A Era de Aquário
Ao abordar este tema da Era de Aquário não vou apresentar o que se entende como Astrologia, mas vou falar precisamente do que são os períodos históricos. Porque, quando falamos de uma Era de Aquário, a que nos referimos?
Astronomicamente sabemos que o Sol, em cada 2000 anos aproximadamente, ocupa uma determinada casa zodiacal; daí que antes se tivesse falado de uma Era de Peixes e que desde 1950 se fale de uma Era de Aquário que durará uns 2000 anos.
Os filósofos clássicos que se aprofundaram neste tema do homem – o que é? o que faz? – as antigas tradições e a nossa própria consulta desses tratados tão antigos, falam-nos de um ritmo na Natureza; e mesmo a observação quotidiana da vida fala-nos de um ritmo na Natureza. Vemos um Sol que nasce e que se põe, conhecemos os ciclos da Lua, os dos planetas, os nossos próprios ciclos biológicos, sabemos perfeitamente que no som, na luz e no calor existem ciclos, existem repetições cíclicas. Sabemos que na própria constituição do nosso corpo há – por exemplo, nas células epiteliais – um certo ritmo e que os cristais de gelo também o têm. Tudo na Natureza está ritmado, desde a queda das folhas no Outono até ao movimento dos astros pelo céu.
Cabe uma pergunta: É o homem algo especial dentro da Natureza, uma espécie de criação ad hoc da Natureza, uma espécie de artifício ou é o homem parte da Natureza? Esta pergunta que preocupou durante muitos séculos a Humanidade – especialmente na Idade Média e no Renascimento – é, porém, no fundo, fácil de entender e fácil de responder. O homem é parte da Natureza; o que acontece é que, cada um de nós, de alguma maneira, sentimo-nos o centro do Universo, somos um pouco psicocêntricos, egocêntricos. Se eu digo: «Há gente que está num país longínquo», eu digo país longínquo e vocês poderão imaginar a China, o Japão ou a Índia como países longínquos; mas se estivesse a falar em Nova Deli e falasse de um país longínquo, o país longínquo converte-se na Espanha, França ou Peru. O que é o longínquo? O que é o perto? Depende do lugar onde estejamos. Daí que os antigos astrónomos, se bem que conhecessem que a Terra não era o centro do Sistema Solar – como podemos ver em escritos pitagóricos e em comentários de Platão – consideravam psicologicamente a Terra como o centro do Cosmos, porque para o homem, desde o ponto de vista psicológico, a Terra ocupa o centro de toda uma esfera móvel e de todo um Universo; da mesma maneira que a mim me parece que aqueles que estão sentados ao fundo desta sala são os mais afastados e, por sua vez, os que estão sentados ao fundo consideram que aquele que está a falar é o que está mais afastado deles. Por tudo isto, aqueles que vivem na Terra consideram tudo o que os rodeia como externo e rodando em seu redor.
"Sendo a Natureza, num sentido, rítmica, a Natureza está construída de uma maneira rítmica e o homem não pode escapar desses ritmos e desses ciclos. O homem é um ente natural; isso não retira que o homem, como ente natural, tenha uma participação evidente e tenha um contacto com aquilo que podemos chamar Divindade."
O homem considerou-se muitas vezes como uma espécie de criatura especial, como algo que não pertencia realmente à Natureza, mas pelo nosso corpo físico e pela nossa forma de actuar, pelo nosso intercâmbio energético, pela nossa simbiose com o mundo circundante, nós somos parte da Natureza, como é parte da Natureza o animal, a árvore, a pedra e, enfim, todos os objectos, mesmo os fabricados. E se somos parte da Natureza e vemos que a Natureza é rítmica, vemos que é cíclica, devemos entender que os ciclos têm de nos afectar; porque quando alguém apanha um comboio e o comboio anda numa marcha rápida e vai a 50 ou 100 quilómetros por hora, aquele que vai dentro do comboio também vai a 100 quilómetros por hora, embora, se olhar unicamente para dentro do comboio, não se aperceba da velocidade com que anda. Neste instante o planeta Terra está a deslocar-se a enorme velocidade através do espaço, mas a nós parece-nos que está tudo quieto, que nada se move. Porquê? Porque a nossa relação de movimento se faz sempre entre duas coisas, entre algo que se move e algo que aparentemente não se move. Daí que, se estamos neste salão vai-nos parecer um absurdo que estejamos a deslocar-nos a milhares de quilómetros por hora através do Universo, e, no entanto, isto é certo. A mínima mudança, o mínimo desajuste cósmico demonstrar-nos-ia de maneira instantânea que, evidentemente, nós estamos a andar com a Natureza e na Natureza.
Sendo a Natureza, num sentido, rítmica, a Natureza está construída de uma maneira rítmica e o homem não pode escapar desses ritmos e desses ciclos. O homem é um ente natural; isso não retira que o homem, como ente natural, tenha uma participação evidente e tenha um contacto com aquilo que podemos chamar Divindade. Quero esclarecer isto porque muitas vezes se contrapôs o natural com o divino, coisa que me parece – pessoalmente como filósofo e inspirando-me nos autores clássicos – um absurdo. Nós não podemos contrapor, de nenhuma maneira, o natural com o divino, porque se contrapomos o natural com o divino, o natural chegaria a limitar o divino e o divino não seria tão divino como estamos a dizer. Vou dar um exemplo: suponhamos que Aquele, Deus, a Divindade, como queiramos chamar, existia em todas as partes menos nesta garrafa de água; esta garrafa de água, ao não participar do divino, limitaria o divino, visto que o divino não estaria na garrafa de água; portanto, esta garrafa seria tão poderosa como o divino, assim chegamos a um conceito de duas Divindades, de dois Absolutos, que é completamente ilógico já que não se pode sustentar com raciocínios lógicos. Somente pode existir um Absoluto, somente pode existir um Ente Divino.
