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A Globalização e a “Escravatura” Moderna

Os Novos Governantes e Escravos do Mundo - Parte IV

 

Os novos governantes e “escravos” do Mundo
Os grandes actores da globalização e os maiores beneficiados de todo este sistema são efectivamente as grandes corporações multinacionais. Devido ao grande desenvolvimento tecnológico existente, nunca a humanidade teve tanta capacidade de produzir riqueza e diminuir a pobreza, nunca houve tanta capacidade de produzir alimentos, no entanto, nunca se viu uma diferença tão grande entre ricos e pobres. As desigualdades são enormes. O problema de hoje não é a nossa capacidade de produzir mas sim a nossa capacidade de distribuir equitativamente a riqueza gerada. Na prática, cerca de 200 grandes corporações governam um quarto da actividade económica mundial.

Os defensores da globalização prometeram que esta teoria beneficiaria o maior número de pessoas, pois cada país iria fazer o que sabe melhor e assim todos beneficiariam, todos teriam mais oportunidades, todos teriam acesso aos mesmos bens, todos teriam mais liberdade. Mas, na prática, o que se verifica é que estas grandes corporações têm reuniões com os governantes dos países onde se pretendem instalar, dizem quais são as suas condições para lá instalarem as suas fábricas, os governos cedem perante o isco do investimento estrangeiro e o benefício para as populações é conseguirem um emprego em condições extremamente precárias. A economia local e a sua sustentabilidade, o bem-estar social e psíquico das populações não é tido em conta nestas negociações.

A Globalização tem afectado negativamente os países do Oriente, como a China e o Vietname. Estes países extremamente ricos em recursos naturais como a madeira, petróleo, ouro e outros vêem a sua população a viver em condições de extrema pobreza. As taxas de desemprego são altíssimas, a população vive em barracas, sem direito a água potável.

As marcas mais conhecidas no Ocidente a que todos nós temos fácil acesso nos centros comerciais e lojas estão instaladas nestes países com o único objetivo de produzirem a baixos custos de mão-de-obra sem quererem saber sobre as condições precárias a que a população é sujeita a trabalhar.

Os trabalhadores chegam a ter turnos de 24 e 36 horas seguidas com apenas 2 horas para descansar. Os ordenados nestes países são de um dólar por dia. Este valor, apesar de extremamente baixo, ainda permitia às pessoas comerem cerca de 3 vezes por dia mas agora, com as taxas de inflação e com as ausências de incrementos salariais, este mísero dólar vale cada vez menos: uma família apenas consegue alimentar-se duas vezes por dia. As grandes estrelas que fazem anúncios publicitários destas marcas conhecidas ganham mais por fazer um anúncio que todos os trabalhadores daquela fábrica.

As pessoas têm tanto medo que nem lhes ocorre negarem-se a trabalhar naquelas condições. Os sindicatos são entidades sem força e quem se atreve a mostrar a cara e a insurgir-se contra este sistema acaba por ser preso e torturado.

Estas grandes corporações dizem que não têm conhecimento destas condições de trabalho e que têm códigos de conduta, no entanto, o que se verifica é que estes códigos de conduta não têm qualquer valor para os governos destes países.

A verdade é que estes governos são corruptos e funcionam apenas em benefício próprio sem qualquer respeito pelos direitos humanos e fundamentais da sua população e estas empresas têm a atitude de uma avestruz, com a cabeça mergulhada na areia, fingindo que não vêem e que não sabem nem têm nada a ver com as condições laborais nestes países.

Outro exemplo é a indústria do Chocolate, onde 60% do cacau, principal matéria-prima desta deliciosa iguaria, provém da Costa do Marfim, Gana, Nigéria e Camarões, e é obtida através do trabalho escravo infantil. As crianças são raptadas das suas aldeias, principalmente do Mali, Burkina Faso e Gana, alguns dos países mais pobres do mundo; são transportadas até à fronteira, e vão passando de uma pessoa para outra até às plantações de cacau, onde são vendidas por cerca de 250€. Trabalham nessas plantações sem receber qualquer retorno pelo seu trabalho. Depois, o cacau é vendido a um transportador até que chega às fábricas das marcas que todos nós conhecemos, que transformam esta matéria-prima em chocolate para a sua posterior venda em todo o mundo.

