Confúcio
Sou conhecido como Kung Fu Tsé, mas no Ocidente chamam-me pela versão latina do meu nome: Confúcio. Nasci no pequeno estado de Lu, no longínquo século VI antes da era cristã, numa altura em que a China se encontrava num período de convulsão, marcado pelas lutas intestinas entre os diversos estados que compunham o território do meu país natal.
A minha infância foi marcada pela forma precoce como o saber que mora dentro da alma despertou em mim. Nunca me atraíram os jogos infantis, preferi isso sim, dialogar com os anciãos, em busca da sua sabedoria, de meditar e de ler. Passei uma infância difícil, pois o meu pai faleceu quando eu ainda era criança e a minha mãe teve que se esforçar para sustentar a família.
Aos 15 anos entrei na escola dos letrados e mais tarde iniciei-me na vida militar e no cerimonial da corte. Foi nessa época que o estudo do passado e das tradições me cativou. Dediquei sempre bastante tempo a isso, e «Primavera e Outono», um dos meus livros, onde está ordenada cronologicamente a história de Lu, é o fruto desse interesse.
Conjuguei os estudos e o trabalho, tendo desempenhado o cargo de vigilante de um armazém de grão e tive a meu cargo a administração dos campos públicos e do gado. A minha alma, porém, ansiava por mais e poucos anos depois decidi abrir uma escola e dedicar-me ao ensino, pois «só a educação mostra a extensão da nossa ignorância e é apenas ensinando que se reconhece toda a insuficiência dos nossos conhecimentos».
Não impus nenhuma restrição, todos teriam acesso à escola: ricos e pobres, príncipes e camponeses. Não neguei a ninguém os meus ensinamentos, mesmo que me trouxessem somente dez talhadas de carne seca. A única condição seria o inegável desejo de aprender, pois não podia ensinar a alguém que não se esforçasse de todo o seu coração por compreender as coisas. Ministrei o ensino teórico de forma alternada com exercícios práticos e através da tradição oral expliquei os textos clássicos.
Perto dos trinta anos fui introduzido na corte de Lu, onde reencontrei um grande amigo meu, o duque King que me possibilitou a visita à capital do estado, que era magnífica e esplendorosa. Foi aí que tive um encontro com o arquivista da corte: Lao Tsé. Este era mais do que aquilo que aparentava pois a sua sabedoria expressava-se no próprio nome que literalmente significa «velho mestre». Ele foi um dos maiores sábios da China e a ele é atribuído a autoria de uma das obras chaves do Taoísmo: o Tao Te Ching.
O meu encontro com ele foi algo de transcendente e voltei revigorado para casa. Aí a minha reputação tinha crescido imenso e continuei na formação dos meus discípulos, procurando incutir-lhes os altos valores que o Céu outorga aos homens.
Dei grande importância ao factor moral e procurei mostrar que a chave para o desenvolvimento se encontrava no equilíbrio e na harmonização interior. O homem de bem, ou jou, tinha uma conduta moderada que evitava os extremos, ou seja, não devia exagerar, não ser impetuoso nem ter desequilíbrios emocionais. O jou deve procurar avançar por etapas na conquista de si mesmo e deve ser inspirado por uma regra de ouro: «Não faças aos outros o que não gostarias que eles te fizessem a ti». Ele deverá ser modesto na sua conduta, ter intenções sinceras e não se enganar a si mesmo, deve também ter em conta que aquilo que há de sincero no coração do homem aparecerá no aspecto exterior.
O caminho da ética deve ser regulamentado pelo Li, que é a plasmação na Terra de uma Ordem Superior Celeste. Esta expressa-se em três ordens: religiosa, social e humana. É pela observância do Li que o homem se abre à influência do Céu e entra na Via ou Tao, harmonizando-se plenamente com a ordem natural.
Um dos pontos importantes sobre o Li é a ordem ritual e é nele que encontramos a prevenção contra a desintegração dos costumes. O ritual é uma forma de conduzir o homem do vício até à virtude. Porém, acredito que num futuro, numa Idade de Ouro, o homem se realize plenamente e encontre a sua harmonia encarnando o próprio Tao, deixando de ser necessária, nessa altura, a prática do Li.
Por isso lutei durante a minha vida toda, pois a crença na Humanidade dentro de mim era grande.
Tive uma grande oportunidade de tentar concretizar os meus ensinamentos quando me entregaram a administração da cidade de Tchung-tu, a qual com dedicação, empenho e sabedoria consegui fazer prosperar. Isso abriu-me a porta para poder desempenhar o cargo de Ministro da Justiça. Instaurei um regime de segurança e de austeridade e aconselhei o duque de Lu a combater os vassalos que possuíam grandes fortalezas e exércitos e que ameaçavam constantemente a sua legítima autoridade. Voltou a reinar a harmonia segundo os princípios da antiga sabedoria. Tudo parecia ir bem.
Mas a natureza humana é frágil e deixa-se seduzir com grande facilidade. O duque de Lu recebeu uma comitiva de um estado vizinho, onde vinham como oferta cavalos e dançarinas, aos quais dedicou tanta atenção que acabou por descurar completamente os deveres de estado.
Foi um tremendo choque para mim e, desiludido, abandonei o meu cargo e parti em peregrinação pelo território chinês, dedicando-me àquilo que estava na minha natureza: a transmissão de ensinamentos.
Foram 14 anos em que errei por vários estados, ora sendo amado ora sendo odiado. Findos esses anos resolvi que já era tempo de voltar a casa, pois a idade avançava e era na minha terra natal que queria encontrar o descanso final.
Foi aqui que me debrucei no estudo dos ritos, de várias crónicas e da música, tendo finalizado «Primavera e Outono», a história de Lu. Mas o que me ocupou bastante tempo foi o estudo do «Livro das Mutações», obra que necessitaria de mais uma vida para poder aprofundar como queria. Porém, o meu tempo estava a chegar ao fim, o Céu reclamava a minha presença.
Isso foi-me anunciado num sonho quando vi um unicórnio que trazia uma fita que pertencia à minha mãe, falecida há bastantes anos...
A minha doutrina tinha chegado ao seu termo. E, assim, aceitei o meu destino, oferecendo os últimos ritos e preparando-me para a viagem que iria efectuar. Cumpri o meu papel e retirei-me serenamente para o meu descanso.
Cleto Saldanha