Quando dizemos que o homem está na Natureza não nos opomos em absoluto a que, por sua vez, a Natureza e todas as coisas participem daquilo a que chamamos Divindade – que cada qual a define, cada qual a limita ou a expande à própria altura da sua crença, da sua fé e da sua forma de a conceber. O importante talvez não seja a forma com a qual concebemos a Divindade, mas sim o percebê-la, senti-la de alguma maneira; perceber que há algo que está para além da mera forma, que há algo que está para além do meramente mecânico. Não importa tanto o nome, importa sim entender, sentir, viver profundamente essa Realidade Teológica. Daí que, quando digo que o homem está dentro da Natureza, não quero dizer de maneira nenhuma que isso se confronte com uma Realidade Teológica, porque a própria Natureza tem que participar da Natureza Teológica; se não participasse, limitaria de alguma forma, aquilo que pode ser a Divindade, pelo menos desde o ponto de vista filosófico.
"Dentro da História da Humanidade há épocas de fulgor civilizatório, há épocas de espera e há épocas de retracção."
Eu sei que, como artigo de fé, isto pode ser muito discutido, porque segundo as religiões concebe-se a Divindade de uma maneira ou de outra; mas do ponto de vista filosófico não podem jamais coexistir dois Absolutos. Pelo que, aceitando a priori, a existência de um Absoluto, de um Aquele, de um Algo que é a Causa, Fim e Meio de todas as coisas e estando a Natureza dentro disso, sendo a Natureza rítmica e seriada, nós, homens, participantes da natureza rítmica e seriada, teremos características rítmicas. As nossas características rítmicas terão que estar, de algum modo, de acordo com as características rítmicas do Universo. É por isso que alguns dos factores da Astrologia – quando se fala que os astros regem a vida dos homens – não são de todo certos e, no entanto, não são, tão-pouco, de todo descartáveis. Não são certos se pensamos que todos os astros giram nada mais do que para reger a vida dos homens. Isso é absurdo. Sabemos que nós vivemos num pequeno planeta que gira em redor de uma pequena estrela que, por sua vez, forma parte de uma galáxia – da qual vemos nada mais do que uma parte – que chamamos Via Láctea e que tem a forma de espiral como também pode ter a galáxia de Andrómeda. Somos uma pequeníssima parte dentro do Universo, isso é óbvio, mas todo este Universo tem um ritmo, tem uma forma de vida. Nós, parte dele, temos um ritmo e temos uma forma de vida. É óbvio que todo esse Universo não pode funcionar somente para nos iluminar ou para nos reger, mas é evidente que deve haver uma relação entre a marcha do Universo e a marcha das coisas humanas. Porque, vamos pensar: de alguma maneira, o meu corpo é um micro-universo onde existem órgãos que se poderiam comparar, talvez, com galáxias; dentro desses órgãos há tecidos, células, átomos, que podíamos ir comparando com os distintos corpos celestes; e quando eu movo uma mão, por exemplo, estou a mover também as células da minha mão ainda que eu não seja consciente nesse momento de que as estou a mover, mas evidentemente estão a mover-se. Pode ser que elas não possam participar do meu ser ou da minha conferência – porque não creio que as minhas células hepáticas agora estejam em relação com o que estou a falar – mas de alguma maneira elas continuam a trabalhar e ajudam a que eu possa fazer algo. Desse mesmo modo, todas as partes que compõem o Universo ajudam a uma Grande Harmonia Universal; essa Grande Harmonia Universal que existe entre o que poderíamos chamar o Macrocosmos, o mundo circundante e o Microcosmos que somos nós. Não digo por regência, entendamo-nos bem, não é por regência que o Macrocosmos está dedicado a reger o Microcosmos, não, mas sim por um simples encadeamento natural que faz com que todas as coisas estejam dentro de uma ordem predeterminada.
Sendo o homem de características naturais e de características rítmicas, as obras dos homens também têm essas características. A teoria de uma evolução constante que se sustentava sobretudo no século passado, já não é sustentável, não existem provas para poder a sustentar. Sabemos, inclusivamente, dentro dos estudos paleo-antropológicos e dos estudos arqueológicos e históricos que, se alguém fizesse um poço-sonda arqueológico ou uma torre arqueológica em determinado lugar encontrava, em cima, todos os elementos metálicos do ferro, por baixo encontrava bronze, mais abaixo encontrava cobre, depois o Calcolítico – o cobre trabalhado como se fosse pedra – logo o Neolítico, logo o Mesolítico, logo o Paleolítico, logo o Eolítico; isso estava muito bem nas mesas de trabalho, mas quando se foi à prática descobriu-se que isso não era assim, que às vezes por baixo de uma etapa lítica reaparece outra vez uma etapa metálica, que nem sempre se dá com o exposto na mesa, ou melhor, nunca se dá; geralmente passa-se algo completamente diferente. Em alguns lugares de África onde hoje há nómadas – em alguns desertos onde somente há vento, nómadas e gente que está a viver de uma forma muito primitiva – ficaram os restos de pirâmides e templos que um dia albergaram verdadeiras universidades ou que estavam rodeados de grandes cidades.
