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Correspondência de D. João II - Resposta de D. João II a Angelo

Ler Carta de Angelo Policiano a D. João II



Este intercâmbio de cartas entre o humanista italiano de Angelo Pliziano (1454-1494) e o rei João II de Portugal é o melhor elogio nunca escrito sobre este rei. Que exaltação a do discípulo de Ficino, e que humildade a do Príncipe perfeito! É importante voltar a olhar a vida e a história com estes olhos.

 

 

 

Resposta de D. João II


D. João por graça de Deus, rei de Portugal e dos Algarves, d'áquem e d'além mar em África, e senhor de Guiné, ao mui douto varão e prezado amigo, Angelo Policiano, saúde !

A vossa agradável carta, que já há muito li, e, sobretudo o que amiudadas vezes nos tem referido o nosso querido Chanceller-mór João Teixeira, me deu cabal conhecimento de quanto vos interessa a nossa glória (se em cousas humanas alguma existe) e quanto desejais salvar do olvido com as vossas letras o nosso nome e feitos. Tal vontade, ainda que é uma prova assaz clara de entranhado afecto e summa deferência, todavia parece-nos que nasce ainda mais da bondade do vosso coração, da agudeza de engenho e da copia de saber, que miram a alvo mais remontado.

Assim que nos sentimos grandemente penhorados de vós, e, quando o tempo e as circunstâncias o demandarem, testemunharemos mais amplamente o nosso agradecimento, esperando que não hajais de vos arrepender da afeição que nos dedicais. Respondendo em breves termos ao assunto da vossa carta, dir-vos-emos que somos gratos sobremaneira ao oferecimento que tão frequentemente nos fazeis dos vossos serviços e affectuosa diligencia para nos alcançardes a imortalidade, e estimamo-lo. E para pôr em efeito o intento, teremos todo o cuidado de ordenar que a nossa crónica, que, seguindo o uso do nosso reino, mandamos escrever era língua vernácula, seja composta no idioma toscano ou pelo menos no latim comum, enviando-vo-la depois, o mais depressa que ser possa, para que vós, sem vos afastardes do caminho da verdade, assegurando a nossa memória, a adorneis com as graças e gravidade do vosso estilo e com a vossa erudição, e a aperfeiçoeis de forma que, ao menos com o auxílio da vossa eloquência, se torne digna de ser lida.

Com efeito, muito releva (e melhor o sabeis) o estilo em que é recontado cada feito, embora ilustre. Porquanto, assim como a experiência mostra que as comidas melhores de natureza, se houve menos asseio em as guisar, são avisadamente engeitadas, assim a história, se lhe falecem as devidas galas e donaire próprio, havemo-la por sem mérito e merecedora de que a enjeitem.

Defeitos d'esta ordem, porém, não há que receá-los, se fordes vós, sujeito de tão subidas partes e tão versado em todas as boas letras, quem haja de tomar a peito a história dos nossos feitos. Esta é pois a nossa intenção. Resta, Angelo amigo, que aos filhos do nosso Chanceller-mór, fidalgos da nossa casa, consagreis os maiores disvelos. Sem duvida que a vossa bondade não havia mister recomendação para assim o fazerdes espontaneamente, contudo, encarecidamente vos rogamos que por nosso respeito tenha ainda algum aumento vosso zelo. E na verdade a eles deveis toda a gratidão, porque o pai e os filhos, aquele com os louvores, estes com os testemunhos provadíssimos do vosso saber, não cessam de vos exaltar, falando-nos de vós, e de fazer chegar até estes confins da terra, a fama do vosso nome, o que não faz pouco era prole da vossa glória e reputação. Mas aos próprios mancebos nós damos os emboras, por lhes ter cabido o viver em tempo em que da fonte abundante da vossa ciência possam beber alguma instrução, para que, servindo primeiro a Deus, e depois a nós, hajam de merecer e conquistar tanto a bem-aventurança celeste, como a terrestre.


D. João II

A tradução do latim foi realizada por Teófilo Braga

 

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