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Como fomos enganados!
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| Flash Gordone a aventura da colonização de outros Planetas no Século XX |
Sou um miúdo… Sei que tenho cinco anos, pois olho para as minhas pequenas mãos e tento aprender a contar pelos dedos, em espanhol, para poder entrar na escola primária. Eu, que apenas sabia contar em italiano.
Sou um miúdo, e ninguém se importa com o que eu possa ouvir… Talvez por essa razão, posso acercar-me da grande secretária de nogueira, onde meu pai, engenheiro de profissão, conversa com um famoso astrónomo da época, em Buenos Aires, chamado Martin Gil. Eram ambos discípulos das ideias de Einstein. Os dois entretêm-se a sonhar com uma segunda metade do século XX maravilhosa.
Paro, presto atenção e depressa me esqueço de contar pelos dedos, em espanhol…
Por fim, dão pela minha presença, sentam-me numa cadeira, que me parece duma altura imensa e sinto-me verdadeiramente importante. Depois olham-me com meiguice e dizem-me que quando crescer verei um mundo maravilhoso. O homem chegará à Lua, os progressos da ciência e da técnica vão-nos permitir atingir planetas longínquos antes que termine o fabuloso século XX. Invejam-me, porque dos três, só eu poderei testemunhar todas essas coisas extraordinárias. Explicam-me que todos os meninos do futuro serão felizes e terão imensos brinquedos e guloseimas. Dizem-me, também, que a grande guerra que havia assolado a Europa em 1914-18 nunca mais se repetirá. Que haveria paz.
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| A 2ª guerra mundial desmentiu a profecia de uma paz, que será eternamente vigiada por uma confederação de paises. |
Aconselham-me a que economize, que estude muito, pois nesse tal futuro dourado, cada moeda guardada se multiplicará por muitas, os livros serão muitos e estarão ao alcance de todos, e praticamente todas as doenças serão debeladas. Um deles, já não me recordo qual, acaricia-me a cabeça e diz-me: «Talvez até se descubra um remédio para todas as doenças e até para a morte».
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| Zonas de pobreza, cada vez maiores que rodeiam as cidades em pleno séc. XXI |
Eu já tinha reparado que na cidade havia manchas de telhados que não eram de telhas, mas de lata quecobriam umas casitas, que não eram bem casitas, mas sim uma espécie de barracas, lá para baixo, junto ao porto, e que nelas viviam miúdos como eu, mas que não recebiam prendas pelo Natal. E perguntei porquê, e se no futuro não haveria miséria, se todos os meninos teriam brinquedos como eu. Parece-me vê-los, lá longe na bruma do tempo, olharem um para o outro longamente e logo responderem que sim, com toda a certeza, pois o avanço da técnica e da ciência acabaria com todas essas diferenças.
Continuaram a falar de coisas mais complicadas, falaram das enormes reservas de petróleo, do trigo, de metais e novos produtos. Falaram também de paz e de fraternidade entre todos os homens.
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| O sonho de um idioma comum, o Esperanto, não chegou a ser falados nem por uma milésima parte dos habitantes do mundo. |
De novo repararam em mim, que já me levantara da cadeira, e um pouco aborrecido voltava a contar pelos dedos em espanhol; e o sábio astrónomo perguntou-me: «Para que aprendes espanhol? O mundo do futuro, aquele em que tu viverás só falará um idioma: o Esperanto». Saí da sala perguntando a mim próprio o que seria o Esperanto, e ao mesmo tempo sentia-me feliz por ter nascido no século XX, o século das maravilhas, da bondade, do progresso. Fui para o quarto dos brinquedos continuar a montar uma enorme grua com um imenso «Mecano» de centenas de pecinhas em metal. Sentia-me bem, sentia-me contente. Martin Gil, o astrónomo, dissera-me numa outra vez que tratasse de estar cá ainda neste mundo quando o cometa Halley passasse de novo pelo céu, pois era algo belíssimo de ver.
Os túmulos são profanados. Desenterram-se os mortos e atiram-se bebes para as lixeiras. Os avós são abandonados onde calha. O cão fiel que lambia as mãos de seus donos é abandonado, às vezes atirado do carro em andamento, por altura das férias porque se tornou um estorvo.
Como fomos enganados!
Era este o maravilhoso século XX? Era este o maravilhoso século da justiça e da paz?
Quantas maravilhas!... Não tinhas outras palavras para expressar o que sentia, e repetia-o e tornava a repetir, ora em italiano, ora em espanhol.
Passaram os anos, e o meu enorme «Mecano» servia-me para reproduzir barcos e aviões de guerra, os quais depois fingia que incendiava, prendendo-lhes pedaços de algodão, pois queria imitar o que via nas fotografias do London News e no Signal. Só muito mais tarde tive consciência dos horrores dos «jogos de guerra», e ouvi falar dos campos de concentração, das cidades arrasadas e, por fim, das bombas atómicas que o idolatrado Einstein tinha ajudado a construir.
