A Evolução Espiritual
Sobre a procura do Bem-Estar
Das muitas coisas que fazem mover a humanidade, a procura do bem-estar é uma das mais importantes. De uma maneira ou de outra todos, nós procuramos alcançar esse estado e idealizamos alguma coisa como a fonte do mesmo. Este oculto e misterioso desejo que nos impele, tem a capacidade de nos retirar dos estados passivos e estagnantes da vida, Impulsionando-nos através das provas do dia-a-dia, fazendo-nos verter sangue, lágrimas e suor, transformando as nossas vidas em verdadeiras epopeias.
Há quem deseje a riqueza, há quem deseje a saúde, há quem deseje uma família, há quem deseje um amigo, etc., quase que existem tantas hipotéticas fontes de bem-estar como as pessoas que existem no mundo e, assim cada um de nós tem o seu sonho particular que pretende alcançar.
No entanto constatamos uma coisa curiosa, nem sempre aquilo que idealizamos que nos trará esse bem-estar ou felicidade outorga esses estados de alma àquele que possui os bens que queremos obter. Daí que possamos ver pessoas ricas sendo infelizes, pessoas saudáveis fisicamente mas deprimidas, pessoas rodeadas de amigos e no entanto sentindo-se isoladas, etc.
Existe assim alguma coisa de estranho nessas aparentes fontes de bem-estar pois não são absolutas, porque se o fossem, todos aqueles que as possuíam se sentiriam bem e felizes. Desta maneira, também nós não podemos garantir que quando as alcançarmos e possuirmos nos iremos sentir bem.
É de todo lógico que nos questionemos se existe algo que proporcione o bem-estar absoluto e que valha o esforço de uma vida.
Muitas foram as Escolas de Filosofia que buscaram esse bem-estar. Devotas à causa, ao se debruçarem sobre este problema, investigando e experimentando pela vivência das respostas, foram obtendo lampejos da verdade sobre o mesmo. Assim, não só foram identificando as causas como também foram apontando soluções e sólidos caminhos para o alcançar.
Poderíamos referir várias dessas Escolas, mas por uma questão de espaço apresentemos muito resumidamente o exemplo de duas delas. A primeira é a Escola Estóica. Esta surgiu na Grécia do séc. IV a.C. tendo sido fundada por Zenão. Mas foi séculos mais tarde, já no Império Romano, que os seus práticos ensinamentos vieram a adquirir maior destaque através de Epictedo, de Séneca e do Imperador Marco Aurélio. Os Estóicos diziam que a causa do mal-estar humano radicava nas ligações pessoais que se estabelecem com as coisas que não dependem de nós, como por exemplo o corpo, a fama, os bens, etc..
Estas coisas estão sujeitas a muitas variáveis, sobretudo as temporais, ou seja, têm um tempo de vida próprio, que de facto não controlamos, ao passo que o nosso bem-estar advém das coisas que sobre as quais temos controlo, como por exemplo a nossa opinião, os nossos desejos, os nossos impulsos, os nossos pensamentos, etc. Esta filosofia defendia que para o homem alcançar o bem-estar devia aprender a dominar os seus desejos e impulsos pessoais. Estando atento, deveria também procurar resolver os seus vícios e defeitos pela prática da virtude e assim alcançaria uma felicidade durável.
Uma visão de certa forma semelhante sobre o bem-estar foi-nos deixada por Buda. Este grande Mestre legou um vastíssimo conhecimento à humanidade sobre a causa do sofrimento e como este pode ser ultrapassado. Pelos seus ensinamentos disse-nos que o sofrimento do homem radica naquilo que ele assume como realidade mas que é na verdade uma ilusão. Esta ilusão é o mundo das formas e modelos temporais, tudo aquilo que está sujeito a um início e a um fim.
Para o homem se conseguir libertar destas amarras de dor, Buda ensinou as quatro nobres verdades que encerram o nobre caminho óctuplo, este último são oito virtudes que à medida que vão sendo integradas e vividas conduzem o homem ao justo caminho do centro, o fiel da balança que equilibra os aniquilantes pratos dos extremos da vida. Este caminho significa trabalhar a personalidade, dirigindo os desejos para aquilo que é eterno, para os princípios que definem o Ser Humano enquanto tal.
