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Os Antros Iniciáticos da Grécia Antiga


Testemunhas mudas de um mundo esquecido, os antros iniciáticos da Grécia Antiga continuam a guardar muitos segredos ainda inacessíveis ao turista profano que, com surpresa, os visita nos lugares mais recônditos das montanhas gregas. Os antros Ideo e Dicteo em Creta, o de Trofônio em Lebadia, o do Deus Pã no sector Noroeste da Acrópole de Atenas e os antros das Ninfas na longínqua pátria de Ulisses, a ilha de Ítaca, são, entre outros de menor categoria, os mais importantes, segundo registam a tradição e a história da Grécia Antiga.

antros

A palavra antro é de origem grega e significa “varão”. Refere-se ao local subterrâneo e oculto onde se realizava a transmutação iniciática que permitia o “renascimento” ou o segundo nascimento do homem, convertido em herói ao emergir, vitorioso, após a sua Iniciação, da caverna-matriz da Terra-Mãe. O antro é, então, um lugar de reunião de varões para celebrar ritos históricos relacionados com a transformação e a renovação do candidato.

Do simbolismo e significado esotérico daqueles ritos e procedimentos iniciáticos nos antros, dá-nos o divino Platão uma ideia muito clara, filosoficamente expressada e acessível à mente racional, no capítulo do seu diálogo A Republica dedicado ao mito da caverna, cuja descrição vamos abreviar já que supomos que seja suficientemente conhecida do leitor.

O antro, exotérica e formalmente, é um lugar de ritos e mistérios de vida e morte, onde oficiantes e candidatos se reuniam para celebrar um procedimento de Iniciação, de transmissão e intercâmbio de experiências e conhecimentos. Mas esotericamente, o antro é o “corpo” da alma do candidato, o santuário profundo do seu próprio Ego, um lugar de força e reconhecimento interior, de auto-descoberta. E é precisamente aqui, neste êxito, onde radica a verdadeira Iniciação, ou seja, a superação das diversas “provas” que o conduziram desde a obscuridade do antro até à luz do mundo real, do reino luminoso do seu espírito.

A existência e funcionalidade do antro como lugar iniciático e de passagem da obscuridade e da ignorância até à luz e ao conhecimento não é, obviamente, património exclusivo da Grécia Antiga. As Casas de Hórus no Egipto, os Mitreus na Ásia Menor e em Roma, e as catacumbas cristãs são alguns dos muitos exemplos que encontramos nas civilizações tradicionais da antiguidade.


O Antro Ideo em Creta

Na região montanhosa de Anogia, na ilha de Creta, encontra-se uma das mais afamadas cavernas iniciáticas da Antiguidade desde épocas míticas. Desde 1884, quando um pastor encontrou fortuitamente diversos objectos de cobre com a inscrição “ao Zeus de Ida” ou Zeus Ideo, até hoje, em que a escavação arqueológica continua com um método científico, a caverna, matriz telúrica que penetra nas entranhas da terra, deixou descobrir muitos dos seus segredos, dos seus cultos antigos e esquecidos pelo tempo, graças à interpretação arqueológica. No entanto, ainda ficam muitos por descobrir… quiçá os mais importantes, sobre a sua história e funcionalidade mistérica e cultural.

Diversos testemunhos e referências da Antiguidade indicam-nos que o antro Ideo não era apenas um lugar de culto, mas sim um dos mais importantes centros iniciáticos da antiga Grécia. Um lugar onde o mito e a História se unem, onde os mortais entravam em contacto com o divino; enfiem, um centro, de conhecimento e Iniciação mistéricos.

