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Entrevista a José Carlos Fernández sobre Florbela Espanca

 

Como se interessou pela personagem e pela obra de Florbela Espanca?
Quando cheguei a Portugal no ano de 2004 comecei a interessar-me pela sua literatura, que desconhecia. Um dia, numa biblioteca encontrei uma fotobiografia dela, escrita por Rui Guedes, que foi quem dedicou verdadeiramente a sua vida a retirá-la do esquecimento em que se encontrava, editando a sua obra completa (Poesias, Cartas, Contos…). Ao ler os poemas, fragmentos de cartas e narrações, fiquei estupefacto. Especialmente pela beleza dos seus versos, pela sua graça e musicalidade, e pelo poder de evocação das suas metáforas. E pelo modo como o Amor esvoaçava nos seus versos, insaciado e insaciável, ainda que nostálgico, sempre generoso e terno levando-nos com as suas poderosas asas a um céu de vivências estéticas. Chegou-me imediatamente à memória a poetisa Safo, a quem Platão chamou a Décima Musa.

 

Pode mencionar qual é o seu poema preferido?
Bom, para mim escolher um entre os seus poemas é tão difícil como eleger entre uma pintura ou uma obra de música clássica. Parece-me, também, que em cada momento há um poema que quer sussurrar-nos a sua beleza e verdade oculta, e nesse momento é esse e não outro qualquer que nos maravilha.

Há um que a retrata como nenhum outro, é“Versos de Orgulho”,editado postumamente no livro Charneca em Flor, é um poema que nos pode ajudar como a ela, a não nos esquecermos de nós mesmos, do céu que trazemos à terra. Pois o que enobrece a vida é sempre o mistério que brota do profundo da alma, a embeleza e dignifica.

O Mundo quer-me mal porque ninguém
Tem asas como eu tenho! Porque Deus
Me fez nascer Princesa entre plebeus
Numa torre de orgulho e de desdém!

Porque o meu Reino fica para Além!
Porque trago no olhar os vastos céus,
E os oiros e os clarões são todos meus!
Porque Eu sou Eu e porque Eu sou Alguém!

O mundo! O que é o mundo, ó meu amor?!
O jardim dos meus versos todo em flor,
A seara dos teus beijos, pão bendito,

Meus êxtases, meus sonhos, meus cansaços...
São os teus braços dentro dos meus braços:
Via Láctea fechando o Infinito!...

 

Qual podemos destacar como a obra mais importante?
Ela mesmo reconhece que é Charneca em Flor, o seu último livro de poemas, que foi editado poucos meses depois dela morrer. Nele reúne os poemas escritos durante os últimos anos da sua vida, os seus poemas de maturidade estética e vivencial. Guido Battelli reuniu uma série de poemas que por serem demasiado íntimos, ela não quis reunir em outras coleções. Trata-se de Reliquiae, que é, junto com Charneca em Flor,um momento de sublime beleza.

 

Qual é a importância da poesia de Florbela Espanca na literatura portuguesa?
Hoje em dia é a poetisa mais amada tendo alcançado a categoria real de Musa, como é chamada às vezes, ou de Dama do Alentejo. Por desgraça, mais amada pela gente do que pelas Academias. Segundo a minha opinião, e já percorri Portugal dando conferência sobre isto mesmo, considero-a a melhor poetisa, não só do século XX, mas também da literatura portuguesa dos todos os tempos, sem nenhuma dúvida. Há um modo de comprovar que é assim: É difícil assistir neste país a um recital de poesia em que não se digam os seus versos, numa proporção esmagadoramente superior à de outras poetisas.

Outras vates prolíficas e muito acarinhadas pelo 25 de Abril, como Natália Correia, que a criticou e difamou injusta e ferozmente no prólogo do Diário de Florbela, não poderiam, ainda que quisessem, dizer o mesmo. Portugal rende-se ante o génio da poetisa que expressou a Sua alma e nostalgia como nenhuma outra. E isto apesar de muitos intelectuais (não significa o mesmo que inteligentes), que queriam ver os seus versos enterrados no mesmo túmulo que os seus restos mortais. A confusão dos seus pensamentos desordenados e cheios do barro do mundo impede-os de perceber a beleza pura e amorosa dos seus poemas.

Auguro com audácia que em uma ou duas décadas Florbela estará à altura que merece, junto com a sua alma gémea Fernando Pessoa. E não nos podemos esquecer que esta é a única poetisa a quem o Poeta de Mensagem chamou alma gémea.

 

Qual é a magia da poesia de Florbela, porque chama poderosamente a atenção, especialmente aos jovens?
Cativa a alma, como se a deixasse despida frente a um espelho. É semelhante à música de Chopin. Apesar do drama e misérias do mundo é evidente que existe outro mais belo, mais bondoso, mais justo, como dizia Platão, ainda que nos encontremos revolvendo no barro deste. Quiça o que ela disse de si mesma no seu Diário seja o que nos cativa da sua poesia, pois os seus versos despem a sua alma, casta e generosamente, sem guardar nada para si, o qual indica uma coragem a toda a prova:

“(…) uma corajosa rapariga, sempre sincera para consigo mesma. (…) Honesta sem preconceitos, amorosa sem luxúria, casta sem formalidades, recta sem princípios e sempre viva, exaltantemente viva, miraculosamente viva, a palpitar de seiva quente como as flores selvagens da tua bárbara charneca!”

