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Como Treinar o Nosso Dragão

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“Não se deve ir buscar a luz, mas pelo contrário trata-se de deixá-la entrar”
Patrick Burensteiras



Sempre ouvimos dizer nos mitos, lendas e contos que o Herói devia matar o dragão, como se o dragão fosse algo exterior a nós; por isso imaginamos que este monstro malvado estaria escondido num lugar perigoso e de difícil acesso, esconderijo unicamente conhecido pelos poucos heróis que a literatura universal retratou como predestinados a viverem um destino à medida do homem superior, façanha esta totalmente inacessível para o comum dos mortais.

No entanto os heróis e os seus fabulosos dragões continuam a inflamar a nossa imaginação porque na verdade eles são parte integral da nossa natureza dual, ou seja, por um lado existe dentro de nós o sonho dourado de que um dia poderemos ser o Senhor e Mestre das nossa vidas, libertos de ataduras e de condicionalismo que nos impedem de sermos felizes e de estar em paz para toda a eternidade. Mas do outro lado desta luz inacessível está o lado sombrio da nossa realidade quotidiana, caverna tenebrosa onde infelizmente nos encontramos em perpétuos conflitos uns contra os outros, e sobretudo contra nós próprios. Ainda que o herói e o dragão coabitem desde que o homem é homem, ou seja desde a origem dos tempos, raramente se conhecem pois ambos estão separados pelo manto opaco da ignorância.

Querer conhecer o nosso dragão é então o primeiro passo para despertar o nosso herói adormecido, e para o conhecer vamos ter que ir ao seu encontro. É aqui que começa a fabulosa aventura das nossas vidas, aqui inicia-se o treino para domar o nosso dragão, porque como nos advertem os grandes Mestres da humanidade, se não avançamos o caminho desaparece.

Existe na verdade uma relação íntima entre aquele que busca e o peregrino. O peregrino é bem diferente do vagabundo: este vagueia pelo mundo à espera que surjam oportunidades que lhe são oferecidas desde fora e, não tendo objetivos traçados, deixa-se levar pelos atalhos da vida e fica à espera de ser surpreendido e seduzido pelos encontros circunstanciais que eventualmente possam surgir. O peregrino é aquele que vai ao encontro de si mesmo, e o seu caminho é um caminho de auto conhecimento e de purificação, é movido desde dentro e por mais pequena que possa ser a luz que o guia atreve-se a desafiar os seus medos e a caminhar em direção ao grande mistério da sua existência.

Citando o Prof. José Carlos Fernández, que no decorrer de uma aula de formação filosófica nos disse que “o homem deveria apreender a limpar a terra com o céu “ querendo assim dizer que, para evoluir, necessitamos de elevar a nossa consciência para nos tornarmos capazes de ultrapassar os obstáculos, que como pedras, obstroem o nosso caminho. Também quando os nossos pés estão enlameados, não os conseguimos desprender do chão, este estado de imobilidade representa a letargia da matéria ou o adormecimento do dragão, equivalente à matéria passiva e negra da Alquimia.

A alma representa o atanor (matriz em forma de ovo) da grande obra alquímica, nela estão depositados os poderes latentes da grande transmutação do chumbo da materialidade em ouro da espiritualidade. No laboratório ou oratório, lugar de labor ou trabalho e de oração, aí se realiza a purificação do corpo e da alma do alquimista que com o fogo vivo da sua vontade atiça o despertar do seu dragão, devolvendo-lhe a sua verdadeira natureza volátil, agora pacientemente submisso às ordens do seu operador.

O corpo sem alma é semelhante a um carro sem condutor, o corpo vive porque a alma ou o Anima habita nele e o move, a alma serve para direcionar de forma inteligente os movimentos do corpo. É a alma que robustece o corpo, corrigindo as fissuras ou desvios que sobre a acção da pressão exercida pelas dificuldades do nosso dia-a-dia, permite a passagem da luz da consciência, que traduzido na linguagem dos alquimistas é designada como alinhamento ou recto pensamento e recta ação. O raio de luz espiritual que agora encontra o caminho livre para se manifestar vai poder entrar no recinto e iluminar a matéria que como um espelho de prata nos vai dar a conhecer o tesouro que o dragão mantinha escondido.

