Decálogo para um Idealista
Para Dentro |
Para Fora |
Nós mesmos 1 |
6 Os outros |
Saber amar 2 |
7 A entrega |
Ser ético 3 |
8 O instante |
Ser estético 4 |
9 A história |
Ser ponte 5 |
10 A militância |
Resulta difícil de adivinhar qual será a linha de pensamento do século XXI, e como as novas gerações poderão superar o lastro do materialismo do século passado, de maneira a conformar um critério de pensamento ubíquo que sem desdenhar o mundo que os sustenta, possa acariciar novas utopias e novos projectos dignos de ser transladados para as ocupações do quotidiano.
Com efeito, no final do segundo milénio, começaram a destacar-se grupos de seres humanos dispostos a remar contra a corrente, que aspiram a conceptualizar na sua estrutura de pensamento algo mais do que o regime de vida quotidiana, que a sociedade mecanista do seu tempo parecia impor-lhes, e fazem-no sem negar ao mesmo tempo a realidade que os envolve.
Como disse Jorge Ángel Livraga, “devemos entregar-nos à corrente de vida, remando com fervor na nossa barca, mas sem negar o rio que nos sustenta”.
Estes novos filósofos parecem desprender-se do modelo materialista e aproximam-se à procura de uma nova arquitectura mental, em que se destaca, no individual, a ausência de egoísmo, e no colectivo, a solidariedade.
À medida que estes novos intentos de pensamento fraternal se estenderam, surgiu um comportamento que poderíamos denominar de transcendência natural, que se bem teve que enfrentar a inércia do seu tempo, parece ganhar terreno de um modo decisivo sobre o horizonte do novo milénio.
"Como disse Jorge Ángel Livraga, «devemos entregar-nos à corrente de vida, remando com fervor na nossa barca, mas sem negar o rio que nos sustenta»."
Nesta linha são aplicáveis as palavras de Delia Steinberg Guzmán, quando afirma que “viver significa dar lugar ao espírito nos nossos dias, nos nossos meses, nos nossos anos, dar-lhe lugar nas nossas palavras, deixar que nos acompanhe nos nossos passos”.
Este modo distinto de entender a vida, que sem nega-la transcende de maneira quotidiana, de modo natural, predetermina um novo idealismo diferente em alguns conceitos ao dos românticos do século XIX.
Dentro desta nova perspectiva, haveria que elaborar um guia de comportamento que assinalasse certas pautas necessárias para afrontar com êxito o que chamámos transcendência natural.
Para isso haveria que partir de uma dupla perspectiva que permitisse ao futuro Idealista convocar a matéria e o espírito, o interior e o exterior, nós próprios e os outros, com o fim de conjurar os erros que levaram o ser humano a parcializar-se e o tornaram incapaz de adquirir um sentido global das coisas.
Com o fim de sistematizar a tarefa, elaboramos um decálogo, em que se determina as bases do comportamento quotidiano, onde instrumentalizamos cinco ferramentas que nos permitem trabalhar connosco mesmo, e cinco que nos servem para chegar aos outros, de tal maneira que possamos utilizar a dupla face de cada uma delas, como se desenvolvessem em duas colunas paralelas. Na primeira estariam as que nos servem para a introspecção e na segunda as de extroversão.
"O primeiro ponto do decálogo deve ser a busca de nós mesmos."
Devemos partir da base de que nenhum dos conteúdos deste decálogo encerra algo de novo; são aspectos conhecidos que estão no homem desde o começo da sua evolução, e foram recordados por todas as filosofias. Quem sabe, se a originalidade desta tabela, se é que a tem, resida nas suas combinações, e o modo como as agrupámos. Como nos recorda o I Ching, a vida é uma permanente mutação, tudo está em movimento e tudo se combina.
Desenvolvimento
Devemos começar por nós próprios, em direcção ao interior, pois caso contrário jamais saberíamos como chegar aos outros. Desde o interior é como devemos empreender o caminho até fora. O caminho inverso não faria mais que do que fazer-nos ficar perdidos e impossibilitar-nos-ia descobrir a nossa identidade. Para estar no externo e poder ajudar os outros, devemos, em primeiro lugar, saber quem somos realmente.
Senão, desapareceríamos no colectivo e, em vez de contribuir para algo útil aos membros da sociedade, esta nos massificaria.
Para Dentro
1. O primeiro ponto do decálogo deve ser a busca de nós mesmos.
Com efeito, o segredo de todas as coisas e do Universo encontra-se no nosso interior. Não é em vão que no Oráculo de Delfos rezava a máxima gnosce te ipsum (conhece-te a ti mesmo), já que o conhecimento do Todo reside no segredo do interior. Trata-se da mesma ideia do ie acher ie dos antigos cabalistas, quer dizer, “eu sou o que sou”, que ensina a buscar o centro de todas as coisas na ideia interior que habita nelas.
A busca deste ponto de encontro interior deverá ser o ponto de partida de todo comportamento que pretenda ser transcendente.
