A Crise das Relações Humanas
Boa noite a todos os presentes,
Hoje vamos falar de um tema que nos aflige mas para o qual temos a resposta dentro de nós: a crise das relações humanas.
Podemo-nos perguntar: quando é que o Homem iniciou esta crise das relações humanas? E talvez nos surja: a crise começou… devido a factores políticos. Poderíamos completar a frase com diversas justificações e todas seriam válidas mas a nossa crise das relações humanas começou quando nos desconectámos de nós mesmos, quando deixámos de nos sentir nós mesmos, quando começámos a não nos lembrar dos nossos valores, quando nos começámos a esquecer de quem somos, de como somos, dos nossos ideais, em que acreditamos, quais os nossos objectivos na vida… Começou quando nos esquecemos que somos uma extensão do amor. E que como extensão do amor deveríamos e poderíamos recordar estes factores fundamentais da vida.
Se me esquecer de como sou, do que quero, das minhas raízes, dos meus valores… não conseguirei passar para os outros o melhor de mim.
No momento actual que nos coube viver há uma necessidade iminente: recorrermos a nós mesmos para encontrarmos os nossos recursos. Os nossos recursos internos, os nossos valores, aquilo em que acreditamos, o que podemos doar, o que a vida espera de nós, o que esta situação que está aí fora mas também aqui dentro requer de mim neste momento.
"Quando é que o Homem iniciou esta crise das relações humanas? (...) Começou quando nos esquecemos que somos uma extensão do amor."
Porque caímos nesta situação? Porque terá sido? Será o destino?
Porque deixámos que o mundo externo, as situações externas, determinassem quanto valemos. Estamos a permitir que as situações externas nos digam o que pensar, o que sentir, o que fazer, como é a nossa vida e o que queremos para ela.
A partir do momento em que eu entro em contacto com a Força que eu tenho - que nós temos – daí, nesse momento, jorra luz, jorra esperança e afecto, e então entramos em contacto com a vida, mas com A VIDA. Porque no fundo, de um certo modo, o quotidiano e as circunstâncias que vão ocorrendo vão criando em nós uma segunda natureza, que não é a nossa natureza. Vamos fazendo uma natureza dupla, e todas as vezes que olhamos para essa natureza pensamos que somos nós. Mas não. Nós, a nossa verdadeira natureza, a real, estamos por detrás.
Essa segunda natureza foi criada por um sistema que fomos seguindo. E ao segui-lo fomos pensando, sentindo e fazendo tal e qual ele – o sistema – nos dizia para fazer.
E de tanto pensar, sentir, falar e fazer essa segunda natureza foi-se cristalizando em nós, embora dela não façamos parte e nela não sejamos unos. Porque aqui somos unos e daqui fazemos parte. É esta que está por detrás: o Eu, o uno que tem muito para dar.
Essa segunda natureza faz-nos sentir pequenos, faz-nos sentir que a nossa profissão não tem sentido, que o nosso trabalho é apenas uma forma de ganhar o pão de cada dia. Em oposição a esta perspectiva podemos ver o nosso trabalho como trabalho interno e externo, sentir que a nossa profissão tem significado e como esse significado é tão importante para a nossa vida e para o nosso crescimento; tendo esta consciência conseguimos contagiar as pessoas.
Esse sistema impactou-nos de tal forma que nós achamos que somos máquinas: trabalhamos, recebemos, compramos comida, voltamos a trabalhar e assim vamos seguindo e esquecendo o nosso valor. Vamo-nos esquecendo que o professor, o dentista, o médico, o senhor que apanha o lixo, o varredor de rua, a senhora que limpa a casa ou faz a comida, todos…estamos como suporte, fazendo o nosso trabalho para o bem-estar de nós próprios e dos outros. Nesse sistema não conseguimos ver; não nos vemos como unidade, como um todo, trabalhando cada um de nós para si e para os outros, tal qual é tudo na natureza.
"A partir do momento em que eu entro em contacto com a Força que eu tenho - que nós temos – daí, nesse momento, jorra luz, jorra esperança e afecto, e então entramos em contacto com a vida, mas com A VIDA."