Para nos robustecer é necessário expormo-nos a dificuldades: a fortaleza elimina as resistências do corpo. O nigredo ou a obra ao negro da alquimia representa a ignorância ou o carbono que se pode transmutar em puro diamante. Do mesmo modo que o fogo se alimenta de madeira, a alma alimenta-se de dificuldade, não é por ausência de luz que nós não encontramos o caminho justo mas sim por obstrução da nossa personalidade que impede que a luz possa chegar até nós. Não se pode buscar estabilidade nas coisas inseguras e movediças, temos que procurar a nossa estabilidade naquilo que está para além do tempo, da mudança, e da corrosão.

O Espírito é a estrela guia, um raio de luz que mesmo do tamanho de um fósforo pode iluminar a noite sombria. As tradições antigas relatam que outrora, antes da criação do mundo, se desprenderam do céu um terço das estrelas do firmamento e que esta luz divina ou Lucifer, o portador da luz, foi doada aos homens a fim de poder iluminar a sua mente, concedendo-lhe assim o poder de ver e compreender.

Com o tempo esta luz prisoneira da matéria perdeu a sua capacidade de discernir a verdade. Este fogo preso ficou cristalizado no corpo e assumiu a forma alegórica do dragão, palavra de origem grega, Dragono, e que significa vigilante ou guardião dos limites da terra. Satã para o Cristianismo, ou o Diabo, palavra que significa luz invertida, representa esta força que se apoderou dos tesouros da terra, lugar aonde estabeleceu o seu reino.

Satã significa: o eu que resiste e é semelhante à imagem da serpente da tentação, que confronta o homem com a eterna escolha entre a verdade e a mentira, o ser e o parecer, o poder terreno e o poder espiritual. Lembramos que a raiz sânscrita de Deus provém de Di e que significa a claridade celeste, a luz (Inteligência-Sabedoria) que permite que os olhos possam ver; da mesma raiz temos outras palavras tais como dia, diamante, diurna, direita, discernir, discurso, dialética, mas também dividir, dissociar e discórdia. Estas palavras com a mesma raiz mostram-nos bem que esta luz pode ser utilizada em duas direções, ora para unir, ora para separar. Cabe então ao homem o poder de fazer a escolha certa que irá determinar o bem ou o mal que resultam das suas acções. 



A Natureza Quádrupla do Dragão

O dragão está associado aos 4 elementos, e possui também 7 peles.
Tem garras e vive nas profundidades da terra.
Tem escamas e nada nas águas abismais.
Tem asas e voa até aos mais altos cumes das montanhas.
Tem fogo que cospe como um braseiro.

O dragão vive em grutas, debaixo de uma montanha sagrada, é guardião de um tesouro fabuloso, o seu sangue pode ser mortífero ou tornar-se o símbolo de imortalidade. Só o herói o pode enfrentar graças às suas armas mágicas que são os recursos morais que o protege interiormente contra a corrupção do seu alento viciado. A maior arma do herói é o amor que nutre pela sua dama, que representa a fidelidade e a inspiração pelos mais nobres ideais de pureza e virtude da alma.

Herói como Siegfried e o dragão Fafmir, Uther Pendragon ou o chefe dragão, as Drakkaras, imagens esculpidas de dragões que os Vikings colocavam nas proas dos seus barcos, o dragão da mitologia grega Ladon, guardião das maçãs de ouro do jardim das Hespérides são alguns exemplos mais conhecidos das grandes sagas épicas associadas ao dragão. Na China o dragão é um símbolo de sorte e de bom augúrio, protectora das almas nobres tal como foi chamado o grande Mestre Lao Tsé pelo seu discípulo Confúcio, o dragão é também associado ao imperador.

Na Índia os Rishis ou os sábios instrutores da humanidade são chamados de Dragões do conhecimento. No Egito Apophis o dragão do abismo é o inimigo do Deus Rá. No ocidente encontramos o Arcanjo S. Miguel que arrasa o dragão, e na milícia da cavalaria terrestre temos S. Jorge que luta contra o dragão. Ultimamente vê-se reaparecer o dragão na famosa série cinematográfica “A Guerra dos Tronos”.

