O Enigma da Assinatura de Cristovão Colombo
“Virão em tardios anos tempos em que o mar oceânico desatará o que está atado e uma grande terra se abrirá, e um novo marinheiro como aquele que foi guia de Jasão, que teve o nome de Thyphis, descobrirá um novo mundo e então não será a ilha de Thule a última das terras”.
(Séneca)
Na caligrafia de Cristóvão Colombo chama a atenção a sua estranha assinatura. Colombo é um homem cheio de mistérios. Qual a sua origem? Qual o seu rosto? (não se conservou nenhum retrato feito em sua vida nem mesmo por um pintor que o tivesse conhecido). Onde repousam os seus restos mortais? (duas cidades os disputam; Sevilha e São Domingos). E chegamos à pergunta: qual o significado da sua assinatura?
Depois da sua caligrafia ter sido analisada, e vendo quantos dados da sua personalidade nos são fornecidos através da grafologia, choca-nos a diferença entre o seu eu social e o seu eu interior. A assinatura mostra que não deseja que os outros vejam o seu eu interior e por isso toda a sua cuidadosa ocultação.
Neste artigo queremos deter-nos nessa enigmática assinatura, na parte simbólica, naquela onde não se chega a penetrar e sobre a qual existem diferentes teorias.
Tem-se dito e divulgado constantemente que não se conservaram escritos e assinaturas anteriores ao descobrimento da América e que nessas jamais aparecem o nome e o apelido. Isto não está de acordo com a realidade tal como vamos poder comprovar. No que se refere à assinatura, encontramos uma sem data, na qual Colombo transcreve as letras C e O. Fá-lo traçando um símbolo ou sinal da direita para a esquerda.
Por motivo do V Centenário da Descoberta da América, retiraram-se do arquivo da Catedral de Sevilha dois códices: “Imago Mundi” de Pedro Ailli e “História Rerum” de Eneas Sílvio Piccolomini. Estes códices contêm cerca de 1.900 anotações feitas por Cristóvão Colombo antes da descoberta da América. A primeira atitude foi comprovar se a letra era a do Almirante. De facto era, com excepção de 3 ou 4 anotações feitas por outra mão, a de seu filho Fernando.
Entre as anotações encontram-se também notas cifradas para que, segundo alguns investigadores, mais ninguém as pudesse entender, mas também não podemos esquecer que o Almirante tinha o hábito de escrever em caracteres cifrados ao seu irmão Bartolomeu, excelente cartógrafo, e ao seu filho Diego.
Outro livro que se vai publicar por motivo do V Centenário, é o “Livro de Marco Pólo”, exemplar utilizado por Colombo e com anotações escritas pelo próprio Almirante.
"A disposição da assinatura em triângulo recorda aos investigadores hebreus as inscrições dos túmulos dos antigos cemitérios judeus em Espanha e no sul de França"
O Anagrama
Muitos têm sido os investigadores do célebre anagrama. Uns baseiam-se no significado das letras da sigla de Colombo, que é um anagrama de sete letras formando uma pirâmide ou triângulo, ao qual é acrescentada depois a palavra Almirante, ou vice-rei, ou “xpo ferens”. Outros investigadores têm-se baseado na disposição geométrica, bem como nos pontos que acompanham sempre a letra S; mas as suas tentativas de decifração não tiveram até agora qualquer êxito.
Subsiste assim sempre o enigma do hieróglifo da sigla de Colombo; uma sigla que ele desejaria que se perpetuasse, como prova a recomendação feita a seu filho Diego, descrita no seu testamento, em que lhe indica como fazê-lo: “firme de mi firma, la cual agora acostumbro, que es una X con una S encima y una M con una A romana con una S encima, com sus rayas y virgulas, como yo agora fago y se parecerá por mis firmas, de las cuales encima, y encima de ella una S y después una Y griega se hallarán muchas y por esta parecerá”.
Esta disposição testamentária do Almirante jamais foi cumprida e nenhum dos seus descendentes voltaria a utilizar a misteriosa sigla como assinatura.
As interpretações são assim muito diversas. As soluções dadas pelos partidários de um significado exacto para estas iniciais, vão desde encontrar-lhe um sentido estritamente religioso até ver nelas referências a projectos de cruzadas contra os muçulmanos para a libertação do Santo Sepulcro, passando pelas iniciais do tratamento de cortesia, correspondente aos seus títulos ou à simples abreviatura do Almirante, como propõe Streicher.
Cristóvão Grande Almirante das Índias.
S
S A S
X M Y
Todos os que tentámos decifrar o simbolismo do anagrama, estamos de acordo que este provém de uma sociedade oculta, embora haja diferenças de opinião no momento de identificá-la. Para uns, significa um sinal oculto da ciência dos judeus; para outros está relacionado com certas sociedades herméticas ligadas aos rituais rosacrucianos ou à doutrina secreta dos Templários, da Ordem de Cristo. Como podemos comprovar, são muitas e variadas as versões dadas ao significado da sigla do Almirante.
A Ciência dos Judeus
Muitos têm sido os investidores que se inclinam para a origem hebraica de Colombo, e neles se inclui Salvador Madariaga. Para o historiador espanhol a transformação do apelido é característica dos judeus, que consideram o nome como algo transitório. Colombo não escreve em italiano e as pessoas que o ajudam na corte são de origem hebraica. Estas são algumas das razões porque Madariaga chega à conclusão de que Cristóvão Colombo era de origem judaica.
Para Madariaga o triângulo significa um sinal da Ciência dos judeus. A interpretação pode transfigurar o anagrama na estrela de David. Além disso, ainda segundo Madariaga, a letra S tem um significado especial para Colombo; com ela assinala nos seus livros de consulta todas as passagens que falam da Judeia ou de Maiorca.