Segundo o mito, ali cresceu o menino divino Zeus, protegido pelos Curetes, oculto aos olhos do seu pai Cronos, que devorava os seus filhos à medida que a sua divina esposa Rea dava à luz. A fim de impedir a morte do seu último filho, Zeus, a deusa Rea oculta-o e oferece a Cronos uma pedra envolta em panos no lugar do recém-nascido para que a devore. Sob a custódia dos Ideos Daktulos, Koribantes ou Kurites, que cantavam e bailavam ruidosamente para ocultar o choro do pequeno deus na sua gruta, Zeus crescerá amamentando com o leite da cabra mágica Amaltea. Diz-se que os Ideos Daktulos (daktulos significa “dedos” em grego) surgiram da terra quando Rea, não podendo aguentar as dores do parto na gruta de Ideo, onde havia ido dar à luz, apoiou os dedos das suas mãos no solo da caverna para se aliviar. Assim, a tradição pretende que o antro Ideo seja a sede central do culto mistérico a estas deidades intermediárias.
Aqui o mito deixa o seu lugar à História, porque o antro de Ida ou Ideo é o lugar onde assentaram aqueles Iniciados históricos, sacerdotes e terapeutas que davam a Iniciação nos antigos Mistérios Cretenses e que tinham o mesmo nome que os seus antecessores míticos, ou seja, Kurites e Daktilos. Mais precisamente, segundo a tradição histórica, os Daktilos do Ida foram os fundadores das cerimónias mistéricas, os possuidores dos segredos sobre o nascimento dos deuses e os grandes mestres nas artes de curar.
Os Kurites, por outro lado, eram os Arcontes ou Chefes do Mistério, Iniciados nas artes das propriedades das plantas, da ciência oracular, iniciadores nos Mistérios superiores, enquanto os Ideos Daktilos eram dos Mistérios menores.

Do grande Pitágoras diz-se que foi iniciado em Creta nestes Mistérios de Ida, e também rei Minos foi lá, convertido em juiz do Hades, para receber os conselhos do seu pai, o deus Zeus, que ali tinha nascido, e regular as leis, segundo nos refere o poeta Homero, a cada nove anos, ciclo temporal que rege as coincidências das orbitas aparentes do Sol e da Lua. As leis que o Rei Minos recebia de Zeus são elogiadas por Platão e Aristóteles, o que nos dá uma indicação da sua importância e qualidade. Assim, na Apologia de Sócrates, este declara a sua grande satisfação, já que, depois da sua morte, poderá entrar num mundo onde os Juízes são Minos, Radamanto, Triptolemo e Éaco, em vez dos juízes mortais e incompetentes da sua época.

Segundo o mito, também foi ali onde pela primeira vez se celebraram os Jogos Olímpicos, quando um dos Kurites guardiães do pequeno Zeus, de nome Hércules (os diversos investigadores não estão de acordo neste caso sobre se se trata do mesmo herói realizador dos doze trabalhos ou de outro personagem mítico) organizou uma corrida entre os seus irmãos menores e coroou o vencedor com uma coroa de ramos de oliveira.

De acordo com as escavações realizadas até ao momento, o funcionamento do antro como lugar de culto e Iniciação cobre um período de mais de 2000 anos, desde a época arcaica até à romana, sendo um centro de peregrinação internacional, como o atestam os achados arqueológicos de oferendas provenientes do Egipto, Síria e Fenícia e outras regiões da Ásia Menor. No entanto, e apesar da sua grande importância, o antro Ideo não é o único de grande valor na ilha de Creta. Entre as muitas grutas nas montanhas de Creta que contavam com antros iniciáticos de culto religioso, o mais destacado e, desde logo, comparável em importância ao de Ideo, é o chamado antro Dikteo.


O antro Dikteo

Este antro também se encontra em Creta, na província de Lasithiu, onde, segundo outras versões da mitologia grega, a deusa Rea deu nascimento a Zeus, para depois o entregar às ninfas e aos Kurites, que o levaram e protegeram no Ideo.

A caverna tem uma profundidade de 35m, com uma longitude de mais de 150m que se afundam nas entranhas da terra, entre uma multidão de estalactites e estalagmites escorrendo de humidade. No fundo do antro há um lago e ali perto, uma pequena cavidade onde se encontraram diversos objectos de culto e oferendas. Inclusivamente dentro das estalactites, que com o passar dos séculos os tinham coberto, encontraram machados de duplo gume cerimoniais, estatuetas em bronze, cerâmicas, figurinhas de animais e outras oferendas que os peregrinos e neófitos ofereciam à Divindade.

Segundo as investigações, o antro Dikteo começa a ser um centro cultural e iniciático desde a Época Pré-minoica (antes do ano 2500 a.C.), continuará na Época Minoica e chega ao seu apogeu nos séculos VIII e VII a.C., para ir declinando até à Época Romana do Século I d.C. O facto de não se ter encontrado objectos e oferendas de culto dedicados a Zeus, como sucede no antro Ideo, parece indicar que este antro estava dedicado a outra divindade, possivelmente uma deusa minoica, já que os achados arqueológicos são na sua maioria objectos de uso femininos e adornos.