Dominamos aquilo que conhecemos
Não é para nós difícil de compreender que só podemos dominar aquilo que conhecemos. Por exemplo, se colocámos satélites em orbita foi porque estudámos, entendemos, construímos e dominámos leis físicas, químicas e matemáticas.
O mesmo também se aplica a nós mesmos, ou seja, controlamos os nossos actos na medida em que nos dominamos. Mas, será que nos conhecemos o suficiente, será que conhecemos as ideias que formam a base do nosso pensamento, será que conhecemos a nossa estrutura psicológica, desejos, medos, vícios, virtudes, etc., será que conhecemos a nossa resistência e fraqueza perante as situações do dia-a-dia, que nos permita dominar as nossas acções, para não agirmos de impulso ou irracionalmente?
Nestes últimos séculos a ilusão do materialismo levou o homem a afastar-se dos seus aspectos internos e pior que isso, levou-o a ganhar vergonha em abordar os Mistérios de si mesmo e de Deus. Assim, ignora a sua alma e o seu espírito, o seu ser interno e como tal, a cada dia que passa um negro manto de incertezas o corrói por dentro transformando-se no epicentro das suas desgraças e dos seus medos que o precipitam no sofrimento e que lhe travam a progressão na vida.
Vivemos então esses tempos onde o homem tem medo de se enfrentar a si próprio e por isso foge, foge de si mesmo. Tempos onde o homem “libertou-se do tabu de não falar de sexo, mas caiu no tabu de não falar da alma, de Deus, da honra e da concórdia.”, assim escreveu acertadamente Jorge Angel Livraga, Filósofo e Fundador da Escola de Filosofia Nova Acrópole, no seu livro Moassy.
E uma vez que a Ciência deixou de ser a Magna Ciência dos Templos de Mistérios, transformando-se na pequena ciência, ou seja, uma ciência que se limitou a si própria nos campos da procura da verdade, restringida apenas ao aspecto físico da manifestação, o abismo que separa o homem de si mesmo ainda aumentou mais.
Deus
No Ocidente assistimos assim, ao longo do tempo, a um crescimento desproporcional da razão material face à razão espiritual. Se materialmente colocamos satélites em orbita, espiritualmente, o homem ocidental “ainda não descobriu a roda”.
Para as três maiores religiões ocidentais, Deus é uma grande entidade, é o pai do homem tendo este sido criado à sua imagem. O homem, face a Deus é um ser inferior, uma espécie de ser desgraçado que tem de mitigar a vida toda para poder garantir a salvação da alma, para garantir um lugar no céu.
Segundo as mesmas religiões, Deus está no céu ao passo que na Terra, os seus interlocutores, os sacerdotes, tentam pastar da melhor forma os rebanhos de humanos para garantir que estes engordem de bens espirituais. Desta forma, esse Deus que consegue observar cada acto, se ficar satisfeito com o comportamento humano, na altura da morte abre a porta dos céus a essas almas que aí irão residir durante toda a eternidade. Para além de omnipresente, omnipotente e omnisciente é Deus a fonte de todo o bem, sendo ele próprio o supremo bem.
Mas qual é o sentido destes dogmas? Como podemos nós aceitar tais ideias quando comprovamos no mundo real a sua falta de racionalidade?
Se o homem é filho de Deus, que classe de pai é Deus para abandonar tantos e tantos homens a um atroz sofrimento sem os acudir? Qual é o pai que não atende ao grito de socorro do seu filho?
Na mais lógica das explicações teríamos de considerar Deus como uma potência insensível ou então um Deus implacável. Ou então teríamos de considerar que não é omnipotente, omnipresente e omnisciente.
Noutras Tradições Filosóficas do mundo clássico e da actualidade encontramos uma explicação mais racional que resolve a dicotomia Deus/ homem. Para estas, a aparente separação Deus/ homem simplesmente não existe. Porquê?
Porque segundo as mesmas “o homem é Deus”.
Como se resolve esta aparente incongruência? Dizem-nos estas Tradições que todo o infinito universo manifesto é a manifestação do corpo de Deus, ou seja, todas as coisas são um aspecto da infinita unidade inicial, ou seja, Deus. Tentando ultrapassar a nossa finita compreensão, podemos imaginar o aspecto mais abstracto de Deus como sendo um infinito centro sem qualquer dimensão e que encerra todas as dimensões, um infinito Sol invisível. No outro extremo deste aspecto de Deus, encontramos o seu aspecto mais denso e concreto a matéria física na sua infinita diversidade.