Há poucos meses estive na Pampa de Nazca, no Peru, junto à costa do Pacífico e é surpreendente ver esses imensos desertos ao longo da costa que têm mais de mil quilómetros e onde não cresce nada, nada, nada; onde não há nada, onde às vezes, em algum lugar, há uma pequena casa, uma pequena cabana feita com folhas e onde um homem vive como pode, e que, por exemplo, comprou uma caixa de coca-cola e está a vendê-la ao automobilista que passa – isso é tudo o que tem – e depois monta no seu burrito e parte para a montanha. Pois, nesse lugar encontram-se enterros que demonstram um luxo, um poder e um fausto dignos de uma corte faraónica. Eu mesmo estive a escavar com o doutor Lumbreras em Chavín, num lugar hoje completamente desolado do norte do Peru e onde, não obstante, existem pirâmides, existem templos astronómicos, existem túmulos de uma perfeição arquitectónica extraordinária; e hoje, nesse lugar a única coisa que existe são dois ou três caçadores de guanacos. Portanto, nem sempre se seguiu essa evolução linear porque, senão, no lugar de Chavín, hoje também haveria uma enorme civilização ou essa civilização ter-se-ia mudado para outro lado. Não. Há ciclos e há lugares em branco; não é algo absolutamente contínuo. É como a música. Como entendemos nós a música? Entendemo-la porque há momentos de silêncio; se não houvesse momentos de silêncio não entenderíamos a música, seria um som contínuo. Se num quadro, numa pintura, não houvesse lugares limpos ou lugares planos, tão pouco poderíamos entender figura alguma. Daí que dentro da História da Humanidade há épocas de fulgor civilizatório, há épocas de espera e há épocas de retracção.
Continuando, há outro tema que é interessante e no qual tão-pouco os historiadores se põem muito de acordo; mesmo aceitando a existência dos ritmos históricos – o expoente mais alto actual dessa teoria é Toynbee – temos que nos perguntar: quando é que uma civilização, quando é que um grupo humano está no seu cume ou quando está no seu vale? Porque depende do ponto de vista com que se observa.
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| Alexandre, o Grande |
Sannyasines hindus |
Há uma crónica muito interessante, um pequeno parágrafo nada mais, de quando as tropas de Alexandre chegaram à Índia, que é muito curioso e que muitas vezes eu cito porque é um exemplo drástico do não entendimento entre distintas formas de cultura. Dizem que Alexandre, com os seus oficiais passou perto de uma árvore e, debaixo da árvore, havia um conjunto de pessoas praticamente nuas, esfarrapadas, que estavam a conversar. Os oficiais de Alexandre disseram-lhe: «Senhor, que estranhos são estes macacos, são macacos e no entanto estão a falar, falam!». E diz-se que estes, chamados de macacos e que estavam a falar, eram um grupo de sannyasines hindus que estavam a tratar os temas do Bhagavad Gîtâ, do Mahâbhârata e que, por sua vez, lhes fez muita graça ver passar os soldados e oficiais de Alexandre que tinham sobre os elmos grandes penachos, comentando que pareciam cavalos que tinham prolongamentos da crina nas suas cabeças; ou seja, as duas culturas não se entendiam. Para o yogui que estava sentado no solo, para esse Arhat que estava ali – que estava a conversar sobre os seus livros, mas que não se cuidava em absoluto da forma externa nem do vestir e que tinha um conceito completamente diferente do de Alexandre – Alexandre era um mlechchha – mlechchha em sânscrito quer dizer selvagem – e para Alexandre, aquelas pessoas que estavam debaixo de uma árvore e praticamente semi-nuas, falando um idioma que ele não entendia, eram bárbaros – e bárbaro significa estrangeiro ou selvagem. Daí que nos ocorra uma pergunta: quando é o momento em que uma civilização está mais alta? É difícil responder a essa pergunta.
Recordo neste momento um comentário de um dos imperadores da época Tang na China, quando disse: «Jamais, jamais a China chegou a ter a grandeza que tem neste momento, porque jamais os nossos censos – saibam que os censos existiam desde a época Han na China – viram o que hoje viram: temos mais poetas que soldados, que arquitectos, que pintores.» Para este imperador, o facto de que a maior parte dos seus intelectuais fossem poetas tinha um valor extraordinário; no entanto, desde outro ponto de vista, não o tem. E vemos que hoje mesmo nós, com a nossa tecnologia, com a nossa especialização, não nos livrámos tão-pouco desse sentido um pouco tribal. Fixem que, geralmente, os médicos se reúnem e falam sobre Medicina, que os arquitectos se reúnem e falam sobre Arquitectura, que os militares se reúnem e falam sobre temas militares; o mau é que todos falamos de Política, mas aparte disso, nas especializações cada qual fala da sua, existindo, evidentemente, várias espécies de tribos que têm muito pouca conexão entre elas.
