A Crise Financeira, Novos Sinais da Idade Média
A crise, uma oportunidade para controlar o nosso destino
O mundo vive uma crise económica que, na realidade, oculta uma crise muito mais profunda, que questiona todos os paradigmas, a maneira de pensar e actuar. É quiçá tempo, como preconiza a filosofia, de instaurar verdadeiros valores para um mundo duradouro e mais justo para o ser humano.
O Apocalipse financeiro não terminou. Transforma-se em recessão global e tudo indica que avançamos para uma grande depressão a nível planetário.
Apesar das espetaculares decisões tomadas na Europa, nos Estados Unidos e em outros países, estas não poderão provocar, a medio prazo, o fim das nossas dificuldades como, por outro lado, vários responsáveis internacionais reconheceram. Os Estados Unidos já injectaram 1 milhão e meio de milhões de euros, ou seja, o equivalente ao dobro do custo da guerra no Afeganistão e no Iraque desde 2001!
Todos estes contributos a nível mundial conduzem à restrição de créditos às empresas e aos particulares com consequências muito negativas sobre a economia real.
Pela sua dimensão “inédita” esta crise põe fim ao período neo-liberal, baseado nas teorias monetaristas de Milton Friedman, que dominaram durante as três últimas décadas o campo capitalista e deslumbraram a social-democracia internacional.
O desmoronamento de todos estes credos deixa a maioria dos dirigentes políticos desamparados, obrigando-os às vezes a renunciar aos seus dogmas para actuar de uma maneira oposta às suas crenças, sem chegar contudo, a serem resolvidos em verdadeiras mudanças do modelo.
Vivemos um momento histórico. Não se trata de um desmoronamento de um modelo da economia, mas também de um estilo de governo e de governação. Em particular da posição de líder dos Estados Unidos no mundo e da sua hegemonia económica. As suas finanças dependem hoje mais do que nunca das contribuições de uma grande quantidade de investimentos de capitais estrangeiros, e os países de onde vem o dinheiro – China, Rússia, indústria petroquímica do Golfo – vão condicionar o seu futuro a partir de agora. Actualmente, 15% a 20% das indústrias e serviços americanos pertencem a empresas estrangeiras: os Estados Unidos têm agora novos associados influentes no interior do seu próprio território.
Em 2006, a China e o Próximo Oriente (1) financiaram em partes iguais 86% do défice dos países. Em 2013, os excedentes chineses poderiam ultrapassar a totalidade do défice dos países industrializados e isto dá a Pequim um papel decisivo na manutenção do sistema financeiro internacional. É mais do que provável que em troca, a China reclame concessões geopolíticas a respeito de Taiwan e do Tibete.
Não temos refletido no Ocidente até que ponto a guerra no Iraque, pelo seu custo, pode ter provocado uma transferência de riquezas dos Estados Unidos para os seus próprios competidores. O centro de gravidade do mundo desloca-se do Ocidente para o Oriente e tanto os Estados Unidos como a Europa estão a perder poder, não só económico como também civilizatório. A guerra dos imaginários, ou seja, daquilo que faz sonhar os povos em relação ao seu futuro e aos indivíduos sobre o que querem chegar a ser, está a mudar. Os valores do Ocidente e a sua própria cultura estão a perder velocidade e a fazer sonhar muitos menos povos que estão nas suas fronteiras, que têm cada vez menos medo da “potência” do primeiro mundo.
Quando os bárbaros faziam frente ao Império romano decadente, para dar credibilidade ao seu próprio poder nascente apropriaram-se das insígnias do poder imperial e adaptaram-nas às suas próprias crenças e valores. Um dos símbolos distintivos do “primeiro mundo” é o da moeda e das finanças.
A crise actual deveria fazer-nos reflectir profundamente sobre tudo isto.
O modelo capitalista, concebido para os Estados do Norte, para beneficiar os países ricos, morreu. A nova arquitectura da economia social de mercado está definida desde a reunião do G20 de 15 de Novembro 2008 em Washington, não só pelos seus próprios integrantes como também, pela primeira vez na história, pelas potências do Sul, como a Argentina, África do Sul, Brasil, Índia e México.
O analista Daniel Pinto recorda-nos que a crise financeira que sacode os mercados desde há um ano está a converter-se numa crise de identidade para um capitalismo ocidental que perdeu as suas referências.
