A Filosofia Secreta em Walt Disney
Dentro do atanor do século XX, convulsivo e caótico, descobrimos uma centelha de beleza, como o claro olhar da estrela da alvorada, lutando pela sobrevivência, confundida na sua massa de metal, ígnea e candente: ouro puro no meio de sombras e escória. É a arte de Walt Disney. Arte, que se destaca no meio de “outras” que se precipitam na irracionalidade, no vulgar e no profano. A arte, que combate as sombras, que defende como uma espada flamejante os únicos ideais que podem manter erecta a alma humana; o Bem, a Verdade, a Beleza e a Justiça.
A missão da arte é através da beleza mudar o mundo, dignificando-o. A arte que não “cristaliza” a beleza, que não eleva a alma, que não a torna melhor, amável e compreensiva, a arte que não verte sobre a alma um orvalho de beleza e mistério, fazendo-a tremer de gozo, tem de arte somente o nome, ou no melhor dos casos, a aparência.
Fixemos a nossa atenção sobre a contribuição de Walt Disney ao mundo:
1. Maior compreensão, ternura e bom trato dos nossos animais domésticos.
2. Estender ao mundo inteiro, contos infantis de grande valor pedagógico.
3. A defesa da verdadeira cortesia, aquela que nasce da alma e que está dirigida para a alma, frente à precipitação dos valores morais e à descida do homem à sua condição animal.
4. Virar naturalmente o olhar de idosos e meninos para um mundo de fadas, duendes e espíritos da natureza que, por certo, não existem só no mundo dos contos, frente ao materialismo mais cru.
5. Tornar evidente uma religiosidade natural, o vínculo natural e a aproximação da alma às fontes de onde brotam a força, o bem e a justiça, frente ao dogmatismo dos distintos credos e igrejas.
6. Defesa da magia como habitat natural da alma humana, como a ciência que outorga ao ser humano a sua verdadeira dimensão.
| "A arte, que combate as sombras, que defende como uma espada flamejante os únicos ideais que podem manter erecta a alma humana; o Bem, a Verdade, a Beleza e a Justiça." |
O dom de Walt Disney foi educar através da beleza. Os miúdos ficam encantados – esta é a magia de Disney – e a sua alma apreende naturalmente verdades imortais, verdades que são como estrelas no nosso firmamento moral. Para as almas sensíveis, a quem longos anos de caminhos extensos fizeram aderir o pó de mil atalhos, o efeito das suas obras é de renovação e de regresso, não à infância, mas ao puro, ao não contaminado, ao recinto secreto das ânsias impossíveis e dos sonhos intactos. E para quem teve a maravilhosa oportunidade de estudar as chamadas “ciências herméticas” as obras de Disney são uma expressão originalíssima e fiel dos seus conhecimentos milenários.
Walt Disney expõe com uma mestria singular, e o que é ainda melhor, chega a dar vida na nossa imaginação a ensinamentos sobre a natureza da alma humana; sobre o fogo mental que faz de uma marioneta de madeira uma alma consciente e, portanto, responsável; ensinamentos sobre a vida dos Elementos – Terra, Água, Ar e Fogo – e os espíritos que os regem, sobre o poder combinado de sons, ritmos e imagens; sobre os arquétipos – no sentido platónico – e as evocações que permitem atrair o seu poder benévolo.
Ensinamentos sobre a prisão do tempo e as armas mágicas que permitem ir para além dela; ensinamentos sobre a arquitectura matemática da vida, sobre o poder dos números, sobre a origem da vida e a origem da consciência, sobre o despertar e o sono da natureza, sobre o amor como a incansável gravidade das almas e dos corpos e sobre os reis, os verdadeiros reis, educados por magos e abençoados pelo céu.
Tudo se ordena, tudo se harmoniza; a vida interior encontra um leito natural e o mais elevado e certo dentro de nós, diz sim e outorga a sua natural aprovação quando, como ocorre com toda a arte verdadeira, nos deleitamos com as obras de Walt Disney.
Quem tenha lido e amado a obra mestra de Mathila Gyka (1881-1965), Geometry of Art and Life, e tenha visto os dez minutos em que Disney expõe a quinta essência deste livro, dentro do seu documentário O Pato Donald no País das Matemáticas, deve inclinar-se ante o génio criador. Aqui se percebe muito bem o metal de que está feito Disney: leu e entendeu o livro – tarefa que não é nada fácil – penetrou nas suas ideias fundamentais, eliminou tudo o que era acessório e deu-lhe uma forma magistral, bela, fácil de entender, divertida e cheia nos seus detalhes de significados profundos.