Estes ciclos históricos dão o predomínio de um certo tipo de homens sobre outro certo tipo de homens. Num momento histórico determinado o predomínio é da parte científico-técnica. A que é que nós chamamos hoje uma sociedade civilizada e avançada? A uma sociedade que tenha uma grande proporção de automóveis, a uma sociedade que tenha uma grande proporção de máquinas, a uma sociedade que seja como nós entendemos que deve ser uma sociedade. Porque há um predomínio de cientistas e de técnicos, num mundo como este em que vivemos, no nosso mundo ocidental, um poeta, geralmente, ganha bastante menos dinheiro do que um industrial pode ganhar; e, para além disso, não tem o status. Um grande comerciante, um grande negociante, um grande industrial têm um status, têm uma norma, têm uma forma de vida muito superior à que pode ter, em geral, um músico ou um poeta; e não estou a falar dos que estão em moda três meses ou três anos, falo de um verdadeiro músico ou de um verdadeiro poeta. Porquê? Porque a alienação actual não está nem na poesia, nem na música; a alienação actual, pelo menos a que houve até agora, está na técnica e na ciência; ciência e técnica primaram sobre os elementos humanísticos.
É muito raro hoje encontrar um mecenas – à maneira já não do Mecenas romano, estou a falar da maneira cristã do Renascimento – que tome sob a sua protecção um pintor ou um escultor e que esse pintor ou escultor viva toda a sua vida magnificamente dedicado a nada mais do que o seu trabalho. Hoje, regra geral, não. Hoje um pintor ou um escultor, salvo excepções, tem que ganhar a vida como qualquer um; hoje sim, há dinheiro para algo; geralmente dirige-se para as ajudas físicas, vai destinar-se, no melhor dos casos, para dar melhores formas de irrigação em tal parte de África. Magnífico; está bem; mas é sempre técnico. O importante é que a gente coma, o importante é que a gente beba, o importante é que a gente tenha roupa; o que tem dentro já não importa. Tanto é assim que, se houvesse uma pequena epidemia de cólera em algum dos países ocidentais, sairia nos diários: «Enorme perigo: epidemia de cólera. Morreram vinte pessoas em tal lugar.» Se, pelo contrário, morrem trinta ou quarenta pessoas num fim-de-semana num choque de automóveis, isso não se considera epidemia. E bem sabem que aqui mesmo em Espanha, em Madrid, nada mais do que à saída de Madrid, na semana passada morreram quinze pessoas e não se lhe dá importância. Porquê? Porque está dentro do ritmo técnico.
"A máquina só, sem uma educação humanística, evidentemente, não pode salvar o processo."
E outra coisa, se os pais veêm um menino que cai e que magoa uma perna, imediatamente chamam o médico ou tratam-no logo. «Pobre menino, tiveste um acidente.» Por outro lado, se nesse menino se aflora uma distorção psicológica ou alguma atitude anti-social, pelo contrário, dizem que este menino é muito vivo, que está muito avançado para a sua idade; não se dá a importância devida à parte humanística, à parte interior, à parte psicológica. Mesmo os nossos psicólogos e os nossos psiquiatras, geralmente, fazem psicanálise, mas não fazem psico-síntese; especializam-se em separar mas não se especializam em reunir. E a nossa civilização tem sido uma civilização de separação em muitas coisas, de fragmentação. A velha fragmentação tem deixado o homem, pouco a pouco, muito só; apesar de habitar as megalópolis, as grandes cidades, estamos sós, sós. Os nossos avós – digo nossos avós, não os nossos avós carnais, mas sim as pessoas que viviam há séculos e que, por exemplo, habitavam em pequenos conglomerados urbanos – sentiam-se, no entanto, muito mais acompanhados do que nós, que podemos viver em capitais que têm milhares de pessoas, onde tudo se tornou anónimo, onde tudo se tornou circunscrito à sobrevivência de cada um.
Evidentemente isto não poderia durar sempre. As teorias dos séculos XVIII e XIX, não sei qual recordar, pois havia tantas... No século XVIII, por exemplo, acreditava-se que o «bom selvagem» era feliz, que se podia chegar à felicidade abolindo uma série de instrumentos sociais ou políticos e que a gente podia sobreviver magnificamente sozinha. Nós sabemos que isso não é possível, que não é possível na actualidade de nenhuma maneira. Não estamos preparados biologicamente para poder sobreviver, nem tão-pouco psicologicamente, para podermos estar sós. Também havia uma série de teorias, no sentido de que quando se inventasse algo para poder conservar os alimentos ou quando se inventasse algo para poder transportá-los rapidamente, a Humanidade ia ser um paraíso maravilhoso, um paraíso onde ninguém tivesse fome. Hoje, há 1500 milhões de seres humanos que estão sub-alimentados; no entanto, temos alimentos enlatados, temos aparelhos de refrigeração, temos aviões que podem ir velozmente de um lugar ao outro. Onde está a falha? A falha fundamental é que se pensava na potência da máquina e não se pensava na característica humana. E assim, por exemplo, a UNESCO fez uma experiência no Sri Lanka: pegou num grupo de selvagens, de pessoas que não tinham nenhum tipo de civilização, desde o nosso ponto de vista, e que vivia muito pobremente. Forneceram-lhes meios, deram-lhes tractores, enfim, trabalhou-se a terra e tudo o mais. Essa gente depois de cinco ou seis anos estava pior do que antes, porque essa gente havia-se envenenado com todas as contaminações da civilização; tinha aparecido entre eles a prostituição, que não existia antes; tinha aparecido o roubo, que não existia antes; tinha aparecido o assassinato devido a furtos, que não existia antes; e, inclusive, tinha havido um descontrolado crescimento demográfico que lhes tinha levado todavia a uma maior pobreza. A máquina só, sem uma educação humanística, evidentemente, não pode salvar o processo.
