A ANTIGUIDADE DOS VEDAS
Uma REVISTA como a “THEOSOPHIST” interessada nas explorações arqueológicas e nas religiões arcaicas, assim como no estudo do oculto da natureza, tem que ser duplamente prudente e discreta. Ao colocar os dois elementos conflituantes – ciência exacta e metafísica - em contacto directo, poderá criar um distúrbio tão grande como atirar um pedaço de potássio para um recipiente com água. O próprio facto de estarmos predestinados e empenhados a provar que alguns dos mais sábios, das escolas Ocidentais, foram enganados pela letra morta da aparência e que são incapazes de descobrir o espírito escondido nas relíquias do antigo, coloca-nos, desde logo, sob interdição. Com aqueles intelectuais que não são suficientemente amplos, nem modestos para permitirem que as suas decisões sejam analisadas, estamos necessariamente em antagonismo. Deste modo, é essencial que a nossa posição em relação a certas hipóteses científicas, talvez incerta e sancionada por falta de outras melhores – deva ser claramente definida desde o princípio.
Uma infinidade de estudos foram efectuados por arqueólogos e orientalistas sobre a questão da cronologia – especialmente no que concerne à Teologia Comparada. Até agora, as suas afirmações em relação à antiguidade das grandes religiões da era pré-Cristã são pouco mais que hipóteses plausíveis. Até onde remonta a nação e a religião do designado período Védico –“é impossível saber”, confessa o Prof. Max Müller; no entanto, determina “até um período anterior a 1 000 a.C.” e “até 1 100 ou 1 200 a. C.”, como a data mais recente em que podemos supor que terá sido concluída a colecção de hinos Védicos. Nenhum dos nossos principais estudiosos afirma ter resolvido definitivamente a polémica questão, especialmente delicada devido à sua influência sobre a cronologia do livro dos Génesis. O Cristianismo, proveniente directamente do Judaísmo e na maior parte dos casos a religião Oficial dos seus respectivos países, colocou-se infelizmente no seu caminho. Assim, dificilmente dois estudiosos concordam entre si; cada um atribui uma data diferente aos Vedas e aos livros Mosaicos, tendo o cuidado de darem ao último o benefício da dúvida. Mesmo o especialista dos especialistas nas questões filosóficas e cronológicas – o Professor Müller, quase há vinte anos atrás, estabeleceu uma margem de proteção ao afirmar que seria muito difícil determinar “se o Veda é ‘o livro mais antigo’ ou e se algum trecho do Antigo Testamento não poderá remontar até ao mesmo ou até uma data anterior aos hinos mais antigos dos Vedas”. O “THEOSOPHIST” é, portanto, bastante fundamentado em qualquer aprovação ou rejeição, desde que agrade à chamada cronologia oficial da ciência.
Será que erramos, ao confessar que nos inclinamos mais a aceitar a cronologia desse famoso estudioso dos Vedas, Swami Dayánund Saraswati, que inquestionavelmente sabe do que fala, conhecendo os quatro Vedas de cor e estando perfeitamente familiarizado com toda a literatura sânscrita, e que não tem tais escrúpulos como os Orientalistas Ocidentais em relação aos sentimentos públicos, nem desejo de ceder às noções supersticiosas da maioria, nem ganha nada em suprimir factos? Nós estamos demasiado conscientes do risco em omitir a nossa adulação às autoridades científicas. No entanto, com a temeridade habitual do heterodoxo devemos continuar o nosso caminho, apesar de, como a Tarpeia da antiguidade, sermos sufocados sob uma pilha de escudos - uma chuva de citações aprendidas destas “autoridades”.
