De que fontes éticas precisa uma nova economia?
A crise que se estabeleceu entre nós, o seu grande alcance e longo prazo provocou que o estabelecimento de alternativas económicas ao sistema capitalista. No entanto, pode não ser apenas uma mudança de sistema o que precisamos, mas algo que também implique os seres humanos que vivem dentro desse sistema.
Quando em 2008 entra em crise profunda o sistema financeiro mundial, a raiz do colapso das hipotecas subprimes americanas e o derrube dos gigantes financeiros como o Lehman Brothers, teve-se a noção de que o sistema capitalista estava esgotado e que era necessário encontrar um novo modelo económico e com ele levantar as maltratadas economias, locomotivas da economia mundial e, por aí, as do resto do planeta.
Houve politólogos, economistas e sociólogos que apontam para a situação como uma nova oportunidade para enterrar um sistema económico, o capitalista; para pôr em marcha um novo, que não só estancava as graves feridas das finanças globais, mas que também serviria para solucionar os graves problemas das desigualdades sociais, crescimento insustentável e colapso ambiental, que existem em todos os países, e cuja causa reside precisamente no capitalismo ganancioso, por parte de numerosos intelectuais e pensadores.
Não obstante, tal como muitos economistas previram, o capitalismo teve a capacidade de recriar-se novamente e como a ave Fénix, parece que ressurge das suas cinzas, de acordo com os dados do crescimento das principais economias do mundo. Sem cair em demagogia que todo o capitalismo é mau, deve-se reconhecer-se no entanto que este sistema produz um terreno fértil para que tudo possa ser justificado em prol do lucro, incluindo aquilo que afecta negativamente o ser humano, a sociedade e a Natureza.
"(...) Ninguém quer sacrificar o seu nível de vida, real ou potencial, baseado no consumo, em prol de uma economia mais justa e sustentável. Todos nós esperamos que seja o outro, aquele que vai mudar.(...)"
Então por que é que não prosperou a elaboração das bases teóricas, científicas e intelectuais de um modelo substituto do modelo capitalista? Uma resposta imediata é muito evidente: o próprio sistema e os seus principais beneficiários, os grandes capitais e o seu cenário, os mercados, desactivam qualquer tentativa de suplantação. Mas, e quanto aos outros actores sociais? Aprendeu-se a lição? Será que vão mudar as nossas decisões, as nossas aspirações na vida, quando sairmos da crise?
Mudar as regras de jogo
Em Espanha, em 2011, surgiu o Movimento 15-M, de indignados e descontentes com a situação e a falta de resposta política para a sua solução. Para muitos, foi a esperança de uma mudança, de uma volta de cento e oitenta graus, que acabou esvaziado e desacreditado pelo próprio sistema. No âmbito académico, M. Mohammadian (2008) propõe a Bioeconomia, como a economia da terceira via; e a nível também teórico, mas descendo um pouco mais ao plano da realização Christian Felber (2012) planeia a Economia do bem comum; para dar exemplos de algumas propostas alternativas. Por que não foram elaboradas novas propostas económicas na maioria da sociedade?
Possivelmente, quando sairmos da crise continuaremos a tomar as mesmas decisões imprudentes, teremos a mesma forma consumista de ver a vida e talvez tenhamos desperdiçado uma boa oportunidade para começar a mudança de um sistema que está esgotado. Porquê? Seguramente porque a maioria das propostas económicas alternativas, a maioria dos movimentos de cidadãos partem de um pressuposto que é falso: o de que a mudança ocorre fora do indivíduo, que a mudança se limita a alterar as regras do jogo, que a transformação tem por base uma renovação das estruturas sociais, sem necessidade de transformar o interior do indivíduo.
No final do século XX, D. Meadows, D. Meadows e J. Randers (1992) elaboraram um conjunto de simulações com a ajuda do programa informático World 3, nas quais utilizavam as variáveis que afectam o desenvolvimento da Humanidade (população, recursos renováveis e não renováveis, poluição, produção de alimentos, produção industrial, a fertilidade e o abandono da terra, produção de serviços, emprego);e como elas se relacionam entre si, geraram diferentes cenários para a humanidade em função de diversas magnitudes destas variáveis; e acabavam sempre por resultar em derrapagens que davam origem a colapsos ambientais. O único cenário no qual o sistema aguentava era aquele em que, para além de toda uma série de medidas, como o uso de energias renováveis, a limitação da natalidade ou o uso de tecnologias eficientes, se reduzia o consumo per-capita.
Mas como reduzir o consumo individual numa sociedade cujo ideal de vida é baseado no próprio consumo? A decisão deve ser voluntária, porque não funcionaria por imposição; mas quem decidiria renunciar às aspirações das nossas vidas, de ter, de possuir, de aumentar a quantidade de elementos e bens que queremos que nos proporcionem bem-estar e felicidade? Ninguém quer sacrificar o seu nível de vida, real ou potencial, baseado no consumo, em prol de uma economia mais justa e sustentável. Todos nós esperamos que seja o outro, aquele que vai mudar. Na Europa, quando meditamos sobre a excessiva pegada ecológica do homem, olhamos com pavor o ritmo de crescimento e a procura de recursos naturais de países como a China ou a Índia, mas nós não nos propomos reduzir a metade o nosso consumo, o nosso nível de vida.