Todo o ciclo anterior, o ciclo que terminou neste século – porque astronomicamente a Era de Aquário começou em 1950 – damo-nos conta que não pode ser algo como uma torneira que se abre e que se fecha; um processo histórico é longo, derrama-se. Está bem que os meninos no colégio digam: «A Idade Média terminou com o descobrimento da América» ou «a Idade Clássica terminou com a queda de Constantinopla». Isso é muito relativo, porque não acreditem que com a queda de Constantinopla o mundo todo mudou, nem que, com a descoberta da América, houve uma mudança. Pois mesmo os reis de Espanha, os Reis Católicos, especialmente Isabel, morreram sem saber praticamente que se tinha descoberto a América, o que se acreditava era que se tinha chegado à Índia por outro lado. Portanto, não é que nesse momento houvesse uma mudança e que toda a gente tivesse saído à rua gritando: «Descobrimos a América!» Não, a verdade é que ninguém se deu conta de que tinham descoberto a América, nem sequer Colombo. E com isto é igual. Não é porque tenha havido uma passagem nas casas zodiacais em 1950 que tem que haver uma mudança, mas a mudança dá-se sim com uma preparação prévia e com um prolongamento bastante extenso depois.
É evidente, por todos os dados que podemos constatar ao nosso redor, que o que foi válido até pouco tempo começa a deixar de o ser. As pessoas têm uma reacção contra muitas coisas; às vezes não sabem bem porque é que reagem, mas sentem a necessidade de uma mudança. O mal é que muitas vezes não sabem para o que é que hão-de mudar nem o que é que vão mudar e em que sentido. Mas toda a gente tem essa necessidade, inclusive os jovens; como pude ver nas minhas viagens aos Estados Unidos, muitos se dedicam de novo a fazer artesanato, e isso passa-se em quase todos os países. Há um retorno à necessidade de fazer artesanato, por mais que possam trabalhar, por exemplo, numa linha de montagem; mas desagrada-lhes trabalhar numa linha de montagem, preferem trabalhar em artesanato.
E assim como isso – que é um exemplo e para não abundar muito – existem muitos outros exemplos de uma mudança. Todavia, todos continuamos a usar máquinas ou estamos rodeados de máquinas, sentimo-nos cómodos com as máquinas, mas de alguma maneira temos a tentação de nos reunir talvez de maneira mais natural, de falar de uma maneira mais natural. Quando digo de maneira natural, por favor, não confundam com as maneiras anárquicas nem simiescas; estou e referir-me a uma maneira natural, autêntica, poder falar homem com homem, poder dizer o que cada um tem no coração sem pensar duas vezes o que diz, poder viver numa sociedade diferente, nova e melhor. Existe essa tonalidade, e pouco a pouco vamo-nos dando conta que estes transportes que tanto admiramos estão a envenenar-nos, estão a contaminar-nos o ar; que contaminam os mares. O Japão, que viveu toda a sua vida da pesca e que necessita tanto da pesca para se poder alimentar, hoje tem as suas águas circundantes tão exaustivamente contaminadas que tiveram que importar pescado. O Peru, por causa da contaminação e por causa da contaminação psicológica do seu actual governo, baixou umas oitenta vezes a produção de farinha de peixe, oitenta vezes para um país cuja produção fundamental era a farinha de peixe.
Esse é um problema mundial. O problema da contaminação física e o problema da contaminação psicológica – o que podemos chamar os sub-produtos de uma sociedade de consumo eminentemente maquinicista – todavia hoje, apesar destas primeiras reacções que se vão notando, está pressionado por um sentido de massificação. Porque eu não sei quem fez esta mesa. O que fez esta mesa, muito provavelmente, tão-pouco se preocupou em deixar as marcas de quem a fez; porque se calhar não foi uma pessoa que fez a mesa, mas uma pessoa pôs as pernas, outra pôs uma madeira, outra pôs as chapas e... havia uma pessoa que chapeava uma mesa, e outra, e outra e outra. Não há uma preocupação pessoal, é como uma linha de montagem. Recordam-se de um filme muito antigo de Charles Chaplin que mostrava aquele homem que estava todo o dia a pôr uma porca, a pôr uma porca, a pôr uma porca, a pôr uma porca e depois de uns quantos anos, quando aperta os botões fazia-o como se fossem porcas? Lógico, ele passou toda a vida sem ver o automóvel completo, ele não via nada, via a linha de montagem; cada vez que aparecia a porca ele apertava-a, cada vez que aparecia outra porca, apertava-a. Pensai que um homem que repete isso durante trinta ou quarenta anos converte-se num “homem-porca”, é uma porca ele mesmo, quando vê uma porca aperta-a, é por instinto. Temos sido automatizados por dentro e mesmo os meios têm-nos sido aglutinados massivamente.