Os responsáveis destes países dizem que as crianças vão para a Costa do Marfim de férias e como existem tantos intermediários neste processo ninguém se sente e é responsabilizado. As grandes empresas produtoras do chocolate, como forma de salvarem a sua face e de se desresponsabilizarem desta situação, assinaram o tratado de Engel que proíbe o trabalho infantil nesta indústria. Mas este tratado é apenas um modo das empresas se ilibarem da responsabilidade do facto de aceitarem comprar matéria-prima que provém da  escravatura infantil, até porque se o trabalho escravo infantil é proibido em todas as indústrias, qual a necessidade de assinar um tratado especifico para esta industria em particular? A verdade é que andamos “todos” a comer chocolate cuja matéria-prima provém de trabalho escravo infantil.

Na Europa as condições não são tão extremas mas cada vez mais se vê uma tendência para a degradação das condições de trabalho. O valor dos salários diminui, o horário de trabalho explícito e implícito aumenta. As pessoas são “forçadas” a sujeitarem-se às condições exigidas pelas empresas sob pena de perderem o emprego. A pressão é enorme e o pior é que como esta situação acontece globalmente começa a ser considerada normal pelas próprias pessoas. A escravatura encapotada começa a ser aceite. A palavra escravatura pode parecer forte aos olhos de alguns mas se pensarmos no ser humano como um ser mecânico, que é utilizado pelas corporações como uma máquina que tem de cumprir a sua função no menor tempo e ao menor custo possível, sem qualquer consideração pelas suas condições de trabalho ou pelas suas outras necessidades, de que estamos a falar se não de escravatura? Afinal o que é um escravo? 

Cada vez mais se vê pessoas a trabalharem em horários que respeitam as necessidades económicas mas não respeitam os ciclos naturais. Cada vez mais as pessoas trabalham sem terem o retorno justo pelo seu trabalho. Proliferam os eternos estágios não remunerados. Os jovens mendigam por experiência, os menos jovens por um qualquer trabalho para o qual não sejam considerados demasiado velhos e os que têm trabalho “têm” que se sujeitar a tudo sob pena de perderem o emprego. Depois ainda há os outros escravos, aqueles que se sujeitam e vivem dentro do esquema, aqueles que já nem sabem o que é ser humano e vivem apenas para satisfazer os interesses da corporação para a qual trabalham. Muitos fazem-no com uma atitude conscientemente egoísta de satisfação dos próprios interesses. Outros, porque na falta de um ideal de vida acabam por se ligar ao desenvolvimento da empresa como se de um ideal se tratasse. Afinal o homem tem necessidade de um sentimento de pertença a algo superior a si mesmo e de luta por esse ideal, e muitos confundem os interesses da empresa por um ideal de vida. Provavelmente algumas pessoas podem perguntar e porque não? Porquê trabalhar para o crescimento de uma empresa não pode ser um ideal de vida? Até porque começa a ser comum e aceitável haver expressões nas entrevistas e nos anúncios de emprego como as seguintes:

“Está disposto a colocar a empresa em primeiro lugar na sua vida?”

“Disponibilidade total de horário e para deslocações em qualquer local.” 

A resposta é Não. Claramente uma empresa não pode satisfazer as necessidades naturais do homem de se ligar a um ideal, no fundo de se ligar ao divino porque ela não responde a interesses superiores de um bem comum mas sim a interesses egoístas e individuais, em que apenas uns poucos realmente beneficiam e a maior parte é explorada. Não estou com isto a pretender dizer que todos têm que ganhar o mesmo ou ter as mesmas condições e regalias. Obviamente a responsabilidade e as próprias funções exigem tratamentos distintos mas o problema é que a disparidade que vemos no mundo actual é enorme. Platão, na República, defende que o máximo da diferença salarial que poderia haver entre o trabalhador mais básico e um alto cargo na sociedade seria de quatro vezes mais. O que vemos na sociedade são diferenciais de cerca de 20 vezes mais face ao ordenado mínimo e ainda outros diferenciais superiores. A disparidade é enorme e o preço do pão, da água e da energia é igual para todos.

Se as empresas e o Estado vêem as pessoas como um mero objecto que serve para completar uma peça do puzzle como qualquer outra máquina, então o ser humano perde o seu valor. Transforma-se numa máquina sem valor e é tratado como uma máquina sem valor que pode facilmente ser usado e explorado até à exaustão e depois ser substituído por outro.