Nesse sistema nós não tempo para nós e para os outros, pois o próprio sistema faz com que corramos atrás de coisas; coisas das quais, muitas vezes, nem precisamos. Porque o próprio sistema arranjou uma forma de pensarmos que valemos pelo que temos, não pelo que somos. Procuramos ter um novo telemóvel, trocar de carro, ter mais isto e isto e isto… ter, ter, ter. Temos que ter.
Vamos correndo atrás de coisas e passamos uns pelos outros como máquinas. Isto é a nossa segunda natureza… porque a primeira não é assim.
Na segunda valemos tanto pelo que temos como pelo que parecemos. É muito comum acontecer – e digam-me se eu estiver errada – as pessoas procurarem relacionar-se pelo status. Se alguém for convidada para uma festa, irá porque estará lá alguém com status, não por ir encontrar um amigo, por um encontro de almas, para dialogar, mas muito mais provavelmente para desfilar… é verdade. Parece tonteira mas é a verdade, que é repetida em muitos contextos constantemente.
Podemos mudar o sistema? Se calhar não.
Mas este que está aqui (apontando para si própria), eu posso. Cada um de nós é responsável. Por este que está cá mas também pelo que está lá; porque se nós nos movemos de acordo com ele é porque de alguma forma somos reflexo dele.
Mas então este, nós podemos mudar. Esta parede nós podemos deitar abaixo porque depende de nós, só depende de nós próprios.
É o momento para perguntar: como irei fazer?
E é aqui que surge aquela frase: conhece-te a ti mesmo.
O que é a mulher? O que é o homem? O que é que está por detrás da segunda natureza?
O que é que esta primeira natureza nos diz para fazer?
Ela diz que eu sou todo Amor. E como Amor tenho um potencial infinito. Ela diz que eu tenho valor e que esse valor é infinito.
Ela diz que quanto mais eu dou mais eu tenho para dar.
Ela diz que eu sou filho da Terra e que estou nela para colocar as impressões digitais da minha alma. E só deixamos as digitais da nossa alma se seguirmos a primeira natureza porque ele, que é própria de nós, está suficientemente dotada para servir de intérprete da nossa alma.
Nela está escrito o que temos de fazer e como devemos fazê-lo. Nela está escrito o que gostamos de fazer e através do quê iremos crescer. Nela está escrito Eu, Tu, Ele e como temos de proceder para comigo mesmo, para com ele, para com ele… Na nossa primeira natureza está o livro onde estão as leis da alma. Sem a conexão com esse livro onde estão escritas as leis, as nossas relações serão sempre frágeis.
E se cair o sistema e inventarem um outro, ainda assim continuaremos frágeis porque não estamos conectados com a nossa natureza.
E então perguntamo-nos: como é que voltaremos a ela? É tão difícil.
É simples. No nosso dia-a-dia quando nos levantamos e nos olhamos no espelho, geralmente a primeira coisa que fazemos é apontar os nossos pontos negativos: o meu cabelo está horrível, a minha barba está feia,… Mas para a nossa primeira natureza nós estamos sempre bem. Quanto mais envelhecidos, melhor nós estamos. Porque somos eternamente jovens, embora o sistema nos diga que não. E nós acreditamos, achando que temos de transformar para ficarmos jovens.
"Porque o outro será uma extensão de mim. Veremos as qualidades dos outros se virmos as nossas. Se não virmos as nossas não veremos as dos outros, e se não vemos as dos outros, os outros começam a revoltar-se."
É importante? É. Ficamos bonitos se nos pentearmos, fizermos a barba, pusermos batom. Mas uma coisa é prepararmos a forma para recebermos a essência, porque a primeira deve ser equivalente à segunda. Outra completamente diferente é arranjarmo-nos em frente ao espelho porque nos achamos feios e não correspondemos a um padrão, porque não correspondemos à expectativa dos outros e então teremos de fazer algo connosco, mesmo que seja algo que não gostamos.
Aí, nesse ponto, saí fora de mim.