Queremos chamar a atenção sobre alguns elementos de filosofia secreta presentes nas suas obras. Por exemplo:
Pinóquio é uma alegoria do homem de madeira que se converte no que Platão chamou “homem de metal”. Quer dizer, a transformação daqueles que são como marionetas, sem consciência real e sem motor próprio, naqueles em que a sua consciência é um fogo que impulsiona e ilumina. O mesmo nome Jepeto, o “pai” carpinteiro (1) que fabrica Pinóquio, faz recordar Japeto da mitologia grega, pai de Prometeu, que entregou o fogo mental aos filhos da terra, humanizando-os, divinizando-os. A deusa e estrela a quem se invoca é, sem dúvida, Vénus, tão vinculada, em todas as civilizações antigas à consciência da humanidade. Recordemos, por exemplo, as tradições Aztecas e Maias a este respeito, ou a dos Manasaputras - “os Pais da Mente” - na Índia. A dádiva de Vénus, como uma contribuição electro-espiritual na economia do Cosmos, é quem, dizem as tradições, teria dado à Humanidade a capacidade de idealizar, imaginar e criar, isto é, a capacidade de plasmar os sonhos, de raciocinar estabelecendo comparações e achando um sentido nessas tradições, origem portanto da linguagem.
"Para o investigador, sem fazer julgamentos, a relação de Walt Disney com a Filosofia Secreta é evidente. Uma das suas primeiras obras foi A Deusa da Primavera em que se representa, de um modo humorístico, claro, a cena principal dos Mistérios de Eleusis, a descida de Perséfone aos infernos e a sua mística união com Hades, o rei da Morte e dos Iniciados."
É este “fogo mental” que teria criado uma separação abissal entre os símios e os homens. Este ensinamento, deve ter parecido a Walt Disney tão definitivo para entender a natureza–raíz do ser humano, que a incluiu em várias das suas obras, às vezes, em alegoria e outras vezes, de uma forma mais aberta. Por exemplo, em O Livro da Selva, na famosa cena em que o menino Mowgli e o símio Louie dançam, este quer saber o segredo do “fogo”; implora-lhe que revele aquilo que lhe permitirá ser mais do que rei dos símios, o mais humilde dos seres humanos. As tradições esotéricas hindús afirmam que os símios (mais estritamente falando, os macacos antropóides) são, por não terem conquistado o fogo mental próprio da alma humana, como um lótus que fecha as suas pétalas, quer dizer, a sua evolução chegou a um topo, não podendo ir mais além, à espera de um novo ciclo evolutivo. Ficaram no que os egípcios chamaram a “balança de Anúbis”.
O rei “dos que se balançam” não chega a ser sequer um ínfimo dos “que andam erguidos”. Este é o drama de Louie e assim ele suplica por “the man’s red fire”. Esta cena desenrola-se no meio de uma dança, na Índia sempre símbolo de evolução.(2)
Disfrutemos desta cena e fixemos a atenção no que está sublinhado:
Louie:
Agora sou o rei dos que balançam, ooh
O V.I.P da selva
Atingi o topo e tive de parar
E isso é o que me está a aborrecer
Eu quero ser um homem, cria-humana,
E logo para a cidade passear
E ser exactamente como os outros homens,
Estou cansado de me portar como macaco
Ohh, oobie-do,
Quero ser como tu
Quero andar como tu
Falar como tu,
Vês é verdade,
Um macaco como eu
Pode aprender a ser
Humano também
Mowgli:
Bolas, primo, estás a fazer realmente bem.
Louie:
Agora, aqui está a tua parte do acordo, primo.
Deposita em mim o segredo do fogo vermelho do homem.
Mowgli:
Mas eu não sei como fazer fogo.
Louie canta:
Vamos, não tentes me enganar, cria- -humana
Eu fiz um trato contigo
O que eu desejo é o fogo vermelho do homem
Para tornar os meus sonhos reais
Agora diz-me o segredo, cria- -humana
Vamos lá, dá-me uma dica sobre o que fazer
Dá-me o poder da flor vermelha do homem
Para eu poder ser como tu
Bagheera:
Fogo! Então é isso o que aquele patife persegue.