Esta crise, de facto, é uma crise sistémica e estrutural, que vai mais além dos mercados financeiros.
Os quatro níveis das forças activas na história
Para explicar a actualidade, há que compreender o trabalho do professor americano O. E. Williamson. Segundo o seu enfoque, existem quatro níveis de forças activas em todo o processo económico e histórico.
1 - A cultura, as normas, a história e a religião
Trata-se de factores que forjam e mantêm a identidade de uma colectividade.
Estas forças são de uma lenta evolução, da ordem de um século ou mais. Para que uma colectividade humana se transforme ao nível da sua identidade, há que imaginar ciclos de 100 anos ou mais. Este estracto é o fundamento que sustenta a sociedade.
2 - As instituições
São as estruturas de uma sociedade que determinam as regras do jogo num grupo humano. Isto traduz-se por um sistema legal, a maneira de exercer os seus direitos, etc…
Para instalar ou edificar um sistema institucional, é necessário entre 10 a 100 anos.
As instituições permitem que se formalize a identidade, que se construa dentro de marcos concretos. Quando as instituições caem, isto significa que já não há regras do jogo, nem jogo social.
3 - Os mecanismos da governação
(1) Permite instalar tudo, explica e determina como se joga em função das regras.
As regras são uma coisa, a maneira de jogar é outra. De acordo com a maneira de jogar, pode-se perder ou ganhar. As regras são as mesmas para todos, mas todos os jogadores jogam de maneira diferente.
Trata-se por exemplo da contabilidade, da fiscalidade, dos mecanismos de supervisão e de controlo.
Instalar um sistema de governação ou reformá-lo, demora entre um e dez anos.
Mas há que ter uma cultura e regras do jogo já adquiridas. A governação eficaz consiste em respeitar e fazer respeitar a lei. Isto permite transformar as regras institucionais em comportamentos morais.
4. O mercado, os intercâmbios imediatos
O tempo do mercado é instantâneo, muda constantemente. É a tradução imediata das situações engendradas pelo conjunto dos níveis superiores.
Quando uma crise chega ao nível do mercado, o lado visível do iceberg, isto significa que todos os restantes planos não desempenharam bem a sua função; implica que a identidade, as instituições, os mecanismos de governo foram afectados.
Ou seja, houve avarias ao nível dos sistemas da cultura, dos valores ou das crenças, que as instituições tiveram deficiências e que houve danos na governação. O sistema económico é o que se reflete no quotidiano e quando algo chega ao plano económico é porque há uma ruptura na coerência do sistema global.
A crise derrubou uma série de critérios intelectuais e o paradigma está a mudar. Uma crise sistémica questiona os paradigmas e os modos operativos do passado.
O dogma da “mão invisível do mercado”, da auto-regulação do capitalismo, da liquidação do Estado, do deixar o mercado actuar acaba de estalar.
Por isso há crise, pois é sistémica e estrutural. Sistémica pois todos os componentes que devem interagir não conseguem fazê-lo. Os mecanismos da governação, a linha de verificação e controlo falharam.
Todo o mundo pensava (com a crença da auto-regulação do mercado) que o sistema económico podia ter algumas quebras, mas que não seriam graves. Até agora, as crises tinham estalado sobretudo na periferia do sistema (Ásia, Argentina, Rússia…). A presença global das multinacionais dos países emergentes é três vezes superior do que há um quarto de século e é responsável de 15% dos investimentos estrangeiros, em comparação a 8% em 1990.
Uma crise sistémica significa que há uma crise de identidade, institucional e de governação. Estamos perante uma crise real. O mercado assinala com a sua febre a infecção já presente no organismo.
Como chegamos até aqui?
A ditadura da «criação de valor» a curto prazo, instaurada em 1990, desajustou o capitalismo. As elites dirigentes do mundo estiveram fortemente implicadas nesta deriva do capitalismo financeiro e foram amplamente recompensadas nesta febre de fuga para a frente.
Nos Estados Unidos, 1% das pessoas mais ricas captaram 23% do rendimento nacional em 2006, praticamente um retorno à proporção antes da crise de 1929 (24% do rendimento nacional em 1928) contra somente 8% nos anos 70.
Estes excessos levaram à especulação descontrolada sobre os produtos agrícolas, imobiliário, etc., produzindo uma sociedade cada vez mais desigual e instável, que só se controlou com recurso ao crédito. Por isso, o principal desafio hoje é a iliquidez e não a solvência.
