As Economias Doentes
Há já muito tempo que se fala de crise. Será que ela existe para todos?
Trinta e sete mil (37.000) multinacionais e as suas cento e setenta mil (170.000) filiais no estrangeiro dominam a economia mundial. Cinco países (E.U.A., Japão, França, Alemanha e Reino Unido) possuem 172 das 200 maiores sociedades multinacionais. De 1982 a 1992 as vendas destas 200 sociedades passaram de 3.000 a 5.900 mil milhões de dólares.
Por outro lado, as dez primeiras só por si detêm um lucro anual de 34,8 mil milhões de dólares, ou seja, quase tanto como as outras 190 (38,6 mil milhões de dólares).
Com a instabilidade económico financeira e as privatizações, essas sociedades encontram novos campos de acção: sectores gigantescos construídos pelo poder público (electricidade, gás, minas, via férrea, transportes aéreos, telecomunicações…).
Na realidade fala-se muito do pensamento único. O que é o pensamento único?
Pensamento único é um sistema de ideias, de valores e de prioridades que fazem do “mercado” o deus, ao qual todos nos devemos submeter e obedecer. Os imperativos de economia de mercado devem inspirar a vida e a ação individual e coletiva das empresas e dos poderes públicos. O problema é que os meios transformaram-se em fins: o mercado atua pelo mercado em si e não para produzir e oferecer, graças à riqueza criada, um bem-estar para todos.
Então isso significa que o Homem foi sacrificado no altar da produtividade?
"Isso significa que nós abandonamos a essência, ou seja, o essencial do Homem. Este pensamento único só vê os objetos, os instrumentos, a eficácia material"
É verdade! Assim, aquilo que é, para um operário despedido, uma tragédia, é, em Wall Street, fator de euforia. Por exemplo, a cotação das acções Xerox cresceram 9% quando esta empresa anunciou, nos finais de 1992, o despedimento de 10.000 empregados. Assim, hoje, o crescimento é sinónimo de criação de desemprego. As catástrofes humanas provocadas por este tipo de crescimento são desprezadas pelos investidores. Isso significa que nós abandonamos a essência, ou seja, o essencial do Homem. Este pensamento único só vê os objetos, os instrumentos, a eficácia material. Ora, o homem não é um objeto mas um conjunto complexo de: amor, ódio, sentimentos, vida em comum, esperança no futuro e herança de experiências a transmitir. As empresas deveriam fazer ganhar mais a coletividade do que a elas próprias. Se não, o que fazer com os lucros quando se provocam catástrofes como a de Saveso, a doença das vacas loucas,(BSE - encefalopatia espongiforme bovina) a poluição, a exclusão sob todas as suas formas? Então, o lucro deve ter, como toda a coletividade humana, uma finalidade superior a si próprio.
Como fazer face a este cilindro compressor da economia mundial?
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É evidente que o sistema de produção enlouqueceu. O comboio perdeu o seu maquinista, mas continua a aumentar a velocidade. Acabará mais cedo ou mais tarde por descarrilar. Atualmente nenhuma força social ou politica parece estar à altura de travar o poder do dinheiro que está na posse das novas oligarquias, assentes em grupos que adquiriram um poder de decisão e controle à margem das formas de representação e de legitimação politicas e sociais dos Estados-nação. É evidente que temos de retornar ao humano. É preciso recuar em relação a esta luta pela sobrevivência que absorve todas as nossas energias. É preciso desenvolver sentimentos de vida interior, independentes da situação económica que nos é imposta à força. É preciso reencontrar as emoções, os sonhos, os mitos que suscitam uma sede de viver, pois a lógica da sobrevivência mata a sede de viver. É preciso reencontrar a nossa criatividade. Reencontrar, comunicar e trocar impressões com o outro, uma vez que é pela riqueza das nossas relações humanas que podemos evoluir muito mais do que pela espessura da carteira. É preciso restabelecer laços profundos com os outros para escapar à lógica da destruição do humano e da nossa sociedade “pós-industrial”.
Giovanni Meneghim
Responsável pelo projecto “Ponte para o Futuro” de ajuda aos países subdesenvolvidos