Tenho que me olhar no espelho e ver a minha beleza. Olhar-me e ver-me como filha da natureza e a partir daí arranjar-me e melhorar-me com roupa, perfume, cabelo para que a forma esteja de acordo com a essência.
Aí, nesse momento, estarei a amar-me, estarei a dilatar os meus valores procurando o que há de mais belo em mim.
Este aspecto é um dos aspectos que faz com que exista uma crise das relações humanas. Mas porquê? Porque eu dou ao outro aquilo que tenho. Se eu não tenho, ou não sei que tenho, não posso dar. Torna-se então necessário valorizar-me, amar-me. Torna-se necessário, melhor, fundamental, o amor-próprio, o valor por mim mesma. Porque o outro será uma extensão de mim.
Veremos as qualidades dos outros se virmos as nossas. Se não virmos as nossas não veremos as dos outros, e se não vemos as dos outros, os outros começam a revoltar-se.
Eu trabalho num mesmo local há sete anos, frequento os mesmos sítios há sete anos. Noutro dia uma senhora conhecida veio ter comigo e contou-me que tinha acontecido algo absurdo:
- Há pouco um senhor entrou na mercearia e perguntou à rapariga que lá trabalha como ela se chamava. E ela respondeu: Bernardete.
- O senhor apontando-lhe uma arma disse-lhe: “Ok Bernardete. Dá-me o dinheiro”.
- Já viu que desgraça Selma?
E foi mesmo uma desgraça, um assalto. Mas o que pensei é que o mais absurdo de toda aquela história é que eu conhecia a Bernardete há sete anos e não sabia o seu nome. Não sabia. Quer dizer, ela é boa pessoa, honesta, batalhadora. É. Então porque é que alguém que assaltou a mercearia sabe o seu nome e eu não sabia?
Porque nós não damos atenção uns aos outros.
A Bernardete trabalha num sítio que eu frequento, é uma pessoa importante no meu dia-a-dia, que está a cumprir uma função importante. E eu não sabia o seu nome.
Devemos estar com as pessoas, passar por elas e dialogar, olhar nos olhos e falar-lhes. Isto faz a diferença. Saber o nome de uma pessoa faz uma diferença gigantesca.
Quantas vezes vamos ao supermercado e dizemos bom dia, perguntamos algo, comentamos qualquer coisa? Poucas? Nenhuma? É uma máquina a lidar com outra máquina; gelo e indiferença.
É natural? Um ser humano ignorar outro ser humano? É da primeira natureza ou da segunda?
Podemos dizer que no dia-a-dia não há tempo para isso. Para dialogar. Mas no exemplo de há pouco podemos aproveitar o momento em que a senhora está a calcular o total da compra para dizer qualquer coisa… há tempo. Nós é que, normalmente, não o aproveitamos.
Procuramos na História o nosso Herói. Achamos que no nosso tempo não existem heróis. Mas há. Heróis do quotidiano.
E porque é que não paramos para ouvir? Como foi o dia de uma pessoa… Como foi a sua vida… Custa-nos ouvir. É a crise das relações humanas.
No céu da nossa alma, no céu do nosso interior há estrelas. Às vezes olhamos para o céu e vemos Vénus, Marte, Júpiter! Mas Vénus também está aqui (apontando para si), dizendo-me o que é o amor e como agir com amor; Marte, senhor da guerra, também está aqui, dizendo-me que estes tempos são difíceis e que tenho o dever de batalhar e de procurar formas de me relacionar melhor com o outro.
É tão forte a transmutação que acontece quando os seres humanos se começam a olhar melhor; quando começam a sentir o outro, a ouvir, a sorrir, a elogiar, a ter bons gestos.
Um dos meus companheiros aqui da Nova Acrópole noutro dia foi ao Pingo Doce e à saída, vendo uma senhora carregada, ofereceu ajuda mas ela reagiu com medo e disse que não. Mais à frente voltou a oferecer ajuda a outra senhora que também estava carregada e desta feita, agradecendo, essa senhora aceitou a sua ajuda.