Isto é, quem sabe, o que não suportaram muitas das sua detractoras ácidas e corrosivas como Agustina Bessa-Luís ou Natália Correia. Quem sabe tanta feminilidade as desconcertasse, ou tanta independência de carácter e critério livre sem perder, precisamente a feminilidade. E o Eterno Feminino esvoaça nos versos de Florbela como a divina ave azul dos Sonhos da Alma, aqueles que ainda que nunca cheguemos a realizar eternamente a alimentam.

 

Quais são os rasgos distintivos da sua poesia?
Há um estilo Florbeliano, que foi imitado na primeira metade do século XX em Portugal, e que nasce da sua mesma poesia. Como diria o filósofo, poeta e mago Giordano Bruno, no séc XVI, a poesia não nasce das regras, mas sim estas da poesia, que é sempre, se for verdadeira, um dom do Céu.

Qual é a sua “pegada digital”: o facto de escrever os seus poemas na forma de soneto (ainda ocasionalmente e na sua primeira juventude usava outras formas métricas), a musicalidade dos seus poemas, versos e palavras onde nada há de cacofónico, vulgar; estas fluem sempre como a água pura e melodiosa de um regato de montanha; outro rasgo da sua poesia é a sua pureza, e a pureza das suas imagens em que não há tramas intelectuais, senão uma leitura da sua própria alma, sem artifícios, e da alma da Natureza. Temos a impressão que os seus versos chegavam à sua mente como o orvalho do céu, ou como uma voz do abismo dizendo o que devem, mas sem vestimentas que ofusquem ou desfigurem a sua alma desnuda… podemos rir, chorar, cantar ou dançar com os seus versos, ou ainda meditar sobre os seus profundos significados e evocações, mas não enredar-se em nenhum tipo de teia de aranha intelectual.

 

Em que medida e forma é um reflexo da sua vida pessoal?
Como a árvore (e portanto a flor e o fruto), da raiz e das profundezas húmidas em que penetra, a sua poesia alimenta-se das vivências pessoais, da sua dor e angústia por se sentir prisioneira da vida. Vivências que não causariam nenhum dano a uma alma de madeira, convertem-se em dramas frente à sua hipersensibilidade. Embora sejam estes mesmos nervos, tensos como cordas musicais que lhe permitem responder com tanta beleza ao serem pulsados pela respiração da Natureza e pelos enigmas da vida.

Há um poema que expressa muito bem esta hipersensibilidade, diríamos enfermiça, mas tão comum nos poetas que são “filhos do Céu”. Uma alma de barro vive bem no lodo, a de uma sensitiva afoga-se nele. O poema mencionado é “Nervos D’Oiro” e apareceu publicado em Charneca em Flor.

Meus nervos, guizos de oiro a tilintar
Cantam-me n’alma a estranha sinfonia
Da volúpia, da mágoa e da alegria,
Que me faz rir e que me faz chorar!

Em meu corpo fremente, sem cessar,
Agito os guizos de oiro da folia!
A Quimera, a Loucura, a Fantasia,
Num rubro turbilhão sinto-As passar!

O coração, numa imperial oferta.
Ergo-o ao alto! E, sobre a minha mão,
É uma rosa de púrpura, entreaberta!

E em mim, dentro de mim, vibram dispersos,
Meus nervos de oiro, esplêndidos, que são
Toda a Arte suprema dos meus versos!

 

Qual foi o episódio da vida de Florbela que mais se reflectiu na poesia?
Mais do que um episódio o que mais se reflectiu nos seus versos foi a busca do Eu Profundo, e os seus cantos, verdadeiros hinos, de nostalgia e de amor, cada vez que estes assomavam à sua face triste e alegre pelas janelas da sua intimidade. O facto de se ter apaixonado várias vezes bem como as angústias que viveu fizeram nascer muitos dos seus sonetos.

 

Como a influenciou o facto do pai não a ter considerado uma filha legítima? Ficou, como se costuma dizer, traumatizada com essa conduta?
Essa é uma injúria sem nenhum fundamento, se não me recordo mal, da pluma de Agustina Bessa-Luís e é decididamente mentira. O que lhe marcou mais foi o facto de ser filha de uma “mãe de aluguer”, que viveu e morreu miseravelmente, e a frieza com que foi tratada pela sua “madrasta”. Se lermos atentamente as suas cartas, diários, etc… e examinarmos os factos despidos vemos como o seu pai a educou bem, a amparou e como sempre reconheceu perante todo o mundo que era a sua filha, embora não tivesse tratado dos trâmites legais. Há momentos da vida de Florbela em que se queixou da incompreensão do pai, como expressa, por exemplo, numa das anotações do seu Diário. Mas é que entrar nas complexidades labirínticas da psique de Florbela não devia ser assunto fácil, e menos ainda para um homem. O pai preocupava-se pelo facto de Florbela ser tão inteligente e ter lido muito mas não conseguisse ser basicamente feliz, e ela respondia que era precisamente por isso que não o conseguia.