O valor acumulado da dívida americana passou de 163% do PIB em 1980 para 346% do PIB em 2007. Sabemos que em 2008 ela aumentou fortemente mas os dados finais ainda não tinham sido publicados no momento em que escrevemos.
Dois sectores são os principais responsáveis: Os lares, cujo endividamento passou de 50% do PIB em 1980 para 83% em 2000 e para 100% em 2007 e o sector financeiro cujo endividamento passou de 21% do PIB em 1980 para 83% em 2000 e para 116% em 2007.
Depois do 11 de Setembro 2001 e o estouro da «bolha da internet». O secretário do Tesouro Alan Greenspan temeu que a conjunção dos eventos provocasse uma recessão. Decidiu por uma política económica totalmente lassa, de taxa de juros muito baixos e acelerou o processo explosivo.
Os americanos continuaram a gastar e a consumir, como se continuassem a ser tão ricos como antes. Resistiram momentaneamente à explosão das desigualdades das rendas, graças ao crédito obtido pela crescente venda de Títulos do Tesouro americano principalmente à China, que tem 15% da dívida americana. Em Julho de 2008 já possuía 518 biliões de dólares de títulos, e o Japão tinha nessa altura 593,4 biliões em títulos. Hoje as duas potências asiáticas possuem a fabulosa soma de 1842 biliões de dólares e 1015 biliões de dólares de reservas de câmbio, respectivamente, incluindo os títulos de Tesouro Americano.
A crise oferece-lhes uma rara oportunidade de consolidar as suas posses comprando a baixo preço activos estratégicos da potência América e aumentar a sua influência sobre o colosso. Mas, até quando as economias dos países emergentes poderão investir nos empréstimos do Tesouro para financiar o seu défice?
Os gestores do sistema comportaram-se até ao último momento com a arrogância dos novos-ricos, crendo-se revolucionários. Ficaram cegos pela avidez, que os privou do sentido de responsabilidade.
Estes valores e outros que mencionaremos demostram a inconsistência do sistema e a sua artificialidade. O valor do trabalho e da responsabilidade foi deixado de lado nas últimas décadas, em benefício da especulação e da vida fácil. Ninguém quis sair da miragem porque lhes convinha no imediato. Acostumados a que sejam sempre os outros a pagar, ninguém acreditou que desta vez seria o epicentro do sistema o primeiro a ser afectado.
A aceleração crescente de novos multimilionários criou um frenesim e apoiou a crença no enriquecimento para todos. Os países emergentes também foram atraídos pelo messianismo do sistema. Há 123.000 milionários na Índia, 415.000 na China…Mas na realidade só 100.000 (0,00016% da população mundial) pessoas dispõem, segundo a Merryl Lynch, de activos equivalentes a um quarto do PIB mundial, 10.601 biliões de Euros. Jamais se conheceu na história uma tal desproporção na distribuição da riqueza.
No final do ano 2008 o economista Patrick Artus tinha avaliado em 34.000 biliões de dólares a perda de património a nível mundial, desde a crise do subprime da Primavera de 2007, o equivalente a 54% do PIB mundial anual. Esta soma cobre a desvalorização dos créditos bancários, das obrigações emitidas pelas empresas e a queda das suas acções na Bolsa. No ano de 2008 as Bolsas perderam metade das suas capitalizações, 25.000 biliões de dólares, o equivalente a duas vezes o PIB dos Estados Unidos.
Confrontadas com este desastre, as famílias caiem na tentação de gastar menos, as empresas de investir menos, etc. Estas respostas espontâneas podem exacerbar e amplificar a crise e activar os reflexos protecionistas e de recolhimento sobre si mesmo muito maiores do que aqueles que ocorreram durante os piores momentos de 1930.
A cobiça fez cair as relações de confiança e de contrato, a racionalização dos instintos humanos que o capitalismo original quis aportar à sociedade e cedeu o seu lugar a um incrível «mecanismo Panglosiano». Pangloss é o herói cândido, descrito por Voltaire, que acredita que “tudo vai pelo melhor no melhor dos mundos” e vive brutalmente a experiência contrária. O senhor Pococurante demonstra que se pode possuir tudo o que se necessita para ser feliz e não sê-lo. No final da história, um velho turco ensina-lhe a moral desta triste história “o trabalho afasta-nos de três grandes males: o aborrecimento, o vício e a necessidade”.
