Cristianismo Primitivo: os Gnósticos
Este artigo explora a hipótese de um possível pluralismo doutrinário das igrejas cristãs nos primeiros séculos da nossa Era, antes da verdadeira "revolução cultural", da qual foi responsável a igreja "católica" a partir de Constantino. Documentos encontrados no século passado sugerem a existência de diferentes interpretações relacionadas com o advento de Jesus o Cristo, algumas das quais são muito mais parecidas com as doutrinas orientais do que com as do cristianismo ortodoxo.
ISIS SEM VÉU
Há mais de cem anos atrás, Helena Blavatsky empreendeu um ataque frontal ao dogmatismo religioso e científico do seu tempo na “Ísis Sem Véu”. Nesta obra Blavatsky apresentou ideias reveladoras como:
- O sistema ritual e simbólico do cristianismo tinha sido decalcado dos Mistérios de civilizações mais antigas;
- A igreja primitiva oferecia uma variedade de versões doutrinárias, algumas das quais eram perfeitamente coerentes com os ensinamentos dos Vedas e do budismo;
- Muitos dos documentos originais (Evangelhos) foram destruídos ou alterados;
- A doutrina da "revelação" das escrituras era evidentemente um absurdo, pelas contradições internas, mesmo em relação ao que sobreviveu à primitiva "inquisição". Blavatsky refere-se particularmente às diferenças doutrinárias dos apóstolos Pedro e Paulo.
De qualquer forma, Blavatsky aconselha diferentes aspectos no estudo das religiões.
- As religiões como manifestações históricas, que, como tal, têm o seu desenvolvimento no tempo e no espaço;
- O conteúdo moral dos ensinamentos, adaptados às necessidades específicas de um povo, que tende a misturar-se com os seus costumes específicos;
- A doutrina esotérica de todas as religiões é universal. Esta doutrina é expressada principalmente através de símbolos, atributos e parábolas que têm mais do que um significado.
Muitas religiões, ou melhor, as suas seitas ou Igrejas caíram num absurdo moral e doutrinário ao pretender fundir estes três aspectos num só.
OS EVANGELHOS GNÓSTICOS
“No seu desejo veemente para ampliar os domínios da fé cega, os primeiros teólogos cristãos ocultaram tanto quanto lhes foi possível as fontes da sua ciência, e para o efeito diz-se que lançaram às chamas tantos quantos tratados da cabala, magia e ocultismo que lhes chegavam às mãos, acreditando equivocadamente que com os últimos gnósticos tinham desaparecido os manuscritos mais perigosos deste tipo; mas um dia eles vão dar-se conta do erro, e "extraordinariamente e quase milagrosamente" aparecerão outros documentos genuínos e importantes." (Ísis Sem Véu, Vol. III, 31).
O que se segue é fundamentalmente um resumo comentado de alguns passos do excelente trabalho “The Gnostic Gospels”, da investigadora de religiões Elaine Pagels.
Em dezembro de 1945, um camponês árabe fez uma descoberta histórica surpreendente, no Alto Egito, perto da aldeia de Nag Hammadi. Tratava-se dum pote com quase um metro de altura, contendo treze livros de papiro encadernados em couro dos primeiros séculos da nossa Era. Alguns dos papiros foram queimados, mas outros chegaram ao mercado negro das antiguidades. Autoridades egípcias acabaram por comprar um e confiscar dezena e meia dos livros encadernados em couro, chamados códices, que foram depositados no Museu Copta. No entanto, uma longa secção decimo terceiro códice, que continha cinco textos extraordinários, foi contrabandeada para fora do Egito e vendida nos Estados Unidos. Após uma série de aventuras, este texto foi oferecido como presente ao psicólogo C.G. Jung.
Os manuscritos encontrados são 52 textos-evangelhos, a maioria deles até então desconhecidos, de diversas seitas gnóstico-cristãs que apresentam uma visão doutrinária cristã muito diferente da ortodoxia representada no Credo dos Apóstolos.
Os 52 textos incluem evangelhos cristãos anteriormente desconhecidos. Para além do Evangelho de Tomé e o Evangelho de Filipe, encontramos o Evangelho da Verdade e do Evangelho dos Egípcios, que se auto-identifica como "O (livro sagrado) do Grande (Espírito) Invisível". Outro grupo de textos consiste em escritos atribuídos aos seguidores de Jesus, como o Livro Secreto de João, o Apocalipse de Paulo, a Carta de Pedro a Filipe e o Apocalipse de Pedro.
