Filosofia e Religião
"Quem quer superar a Inteligência sem querer passar por ela, arrisca-se a cair infinitamente mais baixo". Plotino
UMA HERANÇA COM FORTE INFLUÊNCIA
Ainda hoje no nosso mundo é muito difícil tratar o tema da fé, da crença ou da verdade sem sermos afectados, inconscientemente, pelos filtros intelectuais que herdámos das religiões do Livro.
Uma investigação baseada nas fontes clássicas e contemporâneas sobre os conceitos de verdade, fé e crença, pode-nos permitir discernir com eficácia as diferenças e eventuais convergências entre a Filosofia, a Mística e a Religião, sem confundi-las.
Ambas têm um mesmo conteúdo, pois tanto uma como outra buscam a verdade e a sabedoria, ainda que as suas vias de acesso sejam diferentes. A religião revela, utilizando a linguagem da representação através de mitos, ritos e símbolos. A filosofia desvela, demonstra através da ideia, o pensamento e o conceito.
ACESSO RELIGIOSO E ACESSO FILOSÓFICO À VERDADE
Se bem que a Religião e a Filosofia têm preocupações comuns como a ontologia e a moral, "há uma diferença fundamental entre a ética filosófica e a das religiões, que é a referência a uma vontade sagrada, a uma vontade divina." (1) Esta diferença procede da existência na Religião de um princípio de autoridade exterior. Pelo contrário, o filósofo trata de compreender a verdade que lhe é proposta e de constata-la em si mesmo para integrá-la através de uma progressão de pensamento e acção.
Para as religiões, a verdade é dogmática e absoluta. Não se pode refutar. Uma verdade absoluta pode existir neste plano da existência. Para as filosofias, pelo contrário, nenhuma verdade absoluta pode existir neste plano. Em consequência, não se pode falar mais que de verdades relativas, e de um acesso ao verdadeiro por uma ascensão progressiva, através da tomada de consciência da nossa própria ignorância.
Os filósofos antigos descobriram também que, ainda que não se chegasse a uma verdade, esta ascensão indica uma experiência de ordem individual intransmissível, pois a vivência pode simplesmente viver-se mas não transmitir-se. Por outro lado, o método para que cada qual possa ter acesso a ela através dos seus próprios esforços sim é transmissível.
Não se pode chegar à verdade nem pela moral, nem por receitas de verdades prefabricadas, nem por ritos. É o enfoque sobre a verdade o que diferencia a religião da filosofia.
O estudo dos conceitos "fé" e "crença" permite aclarar em que se diferenciam estas vias e como se estabelecem as bases da filosofia e da religião, pois uma e outra nascem de maneiras de crer diferentes.
A FÉ DAS FILOSOFIAS E A FÉ DAS RELIGIÕES
*A fides dos antigos: prova, pacto e lealdade.
A fé dos antigos difere do conceito de fé elaborado pelas religiões actuais e fundamentalmente pelo Cristianismo no Ocidente. A fides romana ou a pistis grega são uma prova de confiança, uma marca de lealdade, um pacto que fundamenta as relações morais e sociais. É uma virtude que não deve confundir-se com a crença religiosa.
O Cristianismo transformou a ideia da fé numa crença fundada, na fé dada a um testemunho (profetas, apóstolos). Mas a credibilidade de um testemunho depende das provas que possam confirmá-lo ou invalidá-lo. O testemunho não exime da prova. Inversamente, a prova tampouco substitui a função própria do testemunho. Sem provas não haveria ciência. A complementaridade entre a prova e o testemunho está no coração da nossa civilização. A distinção entre prova e testemunho, razão e fé, faz parte da nossa herança cultural.
Como consequência de um desvio da noção Antígua de fé face à noção de fé-crença-testemunho do Cristianismo, a fides antiga pode assemelhar-se actualmente com a noção de prova-demostração, mais próxima da razão do que de uma crença religiosa.
Deve-se distinguir a fé-lealdade-prova, fundamento de todo o vínculo social e das virtudes morais e cívicas que permitem as relações entre os homens, da fé-crença-testemunho, que é mais uma lealdade (fidelidade) religiosa, dependente não das provas, mas sim do peso da palavra e da autoridade.
*A Fé das religiões: crença-confiança
Uma crença está submetida a dois tipos de condições: as condições de verdade (a oposição entre o verdadeiro e o falso não depende de nós, mas sim do que existe independentemente de nós), e as condições de aceitação (a eleição do "sim" ou do "não" da nossa fé, sim depende de nós).
Enquanto a crença é um assunto individual que depende de um juízo pessoal, a fé-confiança implica um reconhecimento recíproco entre as pessoas, entre o que dá a sua palavra (ou inspira confiança) e o que a recebe (ou dá a sua confiança). De facto, a confiança é uma relação. Esta relação pode orientar-se em dois sentidos complementários, activo ou passivo (ter confiança, ser fiável). Neste sentido pode interferir nas condições de aceitação de uma crença, por exemplo, outorgar confiança a um testemunho sem verificar os factos em si.
A fé orienta a confiança, mas orienta-a sobre a base de crenças que podem ser verdadeiras ou falsas. O seu valor de verdade depende do que existe, que pode eventualmente contradizer ou refutar o que pensamos. A confiança em Deus tem como fundamento a autoridade da revelação. A fé religiosa não é simplesmente confiança, mas também obediência à autoridade divina. Estabelece-se através das relações de confiança-testemunho, sem que seja considerada necessária uma verificação das provas.
A busca filosófica não se detém ante o "eu acredito" (da fé religiosa), mas sim ante a verificação do "eu creio que" (fé-opinião), independente de toda a relação de confiança, que se pode ter em alguém que se pode equivocar com toda a sua boa fé.
Crença filosófica: crer que... Crença religiosa: crer em...
"Crer em" significa "depositar confiança em". Refere-se em geral a uma pessoa, uma qualidade humana, uma divindade, uma entidade genérica. "Tu crês na ciência, tu crês em X ele crê em Deus".
"Crer que" significa considerar real algo cuja existência não foi ainda demonstrada.
Compreende-se assim que "crer em (a existência de) algo" é ficar-se no exterior da coisa, enquanto que "crer que" é situar-se no interior, aceder ao coração, ali onde a confiança encontra o seu alimento.
CONCLUSÃO
"Não é a noção de Deus nem de sabedoria, nem de conhecimento, nem do verdadeiro, o que permite distinguir a Filosofia da Religião. A origem da diferença está na relação com o critério de fé e de crença. Com efeito, o filósofo "crê que...", isto é, supõe, opina e busca provas da sua fé através da experiência e dos factos, e a religião "crê em...", sem necessidade de comprovar a verdade da sua crença, posto que tem fé nos testemunhos daqueles que receberam a revelação ou daqueles que lhes transmitiram uma revelação ou um dogma, e na sua própria vivência.
Por isso para os filósofos existe a fé-opinião-prova, que leva da crença ao conhecimento-convicção, e na religião tem-se a fé-crença, que leva ao conhecimento baseado no princípio de uma autoridade exterior.
(1) La philosopie, Bertrand Vergely, Ed. Les Essentiels, Milán.
(2) A República, Platão, VI, 510, c-d.
Fernando Schwarz
Filosofía e Religião
In Revista Esfinge nº 7 - Novembro 2000