Temos que insistir, insistir. Porque o outro ser humano depois de ser magoado reage. Depois de ser atacado reage. E até certo ponto essa atitude é compreensível porque a primeira reacção que temos hoje em dia, quando alguém se aproxima, é afastar. Porque perdemos o doce hábito de sentir o calor do ser humano, dos afectos.
Nós mulheres de uma certo modo esquecemo-nos do nosso dever porque a segunda natureza fez-nos esquecer desse dever magnífico que é sentirmo-nos mulheres em qualquer situação da vida, sentir a beleza de ser mulher. Ser mulher e ser mãe também. Amar e amarmo-nos.
"É tão forte a transmutação que acontece quando os seres humanos se começam a olhar melhor; quando começam a sentir o outro, a ouvir, a sorrir, a elogiar, a ter bons gestos."
E se eu não sei o meu valor no feminino os homens não se vão conectar com o ideal feminino.
E se eu nascida como mulher não sei dessa responsabilidade, de gerar, de criar, e se não sei dar valor aos homens como tal não há conexão com o ideal masculino.
O homem esqueceu-se do seu valor como homem, das suas responsabilidades; e a mulher esqueceu-se do seu valor como mulher e das suas responsabilidades. Homem e mulher. São as águas da vida. E a vida só flui com estas duas águas: amando-se, respeitando-se, harmonizando-se quer na união quer na separação.
Uma das coisas que me deixa pasma nas relações é a forma como um casal se separa com um ódio tremendo entre eles. Como é que isso pode acontecer? Como é que pode haver ódio onde antes havia amor?
Na vida temos que nos trabalhar, educar, aperfeiçoar. Em relação a nós próprios. Mas em relação à Terra somos personalidades da Terra, nela que está a trabalhar-se, educar-se, disciplinar-se. Estão a conseguir entender? Eu perante a Terra e eu perante mim mesma. Nós vamos trabalhando e a Terra vai trabalhando.
Quando nós nos unimos a uma pessoa esquecemo-nos de que antes de namorar com essa pessoa nós já namorávamos com a vida, antes de noivar com uma pessoa já noivámos com a vida, antes de casar com uma pessoa já havíamos casado com a vida para que nesse namoro com a vida, esse noivado com a vida e esse casamento com a vida nós possamos ter um matrimónio com o amor. Porque a meu ver o matrimónio está acima do casamento. Porque o matrimónio é a matriz, o princípio, a união definitiva.
E nesse percurso do caminho vamos aprendendo a amar. Como filha, como mãe, como esposa, como avó, como madrinha. São estes os coloridos do amor, mas tudo é Amor!
Acontece que numa relação homem-mulher temos que entender e aceitar que há casamentos que são para a vida, e casamentos que são experiência. E isto não quer dizer que não acreditemos no casamento, que sejamos contra ele. Pelo contrário. Esta é uma visão de aperfeiçoamento. Enquanto namoramos, noivamos e até quando casamos estamos a aperfeiçoar-nos.
Quando permitimos que chegue ao extremo do ódio, estamos a destruir o amor. Devemos potenciar a separação, assim como devemos potenciar a união. Como diz a letra de uma música portuguesa “ninguém é de ninguém, mesmo quando se ama alguém”. Eu concordo totalmente.
Quando uma relação não está bem há que usar todos os recursos internos, ver a perspectiva de futuro, lembrar todos os bons episódios vividos… mas se se esgotou a experiência, o que fazer?
Continuamos a profanar a relação?
Não. Não devemos. Porque depois terminamos dizendo: foi mau. Mas não, nenhuma relação é má.
Não basta viver a experiência. Temos que aproveitar o fruto dessa experiência. É necessária força e consciência para que se possa continuar a evoluir numa próxima relação. É importante reflectir: quanto da minha personalidade foi trabalhada na relação? Que significou este momento na minha maturação?
Tudo é uma questão de consciência.
Com a tendência de nos querermos agarrar a uma relação, tendo acabado a experiência para ambos, e ainda assim persistirmos em continuar nela, perdemos tudo o que conquistámos. Aí começam as mágoas, os ressentimentos. Começa o discurso de que acabou o amor. Mas o amor não acabou. Na verdade a nossa visão do amor é que não é grande o suficiente. Não vemos o amor como algo superior.