Alternativas ao consumismo
Portanto, os movimentos dos cidadãos, teorias económicas com a bioeconomia e propostas como a economia do bem comum, têm como principal travão, para além da lógica do próprio sistema capitalista, a resistência de cada um, a perder o que tem ou a possibilidade de tê-lo. Porque é a única forma de vida que conhecemos.
"(...) Faz falta uma proposta de mudança interior do próprio indivíduo, que vá na direcção da justiça social e da sustentabilidade, que buscam estes modelos alternativos. Mas que mais podemos fazer? (...)"
Há uma certa ingenuidade nas tentativas de conceber modelos alternativos, ao acreditar que eles irão ser recebidos de braços abertos pelos cidadãos, ao acreditar que quando se lhes propõe "reduz aquilo em que colocaste a tua busca da felicidade", se lhes vai dar importância.
É necessário reduzir ainda mais o grau de elaboração dos modelos alternativos ao capitalismo insustentável social e ecologicamente, e rever a partir de que ideal de vida se parte e a que ideal de vida se quer chegar. Todo o ser humano busca a felicidade e se o padrão de alcance da felicidade está na satisfação de anseios e desejos e na posse de bens, não podem propor-se alternativas socioeconómicas que levem a virar as costas a este ideal de felicidade, sem propor outro em alternativa.
Dito de outra forma, não se pode planear a desconstrução de um sistema que foi concebido por e para o consumo como um modo de vida, sem vislumbrar outro ideal de vida diferente. Estamos a falar de horizontes interiores, que têm a ver com as próprias características essenciais do ser humano.
Faz falta uma proposta de mudança interior do próprio indivíduo, que vá na direcção da justiça social e da sustentabilidade, que buscam estes modelos alternativos. Mas que mais podemos fazer? Que outra opção existe para encontrar a senda que conduz à felicidade, à satisfação? Por outras palavras, qual é o percurso ético que deve conduzir ao ponto de partida destas propostas socio-económicas alternativas?
A própria análise da complexidade do ser humano e do conjunto de necessidades que há que satisfazer, fornece bons indícios de quais as opções que temos, para além do consumo. Sendo o ser humano um sistema complexo, quiçá seja a filosofia clássica que esteja em melhores condições de abordar a complexidade humana, uma vez que a filosofia contemporânea, ao mimetizar-se com o reducionismo cientificista de considerar o ser humano apenas como uma máquina, pode carecer de perspectivas adequadas para uma visão holística da espécie humana.
"(...)Poderia adaptar-se uma versão da famosa frase do frontispício do Templo de Apolo em Delfos: "Conhece-te a ti mesmo, e poderás organizar a tua casa de uma forma justa e sustentável." (...) "
As fontes éticas de que uma nova economia precisa encontram-se na filosofia; que contempla o ser humano como um ser complexo e, portanto, está em condições de definir que outras alternativas haverá para o consumismo. Sem resolver esse problema, é impossível planear de forma realista novos modelos socio-económicos, mais justos e sustentáveis.
É possível encontrar alternativas ao modelo consumista do alcance da felicidade, que se baseie no fluxo contínuo de recursos materiais e energéticos que requerem os bens manufacturados que consumimos, em troca de dinheiro, de capital (inclusive a satisfação dos sentimentos ou dúvidas necessita de uma boa parte desses bens). Poderia adaptar-se uma versão da famosa frase do frontispício do Templo de Apolo em Delfos: "Conhece-te a ti mesmo, e poderás organizar a tua casa de uma forma justa e sustentável."
Há todo um itinerário que se pode percorrer para que cada um encontre as suas potencialidades, os seus tesouros interiores, a melhor versão de si mesmo. A partir desta posição é necessário menos para se ser feliz e podem tomar-se melhores decisões. Uma sociedade composta por um número crescente de cidadãos, que está no caminho de chegar à melhor versão deles próprios, de desfrutar da excelência dos seus valores, está em condições de chegar a albergar modelos socio-económicos mais justos e sustentáveis. Tal como já apreendemos das teorias sociais de Platão, ou Confúcio, a sintonia entre a sociedade e o indivíduo permite que o desenvolvimento e a excelência dos indivíduos tenham o seu reflexo na excelência da sociedade e vice-versa.
As fontes éticas que a filosofia à maneira clássica proporciona, ou seja, a que é capaz de operar transformações individuais, na medida em que se aplica, tal como Delia Steinberg (2005) explica, podem vislumbrar alternativas ao modo consumista de conceber a vida.
Só a partir daqui podem ter êxito os modelos que propõem um cenário social mais justo e uma economia mais sustentável.
Manuel Ruiz Torres
Na revista Esfinge, Junho 2014
Bibliografia:
Christian Felber (2012).La economia del bien común. Editorial Deusto, Barcelona.
Donella Meadows, Dennis Meadows e Jorgen Randers (1992). Más allá de los límites del crecimiento. Editorial El Pais-Aguilar, Madrid.
Mohammadian Mansour (2008). La Bioeconomía: economía del tercer camino. Editorial Personal, Madrid.
Delia Steinberg (2005). Filosofía para vivir. NA Editorial, Madrid.