"Desde sempre ele se identificou com o Rato Mickey, a quem concedeu, em falsete, a sua própria voz"
Em A Bela Adormecida, as três Fadas: Flora, Fauna e Primavera significam, numa chave, as três Parcas da Religião Grega, que tecem o Destino das almas. Mas são também as Três Graças, porque cada uma delas outorga uma benção. Recordemos as Três Graças, sempre juntas nas suas danças espiraladas, Aglae, Eufrosine e Talia; a Alegria, a Beleza e o Entusiasmo, bendizendo os filhos do Céu. A palavra Fada vem do latim Fatum, “Destino” e esta de Hathor, o nome da deusa do amor, na sua face benévola, e do karma (3), na sua face ainda mais benévola. As 7 Hathor, re-presentadas por Sete Vacas – Hathor é o espaço fértil que nutre as almas e os corpos, a grande “Vaca Cósmica”- aparecem em quase todos os templos egípcios e eram as que protegiam o nascimento dos bébés. Representam os Sete Poderes que regem o Cosmos manifestado.
Maléfica, outra “fada”, é o poder do tempo e também outorga o seu dom, que é a das limitações e dificuldades que permitem levar à actividade, as virtudes latentes na alma humana. Evidentemente, nunca é convidada nem celebrada, mas está sempre presente, como a imagem da morte nos banquetes medievais ou como o sarcófago de Osíris no caso dos egípcios. O curso do tempo é a imagem de uma morte sempre presente, porque, como dizia Séneca, começamos a morrer desde o momento em que nascemos. Maléfica, ao representar o Tempo, traz os seus atributos que são os de Saturno: a cor negra como vestimenta e a cor verde como alma e como chama, pois, tal como se expressa nos antigos tratados de magia, a cor esotérica de Saturno é o verde. O corvo como mensageiro, o anel de ônix negro - que é a pedra de Saturno - e o olhar de um amarelo pálido, o brilho e cor que exibe o planeta Saturno no céu. Saturno é o Krura Lochana, o “Olho Maléfico” e a cor do seu olhar foi símbolo de doença desde os tempos mais remotos. A mesma raíz da palavra “amarelo” provém do latim “amaro”, que significa “amargo, triste, doente”.
A roca com a qual é ferida Aurora; a Aurora, é também símbolo do tempo e do seu giro incessante e a idade de 16 anos, na qual a princesa Aurora é picada pela agulha da roca e mergulhada num sono, é o número e a idade da deusa Hathor, tal como explica Horapollo na sua Hieroglífica.
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As dificuldades que o príncipe Filipe deve superar, são as da Iniciação, onde o indivíduo enfrenta as Provas do Tempo. De facto, Maléfica indica-lhe que permitirá que ele saia da prisão em que se encontra para desposar, já ancião, a “Bela Adormecida”(4).
Ela permanece sempre jovem, pois acha-se mergulhada num sono parecido à morte e também porque Aurora (um dos nomes da estrela “de alva”, Vénus) representa a Alma Imortal, a Amada Eterna. E ainda, as mesmas sendas do tempo permitirão o reencontro da alma com a sua divina inspiração, com a fonte da sua luz e bondade. Mas o príncipe, o cavaleiro, o candidato à Iniciação, aspira a mais e é, então, pela pureza das suas ânsias, benzido pelas três Fadas, que simbolizam a Alma da Natureza. Elas concedem-lhe as Armas Mágicas, o Escudo da Virtude e a Espada da Verdade; com elas, o príncipe poderá vencer os poderes do tempo, que foram desafiados. É assim que os sábios descreveram a Iniciação – como uma aceleração do tempo psicológico, a conquista pela vontade, pelo amor e pela inteligência, daqueles tesouros que o tempo reserva aos seres humanos no termo de ciclos e mais ciclos sem fim.
Para o investigador, sem fazer julgamentos, a relação de Walt Disney com a Filosofia Secreta é evidente. Uma das suas primeiras obras foi A Deusa da Primavera em que se representa, de um modo humorístico, claro, a cena principal dos Mistérios de Eleusis, a descida de Perséfone aos infernos e a sua mística união com Hades, o rei da Morte e dos Iniciados. Perséfone é a alma da natureza - a deusa da Primavera - e é também a alma humana. O nome romano do Hades grego é Plutão, precisamente o nome do cão, Pluto, o inseparável amigo de Mickey.
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Na película, Pluto faz de rei dos infernos. Mas o admirável é que Pluto é um cão, o animal-símbolo de Anubis, guia dos mortos e Iniciados nos caminhos do Invisível. Quer dizer, faz do Deus Anubis o rei das profundezas, tal como o entenderam os gnósticos egípcios. Anúbis aparece também representado no lintel da porta de entrada na Montanha Proibida, a morada de Maléfica, em A Bela Adormecida. Não foi em vão que Anubis foi chamado, veja-se Os Mistérios de Ísis e Osíris de Plutarco, - o Senhor do Tempo - quer dizer, o Senhor da Iniciação. Anubis era o Guardião da Montanha do Ocidente e chamavam-lhe “O Grande Solitário da Montanha Ocidental”, a pirâmide de sombras em que se submerge o Sol no ocaso.