Dentro de cada um de nós estão os elementos que temos de melhorar. Porque a vida conhece-nos mais e melhor do que nós mesmos. Há aspectos em nós que desconhecemos ou que não queremos ver. No entanto a própria alma sabe.
Mas então como é que vamos ter uma relação para a vida?
Amadurecendo. Não rejeitando de forma alguma aquilo que uma relação que não teve continuidade nos deixou; a estrutura que ele deixou connosco. A falta de consciência faz-nos ver as relações de uma forma pequena e dolorida.
Nós, mulheres e homens, esquecemo-nos da força que um homem e uma mulher geram, trabalhando juntos numa direcção. É uma força gigantesca. Uma força para qualquer situação.
Eu tenho um Ideal e preciso de encontrar um companheiro, ou uma companheira, que partilhe esse Ideal. As diferenças irão sempre existir – e ainda bem – mas o Ideal une. É ele que une.
E começamos a escolher os nossos relacionamentos. Conseguimos assim potenciar a vida, conseguimos injectar na vida um raio feminino e um raio masculino, capazes de abrir caminhos para a geração que vem atrás de nós e para nós próprios.
"Dentro de cada um de nós estão os elementos que temos de melhorar. Porque a vida conhece-nos mais e melhor do que nós mesmos. Há aspectos em nós que desconhecemos ou que não queremos ver. No entanto a própria alma sabe."
É que a nossa escolha deve ser baseada em raízes morais, em ideais. Para a grande maioria a escolha deste ou daquele companheiro, desta ou daquela companheira, não está relacionada com ideais elevados ou de crescimento.
As nossas atitudes como homens ou mulheres devem ser da seguinte forma: eu sou pai, ou mãe, mas a minha paternidade ou maternidade, tem que ir além do meu lar. Eu tenho dever para com os meus filhos e esposa, mas tenho um compromisso fora destas paredes. O bairro onde moramos, a comunidade, as crianças, os jovens, os idosos, as pessoas carenciadas… Uma relação não deveria estar apenas ligada aos dois. Para que não fique só Eu, Tu e os nossos filhos. Essa visão, essa postura, faz com que a família sustente a relação e o amor fica restrito.
Kalil Gibran tem um poema muito bonito: Não faças do amor um empecilho. Que permanecendo assim fazemos dele uma barreira.
Não conseguimos ver além dele, não vemos a sociedade. Fazendo o contrário começamos e respeitar-nos. Porque o amor movimenta a vida. Temos que fazer esse movimento. Há que lembrar de lembrar de mim e do outro; e das responsabilidades como homem e mulher.
Quais são os valores que faltam? Generosidade.
E o que falta mais? Heroísmo. Compaixão. Carinho.
E como passar tudo isto para o outro?
De uma forma equilibrada. Os homens deverão servir causas justas e difíceis. Deverão ser heróis, homens se esforçam, que procuram abrir caminhos. Porque na realidade o homem abre caminho para que a mulher venha percorrê-lo com a sua energia e amor. A sua doçura, caridade, beleza, inocência, a eterna educadora.
Alguém se lembrara destas qualidades femininas?
No fundo todos nós sabemos o que temos de fazer para acabar com esta crise das relações humanas.
Deveríamos fazer algo que foi esquecido há muito tempo pela grande maioria e que tem uma força gigantesca: o poder infinito da oração. Esquecemo-nos dessa força poderosa. Que nos dá a fé. Para mim a fé é a esperança em movimento que se cristaliza em acção contínua. Temos que ter fé e agir. A fé sem obra é morta.
Um garotinho que ouviu o seu pai dizer em voz alta, num momento de aflição: “Ai que o meu Pai me abandonou e esqueceu-se de mim”, disse-lhe: - "Há quanto tempo não falas com ele?"
Perguntei-me também há quanto tempo não falava eu com Ele.
Devemos pensar na necessidade de estarmos diante d´Ele e de falarmos com Ele. Conectarmo-nos com Ele dá-nos paz. E alguém que está com Ele contagia os outros.