Estamos longe de nos sentirmos prontos a adoptar a cronologia absurda de Berosus ou mesmo a de Syncellus – apesar de na verdade aparentarem ser “absurdas” apenas à luz dos nossos preconceitos. Mas, entre as afirmações extremistas dos Brâmanes e o período ridiculamente pequeno admitido pelos nossos Orientalistas para o desenvolvimento e pleno crescimento daquela literatura gigantesca do período pré-Mahabharata, deveria haver um justo meio. Enquanto Swami Dayánund Saraswati afirma que “Os Vedas são objectos de estudo há cerca de 5 000 anos,” e coloca a primeira aparição dos quatro Vedas numa antiguidade imensa; o Professor Müller, atribuindo à composição do mesmo ao mais antigo entre os brâmanes, os anos a partir de 1 000 até 800 a. C., dificilmente se atreve, como temos visto, a colocar a colecção e a composição original do Sanhitâ, dos hinos Rig-védicos, anteriores a 1200 até 1500 antes da nossa era! Em quem devemos acreditar; e quais dos dois é o melhor informado? Não poderá esta lacuna de milhares de anos ser fechada, ou será igualmente difícil para as duas autoridades citadas fornecer dados que seriam considerados pela ciência completamente convincentes? É tão fácil chegar a uma conclusão falsa através do moderno método indutivo como assumir falsas premissas a partir das quais se fazem deduções.
Sem dúvida o Professor Max Müller tem boas razões para chegar a estas conclusões cronológicas.
Assim como Dayánund Saraswati Pandit. As modificações graduais, desenvolvimento e crescimento da linguagem sânscrita são guias suficientemente seguros para um especialista em filologia. Mas, parece sugerir-se de que existe uma possibilidade de ter sido induzido em erro, ao considerar-se um determinado argumento apresentado por Swami Dayánund. O nosso respeitável amigo e professor sustenta que tanto o Professor Müller como o Dr. Wilson foram apenas guiados nas suas pesquisas e conclusões pelos comentários imprecisos e não confiáveis de Sayana, Mahidar, e Uvata, comentários que diferem diametralmente dos de um período muito anterior ao usado por si em relação à sua grande obra Veda Bhashya. Um grito foi levantado no início desta publicação, que o comentário de Swami é pensado para refutar Sayana e os intérpretes ingleses. “Por isso,” refere muito justamente Pandit Dayánund, “não posso ser culpado; se Sayana errou, e os intérpretes ingleses escolheram-no como guia, a ilusão não pode ser mantida por mais tempo. Só a verdade pode permanecer, e a Falsidade perante a civilização crescente deve cair.”“E se, como afirma, o seu Veda Bhashya for integralmente encontrado nos antigos comentários do período pré-Mahabharata, aos quais os estudiosos Ocidentais não tiveram acesso, então, uma vez que os seus eram os guias mais seguros das duas escolas, não podemos hesitar em segui-lo, em vez do melhor dos nossos Orientalistas Europeus.
Mas, além de tais evidências prima facie, pedimos respeitosamente ao Professor Max Müller para nos resolver o enigma. Proposto por ele mesmo, intrigou-nos por mais de vinte anos, e diz respeito tanto à simples lógica quanto à cronologia em questão. Claro e invariável, como o Ródano através do lago Genebra, a ideia corre através do andamento das suas palestras, desde o primeiro volume de “Chips” até ao seu último discurso. Tentaremos explicar.
Todos os que seguiram as suas palestras tão atentamente como nós irão lembrar-se de que o Professor Max Müller atribui a riqueza dos mitos, símbolos e alegorias religiosas nos hinos Védicos, tal como na mitologia Grega, ao culto primitivo da natureza pelo homem. “Nos hinos dos Vedas”, citando as suas palavras, “vemos o homem entregue a si mesmo para resolver o enigma deste mundo. Ele é despertado das trevas e do torpor pela luz do sol” … e chama-lhe – “a sua vida, a sua verdade, o seu Senhor brilhante e Protector.” Ele dá nomes a todos os poderes da natureza, e depois de ter chamado ao fogo “Agni”, à luz do sol “Indra”, às tempestades “Maruts”, e ao amanhecer “Ushas”, todos eles parecem evoluir naturalmente para seres como ele próprio, ou melhor superiores a si mesmo. Esta definição do estado mental do homem primitivo, nos dias da infância da humanidade, e quase sem ter ainda saído do seu berço - é perfeita.