Mas como o homem tem uma reserva espiritual e, como de alguma maneira, o ciclo cósmico muda, estamos a receber outros espectros, outros espectros de raios cósmicos. Porque deu muito riso quando os antigos astrólogos falavam sobre a influência dos astros, mas hoje sabe-se que estão a chover constantemente sobre nós raios cósmicos que partem não só de astros, mas também dos quasars e de outras zonas do espaço onde não existem astros propriamente ditos, mas que são centros de força e energia. Estamos a passar a outra zona, estamos a receber outro tipo de energia. Esse outro tipo de energia, com a nossa própria evolução e mudança, com o nosso sentido de fastio do que conhecemos e pela busca daquilo que queremos conhecer, está a provocar uma forte mudança subconsciente nas massas mais avançadas do planeta. Há uma necessidade de que a máquina exista, sim; mas que a máquina exista sujeita ao homem, não o homem sujeito à máquina. Há uma necessidade de organização, sim; mas de organização entre homens livres que tenham uma liberdade individual ainda que sujeitos a uma obediência colectiva. Evidentemente, estas mudanças criam reacções exageradas, porque sabem que um pêndulo, quando o soltam de um lado, não fica no meio, mas vai até ao outro lado. Mas o pêndulo, de maneira natural, procura o justo equilíbrio, procura um justo equilíbrio em todos os aspectos.
Daí que tenhamos comparado de alguma maneira este processo com o processo que ocorreu com o começo da Idade Média Ocidental na bacia do Mediterrâneo; porque houve outras idades médias para a China, para a Índia, para o mundo muçulmano. Houve, inclusive, idades médias pré-helénicas: a queda da cidade de Tróia sobreveio como uma espécie de Idade Média da zona. Não houve uma só Idade Média. Mas a esta Idade Média, que dizemos que começou com a queda do Império Romano e que terminou, ou com a queda de Constantinopla ou com a descoberta da América, quando começou, deram-se quase os mesmos fenómenos: começa a haver uma dissolução do que era o Império Romano, começam as pessoas a preocuparem-se por coisas do Oriente, por coisas de fora. Hoje são discos voadores, lógico; antes era o Carro de Mitra, todo o mundo via o Carro de Mitra, passava, baixava, muitos contavam que tinham subido no Carro de Mitra – que os tinha levado, que os tinha trazido. Começou gente a viajar, faziam auto-stop; o que se passa é que, claro, não havendo automóveis o faziam com carros ou com cavalos ou faziam-no sós, saíam a caminhar. Para onde? Para quê? Ah! É o nomadismo. Quando o homem começa a inquietar-se o nomadismo surpreende-o, quer viajar, quer procurar outra coisa, inclusive Jerusalém – que logo se ia tornar lugar de peregrinações por nós conhecidas como Cruzadas. Jerusalém no princípio, na Alta Idade Média, tinha um significado mítico, um significado quase desprovido de realidade; as pessoas não sabiam onde estava Jerusalém, sabia-se que Jerusalém era o centro religioso onde o Menino-Deus tinha nascido e onde se tinham passado todas as circunstâncias históricas da sua religião, que chegando a Jerusalém se purificavam e que havia um longo caminho para Jerusalém. Agora, onde estava Jerusalém? Já sabem que mesmo nas Cruzadas, muitas vezes, colunas de cruzados pegavam um caminho até qualquer lado e foram parar ao Egipto ou à ponta da bota de Itália, enfim, a qualquer parte, procurando, porque Jerusalém não era um lugar geográfico, era uma espécie de procura, era algo que era preciso ter.
"Podemos perceber que na Idade de Aquário vão existir interesses completamente diferentes, interesses distintos daqueles que temos tido até agora e, precisamente, a nossa posição filosófica, que chamamos Acrópole – ou seja, cidade alta – é uma preparação filosófica para essa Idade de Aquário. Tratamos de canalizar a necessidade do homem de se reencontrar consigo mesmo, de ter um lugar para esses «divinos ócios» de que falava Platão."
Hoje passa-se o mesmo; hoje talvez a palavra não seja Jerusalém, hoje talvez a palavra seja Liberdade ou é qualquer outra coisa, mas toda a gente procura algo, ainda que não lhe possa dar um conteúdo. Procura algo, tem outra vez a sensação de nomadismo, outra vez os mais jovens tratam de voltar ao emprego das mãos, a fazer algo individual. Apareceram inclusive os bardos, tão parecidos, tão parecidos, que parece música medieval; há bardos que com uma pequena guitarra tipo banjo cantam algo que não tem melodia e que se refere a coisas simplíssimas, às vezes a queixas de si mesmos, do que lhes está a acontecer, ou contam algo que viram noutros lugares, tal qual esses antigos cantores que, no princípio da Idade Média, começaram a percorrer as distintas povoações. Hoje também se sonha com um rei-urso, com um Artur, sonha-se com Camelot, com algum lugar onde haja Justiça, onde haja Paz, onde se possam formar Damas e Cavaleiros, onde não exista nenhuma forma de exploração, onde todas as coisas sejam belas. E hoje tem-se um medo à invasão bárbara, à invasão de alguma parte ou ao crescimento demográfico ou a pestes ou a fins do mundo. Enfim, todos esses temores atávicos que existem no homem e que vêm nos gonzos da História. Nós estamos num gonzo da História, estamos numa dobradiça histórica, estamos a entrar numa nova forma de Idade Média; e esta Idade de Aquário – cujas características se reflectem como Idade Média – vai dar nascimento a um novo tipo de homem, a um novo tipo de Civilização e a uma nova forma de Cultura.