O que o agricultor Muhammad Ali encontrou em Nag Hammadi (em circunstâncias envoltas em crime e mistério ), prontamente se revelou serem traduções coptas cerca de 1.500 anos atrás de textos mais antigos. Os originais tinham sido escritos em grego, a língua do Novo Testamento.
Sobre a antiguidade dos manuscritos existem poucas dúvidas. Testes feitos ao papiro usado para reforçar os forros de couro situam-nos entre 350-400 da nossa Era. Mas a antiguidade do original grego gerou muitas interpretações contraditórias. Algumas delas não devem ser posteriores a 120-150 d.C., uma vez que Irineu, o bispo ortodoxo de Lyon, afirmava por volta de 180 d.C. que os hereges dizem que "eles têm mais evangelhos do que aqueles que realmente existem" e queixa-se de que no seu tempo estes escritos desfrutavam de grande circulação, desde a Gália através de Roma, Grécia e Ásia Menor.
Quispel e os seus colaboradores, que publicaram pela primeira vez o Evangelho de Tomás, sugeriram o ano de 140 d.C. para o original grego. Alguns argumentam que dado que estes evangelhos eram heréticos devem ter sido escritos após o Novo Testamento, datados por volta de 60-110 d.C. (1)
Recentemente o Professor Helmut Koester, da Universidade de Harvard, sugeriu que a coleção de ditos do Evangelho de Tomás, ainda que compilados em 140 d.C., pode incluir algumas tradições mais antigas até do que os evangelhos do Novo Testamento, "possivelmente já na segunda metade do primeiro século d.C. "(50-100), ou seja, contemporâneas ou anteriores a Marcos, Mateus, Lucas e João.
Alguns dos textos narram a história da raça humana em termos muito diferentes da leitura comum do Génesis; O Testemunho da Verdade, por exemplo, conta a história do Jardim do Éden, do ponto de vista da Serpente! Neste texto, a serpente, que aparece com frequência nos textos gnósticos como um princípio da sabedoria divina, convence Adão e Eva a compartilharem o conhecimento, enquanto que o "Senhor" os ameaça de morte, procurando zelosamente evitar que obtenham o conhecimento expulsando-os do Paraíso, quando o conseguem.
O EVANGELHO DE TOMÁS OU AS PALAVRAS SECRETAS DE JESUS
Como exemplo dos textos encontrados em Nag Hammadi, incluímos alguns fragmentos de um dos textos, traduzido e anotado por Jean Doresse: "O texto copta do Evangelho segundo Tomás está contido no maior e mais belo de todos os manuscritos do Chenoboskion, Codex X, no qual o texto ocupa as páginas 32 - 51. Os textos deste códice parecem datar da segunda metade do século IV. Para além do Evangelho contém outros tratados gnósticos importantes; como o Livro Secreto de João, a Hipóstase dos Archons, um tratado semelhante sem título, e, finalmente, uma Exegese da Alma. Também inclui outros textos apócrifos, como o Evangelho de Filipe e o Livro de Tomás ".
Tradução:
"Eis aqui as palavras secretas que Jesus o Vivente falou, e que foram escritas por Dídimo Judas Tomás." Ele disse: "Quem penetrar no significado destas palavras não conhecerá a morte"
Jesus disse: "Que aquele que procura não pare de procurar até que encontre: e quando encontrar ficará surpreendido; e quando ficar surpreendido; questionará-se-á e terá domínio sobre o universo!
Jesus disse: "Se aqueles que te querem seduzir te disserem:" Olha, o reino está no céu!", então as aves encontrar-se-ão diante de ti! Mas o Reino encontra-se dentro de ti e fora de ti! "
"Quando se conhecerem a vocês mesmos, então serão conhecidos, e saberão que são vocês os filhos do Pai Vivente. Mas se não se conhecerem a vocês mesmos, então estarão num estado de pobreza e serão "a pobreza! "...