O período ao qual ele atribui estas efusões de uma mente infantil é o período Védico, e o tempo que nos separa, tal como assumido anteriormente, é de 3000 anos. Tão impressionado parece o grande filólogo com esta ideia da fraqueza mental da humanidade no tempo em que aqueles hinos foram compostos pelos quatro veneráveis Rishis, que na sua introdução no “Science of Religion (p. 78)” o Professor diz: “Ainda se admira com o politeísmo ou com a mitologia? Ora, eles são inevitáveis. Eles são, se quiser, um parler enfantin da religião. Mas o mundo tem a sua infância, e quando era uma criança, falava como criança, (note bem, 3 000 anos atrás), compreendia como uma criança, pensava como uma criança … A culpa recai sobre nós, se insistirmos em adoptar a linguagem das crianças em vez da linguagem dos homens… A linguagem da antiguidade é a língua da infância…o parler enfantin na religião não está extinto… como, por exemplo, a religião da Índia. "
Tendo lido até agora, façamos uma pausa e pensemos. No fim desta instruída explicação, deparamo-nos com uma dificuldade tremenda, a ideia de que nunca deve ter ocorrido ao hábil defensor das antigas religiões. Para alguém familiarizado com os escritos e as ideias deste estudioso Oriental, parecer-lhe-á o cúmulo do absurdo suspeitar que ele aceita a cronologia bíblica de 6 000 anos, desde o aparecimento do primeiro homem sobre a terra como base dos seus cálculos. E ainda assim, o reconhecimento de tal cronologia é inevitável se tivermos que aceitar os fundamentos do Professor Müller na totalidade, pois aqui corremos contra um obstáculo puramente aritmético e matemático, um erro de cálculo gigantesco de proporção…
Ninguém poderá negar o crescimento e o desenvolvimento da humanidade – tanto mental como físico – que deve ser analogamente medido pelo crescimento e desenvolvimento do homem. Um antropólogo, se quiser ir além da simples consideração das relações do homem com os outros membros do reino animal, tem que ser de uma certa maneira um fisiólogo, bem como um anatomista; tanto quanto a etnologia é uma ciência progressiva que pode ser bem tratada, por aqueles que são capazes de acompanhar retrospectivamente o desenrolar normal das faculdades e poderes humanos, atribuindo a cada um certo período de vida. Do mesmo modo, ninguém consideraria um crânio em que o dente do siso, assim chamado, seria aparentemente do crânio de uma criança. Agora, de acordo com a geologia, pesquisas recentes “dão boas razões para acreditar que debaixo de graus baixos e básicos a existência do homem pode ser rastreada até ao período terciário.” Na antiga era glaciar da Escócia – diz o professor W. Draper– “as relíquias do homem são encontradas junto às do fóssil do elefante", e os melhores cálculos até agora atribuem-nas a um período de duzentos e quarenta mil anos desde o início do último período glaciar. Fazendo uma proporção entre 240 000 anos – a idade mais recente que podemos conceder à raça humana – e 24 anos de vida de um homem, descobrimos que há três mil anos, ou no período da composição dos hinos Védicos, a humanidade teria apenas vinte e um anos – a idade legal da maioridade e, certamente, um período em que o homem deixa de usar, se alguma vez o fará, o parler enfantin ou balbuciar infantil.
Mas, de acordo com as opiniões do Professor, segue-se que o homem era, há três mil anos, aos vinte e um, uma tola e pouco desenvolvida – embora muito promissora – criança, e aos vinte e quatro anos, tornou-se o brilhante, perspicaz, culto, altamente analítico e filosófico homem do século XIX. Ou, ainda mantendo a nossa equação em vista, por outras palavras, o professor poderia muito bem dizer, que um indivíduo que era um bebé a ser amamentado às 12:00 horas de um determinado dia, transformando-se às 12:20 horas do mesmo dia, num adulto falando com grande sabedoria em vez do seu parler enfantin!
Realmente parece a missão de um eminente Sanscritista e Professor de Teologia Comparada sair deste dilema. Ou os hinos do Rig-Veda foram compostos há 3 000 anos, e, deste modo, não podem ser expressos em “linguagem infantil” – o que implica que o homem tenha vivido no período glaciar –, mas a geração que os compôs deve ter sido constituída por adultos, presumivelmente com o conhecimento filosófico e científico da sua época, como estamos nós na nossa; ou, temos que atribuir-lhes uma imensa antiguidade, a fim de levá-los de volta para os dias da infância mental humana. E, neste último caso, o Professor Max Müller terá que retirar a observação anterior, expressando a dúvida sobre “se algum dos trechos do Antigo Testamento não poderão ser rastreados até à mesma data ou até a uma data anterior aos hinos mais antigos dos Vedas”.
H.P. Blavatsky