As Três Fadas, que ajudarão na “Iniciação” de Filipe, devem entrar através da sua boca e todo aquele que penetre nesta Montanha Proibida fá-lo ante o seu olhar e aprovação. Da sua boca pende uma cadeia – a áurea cadeia dos Mistérios Gregos, símbolo das almas de todos os heróis e sábios, ligação que mantem unidos o céu e a terra? -, cadeia que sustenta a ponte que permite a passagem pela “Porta da Iniciação”.
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Em muitas das obras de Walt Disney os protagonistas são animais mas é a alma destes animais que ele quer representar, quer dizer, a sua virtude e, portanto, os distintos caracteres humanos. Só assim podemos entender a sua declaração: Os animais dos contos não são realmente animais. São seres humanos com forma de pássaros ou de bestas. Desde sempre ele se identificou com o Rato Mickey, a quem concedeu, em falsete, a sua própria voz. Por isso o Rato Mickey foi premiado pela Sociedade das Nações, em Paris, no ano de 1935 como Símbolo Internacional da Boa Vontade, porque Walt Disney era um homem de Boa Vontade e de poderosa eficácia, um místico da arte.
O legado de Walt Disney é uma fonte de águas salutares, mas aprofundar a sua filosofia não é possível apenas no breve espaço de um artigo, pelo que voltaremos a falar sobre o tema em artigos posteriores, numa secção da revista a ele dedicada.
A minha gratidão e seguramente a de todos os leitores, pelo trabalho excelente de Ana Maria Rierola Puigderajols que na sua tese universitária A linguistic study of the magic in Disney Lirics expõe o uso mágico que Walt Disney faz da linguagem. Figuras, ritmos, estruturas sintácticas, texturas (timbres dos distintos idiomas) e canções criam o ambiente psicológico e a evocação para atrair a vida e o poder das suas espiritualíssimas ideias, o fulgor de uma estrela na noite do materialismo em que vivemos.
(1) Num sentido filosófico “Cristos” representa também a consciência da Humanidade e é também “filho de carpinteiro” e Agni é, na religião Védica, o fogo ou quinta essência espiritual da alma humana, sendo também “filho” do Deus Carpinteiro, Vishvakarmán. Ainda quando, verdadeiramente, o seu “pai celeste”, como em Pinóquio, seja uma estrela, a estrela dos magos, a estrela Savanagraha.
(2) Recordemos ao Siva Nataraja, o Siva Dançante que representa a evolução do Cosmos, através da renovação das formas, já caducas. Siva, deus da destruição, é o complemento de Vishnu, Deus da Conservação de tudo o que vive, quer dizer, da alma de tudo o que vive. Siva é o tempo que faz dançar tudo quanto existe, impulsionando tudo para a frente através das mudanças.
(3) A deusa Hathor - Sekhmet, a Deusa Leoa que liberta, às vezes de um modo violento, as almas das suas limitações e do seu estancamento. É, como Siva, o amor que liberta, não o amor que protege. Um amor, na nossa ignorância, nem sempre bem-vindo nem aceite.
(4) Há um poema de Amado Nervo (1870-1919) que, com doce ternura, expressa esta verdade psicológica. Este poeta mexicano soube, como poucos, penetrar nos mistérios da alma e do tempo. É, por antonomásia, o poeta filósofo do século XX. Este poema leva precisamente o nome de “A Bela do Bosque Adormecido” e diz assim:
“Dizei-me, nobre anciã, pela vossa vida:
jaz aqui a princesa que está adormecida,
esperando há dois séculos um cavaleiro?
- A princesa de que falam na tua fábula
sou eu...! Mas, não olhas? Estou muito velha,
já ninguém me procura e a ninguém espero!
- E eu que a tormenta de um mar de pranto
Sulquei... Eu que salvei montes e rios por
Vós! - Ai! Cavaleiro, que desencanto!
... Mas não em vão por me veres sofreste tanto:
os teus cabelos são brancos, como os meus!
Assoma-te ao espelho desta fonte,
Oh, pobre cavaleiro... Tarde vieste!
Mais ainda posso amar-te como uma irmã,
Pousar no meu regaço a tua mente grisalha
E entoar velhas estrofes quando estejas triste...”