Jesus disse: "Este céu passará e o céu acima dele passará; mas aqueles que estão mortos não viverão, e aqueles que vivem não morrerão" (Doresse p.p. 353)
OS GNÓSTICOS
Elaine Pagels oferece-nos uma descrição dos gnósticos muito mais interessante do que a dos simples intelectuais sincretistas e fatalistas da Alexandria do final do Império Romano que nos dão outros historiadores cristãos.
No entanto, antes de retornar à sua análise é útil lembrar que antes da descoberta de Nag Hammadi, e da sua publicação no final dos anos setenta, disponhamos de poucos textos originais nos quais basear-nos para julgar as doutrinas gnósticas. A maior parte do nosso conhecimento sobre os gnósticos baseava-se em detractores cristãos ortodoxos, como Irineu (180 d.C.), Hipólito (225 d.C.) e Tertuliano (200 d.C.).
A partir do final do século XVIII os textos do Corpus Hermeticum, de conteúdo gnóstico mas não cristão, foram complementados por outros como o da Pistis Sophia (comentado por Blavatsky em 1890-1891, juntamente com a tradução de GRS Mead e na Lúcifer) declara a temática cristã. Mas os 52 textos de Nag Hammadi representam a mais importante e diversificada fonte para o conhecimento das doutrinas de algumas das seitas gnósticas.
Segundo Pagels, aqueles que escreveram os textos "gnósticos" não se consideravam de forma nenhuma "hereges". A maioria dos escritos usa a terminologia cristã, sem dúvida relacionada com uma herança judaica. Alguns oferecem tradições secretas sobre Jesus, escondidas dos "muitos", que constituem o que, no segundo século, chegou a ser conhecida como "Igreja Católica." Hoje nós chamamos gnósticos a esses cristãos, da palavra grega "gnosis" normalmente traduzida como "conhecimento".
Mas a gnosis não é essencialmente um conhecimento racional. A língua grega distingue o conhecimento científico ou reflexivo ("ele sabe matemática") do conhecimento através da observação ou da experiência ("ele conhece-me"); este último é agnosis. Poderíamos traduzir este termo como "conhecimento profundo", tal como é usado pelos gnósticos, pois agnosis é o processo intuitivo de conhecer-se a si mesmo. E conhecer-se a si mesmo é, de acordo com os gnósticos, conhecer a natureza e o destino humanos. De acordo com o gnóstico Teodoto, que viveu na Ásia Menor (140-160 d.C.), gnóstico é aquele que chegou a compreender:
Quem éramos e em quem nos tornámos; onde estávamos ... de onde viemos; do que fomos libertados; o que é o caminho, e o que é o renascimento.
Mas conhecer-se a si mesmo é, no nível mais profundo, conhecer Deus; este é o segredo da agnosis. Outro mestre gnóstico, Monoimo diz:
Abandona a busca de Deus e da criação e de outros assuntos semelhantes. Procura-os tomando-te a ti mesmo como ponto de partida. Aprende quem é que dentro de ti faz com que tudo seja seu e diz. "Meu Deus, minha mente, meu pensamento, minha alma, meu corpo," Conhece as origens da dor, do amor, do ódio... Se investigares com cuidado estas coisas encontrar-te-ás em ti próprio.
DIFERENÇAS ENTRE AS DOUTRINAS GNÓSTICAS E A ORTODXIA CRISTÃ
Aparentemente, o que Muhammad Ali descobriu em Nag Hammadi é uma biblioteca de textos, quase todos gnósticos. Embora pretendam oferecer ensinamentos secretos, muitos dos textos referem-se às escrituras do Antigo Testamento, e outros às cartas de São Paulo e aos Evangelhos do Novo Testamento (Jesus e os seus discípulos). No entanto, as diferenças doutrinárias são importantes:
Os judeus e os cristãos ortodoxos insistem que uma cisão separa a Humanidade do seu Criador. Deus é totalmente outro. Mas alguns dos gnósticos que escreveram estes evangelhos contradizem esta noção: o conhecimento de si mesmo é o conhecimento de Deus; o ser individual e o divino são idênticos.
O Jesus destes textos fala de ilusão e iluminação, não de pecado e arrependimento, como o do Novo Testamento. Em vez de vir para nos salvar do pecado, vem como guia que abre o caminho a uma compreensão espiritual: os dois tornam-se iguais; mesmo idênticos.