As palavras BET e HAI
O judeu Maurice David, nos anos trinta, chamou a atenção para um determinado sinal nas cartas de Colombo, que ele interpretou como sendo a abreviatura da bênção hebraica “Baruch Haschem” (louvado seja o Senhor) mediante as iniciais de duas palavras: Bet e Hai. Madariaga crê que não se trata de um sinal hebraico porque nas mesmas há uma cruz, e lança a hipótese de que o enigmático sinal representa uma advertência de pai para filho ou uma tradição familiar.
Não devemos esquecer que a cruz nas cartas era vulgar na época, pois significava “em nome de Deus” e aquele que não a pusesse ficava automaticamente sob suspeita.
Simon Wiesenthal não tem dúvida de que o sinal é de facto Bet-Hai e diz:
“Encontrei doze destas cartas que tinham este sinal, mas o que para mim foi decisivo foi uma carta de Colombo, provavelmente já doente, pois sofria de gota, que do seu punho só tinha a assinatura e este sinal Bet-Hai, que os judeus religiosos costumam pôr nas suas cartas”.
Bet-Hai tem dois significados: “ajuda de Deus” ou “louvado seja Deus”. Em nenhuma outra carta de Colombo existe este sinal e eu não sei se se conservaram todas; nota-se também que não é uma letra espanhola ou do idioma espanhol ou italiano, porque todas as suas cartas são escritas da esquerda para a direita, como é normal. Porem o hebraico escreve-se da direita para a esquerda, e neste sinal, ao observá-lo bem de perto, vê-se pela curva que a letra possui, que ele mudou de direcção ao escrever, isto é, que escreveu da direita para a esquerda. É interessante verificar que em todas as suas cartas, em cima e ao centro, ele coloca a cruz, porque naquela época os cristãos tinham esse hábito ao escrever. Mas nas cartas para Diego, seu filho, além da cruz escreve Bet-Hai, que talvez signifique “não esqueças a sua origem”.
"Têm-se dado muitas interpretações, mas nenhuma definitiva. O Almirante nunca descodificou a sua cabalística assinatura, que permaneceu famosa através dos séculos pelo enigma que encerra e continuará seguramente a dar que falar por muito tempo"
Em todas as cartas que escreveu ao seu filho Diego nos últimos anos da sua vida encontramos o mesmo sinal, traçado da mesma maneira, da direita para a esquerda, segundo o modo semítico, e situado no mesmo lugar. Só nas cartas em que coloca o sinal Bet-Hai figura a assinatura “XPO FERENS”. Nas cartas para Diego onde este sinal não aparece, encontra-se o mesmo triângulo, mas de base diferente, e Colombo assina “O Almirante”
A disposição da assinatura em triângulo recorda aos investigadores hebreus as inscrições dos túmulos dos antigos cemitérios judeus em Espanha e no sul de França.
A Leitura das Letras
Os partidários da ascendência hebraica de Colombo estão de acordo quanto à leitura das letras utilizando palavras hebraicas, ordenadas da direita para a esquerda e traduzem-nas como “Senhor, Senhor Deus Senhor, Deus tem piedade”.
Em contrapartida, da parte cristã existem diversas teorias. Washington Irving dedica um enorme livro ao Almirante com o título “Cristóvão Colombo”, no qual diz: “Como tudo o que se refere a Colombo tem imenso interesse, a sua assinatura tem dado margem a várias discussões”. Sobre a assinatura, Washington Irving diz: “A primeira metade da assinatura, XPO (por Cristo) está em letras gregas; a segunda, FERENS, está em latim, como era uso naquela época, e ainda presentemente se usa em Espanha nas assinaturas e inscrições letras gregas e romanas”.
As iniciais que servem de pré-assinatura fazem supor a representação de uma expressão piedosa. Para as ler deve-se começar pelas letras inferiores e coordena-las com as de cima. G. Batista Spotorno acha que significam o Xristus (Cristo), Sancta Maria, Josephus, ou salva-me, Xristus, Maria, Josephus. “La Revista del Norte de América” de Abril de 1827 indica a substituição de Jesus por Josephus, que parece dar um certa base ao que Spotomo sugere.
Era hábito antigo em Espanha e que ainda não passou de todo, acompanhar a assinatura com algumas palavras de significado religioso. O objectivo era indicar que aquele que escrevia era cristão, coisa da maior importância num país onde judeus e muçulmanos eram proscritos e perseguidos.
D. Fernando, filho de Colombo, dizia que seu pai, quando pegava na pena e escrevia, começava sempre: “Jesus cum Maria, sit nobis in via…”
Sociedades Herméticas
O português Barbosa S., não pondo de lado a cabala hebraica, analisa outra possibilidade, a presença dos ternários três obtendo assim uma cruz de cinco braços, característica de certas sociedades herméticas. Barbosa crê que o simbolismo pode pertencer a certos ritos rosacrucianos ou à doutrina secreta dos templários.
Mais categórico nas suas interpretações é o também português Mascarenhas Barreto, que assegura ter encontrado a chave ao aplicar a alquimia templária. Para Mascarenhas, o anagrama é uma sigla sefirótica telúrica, pertencente à linguagem utilizada pela Ordem de Cristo, sociedade mística semi-secreta. O historiador português afirma que a assinatura de Cristóvão Colombo procura ocultar a sua verdadeira identidade e a sua militância na Ordem de Cristo.
Têm-se dado muitas interpretações, mas nenhuma definitiva. O Almirante nunca descodificou a sua cabalística assinatura, que permaneceu famosa através dos séculos pelo enigma que encerra e continuará seguramente a dar que falar por muito tempo.
Departamento de Grafo psicologia da Nova Acrópole