Os traders e os financeiros ganharam nos últimos três anos uns 100 biliões de dólares e provocaram 1000 milhões de perdas.
Paul Krugman, professor de Princeton, descreveu muito bem a espiral do «mecanismo panglossiano». A partir do momento em que os agentes do sistema financeiro enriquecem com o dinheiro de outros e que não arriscam o seu próprio capital para montar as suas operações, engendram um mecanismo perverso.
Se o crédito gera proveitos, compartem com os investidores e podem reembolsar as suas dívidas. Se jogam sobre 100, embolsam um proveito de 10%. Se jogam sobre 1000, ganham 100. Este é o fenómeno de espiral que aspirou a todos. O problema é que se o investimento se realiza sobre um «crédito infectado», as perdas serão para aquele que emprestou e não para o investidor financeiro que fez a operação.
Enquanto o financeiro não estiver submetido nem obrigado, por uma regulamentação, a aportar o seu próprio capital, considerará que vive no melhor dos mundos. Este é o mecanismo panglossiano, ignorar racionalmente o risco, porque o sistema de remuneração é assimétrico. O especulador ignora as perdas, ganha sempre e se perde, só perderá eventualmente a sua carreira mas não o que ganhou não se sentirá responsável pelas perdas astronómicas que engendrou porque… era o jogo… Será o Estado, no melhor dos cenários, que reembolsará os contribuintes.
Como demonstra de uma forma excelente Daniel Cohen, professor da ENA, estamos frente a um naufrágio intelectual que todo o mundo nega e se ilude crendo que a auto-regulação pela graça do mercado omnisciente. É um erro crer que o mercado só se moralizará depois da crise.
O filósofo Espinoza recorda-nos que “é melhor contar com as leis que sobre uma improvável rápida evolução da natureza humana para regular o destino das nações”. Sim, mas as leis são eficazes se são sustentadas por uma força moral que as aplique. A crise é moral e demonstrou que finalmente o injusto revela-se ineficaz.
Para resolver esta crise, actualmente actua-se sobre o urgente antes de tudo o resto. Mas depois, há que ir mais longe. Há que analisar os disfuncionamentos no sistema de governação, nas instituições e nas dificuldades de identidade cultural que impedem de modificar as coisas.
Por isto, a situação actual é grave, porque fazem falta indivíduos que ao nível da gestão desta crise sejam capazes de ver um prazo de um século. Ou seja, de reformular o modelo de sociedade em que queremos viver através de novo paradigmas. Porque os precedentes já não são capazes de resolver os novos problemas e desafios. Estamos a viver uma época intermédia entre dois sistemas, o que entrou em convulsão e chegou aos seus limites e o do futuro, que se está a preparar no presente momento.
Muitos querem reparar a situação olhando para o passado, sem se aperceberem que as necessidades e as aspirações mudaram e podem atrasar o processo da inovação para outras formas de vida económica, social e mental. Há que perguntar quanto tempo durará esta fase intermédia entre estas duas épocas.
Este tempo é valioso porque deve engendrar elementos de renovação face ao futuro, para que novas formas de cultura e civilização possam renascer, graças à oportunidade que nos concede esta grande crise Mundial. Mas o temor ao desconhecido pode levar a que queiramos voltar ao passado e reparar o irreparável ou simular que tudo continue igual.
A história ensina-nos que conservar as aparências acelera o processo de auto-destruição. O general Godo Demetrios já governava Roma em meados do século V e os Imperadores, ainda que latinos, exerciam um poder de “meia-tigela”. A implosão interna acelerou a queda da Cidade dos Gémeos(2).
O medievo não surgiu do nada, já se havia insinuado por capilaridade um século antes através de várias crises. A “queda” de Roma só indicava um momento irreversível de mudança de uma época, uma era provisional entre duas formas de conceber o mundo. A palavra medievo «entre duas épocas» é perfeitamente adequada para analisar a nossa situação actual.
A crise, uma oportunidade de mudar a nossa visão do mundo
Como sugere Jacques Attali, é verdade que: “o que se chama crise não é mais que uma grande e difícil reescritura que separa duas formas provisórias do mundo”, e hoje estamos num momento de viragem que nos obriga a repensar a nossa visão do mundo.