Mas não podemos dizer – não queremos ser futurólogos – qual é essa forma, não o sabemos; geralmente os futurólogos equivocam-se, e vou fazer uma explicação gráfica do e porque se equivocam. Houve futurólogos em todos os tempos, vocês sabem. A História é curva, como todas as coisas são curvas, desde o Espaço a todas as coisas. O homem, que está situado num ponto da História, acredita que o futuro é uma projecção tangencial e linear da sua realidade; mas como a História é curva não tem nada a ver com o que ele projecta, com o que a realidade é. Se leram as crónicas da época das Cruzadas, algumas delas referem-se ao ano 2000 e dizem: «No ano 2000 não haverá mouros, não haverá mais gente que não seja cristã no mundo e toda a juventude irá sempre peregrinar a Jerusalém; levantar-se-ão milhares e milhares de igrejas e mesmo o mais pequeno povoado terá uma igreja.» Parece-vos que isto coincide muito com o que se passa agora? Hoje, quem vai a Jerusalém? Algum turista que a queira ver, mas estou seguro que vai mais gente a Miami ou vai mais gente a Londres do que aqueles que vão a Jerusalém. Ademais, igrejas há porque se construíram em outras épocas, muito poucas são as que se constroem na actualidade; para além disso, na actualidade, não creio que alguém perca o seu sono nem chore lágrimas de sangue à noite porque todas as pessoas não são cristãs. Hoje entende-se que pode haver gente que seja muçulmana ou que seja hebraica, hoje não é época psicológica para sair em Cruzadas e dizer: «Cortai a cabeça a todos os sarracenos.» Não, porque inclusive ficaríamos sem petróleo.
Assim que, nesse sentido, o mundo mudou completamente, há interesses completamente diferentes; o homem medieval ao projectar o seu momento histórico tangencial não conhecia a curva da História, mas nós sim, sabemos que vai existir uma curva na História, que a História seguirá sendo curva; daí que os que pensam, na actualidade, que dentro de 1000 anos ou dentro de 1500 anos o homem vai chegar com poderosos foguetes às estrelas ou a lugares longínquos... Quem sabe? No melhor dos casos, ao homem, dentro não de 1000 anos, mas dentro de 100, já não lhe interesse mais ir para as estrelas. Saibam que já estão a ser paralisados muitos projectos para ir à Lua que existiam e que foram cortados completamente de raiz. Porquê? Porque o interesse que existia há uns trinta ou quarenta anos em fazer experiências espaciais não existe hoje, o interesse muda. Geralmente, nas páginas de um jornal sai em letras muito maiores um acontecimento social ou político do que o de um homem que tenha entrado em órbita em redor da Lua. Sabem que quando Júlio Verne escreve Da Terra à Lua, diz que praticamente toda a população do globo que se podia mobilizar foi para ver sair essa espécie de bala que ele tinha sonhado que ia para a Lua e as pessoas não viviam, não comiam pensando nisso. Sabemos, sim, que houve uma repercussão psicológica e publicitária quando os primeiros astronautas chegaram à Lua, mas nenhum de nós deixou de comer, nem viajou muito; houve uns poucos milhares que viajaram, mas nem há comparação com os 3000 milhões de habitantes que hoje existem na crosta terrestre. Não houve mobilizações maciças, de nenhuma forma, inclusive, em poucos dias os acontecimentos políticos, sociais, económicos ou um jogo de futebol, ganharam em importância ao que pudesse estar a passar-se na Lua. A mudança, em nada mais do que um século, é total. Os interesses são novos, são diferentes.
Podemos perceber que na Idade de Aquário vão existir interesses completamente diferentes, interesses distintos daqueles que temos tido até agora e, precisamente, a nossa posição filosófica, que chamamos Acrópole – ou seja, cidade alta – é uma preparação filosófica para essa Idade de Aquário. Tratamos de canalizar a necessidade do homem de se reencontrar consigo mesmo, de ter um lugar para esses «divinos ócios» de que falava Platão. Todo o homem necessita ter todos os dias alguns minutos livres para meditar ou para orar, para tocar um instrumento ou para ler uma poesia, para pintar ou para fazer arqueologia, ou para fazer o que quiser, mas algo, algo que não seja estritamente ganancioso, que não seja ganhar a vida. Porque é psicológico; em todo o caso pomo-nos a fazer algo e se o fazemos por gosto, se o fazemos por prazer, por divino ócio, não nos vai pesar; quantas vezes o fazemos em nossas casas, nas nossas instituições; quando as amamos realmente pomo-nos, em todo o caso, a limpar um solo ou a limpar uma mesa; mas se vem alguém e te diz: «Ouve, dou-te quinhentas pesetas se limpares esta mesa.» «Ah não, que outro a limpe!» Por outro lado, se a mesa está dentro de uma instituição que eu amo, em que eu participo, pois eu ponho-me a limpar a mesa. Nós necessitamos de descansos psicológicos, necessitamos de hobbies, necessitamos de participações para podermos descarregar do ambiente actual de tensão que promove violência, que promove realmente a violência.