De facto, o Dragão assume todas as formas e adapta-se a todas as épocas, como o camaleão pode revestir várias aparências, porque é o rosto de todos os nossos medos. Afrontar os nossos medos e furar as peles do dragão que representam os 7 planos da manifestação, significa libertar a luz prisoneira e iluminar o nosso inconsciente.



As Armas do Dragão

As suas garras representam o apego à terra, a possessividade (o tesouro) a vida em função das aparências do parecer e do ter. Os nossos desejos insaciáveis nutrem o apetite do dragão, somos o seu sangue e a sua energia, a sua capacidade cíclica de voltar a nascer na roda do tempo ilusório. O comodismo, a preguiça, os hábitos, os vícios paralisam e fossilizam-nos a ponto de nos transformarem nos ovos da futura geração de dragão.

As suas escamas representam o elemento água, que manifesta o movimento e a adaptação. Quando é necessário o dragão sabe mover-se para dar a ilusão de mudança, para nos distrair com a novidade, viajar, evadir-se, procurar sempre fazer coisas diferentes para enganar o vazio existencial Com as suas barbatanas, ele agita as águas da vida e fá-las parecer mais atractivas, com o seu jogo de luzes cintilantes brinca com os nossos sonhos e espanta os nossos olhares até nos cegar.

As suas asas estão relacionadas com o ar e as nossas emoções, estas mudam constantemente, alegria, tristeza, ira, depressão, paixões, os estados emocionais são como os ventos que agitam as nossas almas. Tempestades psíquicas derrubam o nosso frágil equilíbrio tal como uma cabana de palha improvisada e levada pelo bater das asas do dragão.

O fogo do dragão representa os desejos que atiça o nosso apetite insaciável, viver é arder, as paixões cegam a nossa mente, as dúvidas impedem-nos de avançar, as ilusões fruto da nossa fantasia impedem-nos de discernir o real. A ânsia de poder que alimenta a ambição desmedida, o orgulho que só quer brilhar e não iluminar.

Todos estes defeitos são sinónimos de imperfeições e carências. O herói tem que aprender a reconhecê-las para poder enfrentá-las. Não se pode deixar enganar pela astúcia do dragão que vai fazer tudo para mascarar as nossas fragilidades em “virtudes”.
Assim o cobarde acredita que é sensato, o débil acredita que é sensível, o intolerante acredita que é justo, o avarento acredita que é cauteloso, o comodista acredita que é prudente, o libertino acredita que é livre, o egoísta acredita que é feliz, o cúmplice acredita que é amigo, o mentiroso acredita que diz a verdade. O dragão é hábil em transformar as nossas fraquezas em “poderes”, é o grande mestre do disfarce e do engano.


As Armas Mágicas do Herói

PARA A TERRA: Cultivar a fortaleza, a paciência, a serenidade, saber esperar sem desesperar, agarrar-nos ao rochedo das nossas convicções, porque a firmeza também é determinação. Resistir aos embates das marés, manter a coesão frente à fragmentação das ondas.

PARA A ÁGUA. Cultivar a flexibilidade, e ter a capacidade de se renovar. Manter a memória e fidelidade aos nossos princípios elevados que são as velas da nossa barca que ruma contra a adversidade. Ter a constância da água que nunca desiste de alcançar o mar, ser capaz de dissolver a pedra do nosso ego que resiste à transmutação.

PARA O AR: Ter coragem para acreditar no prodígio do amor, ter distância mental para desobstruir os muros do nosso pessoalismo, a liberdade para fazer escolhas sem temer a opinião dos demais, sonhar com o possível quando tudo aponta para o impossível.

PARA O FOGO: Vontade para direcionar a nossa vida para algo melhor que nós, levantar-se de novo para recomeçar, ser capaz de brilhar para dar luz à nossa volta em vez de só querer ofuscar para ser admirado.
E para finalizar, abraçar o nosso dragão porque sem ele nunca poderemos descobrir o tesouro que está dentro de nós.



Françoise Terseur  

                                                                   

 

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