Na antiga mitologia Cretense, são principalmente três, as heroínas-deusas que se relacionam com o mítico rei Minos, juíz do mundo dos mortos: Pasifae, Ariadne e Fedra. Nos seus aspectos divino e mítico, as três têm atributos similares à Afrodite da época clássica grega posterior. Tanto é assim, que bastantes investigadores e eruditos creem que os três nomes são diversos aspectos de apenas uma divindade. Em qualquer caso, e tendo que decidir entre as três, é maior a possibilidade – pensam os arqueológos – que o antro Dikteo estivesse dedicado à deusa Ariadna e ao seu amante Dionísios, o qual, mais tarde, teria sido identificado com o jovem Zeus.

Com efeito, depois da descida dos povos dórios, neste antro adorava-se a Zeus Kretagenes, com cerimónias e festividades que se realizavam a cada Primavera. Mas este Zeus Kretagenes era muito distinto do conhecido Zeus, rei dos céus e dos deuses olímpicos. Como Dionísios, todos os anos morria e ressuscitava na Primavera, juntamente com toda a Natureza. Todos os anos, cerimoniosamente, era aceso o fogo sagrado na caverna, quando, segundo o mito simbólico, fervia o sangue depois do seu nascimento. Hoje em dia não é conhecida a localização deste antro, ainda que os habitantes da antiga Creta festejassem todos os anos o renascimento do deus e da Natureza vital dançando ritmos guerreiros, chamados Pirihios (os quais, segundo era dito, os Curetes tinham dançado perante o pequeno recém-nascido Zeus), e cantando o chamado Hino Dikteo, que dizia assim:

“Salvé a Ti, Grande Filho de Cronos e Rea,
que estás acima dos deuses
e de todos os homens.
Desce dos ares (Éteres) e vem aqui abaixo
ao monte Dikteo
e, como em cada ano, ouve prazenteiramente
o teu hino rítmico…”



O hino continua com pedidos de abundância, fertilidade dos campos e frutos da terra e do gado, felicidade nas relações matrimoniais e ventos favoráveis para os navegantes. Em parte, este hino continua a ser cantado nesta província da actual Creta, mas com pequenas alterações cristianizantes.

Antros do deus Pã na Ática

Em oposição aos antros cretenses já vistos, a maioria dos restantes antros na Grécia continental estava dedicada às ninfas (sobretudo aquelas que têm relação com fontes e correntes de água) e ao deus Pã, concretamente na região da Ática. Entre eles, os mais conhecidos são o antro das ninfas, em Ítaca (referido na Odisseia Homérica e à qual dedicou uma obra homónima o filósofo neoplatónico Porfírio), o antro Coríneo na ladeira Sudoeste do monte Parnaso, o antro de Bare na Ática, o antro das ninfas e de Pã na região de Parniza, o antro de Selene e de Pã na Arcádia e o antro Pã na acrópole de Atenas.

Outros Ninfeus (como se chamavam os antros dedicados às ninfas) encontram-se no monte Helicón e em Kitharion, assim como em outros montes, disseminados nos mais recônditos e abruptos lugares. Também os escritores clássicos fazem referência à existência de outros importantes antros dedicados a outras divindades, como o antro da ninfa Kalypso em Ogygya, o de Dionísios na ilha de Naxos, o de Hades e o de Apolo Leteo em Lebadia e, sobretudo, o antro de Trofônio, também na referida região, do qual nos ocuparemos extensamente mais tarde.

O antro de Pã, deus da natureza selvagem, abrupta e exuberante, na Acrópole, encontra-se no sector Noroeste do monte, em pleno coração da antiga Atenas. A caverna foi depois dedicada ao culto do deus após e devido à vitória na batalha de Maratona, já que na visão do corredor maratoniano Fidipides, o deus Pã anunciou que ajudaria os gregos para compensar a demora em acudir ao combate dos espartanos. E, com efeito, atribui-se a este deus o aparecimento de uma onda de pânico (daí a etimologia desta palavra) entre os persas, que os colocou em fuga, permitindo a vitória rápida dos gregos. Em comemoração deste feito e por conselho do general vitorioso Milcíades, foi-lhe dedicada a caverna na Acrópole e foram instauradas festas e cerimónias anuais em sua honra.