Nunca me vou esquecer; quando era estudante, há já muitos anos, encontrei-me uma vez nas ruas de Buenos Aires com uma corda grossa na mão em forma de forca e a gritar: «Para a forca, para a forca!» Éramos milhares de estudantes – eu estava a estudar Medicina – e gritávamos todos: «Para a forca!» Eu tinha dezoito anos, recordo que me voltei e perguntei ao meu companheiro que estava ao lado: «A quem vamos enforcar?» Disse: «Eu não sei.» Nesse momento dei-me conta de algo fundamental para toda a minha vida e que promoveu em grande parte o meu amor em relação à juventude e a minha dedicação de toda a vida para a juventude, a essa juventude que se deixa ir, que se deixa ir até à violência, que se deixa ir até à destruição sem saber às vezes porque faz o que faz e que ademais é teórico. Quando dizem: «Para a forca, para a forca!», mas estou seguro que, individualmente, nenhum desses homens seria capaz de enforcar nem um cão, nem um gato; não obstante, quando se massificam – e isso podemos ver mesmo nas saídas dos espectáculos desportivos massivos, tipo o futebol – quando saem centenas em turbilhão, insultam. Vemos pais de família, gente respeitosa que jamais diria uma palavra má, que quando saem em balbúrdia vão dizendo grosserias às mulheres, insultos aos homens, mostrando a língua aos polícias e um montão de coisas mais que jamais o fariam se estivessem sós; mas a massificação torna-os bestas de alguma maneira e por um instante tudo isso que estava refreado estala. E aí temos que procurar um mundo individual, um mundo individual e ao mesmo tempo compartido que nos permita ser o que realmente somos, ser autênticos e não nos degrade quando estamos juntos.
Eu sei que se algo material se parte, por exemplo, se eu aqui tenho uma tarte e a parto em tantos pedaços como pessoas que aqui estão, claro, ao reparti-la todos vamos ficar com um pedaço tão pobre que no fim ninguém vai comer nada; mas se em vez de compartir uma tarte compartirmos música de Wagner ou de Beethoven ou repartirmos a admiração de um quadro, todos podemos ter algo como se estivéssemos sós e ainda mais, porque os comentários de todos vão enriquecer a experiência individual. Daí que, o que temos de procurar não é tanto participar na partilha de tartes, o que temos de procurar é participar nos fundamentos espirituais, morais, éticos e ontológicos que existem dentro do homem, lograr que exista a maior comunicação possível entre os homens pelos temas elevados, porque os homens unem-se em cima, não em baixo. Daí que nós sonhamos com uma Nova Acrópole, uma Nova Cidade Alta, mas não uma cidade alta de ladrilhos, nem uma cidade alta de cimento, mas uma Cidade Alta de Virtudes, uma Cidade Alta de trabalho, de honra, de bem. Não estou a falar de uma cidade com interesses pessoais materiais, mas de uma cidade fundamentada num alto desenvolvimento estético, moral, ético, filosófico, onde prime a Beleza, o Bem, a Justiça, a Generosidade e que a cada um de nós nos outorgue uma importância real e humana, que a cada um de nós se ofereça a oportunidade de participar de uma vida plena, na qual nos sintamos responsáveis e úteis e em que contribuamos eficazmente ao bem e à riqueza de todos os concidadãos – entre os quais não deve haver mendigos – que sintamos, quando vemos um doente, a possibilidade de ajudá-lo, que quando alguém pede algo de nós não respondamos com o automatismo do «não posso», mas que tratemos de ver e pensar que esse outro é um irmão como nós e que temos que nos abrir até ele; que tenhamos tempo de contemplar os bosques, que amemos a algum animal, que de alguma forma tenhamos amigos, reais amigos, não amigos por interesse; que possamos chegar também à solidão, a subir uma montanha ou ao descer para o fundo do mar – a qualquer parte – a tratar de se encontrar consigo mesmo, com uma certa Presença Interior, que eu chamo de Deus – vocês chamem como quiserem – com algo que está dentro de nós e está fora de nós.
É necessário preparar o advento desse Novo Homem da Idade de Aquário. De alguma maneira, nós, os que temos hoje a responsabilidade histórica de viver e os que temos a responsabilidade histórica da condução de movimentos filosóficos, ou movimentos políticos, ou psicológicos, devemos ser como moinhos, moinhos de pedra, sólidos mas moinhos que moam uma nova farinha, muito branca, para fazer um novo pão para esse Novo Homem que há-de vir. Porque o Mundo do Futuro não somente deve ser um mundo distinto, um Mundo Novo, deve ser um Mundo Melhor, deve ser a plasmação dos nossos Sonhos. Eu sei que há muitas dificuldades, eu sei que o horizonte está fechado por uma série de interesses, por uma série de grandes fantasmas, de grandes ogres que fecham a passagem; que geralmente, quando falamos assim, dizem que somos idealistas desapegados da realidade. No entanto, alguma vez os idealistas sonharam com que um homem fosse à Lua, alguma vez os idealistas sonharam com pôr um dique para fazer um pântano e reter a água, alguma vez os idealistas sonharam com fazer os sulcos para pôr as sementes e, porque alguma vez alguém o sonhou, logo se pôde fazer. Daí então que os sonhos são necessários, porque os sonhos plasmam-se. Como as nuvens se plasmam nas gotas de chuva, também os sonhos – ainda que às vezes pareçam difusos e aéreos – plasmam-se em factos que vão cair sobre uma Terra Nova e vão dar uma nova fertilidade e uma planta nova para esse Homem Novo. Devemos desde já amar a aqueles que vão chegar aos nossos berços, os berços que vão chegar talvez depois dos nossos ataúdes, mas aqueles meninos que hão-de chegar ao mundo não devem encontrá-lo tão contaminado, nem tão corrupto, nem tão violento, nem tão materialista como o mundo que temos hoje. É por isso que com a bandeira dos nossos sonhos, temos que seguir sempre para cima e para diante.
Jorge Angel Livraga
Fundador da Org. Internacional Nova Acrópole
Conferência proferida no dia 30 de Abril de 1975,
na Sala de Conferências da Caja de Aforros de Granada, Espanha.