Não podemos tardar em realizar com a filosofia uma profunda revisão das nossas prioridades e decidir por opções duradouras para o nosso futuro. Por outro lado, a palavra crise em grego significa “decisão” e para os chineses “oportunidade”. Agarremo-la! A crise deve ser considerada como uma oportunidade de reequilibrar a mundialização que se tornou injusta e incapaz de introduzir um desenvolvimento sustentável, respeitando o meio ambiente.
A crise financeira e económica que o mundo actualmente conhece tem raízes intelectuais e morais. As consequências são económicas, mas a decadência é moral. Esta crise prova finalmente que o injusto é ineficaz. Para nós, filósofos, o tema dos valores e dos princípios volta de novo a ser prioritário.
O filósofo Robert Dufour compreendeu muito bem que “todas as grandes economias humanas foram afectadas” levando a uma mutação do psiquismo: a nível da economia política, a “corporate governance”, a ditadura dos accionistas, o desaparecimento da autoridade do pacto social para a satisfação dos consumidores. Mutações da cultura por alterações semióticas, toda a forma de autoridade, inclusivamente a leiga é rejeitada e a lei de mercado auto-regula tudo.
Em relação ao psíquico, entrámos num quadro pós-neurótico, onde predominam a perversão, a depressão e a adição. A economia do vivente está muito doente, vítima de uma contradição maior, o capitalismo que aponta à produção infinita de riquezas e à finitude dos recursos vitais. Isto traduz-se na redução da diversidade das espécies, o risco crescente de pandemias, o esgotamento de recursos naturais, contaminações irreversíveis, o inexorável aquecimento climático, a superpovoação.
Os liberais, depois de terem exigido a privatização dos proveitos, suplicam agora por uma socialização das perdas.
Há que terminar com a crença de que os interesses egoístas se harmonizam por uma auto-regulação espontânea. É urgente recuperar o espírito de responsabilidade contra esta avidez sem limite, que já denunciava Max Weber. Como podemos constatar, a avidez e a indiferença promoveram uma «religiosidade económica», baseada num sistema de crenças, em que uma mão invisível regula o mercado no seu todo e tem sempre razão.
Ainda que os factos e os números sejam flagrantes, como em todos os medievos, o grande desafio é recuperar a razão.
O Século XX entre a paixão e a razão
A história do século XX desenvolveu-se em torno da luta de morte entre a liberdade e o totalitarismo.
Em 1989, quando caiu o muro de Berlim, todos pensaram que o reino da liberdade e o renascimento de uma sociedade de direito mundial se colocavam em marcha. Ébrio de alegria e sem discernir a complexidade do mundo novo que estava a surgir, o lado “ganhador” acreditava poder impor o seu próprio modelo económico, pensando que com ele se tinha derrubado a muralha totalitária.
A euforia foi tal que não permitiu nenhuma revisão nem que se levantasse nenhuma questão sobre o capitalismo como tal, nem tão pouco da sua ambígua relação com o pensamento marxista no mundo bipolar passado que, embora o tenha criticado, partia das mesmas bases, porém com soluções diferentes.
Os “grandes” do mundo acreditavam que a solução económica era a resposta que todos os povos esperavam para viver em paz e em verdade, nos anos 90, o “sonho americano” inspirou em boa parte a outra metade do mundo.
O 11 de Setembro de 2001 surpreendente pelo seu acontecimento inesperado e brutal, anuncia o novo desafio ao qual deve fazer frente desta vez o século XXI, a razão contra a violência das paixões.
Como vimos, os dirigentes americanos e a sua sociedade não estavam moralmente preparados para esta batalha e o seu comportamento ante esta crise acelerou o processo de desgaste irreversível do sistema. Em vez de verem a realidade como era e partilhá-la com os seus Aliados, rearmando-se moralmente e actuando de maneira responsável, reagiram da mesma maneira do que economicamente, com o apoio tácito de muitos dos seus Aliados: a fuga para diante. Não tiveram em conta o despertar das religiões e dos nacionalismos, nem o ressentimento e vontade de vingança contra o Ocidente declinante.
Os nostálgicos dos império caídos (Rússia) e das novas teocracias (Irão), compreenderam imediatamente o interesse da situação. Desde esse momento as forças do caos tenderam a impor-se sobre as dinâmicas de integração, provocando fracturas, separações, enfrentamentos e agressões.