2. O segundo ponto é saber amar. Uma das primeiras descobertas que realiza aquele que participa da busca interior é a ideia do amor.
O amor é uma força que nos une de maneira permanente aos nossos semelhantes e à divindade. Deste modo, quando há introspecção, sempre surge o amor.
3. O terceiro ponto do nosso decálogo é sermos éticos. O comportamento é o resultado dos nossos pensamentos, pois os seres humanos, de um modo ou de outro, com maior ou menor consciência, são resultado do que fazem com os seus pensamentos. Da busca de nós mesmos e da descoberta da nossa capacidade de amar o transcendente, não pode surgir outro comportamento que não seja a manifestação do que é bom e justo. Como indicava no Oriente a Filosofia Budista, o desenvolvimento do nobre caminho óctuplo, tudo deve levar a um “modo de vida recto”. A ética é a capacidade de discernir entre o correcto e o incorrecto, entre o justo e o injusto.
O idealismo do recente milénio deverá ser dirigido para uma busca fervorosa do ético, já que será este o caminho decisivo para encontrar a via de retorno para uma sociedade mais solidária.
4. O quarto ponto será cultivar o estético. Como nos recordam os pensadores gregos, os arquétipos mais próximos da divindade eram “o bom, o belo e o justo”.
Se no ponto anterior desenvolvemos, como resultado de um comportamento ético, o bom e o justo, será oportuno, para nos desenvolvermos integralmente, cultivar os valores estéticos. Aqui devemos ter em conta que belo não é o que determinam as modas em cada momento, mas o equilíbrio das formas. Não devemos renunciar à busca da beleza, já que esta é, também, uma arma para combater a decadência, quando as formas se debilitam.
5. O último ponto desta nossa introspecção, o quinto ponto deste decálogo, é a capacidade de fazer pontes.
Todo o ser humano é um pontífice (uma ponte) entre os homens e si mesmo, entre a divindade e a Natureza.
No Ocidente atribui-se às antigas tradições egípcias, e posteriormente pitagóricas, a ideia de que sobre toda a pirâmide e triângulo visível se apoia, por sua vez, uma outra pirâmide ou triângulo invertido, e que perante a natureza visível da primeira, a segunda é invisível. A tradição Zen apresenta-nos uma ideia semelhante:“quando chegares ao cume de uma montanha, continua a subir”. De tal maneira, o homem capaz de colocar o seu estado de consciência na cúspide da pirâmide visível, não só poderá captar a presença dessa pirâmide virtual, invertida, mas também transmitir o que o resto não consegue vislumbrar. O ser converte-se em ponte, um pontífice entre o visível e o invisível, uma “cana oca” com a possibilidade de transmitir a todo o instante a força do “eu sou”. Esta força é a que, talvez, justifique aquele antigo adágio que diz: “só os que são capazes de ler no invisível, são capazes de fazer o impossível”.
"O amor é uma força que nos une de maneira permanente aos nossos semelhantes e à divindade. Deste modo, quando há introspecção, sempre surge o amor."
Para Fora
6. O primeiro ponto da segunda coluna é o sexto ponto do decálogo. Assim, o primeiro ponto da primeira coluna era “nós mesmo”, a sua equivalência no externo será os outros.
O certo é que estamos nos outros. A nossa essência é igual à dos outros, uma vez que ali está o ponto de encontro com todas as coisas e todos os seres da criação. O “eu sou” dos outros é da mesma substância que o nosso “eu sou”. A chave do reencontro é que todos somos um.
Isto pode ver-se também na teologia do franciscanismo, quando se estabelece a relação da fraternidade global na ideia do “irmão sol, irmã lua, irmão ser”. E este é o ponto de partida para a fraternidade universal, que deveria ser o leit motif da cultura do terceiro milénio. Se a busca dos nossos próprios enigmas se traduz no colectivo pelo encontro com os outros, a alteridade desvanece o escolho da incompreensão, e surge a verdadeira natureza da fraternidade.
7. O seguinte ponto na segunda coluna é a entrega, e corresponde ao sétimo princípio. Deduz-se do segundo ponto da primeira coluna – saber amar – pois só quem ama desde dentro é verdadeiramente capaz de entregar-se fora. Quando amamos a divindade em nós mesmos, e a confirmamos nos outros e em todas as coisas somos capazes de nos entregarmos aos outros com a força da dádiva e a convicção do serviço.
De algum modo, isto é o que os gregos clássicos representavam em Dionísio, “Deus em nós”. Esse sentimento interior reflecte-se na comunhão com os outros, para dar lugar à epopteia, a exaltação dionisíaca.
Dá-se assim o paradoxo de quanto mais nos amamos, no que em nós há de transcendente, mais deixamos de ser nós mesmos para nos entregarmos, ou melhor, reencontramo-nos com os outros. A entrega humaniza-nos rompendo as barreiras do egoísmo e fazendo-nos sentir a nossa essência em todas as essências.