Dizem-nos que Deus basta-se a ele mesmo, constrói-se e coloca-se em movimento. Destes actos de infinitos movimentos inter-relacionados nascem e evoluem a matéria e forma. Assim, na raiz de cada forma vamos encontrar um raio desse Sol Eterno e na medida em que essa estrutura permita que esse raio se manifeste na sua maior evidência, surgem no universo formas ou seres com uma consciência superior.
"O desenvolvimento espiritual é um acto de disciplina pois requer que limpemos, arrumemos, organizemos e vigiemos todos os aspectos da nossa Personalidade. Como conseguimos isto? Como manda a sentença que estava escrita à entrada do Templo de Delfos “conhece-te a ti mesmo.”
O homem é apenas uma das infinitas partes deste todo, um raio de Sol envolvido por matéria, uma forma das infinitas formas que manifesta o Deus interno.
A Alma e o Espírito
Na Grécia clássica o homem era tido como sendo constituído por 3 parte: Nous, Psyqué e Soma, nomes que traduzidos para português significam Espirito, Alma e Corpo. O Espirito do homem é um Raio Desse Sol, de Deus, que há éones de tempo foi projectado aquando da Criação, aquando do Primeiro Movimento. Portanto, sendo Deus eterno, o homem é na sua essência eterno. A Psyqué é uma estrutura intermédia que serve de mediador entre o espírito e os corpos mais densos do qual o físico é a expressão máxima de densidade.
A palavra Psyqué significa borboleta. O uso deste símbolo para velar a alma permite-nos ter uma ideia da natureza desta última. Uma borboleta ao longo da sua vida passa por diferentes fases. Ao início é lagarta, um ser rastejante intimamente ligado à terra, ao aspecto mais material da sua existência. Em determinada altura da vida surge-lhe uma dura Prova onde ela “morre” por um processo de crisálida, “renascendo” depois como uma bela borboleta. Agora este frágil ser, ainda que sujeito tanto aos ventos fortes que facilmente a atirariam contra o chão ou à falsa luz que pode queimar o seu corpo, ganhou asas que a conseguem levar mais além, revelando uma beleza e delicadeza antes oculta, agora é filha do céu.
A alma do homem é essa borboleta, é a estrutura psico/mental que a vida vai levando de crise em crise, de prova em prova, até que deixe de ser um limitado ser rastejante e se transformando num sublime e livre ser alado, reflexo do espirito que o anima.
O Desenvolvimento espiritual
Desenvolvermo-nos espiritualmente não é aumentar o nosso espírito pois a sua “dimensão”, desde o início até ao fim dos tempos de toda a criação, é e sempre será a mesma.
Desenvolvermo-nos espiritualmente é um acto de revelação. O Acto de Revelarmos o Deus que habita no nosso interior e para tal temos de trabalhar sobre a nossa alma para que ela se transforme num meio perfeito que o reflicta ou manifeste em todo o seu poder, beleza, esplendor, glória, dimensão e propósito neste mundo.
O desenvolvimento espiritual é um acto de disciplina pois requer que limpemos, arrumemos, organizemos e vigiemos todos os aspectos da nossa Personalidade.
Como conseguimos isto?
Como manda a sentença que estava escrita à entrada do Templo de Delfos “conhece-te a ti mesmo.”
Conhecendo os Princípios Éticos não só do homem, mas de toda a Natureza, podemos encontrar as nossas virtudes e os nossos defeitos. Assim descobertos passamos a agir no sentido de resolver as nossas imperfeções, alinhando, ordenando e organizando toda a personalidade.
É aprender a viver cada momento do dia-a-dia como uma dupla oportunidade de conhecermos quem somos e de agirmos conforme a medida mais justa.
Crescer espiritualmente implica actividade e não passividade. Não crescemos espiritualmente se meditarmos sobre grandes mestres ou até mesmo sobre os seus ensinamentos, crescemos espiritualmente se vivermos sabiamente os seus ensinamentos.
Crescer espiritualmente é conseguirmo-nos colocar no lugar dos outros, é contemplar e aceder à verdade e construir a dinâmica união do todo.
Crescer Espiritualmente é cumprir a parte de Deus que nos anima e revelar a parte de Deus oculta em cada coisa que nos rodeia.
João Ferro
Junho 2013