A oração, pensamento forte, falar em voz alta… isso é forte. E esquecemo-nos disso.
Ao deitar devíamos pedir à Senhora do Amor, à Deusa do Amor, que nos ajude a exercer as minhas funções como mulher e como homem. Ensina-me a encontrar a minha missão na terra. Eu, como mulher, peço-te com toda a humildade que me ensines a encontrar o meu raio. Como homem ajuda-me a dirigir-me para dirigir. Como mulher ajuda-me a educar-me para educar.
Com amor, bondade, compaixão ajuda-me a ver o Amor para além do meu lar. Ajuda-me a ver-me como sou: belo e generoso.
Ensina-me a ver a tua grandeza em mim, para que eu possa ser grande! Ensina-me a descobrir que sou mulher, ou homem, e qual a minha função a realizar na Terra.
Deusa do Amor ensina-me como mulher a ver o meu companheiro como uma alma, no mesmo caminho à procura de conhecimento, evolução e redenção. Ensina-me a amar-me e a respeitar-me. Ajuda-me a amar e a respeitar os outros.
"O desafio que temos neste momento consiste em trazer os valores espirituais de volta a este momento. É aqui e agora que temos este poder. Com Alma. Mas com Alma!"
Como mulher peço-te, ensina-me a ser Dama. Abre-me o coração, os meus ouvidos espirituais, para me ouvir.
Esta é a oração que todos devíamos fazer antes de deitar.
O desafio que temos neste momento consiste em trazer os valores espirituais de volta a este momento. É aqui e agora que temos este poder. Com Alma. Mas com Alma!
Para que quando os vermes da Terra comerem esta carne saibam que se estão a alimentar de matéria cheia, da matéria de alguém que fez aquilo que devia.
E eu serei lembrada. A minha alma será lembrada. Porque as minhas acções são as impressões digitais da minha alma. Se eu faço com alma nunca ninguém esquecerá.
Houve um tal de Cabral que se lançou ao mar, enfrentou tempestades e descobriu um novo continente. Nós podemos ser lembrados como alguém que se lançou ao mar da vida, enfrentou as maiores adversidades que fizeram brotar de dentro dele capacidades que, em condições normais, não teriam aparecido.
As adversidades são uma forma de colocarmos para fora a nossa potência. Deveremos sermos lembrados assim: aquela gente, aquele povo daquela época, amou com toda a força do seu ser, lutou com toda a força do seu ser, fez todos os gestos pequenos e grandes para aconchegar as crianças, para impulsionar os jovens, para acalentar os idosos… e numa época de materialismo, essa gente fez as suas almas descerem à terra e espalharam a sua força moral, de compaixão, amor, ternura, caridade; e essa geração ficou marcada pela geração espiritual que venceu o materialismo, que colocou para fora todo o seu poder, a sua força. Que quando mais ninguém acreditava, acreditaram eles ser possível fazer voltar esses valores espirituais novamente.
Isto lembra-me uma história genial que se passou no Brasil. Um menino na escola quis participar num concurso de banda desenhada; desenhou uma sala grande dividida ao meio por uma parede. De um lado desenhou um grupo de pessoas com diversas profissões: bombeiro, professor, doméstica, etc. Do outro quatro homens de pijama. O grupo de pessoas começou a falar sobre os valores humanos, o potencial do ser humano e as suas qualidades: compaixão, amor, compreensão. Terminaram dizendo:
- Estas ideias são bonitas mas nós não conseguimos. O mundo está muito mal para nós o conseguirmos mudar.
Os quatro homens de pijama observavam, virados para a parede, quando um deles pergunta:
- O que é que eles disseram?
Um outro homem de pijama respondeu:
- Vamos dormir descansados. Eles não acreditam no poder que têm.
Infelizmente o garotinho ficou só em terceiro lugar…
Mas é disto que eu vos estive a falar. Se nós não fizermos nada com o poder que temos, os amos da caverna, esses homens que nos observam do outro lado, de pijama, continuarão a dormir descansados.
Selma Helena do Nascimento