 

Por que é que o seu nome quase não foi mencionado nos círculos literários, pelo menos não até depois da sua morte?
Todos os livros de poemas que editou em vida (Livro de Mágoas e Livro de Soror Saudade) foram vendidos em pouco tempos, e as revistas disputavam entre si a possibilidade de publicarem os seus poemas, pois os leitores ficavam, como nós hoje em dia, maravilhados com esta música da alma. O que ela não quis foi mendigar atenção nem prostituir a sua alma nem a sua independência para “se fazer ver”, e ela queixou-se muitas vezes que se não se exibia ficava afastada dos círculos literários. Triste assunto. Curiosamente os maiores poetas portugueses viveram quase ou totalmente à margem dos círculos e clubes literários, e tiveram que editar à sua própria custa as suas poesias, como no caso de Florbela; ou, então, legaram-nos directamente em manuscrito para a posteridade, como acontece com Fernando Pessoa. Finalmente o tempo reconhece o génio e varre como escória a quem tiver roubado as suas pretensões e assumido falsamente as suas posses.

 

Como era como mulher? Qual era a sua personalidade?
A sua personalidade como mulher era complexa, o seu carácter e especialmente o seu olhar, disse-nos a sua única discípula viva, Aurélia Borges, eram de um magnetismo que impunha um severo respeito, pois reluzia uma grandeza de alma pouco comum. Os seus gestos irradiavam uma vontade poderosa e notava-se que se tinha trabalhado a si mesma esmeradamente, angustiadamente, esforçadamente… Ali para onde ia era uma “leoa entre ovelhas” ou melhor, “cisne entre patos” que provocou, este é sempre o castigo dos génios, ciúmes, inveja e mesmo ódios profundos. A sua liberdade interior era admirada, temida e criticada. Ela, de forma expressa, não lutou pelos direitos femininos em nenhum tipo de manifestação social, mas sendo sim uma mulher moderna, livre de preconceitos e dependências emocionais excessivas, com a audácia de seguir o seu coração e divorciar-se várias vezes sabendo que ia ser esquartejada; e com a clara consciência da sua valia e do seu destino, que era ser, de alma, poetisa e legar os seus versos de uma beleza eterna para a posteridade.

 

Qual foi a causa do seu suicídio?
Ela suicidou-se, lamentavelmente, por se encontrar exausta na difícil tarefa de viver, tendo acumulado tantos fracasso emocionais, amorosos que devoraram toda a sua alegria interior. Jamais teve medo à morte e o suicídio não foi nada imprevisto, sem reflexão, mas todo o contrário, algo largamente meditado. É admirável, não que se tenha suicidado, mas sim como, a valentia com que sempre olhou cara a cara, os “vertiginosos olhos da morte” sem o menor tremor nem ansiedade. Nisso nota-se que Florbela era por natureza filósofa e venceu a morte em vida, mas não conseguiu superar o fastio e o cansaço de viver num reino e mundo que ela reconhecia serem alheios à sua alma.

 

Qual é a sua opinião sobre o filme agora realizado sobre ela?
Infelizmente ainda não o pude ver, mas irei fazê-lo em uma ou duas semanas e escreverei um artigo de reflexão sobre o mesmo. Alegra-me muito que tenham realizado um filme sobre a sua vida e espero que o mesmo tenha um excelente acolhimento da parte do público português e que, assim, Florbela continue a crescer no imaginário mítico português. Os sábios aztecas chamaram aos poemas “flores e cantos” e assim são os de Florbela, flores e cantos cheios de bênçãos para quem abrir a sua alma à sua luz e ao seu mel. Em relação à sua vida pessoa, Rui Guedes, como disse, editou uma fotobiografia, editou a sua obra completa e reuniu todo o material disperso biográfico que conseguiu. A sua discípula Aurélia Borges escreveu uma pequena e bela biografia em que lhe rende homenagem e expressa a sua gratidão. A biografia de Agustina Bessa-Luís não pode ser chamada como tal, é mais um estudo psico-analítico e uma crítica ácida e, ao mesmo tempo, corrosiva, em que se dá, para além disso, ao luxo de incluir como biográficos os rumores não provados nem justificados que sobre a sua vida amorosa corriam, e o pior não que diz mas o tom vulgar e obsceno com que o diz.

 

Como Portugal trata esta figura? Acarinha-a?
Sim, graças a Deus cada vez mais, e pouco a pouco os fiapos de névoa de incompreensão, quando não de malícia, sobre a sua vida, querendo contaminar a sua obra vão-se desfazendo diante dos ardentes e amorosos raios do seu Sol.

 

José Alecrim


 

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