tempo deitado, como morto.
Logo sentiu frio; as pedrinhas tinham-se tornado geladas e um vento muito frio dava uivos lupinos no alto das raras formações rochosas; era o seu grito de guerra. Sani sentiu o impacto e agasalhou-se com as suas vestes sujas, gastas. Começou a andar, inconsciente do que fazia, mas logo se deteve. Um grande sorriso surgiu na sua boca e agradeceu com um profundo olhar a todas as estrelas. O feitiço maligno derrubava-se; agora tinha algo em comum com muitos outros seres: tinha frio, tinha angústia.
Num primeiro momento, agarrou-se a esse facto, e procurou comunicar mentalmente a sua resistência a todos, homens e animais, que estivessem nas mesmas condições que ele. Embora não fosse mais do que dor, esta tinha-o irmanado com outros homens sofredores; porém, pouco a pouco, as dores do seu corpo cederam, e as forças superiores da sua alma fizeram-no experimentar uma profunda vergonha face às suas debilidades e egoísmos.
Para o comum dos homens, é normal que o lume do fogão pareça mais cálido quando se sabe que, fora de casa, reina o frio, e que muito poucos estarão tão cómodos. Assim também, a dor «dói menos» se se sabe que um outro a compartilha; não há melhor para um vesgo que ver passar um cego. Porém, a um filósofo não devem enganar tais sensações; antes sofrerá se alguém tem frio estando ele aquecido, ou se qualquer ser passa sofrimentos, não lhe importando se ele padece ou não deles.
Sani sabia tudo isso, e não tê-lo cumprido enchia-o de íntima humilhação. Tinha estudado, viajado e feito tais esforços, para chegar a ser um homem tão débil e mau como qualquer outro vulgar enamorado do seu abrigo, da sua comida quente, da sua paz fisiológica? Será que o sobre-humano exemplo de tantos sábios e as secretas lições do Guru não valeram nada para ele? Tinha enganado os seus Mestres?
- Triste seria o mundo e inútil o sacrifício da Divindade ao manifestar-se através de seres como Buda, Lao Tsé ou Jesus, se todos os seus habitantes fossem tão míseros como eu! – exclamou em voz alta, pondo-se a caminhar quase a correr.
Insensível ao cansaço e ao frio, mas não ao remorso, foi mergulhando na distância, ansioso por lavar-se do choque com as ondas do vento...
Extraído do Livro O Alquimista de Jorge Angel Livraga, Edições Nova Acrópole (Capítulo V)
(1) Mestre, instrutor em assuntos espirituais. (N. do A.)
(2) Discípulo aceite. (N. do A.)
(3) Denominação que o discípulo recebe apenas com um certo grau de Iniciação nos Pequenos Mistérios, por parte do seu Mestre. (N. do A.)
(4) Ilusão, aquilo que é relativo ao mundo objectivo. (N. do R.)