A nível económico, a queda da bolha especulativa engendra a crise e, por sua vez, o capitalismo desassocia-se da liberdade, como se viu na China e, embora em menor escala, na Rússia. Esta ideologia já não é uma promessa de liberdades e direitos.
No plano social, a coesão das nações vê-se questionada pelas crescentes desigualdades e tensões comunitárias.
A nível político, os Estados debilitaram-se e embora queiram retomar hoje a sua antiga autoridade, os seus meios são escassos.
A nível estratégico, a violência prolifera, como vimos em 2008 no Tibete, na Geórgia, no Congo e no Zimbabwe. O terrorismo estende os seus domínios.
O mundo está-se a desagregar-se, através do confronto de princípios antagonistas que o levam até ao desconhecido debaixo da ameaça de rupturas radicais. Surge um mundo multipolar fragmentado, volátil e instável – medieval – onde a razão enfrenta a paixão sob múltiplas formas.
O filósofo Pascal já tinha tratado este tema, falando da guerra interior da razão contra as paixões. Explicava que aqueles que buscavam a paz dividiam-se em duas seitas, a dos que quiseram renunciar às paixões e transformar-se em deuses, e a dos que quiseram renunciar à razão e transformar-se em “brutos” não pensantes.
Como os primeiros comportaram-se as elites mundiais financeiras ou a tecnocracia europeia, separados da história e dos povos. Como os segundos, os terroristas, cuja religião real é a da violência fanática, em nome de um povo, de uma vocação imperial ou de uma religião.
O individualismo, engendrado pela mundialização e pelo sistema financeiro, confronta-se com as paixões colectivas dos povos enaltecidos. O extremismo confronta-se com a perda do sentido de compromisso das sociedades da abundância.
Com a crise, estes confrontos estão-se a introduzir, pouco a pouco, dentro das próprias sociedades ocidentais. Porque é que no amanhecer do século XXI somos tão vulneráveis à política do medo?, questiona-se o ex-vice-presidente Al Gore. Parece que perdemos a capacidade para distinguir entre as ameaças imaginárias e aquelas que são legítimas. O poder político e os meios de comunicação, insiste Al Gore, apropriaram-se deste nicho e levam-nos às épocas feudais, quando certos “senhores” se apoiavam sobre a ignorância do povo para manipulá-lo.
O ser humano e as sociedades humanas não podem seguir em frente sem integrar a razão e o coração. Esta integração é a fonte dos múltiplos Renascimentos da civilização humana, como o demonstraram as filosofias plurimilenárias.
Não podemos ceder, como diziam os antigos egípcios, à inercia, à surdez mental e à avidez que provocaram este combate que fragmenta as consciências e nos leva, na sua dinâmica, até uma idade obscura.
A colocação em movimento do coração e da consciência é indispensável para poder escutar as verdadeiras necessidades e razões que a nossa época reclama. Sair da avidez outorga-nos lucidez, discernimento para dar um espaço aos outros e não só a nós mesmos. Permite desenvolver a solidariedade e o sentido de responsabilidade, para poder mudar-se a si mesmo e à sociedade.
A crise financeira não só nos está a dar sinais da chegada de um novo medievo. A sua compreensão dá-nos a chaves da vitória do ser humano sobre a avidez materialista.
O século XXI será testemunho de um dos maiores combates do ser humano para conquistar a sua própria humanidade. Os tempos são propícios para os que procuram o seu próprio destino.
Fernando Schwarz
Director da Nova Acrópole França
Bibliografía:
Baverez, Nicolas (2008): En route vers l’inconnu, Ed. Perrin
Bourguinat, Henri et Briys, Eric: L’arrogance de la finance, Ed. La Découverte
Gore, (2008): La raison assiégée, Ed. Le Senil
Gréau, Jean Luc: La trahison des économistes, Ed. Gallimard. L’avenir du capitalisme. Ed. Gallimard
Minc, Alain (1993): Le nouveau Moyen Age, Ed. Gallimard
Todd, Emmanuel (2008): Après la démocratie, Ed. Gallimard
Le Moyen-Age est-il de retour?, revue Nouvelle Acropole n. 129, 199
Notas:
(1) em termos geopolíticos o Oriente está dividido em: Próximo Oriente, Médio Oriente e Extremo Oriente
(2) Cidade dos Gémeos é uma alusão aos gémeos Rómulo e Remo, fundadores míticos de Roma)