É, no entanto, outro antro de Pã na Ática que melhor pareceria adequar-se, mesmo no estado em que se encontra hoje em dia, à natureza selvagem, obscura e mistérica deste deus. Trata-se do antro de Pã e das ninfas em Parniza, no qual se encontraram, em escavações arqueológicas realizadas em 1900, uma multiplicidade de lamparinas de barro, cujo uso cerimonial e iniciático é muito provável. A caverna tem uma longitude total de 90m e encontra-se sobre a parede de um desfiladeiro chamado Gura. O meio ambiente rochoso, agreste e rude que demarca o antro está em plena concordância, sem qualquer dúvida, com as características do culto ao deus Pã que nos descrevem tão poeticamente os hinos homéricos.

Com características parecidas devia ser o famoso antro das ninfas em Ítaca, pátria de Ulisses, que nos referem Homero e Porfírio, ainda que hoje em dia não esteja demonstrada a sua verdadeira localização, pois até há quem duvide de que este estivesse na actual ilha chamada Ítaca, situando-o na vizinha ilha de Lefcada.

Diz a tradição homérica que foi neste antro que Ulisses ocultou o tesouro que os feácios lhe tinham dado. O escritor Artemidoro de Éfeso refere que o antro existe verdadeiramente, enquanto que, pelo contrário, tanto o geógrafo Estrabão como o próprio filósofo Porfírio negavam a sua existência física, considerando-o mais como um símbolo metafisico do além, onde habitam as almas dos humanos antes de encarnarem neste mundo. Ainda hoje há quem negue a sua existência real, considerando-o uma invenção poética do grande autor cego. A maioria dos investigadores, no entanto, identifica-o com a gruta Mavrospilia na montanha de Agios Stefanos (o monte Neio de Homero). Efectivamente, a investigação arqueológica descobriu nesta caverna um altar de pedra talhado, assim como degraus escavados na rocha, diversos restos de cerâmica e estatuetas de terracota de antiguidade milenar.

O antro de Trofônio de Lebadia

Este antro, aparte das suas funções como centro iniciático nos mistérios do mundo subterrâneo, cumpria também funções de oráculo, sendo considerado um dos mais importantes da antiguidade Grega, depois do de Delfos e Dodona.

Trofônio era um famoso arquitecto que construi, junto com o seu irmão Agamedes, o templo de Apolo em Delfos. Segundo Plutarco, os irmãos pediram a Apolo que lhes recompensasse pelo seu trabalho e o deus respondeu-lhes que durante sete dias fizessem festejos e que no sétimo os recompensaria. Assim, no sétimo dia caíram no sono da morte e Apolo falou-lhes. Trata-se de uma perfeita alegoria da vida e da morte iniciática. 

A história do antro de Trofônio está coberta com um véu de mistério. Segundo Pausânias, numa ocasião em que houve uma grande seca na Beócia, com mais de dois anos sem chover, os habitantes pediram oráculo em Delfos. Mas a Pítia respondeu que encontrariam a solução no oráculo de Trofônio em Lebadia. No entanto, ninguém conhecia a existência de tal oráculo. Então, um dos embaixadores, chamado Saón, viu um enxame de abelhas e sentindo um rapto de inspiração, decidiu segui-las. As abelhas conduziram-no a uma caverna onde encontrou Trofônio, que lhe deu os conselhos necessários para deter a grande seca. A partir daí, esse foi o procedimento a seguir por todo aquele que quisesse solicitar o oráculo do Iniciado Trofônio, o “adormecido”. Antes de descer ao antro obscuro, passando por estreitas passagens escavadas na rocha onde dificilmente se podia caminhar, o solicitante, que não era mais do que um candidato à Iniciação, pois devia descer ao mundo dos mortos para depois regressar de novo à vida tinha uma dieta especial durante vários dias no templo do Bom Espírito e da Boa Sorte, que havia na superfície, perto do antro e realizar diversas cerimónias e oferendas a Trofônio e aos seus filhos. Logo de seguida, um sacerdote adivinho, depois de ver se o acto era propício nas vísceras de um animal sacrificado, dava-lhe permissão para descer ao antro.
Depois deste cerimonial o candidato era conduzido por dois sacerdotes ao rio Ercina, onde devia lavar-se e purificar-se esfregando-se com azeite. Em seguida devia beber água das fontes do Esquecimento (Leteo) e da Recordação (Mnemosyne) para que esquecesse a sua vida até então e recordasse, em contrapartida, tudo o que visse e ouvisse no antro mistérico. Depois de tudo isto, e depois de rezar ante a estátua de Trofônio, colocavam-lhe uma túnica de linho branco, um cinturão e sandálias de esparto, e então podia descer à galeria subterrânea que conduzia à sala central do antro. Pouca coisa é conhecida sobre o que se passava com o candidato assim que pisava o sítio. Roça o umbral do segredo, experiência metafísica e iniciática intransferível. As descrições falam simplesmente de uma força que “se assemelhava a um turbilhão como o do mais rápido e turbulento rio”, a qual arrastava o candidato até ao santuário, onde veria e escutaria os segredos que o futuro zelosamente guarda.