8. O oitavo ponto é o sentido da história quotidiana, o carpe diem – vive o momento – de que nos falam os clássicos latinos. É o instante preciso, reflexo da eternidade, porque de algum modo o instante, como tal, escapa-se do tempo. O instante é um ponto de eternidade. E é ele que dá sentido ao quotidiano, já que quem descobre a virtude da ética compreende o sentido quotidiano da perfeição, da história de cada momento. É conseguir com que em todos os momentos os nossos actos estejam de acordo com os nossos pensamentos. É aprender a escrever a nossa história em cada minuto, que pelo facto de ser simples e quotidiano não deixa de ser profundo e transcendente.
Em cada momento da nossa vida tece-se nosso destino individual e colectivo; daí que a consciência do instante nos ensine a cuidar, devido ao nosso saber ético, dos mais pequenos detalhes da nossa existência. E isso torna-nos simples e grandes, ao mesmo tempo.
9. O ponto nove, no colectivo, é o valor global da história. Deduz-se do anterior e, por sua vez, nutre-se do estético. A História é uma busca do ético no individual, e o estético no colectivo. Quem aprecia o prazer da estética, descobre que a história da Humanidade é uma luta por alcançar a beleza. Os seres humanos, com as suas obras colectivas, conscientes ou inconscientes, tentam aproximar-se do arquétipo da beleza.
A História é um esforço colectivo por alcançar a beleza, uma vez que de um modo ou de outro todas as coisas e todos os seres a perseguem. E este compromisso com o colectivo, com a Humanidade no seu conjunto e com a nossa envolvência, é o que nos leva ao último ponto de decálogo.
10. A militância. Estamos no mundo para actuar, para colocar a nossa vontade ao serviço de nós próprios e dos outros. Esse acto de vontade inegoísta é o que chamamos “voluntariado”.
Como nos narra Platão na República, quem se libertou da caverna, por acto de liberdade e consciência, deve voltar para ela para ensinar os outros, que ainda estão presos, a via da liberdade. Definitivamente, é a recta acção que nos ensina a Bhagavad-gita. Supõe pôr em prática todos os princípios anteriores que recolhemos no decálogo. Uma boa militância é um bom modo de poder transmitir ao resto dos nossos companheiros de caminho a nossa experiência vital e espiritual. Como o ouroboros, a serpente que morde a sua cauda, o primeiro ponto do decálogo une-se com o último e a nossa busca por nós próprios, a nossa militância interior, traduz-se na mostra do caminho que nos liberta, numa afirmação exterior que é ensinamento e que, dentro das limitações da experiência individual, tende a ser pedagógica e como num caderno bitácula, em um bom catálogo para navegantes.
"Como nos narra Platão na República, quem se libertou da caverna, por acto de liberdade e consciência, deve voltar para ela para ensinar os outros, que ainda estão presos, a via da liberdade."
Adenda
Cada homem e cada mulher têm a sua história, o seu próprio caderno bitácula e, de algum modo, cada um deixou a sua marca e as suas cartas de navegação, que servem para esquivar-se aos recifes, evitar correntes ou marcar roteiro s desconhecidos. Em cada carta há um destino e um estilo, um modo de navegar e uma epopeia, mas em todas há algo em comum, que as une, que as identifica, que as irmana: a navegação. De algum modo, todos que navegaram pelo Ser e os seres, deixaram-nos um estilo de navegação.
Junto aos penhascos do século que acabou, começámos a adivinhar no horizonte o continente do nosso século XXI. Acção inegoísta, solidariedade e tolerância. Dentro e fora, como um caminho dual, uníssono, sem dar primazia a um sobre o outro, identidade e alteridade ao mesmo tempo. Conhecimento de nós próprios e serviço aos outros.
Todas estas palavras são apenas sugestões de navegação no tempestuoso mar do nosso tempo que pretendem alcançar esse idealismo prático dos velhos lobos do mar que pela noite marcam através das estrelas as rotas que vão navegar na vigília, para que na noite do século que acabou encontremos as estelas que nos guiarão ao amanhecer do terceiro milénio.
Diagrama pentagonal: externo e interno
O pentágono configura-se como uma representação do ser humano. A figura pentagonal (6-7-8-9-10) determina-se como uma pegada visível, como um comportamento que é deixado pelas distintas combinações dos dez pontos do decálogo. Assim, o pentágono é visível graças às forças invisíveis que o configuram.
a) Do 1 (nós mesmos) vamos ao 2 (saber amar) e gera-se uma marca de comportamento ao passar pelo 6 (os outros) e o 7 (a entrega).
b) Do 2 (saber amar) vamos ao 3 (ser ético) e deixamos a pegada no 8 (o instante) e o 9 (a história).
c) Do 3 (ser ético) vamos ao 4 (ser estético) e deixamos a pegada no 10 (a militância) e o 6 (os outros).
d) Do 4 (ser estéticos) vamos ao 5 (ser pontes) e deixamos a pegada no 7 (a entrega) e no 8 (o instante).
Extraído da revista cadernos de cultura Nueva Acropolis n.º 293, Dezembro 2001
Juan Manuel de Faramiñán