Os cristãos ortodoxos acreditam que Jesus é Senhor e Filho de Deus de uma forma única, sempre distinto da Humanidade que veio salvar. No entanto, o Evangelho de Tomás relata que Tomás o reconhece, Jesus disse-lhe que ambos receberam o seu ser da mesma fonte.
Depois de descrever essas diferenças doutrinárias, Pagels pergunta-se se essas doutrinas não são mais parecidas com as orientais do que com as do cristianismo que conhecemos:
Poderia a tradição hindu ou budista ter influenciado o gnosticismo? Edward Conze sugere que a resposta é afirmativa, e que "os budistas tiveram contato com os tomasianos cristãos" (ou seja, os cristãos que conheciam e usavam textos como o Evangelho de Tomás) no sul da Índia. As rotas comerciais entre o mundo greco-romano e o Extremo Oriente foram abertas no momento do florescimento do gnosticismo (80-200 d.C.), e durante várias gerações, os missionários budistas ensinaram em Alexandria. Considere-se também que Hipólito, autor cristão que sabia grego, escreveu em Roma, por volta de 225 d.C., sobre os brâmanes da Índia; e incluiu a sua tradição entre as fontes heréticas:
"Há (...) entre os Indianos uma heresia daqueles que filosofam entre os Brâmanes, que vivem uma vida auto-suficiente, abstendo-se de comer criaturas vivas ou alimentos cozinhados ... Dizem que Deus é luz, não como a luz que vemos, ou o sol ou o fogo, mas para eles Deus é discurso, não aquele discurso que encontra expressão em sons articulados, mas aquele conhecimento (gnosis), através do qual os mistérios secretos da natureza são conhecidos pelo sábio. "
JUNG E A CRÍTICA DA ESPIRITUALDADE CRISTÃ OCIDENTAL
A descrição do gnosticismo que faz Elaine Pagels lembra-nos a crítica que faz Jung da espiritualidade cristã, que classifica como fundamentalmente "extrovertida":
O Ocidente cristão considera o homem totalmente dependente da graça de Deus, ou, pelo menos, da Igreja como instrumento exclusivo e sancionado pela divindade para a redenção do homem. O Oriente, ao contrário, insiste que o homem é a única causa do seu desenvolvimento superior, pois acredita na auto-libertação...
(Em contraste com o Ocidente) a Graça vem de outro lado; em todo o caso, vem de fora. Qualquer outro ponto de vista é simplesmente herético. Por isto, é compreensível que a psique humana sofra de subvalorização. Todo aquele que se atreve a estabelecer uma ligação entre a psique e a ideia de Deus é imediatamente acusado de "psicologismo" ou de "misticismo" mórbido.
Jung afirma que a "extroversão" religiosa básica do Ocidente é uma manifestação do seu temperamento psicológico. No entanto, nós perguntamo-nos o que teria acontecido se tivesse prevalecido a visão gnóstica do mundo. Esta extroversão extrema que se polariza e seculariza com o protestantismo é uma das grandes doenças intelectuais do Ocidente e, possivelmente, uma das raízes do materialismo dialético e das doutrinas que justificaram os diversos holocaustos deste século. O inconsciente coletivo, desprovido de luz, voltou-se sobre o mundo com uma violência sem precedentes para precipitar-nos numa nova Idade Média, mais obscura... mas, paradoxalmente, mais humana na sua espiritualidade instintiva e infantil...
Harry Costin
Bibliografía:
Helena P. Blavatsky. Commentary on the Pistis Sophia. In Collected Writings. Vol. XIII.
Helena P. Blavatsky. Isis sem Véu. Tomo III. Editorial Eyrás. Madrid. 1977.
Jean Doresse, The Secret Books of the Egyptian Gnostics. Inner Traditions Ltd. Rochester, Bermont. 1986.
Carl G. Jung, Psychological Commentary of The Tibetan Book of the Great Liberation, Collected Works, Vol. II. pp. 759-787. Bollingen. N.Y. 1959.
Elaine Pagels, The Gnostic Gospels. Vintage Books. N.Y. 1989.
Kurt Rudolph, Gnosis: the Nature & History of Gnosticism. Harper. San Francisco. New York. 1987