Pausânias, ainda que ele mesmo tenha tido tal experiência, evita sempre falar dela. No entanto, Plutarco refere-nos a experiência de um tal Timarco, contemporâneo de Platão de grande interesse:
“Quando desci ao antro, no início encontrei-me com a mais profunda obscuridade. Não sabia bem se estava desperto ou se se tratava de um sonho. A única coisa que sei é que se escutou um forte ruído e recebi um golpe na cabeça. As costuras do meu crânio separaram-se deixando a saída livre para a minha alma.”.
Segundo Timarco, depois disto, viajou em forma de “espírito” e a sua viagem durou dois dias e duas noites. Sobre o que então aconteceu nada mais refere.

Do fundo do santuário, todos os candidatos saíam do mesmo modo, com os pés à frente e inconscientes. Os sacerdotes, depois, na fonte da Memória, ajudavam-nos a recordar a sua experiência com perguntas adequadas, e pouco a pouco voltavam a si e recuperavam a razão, segundo nos refere Pausânias. A experiência mistérica devia ser sem dúvida extraordinariamente forte, já que se diz que a maioria dos neófitos, a partir desse momento, caía numa melancolia que durava quase toda a sua vida. Por isso, os antigos, quando queriam referir-se a um homem sério, que nunca ria, diziam o refrão: “recebeu o oráculo de Trofônio”.

Também se referem a coisas muito estranhas como, por exemplo, alguns casos em que o neófito saía do antro. Diz-se que um tal de Eutíquides saiu da caverna levando nas mãos placas de bronze com inscrições e que o grande Adepto Apolónio de Tiana saiu com um livro nas mãos.

O antro como imagem do mundo

Tendo como modelo o antro das ninfas homérico, o discípulo de Plotino, o neoplatónico Porfírio (III d.C.), apresenta-nos elementos muito importantes sobre o sentido esotérico dos antros, ensinamentos que se integram perfeitamente na tradução iniciática de Pitágoras e de Platão. Porfírio refere-nos que os antigos dedicavam os antros ao mundo manifestado.

No mito da caverna, Platão expressa claramente a consideração do antro como símbolo do mundo, obscuro e terrestre, onde as almas estão aprisionadas na ignorância e na dor, e onde devem libertar-se, superar a obscuridade da ignorância para voltar à luz, renascendo a um mundo mais luminoso e espiritual, livre do sofrimento das cadeias e da matéria passional.

Assim, o antro é a matriz, o crisol alquímico neste mundo onde o homem, através do procedimento iniciático, deve transmutar-se a si mesmo. O próprio Porfírio refere-nos que Pitágoras, Iniciado no antro Ideo pelos Kurites juntamente com o seu mestre Epiménides, tinha elegido também um antro como lugar de Iniciação para os seus discípulos mais selectos.

A descida ao fundo do antro, as provas e experiências ali recebidas e a ascensão de novo ao mundo da luz são símbolos vivos da queda da alma na matéria obscura, da encarnação nesta terra de dor, da qual deverá a alma, nascendo de novo à luz, ressurgir e ascender livre de ataduras até à região luminosa de onde provêm inicialmente. Um percurso circular, uma trajectória de evolução superior com ritmos de “passeio iniciático”, da luz à escuridão, e de novo da escuridão até à luz, tudo isso simbolizado no antro iniciático, o lugar do mistério onde o homem comunica com o divino, cruzando a ponte que separa a vida da morte, a luz da escuridão. O antro é, então, a imagem do universo, mais tarde representada também nos templos iniciáticos, onde se desenvolve a alma sacudindo a sua cegueira e onde sucede cada evolução, cada transformação alquímica, qual crisol escondido no ventre sagrado da Terra Mãe, a Matéria Mater. Vive pois, leitor, a tua experiência no antro do mundo, mas não esqueças que o teu destino final será sair da caverna e dirigir os teus passos até à luz do Sol, no mais alto firmamento.

Georgios Alvarado Planas

N.T. Antro: Escavação natural, que pode servir de abrigo a homens ou animais; gruta, caverna.

 

 

 



 

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