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| Explosão Atómica sobre a cidade de Hieroshima, lançada pelos Americanos |
Drones, aviões não tripulados que matam à distância terroristas e todos os que estão à sua volta |
Quando da primeira experiência feita com a bomba de hidrogénio, na ilha de Bikini, correu o boato de que devido ao facto do planeta estar cheio desse elemento, poderia desencadear uma explosão gigantesca que acabaria com o mundo; eu estava junto ao rádio, e ouvi aquele rugido terrível, seguido de repetidos estrondos que pareciam não acabar mais.
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| Apolo XI, Chegada do homem à Lua |
Mais tarde, vi pela televisão a chegada do primeiro Homem à Lua e a sua inesquecível pegada na poeira cósmica. E não há muito tempo visitei no Texas um museu, onde se encontra o Apolo XI, o vestuário utilizado e pedaços de rocha lunar. E tudo isso para quê? Não se continuou a viajar para o Lua, nem isso favoreceu o mundo cada vez com mais conflitos e mais fome. Depois tudo se tornou mais claro para mim. Tratava-se, praticamente, duma disputa entre os Estados Unidos e a URSS, e tal como dizem as crianças, a ver quem chegava primeiro. Uma mera rivalidade para as duas potências se amedrontarem uma à outra, aquilo a que depois se chamou imprópria e vaidosamente «A Guerra das Estrelas», que afinal acabou em intermináveis bichas para comprar batatas podres e em sofisticados sistemas que permitem matar um homem sem sequer lhe ver o rosto… e que nos assusta porque ameaça com um fuzil, detrás de uma árvore ou das ruínas de uma latrina.
Os novos explosivos plásticos serviram para matar cobardemente. Os pára-quedas foram reservados para os aviões militares.
Em alguns lugares do mundo atiram-se alimentos ao mar para manter os preços em determinados níveis, enquanto que noutros lugares milhões de seres humanos morrem de fome.
Já não escolhemos nem as bebidas, nem a comida, nem a roupa. Os «Amos da Caverna», como lhes teria chamado Platão, fazem-no por nós. O racismo de todas as cores está de volta, e até dentro da mesma cor, pois o tribalismo troglodita está aí, utilizando de novo gases asfixiantes para exterminar povos inteiros, gases esses que foram proibidos pela Convenção de Genebra, há mais de setenta anos, e que nem os loucos que desencadearam a Segunda Guerra Mundial se atreveram a utilizar.
Está de volta a mentalidade Inquisitorial… Tamerlan e Saladino querem de novo construir a sua pirâmide de crânios; Torquemada regozija-se e ao mesmo tempo chora na sua louca paixão por ver acenderem-se, a seu mando, milhares de fogueiras consumindo os infiéis nas suas labaredas, não deixando de falar de humildade, acariciando ao mesmo tempo os acetinados mármores dos seus palácios, os quais não pensa de nenhuma maneira deixar.
Um produz… vinte especulam… um consome.
O estado é um sócio no que respeita a lucros, mas nunca nas perdas. Na hora da verdade, importa mais um cartão de crédito do que uma vida. E o pobre não terá sequer uma cama limpa para morrer.
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| Lideres mundiais numa conferência do G-20, no México |
Mas, que importa? Estamos todos contentes pois temos democracia, leis, inúmeras associações de beneficências e os debates das Nações Unidas… Estamos tão contentes porque nos levaram à loucura e até nos rimos das nossas próprias desgraças. - E já repararam nas fotografias? - Não estão todos sempre tão sorridentes?!
Deus foi destronado da Igreja para dar lugar à importantíssima polémica sobre preservativos; das sinagogas pelo problema das barbas; e as mesquitas pela proibição das mulheres mostrarem as solas dos sapatos e de usarem óculos de sol. Muitos budistas tornaram-se guerrilheiros; os brahmanes adoram o traseiro das vacas e o ideal do Shinto é substituído por melhores aparelhos electrónicos. Confúcio lê Mao.
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| O abandono de animais domésticos, cada vez mais frequente |
Os túmulos são profanados. Desenterram-se os mortos e atiram-se bebes para as lixeiras. Os avós são abandonados onde calha. O cão fiel que lambia as mãos de seus donos é abandonado, às vezes atirado do carro em andamento, por altura das férias porque se tornou um estorvo.
Como fomos enganados!
Era este o maravilhoso século XX? Era este o maravilhoso século da justiça e da paz?
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| A Divina loucura de Dom Quixote, que quer forjar um Mundo Novo e Melhor. Ilustração de Gustavo Doré, Don Quixote velando armas. |
E agora que estamos todos loucos, que sobre as nossas cabeças se abre o céu para deixar passar mortíferos raios, e que a terra, o ar e a água empestam, deixar-nos-ão, ao menos, tentar outros caminhos? Deixar-nos-ão fazer filosofia, procurar a Verdade onde quer que ela esteja? Deixar-nos-ão crer de novo em Deus, pois é a única certeza neste mundo?
Não… Sei que farão tudo para o impedir, pois estão loucos. Mas como nós também estamos loucos, mas de uma outra loucura, a Divina Loucura, não abandonaremos o nosso objectivo! Custe o que custar! Porque, sabem de uma coisa? O mundo está em tal estado que já não temos nada a perder.
Jorge Angel Livraga
Fundador da Org. Internacional Nova Acrópole
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