Se o ser humano é constituído por uma parte física, energética, mental e espiritual só quando ele tem consciência e utiliza todos estes corpos é que se torna plenamente humano. Se a sociedade utiliza o homem como uma máquina de satisfazer os desejos de alguns em que apenas utiliza a sua parte material e energética, então não passa de um animal ou pior do que isso.

O ser humano é um ser social e se ele não tem possibilidade de ser um ser socialmente activo e participativo na sociedade perde uma parte importante da sua condição natural.

Vivemos uma paz que apodrece a cada dia que passa porque os valores humanos são cada vez mais esquecidos, porque a dignidade humana e respeito pelo outro e pela natureza não têm importância. São comprados e vendidos como se de uma mercadoria se tratasse. A necessidade de ética na economia é questionada. E quando a ética e os valores morais são passados para segundo plano ou só são chamados quando interessa então é aqui que começa o declínio da sociedade, e a sociedade é o homem. Por isso, sem ética o homem e a sociedade não existem na sua verdadeira essência. 

A globalização e a classe média
Um dos efeitos da globalização nos países ditos desenvolvidos tem a ver com a criação de uma classe média, que é um fenómeno relativamente recente. O desenvolvimento económico permite um crescimento contínuo desta classe acompanhado por um crescimento urbano, de consumo e do crédito A modernização capitalista leva ao desenvolvimento dos serviços nas grandes metrópoles e há um forte crescimento urbano nas cidades e um esvaziamento nos campos. O acesso ao crédito e a uma educação mais forte leva a um aumento da diversidade profissional a que tem acesso, desta última metade do século permite uma melhoria significativa das condições de vida de uma parte significativa da população o que leva a que exista uma coesão social.

Em oposição os muito pobres têm extrema dificuldade em aceder aos bens. A classe média é, assim, numa primeira fase, uma das beneficiárias deste modelo económico, urbanístico e político. A melhoria das suas condições de vida leva a classe média a acreditar que vai conseguir manter a qualidade de vida que alcançou até agora e possivelmente aumentar ainda mais, sendo para isso o fácil acesso ao crédito o que mais promove esta atitude que acredita no crescimento contínuo e eterno. Este aumento da qualidade de vida permite a existência de uma sensação de estabilidade e de pertença ao modelo económico e político vigente. Até porque a população acaba por apoiar o sistema politico e as medidas tomadas enquanto estas a beneficiem pessoalmente, sendo os prejuízos para o meio ambiente, outras classes menos beneficiadas bem como para outras populações menos beneficiadas pouco relevantes.
 Verificou-se, assim, uma atitude cúmplice entre a classe média que apoiava as medidas políticas, enquanto a classe política permitisse a melhoria contínua das suas condições económicas de vida.

Quando acaba a Segunda Guerra Mundial e a democracia se instala, com as suas preocupações eleitorais dos partidos, acontece também em paralelo uma expansão económica que levou a que os políticos ficassem mais preocupados com medidas que os levassem ao poder do que propriamente com a educação de valores e a pedagogia da população.

No entanto, tudo muda quando a escassez chega à classe média. A maior dificuldade da população em alcançar uma educação de qualidade, acesso a cuidados de saúde, as dificuldades para pagar as rendas do crédito contraído, o desemprego crónico, a precariedade dos salários, as exigências cada vez maiores das empresas, a falta de certeza quanto ao sistema de reformas, o aumento de impostos directos e indirectos.

Agora nem o mercado global nem o sistema político oferecem soluções à classe média e aqui começa a ruptura. Este desalento pode levar as pessoas a quererem menos contacto com a política, levar as pessoas a lutarem por adquirir novamente a sua situação de acesso às regalias sociais que tinham outrora. Ou seja, até aqui o motor da luta e da acção é egoísta e individualista pois cada um luta pelo acesso a regalias para a sua classe social ou profissional. Aqui é importante uma tomada de consciência, é importante que o consumidor se torne um cidadão. Aqui vemos como a experiência da escassez leva a uma tomada de consciência e a verdade é que cada vez mais vão surgindo movimentos que promovem o voluntariado, por exemplo.


Carla César
Conferência proferida em Maio de 2013 na Nova Acrópole de Lisboa

 

Ler primeira parte aqui - Globalização e as suas Bases Teóricas

Ler segunda parte aqui - Globalização e as suas Ideias Base

Ler terceira parte - Globalização - Exemplos Reais

Ler quinta parte aqui - Globalização Efeitos e Soluções


 

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