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A Globalização e a “Escravatura” Moderna

Efeitos e Soluções - Parte V

Efeitos comuns à globalização no mundo
Podemos verificar que os efeitos da globalização são comuns por todo o mundo e isso sim é global, o que depois varia é o seu grau, e isso sim pode ser mais ou menos forte consoante o país que analisarmos.

Assim, desde a América Latina, os primeiros países que serviram de cobaia para este modelo, até à Europa podemos verificar que:

  • As taxas de desemprego aumentam ao ponto deste se tornar crónico. A economia local não se desenvolve pois não consegue competir com as grandes multinacionais.
  • Os níveis salariais baixam significativamente e o cabaz de compras da classe média cada vez é menor. Os governos dos países apoiam-se na mão-de-obra barata e nas condições de trabalho precárias para atrair investimento estrangeiro.
  • A qualidade da educação e dos serviços de saúde dados à população é cada vez menor e os que existem são de pior qualidade. Só os ricos conseguem ter estas necessidades básicas satisfeitas.  
  • A corrupção aumenta. A Globalização desenvolve-se com base numa elite sem caracter que procura satisfazer os seus interesses pessoais e da sua classe e não os da população em geral
  • A falta de valores e da noção do indivíduo como um ser social e espiritual.
  • Os procedimentos das multinacionais com as deslocalizações maciças e as fortes exigências de um mercado global que tudo quer levam à esterilização do meio-ambiente envolvente. Desde o desaparecimento das florestas, à desertificação, esgotamento dos solos, à morte dos oceanos, extinção das espécies. De facto, a poluição é global.   
  • A volatilidade dos mercados não regulados. A fragilidade das bolsas perante um boato, seja este verdadeiro ou não, é um facto. E a economia e o valor de um país baseia-se na avaliação de agências internacionais que já deram provas que os seus critérios de avaliação são pouco fidedignos.
  • A fragilidade das economias locais e da sustentabilidade das populações que ficam muito vulneráveis às medidas tomadas pelas multinacionais que protegem os seus interesses e não os da população.
  • A ideia da irreversibilidade da globalização provocada pela grande interdependência dos países é uma ideia subtilmente difundida. A interdependência oculta os processos de exploração, domínio e apropriação de bens comuns à sociedade em prol do interesse do capital mundial. A política encontra-se totalmente absorvida na economia, esta é feita no mercado e os seus actores são as empresas globais sem qualquer preocupação ética ou moral. Os direitos do homem e a fraternidade encontram-se na teia do mercado

Os ciclos históricos mostram-nos que nada é eterno, que as civilizações nascem, cresce e morrem. Claramente estamos num momento de declínio. Vivemos uma época de grande desenvolvimento tecnológico e de sistemas da informação que caracterizam toda a globalização, a grande questão é como é que a sociedade vai utilizar todos estes meios.

Como conseguir viver num Mundo Novo e Melhor
Como conclusão, não pretendo dizer que as empresas, o crescimento económico e tecnológico são nefastos por si só para a sociedade, o problema é que este crescimento económico não é acompanhado por uma procura do desenvolvimento integral do ser humanos como indivíduo e ser social. A sua base e objectivo único é o lucro a qualquer preço, camuflando-se na ideologia da liberdade para todos e no benefício de todos quando o que na realidade acontece é o benefício de uns pouco para o prejuízo de milhões. Mesmo em termos de mercado, desde o big bang (desregulação das normas financeiras de controlo) já se verificaram várias crises nas bolsas mundiais o que comprova que os mercados não se autorregulam como esta teoria preconiza.

Um dos efeitos graves da globalização é que os interesses locais das comunidades, as formas de trabalho tradicionais que respeitam os ritmos naturais da natureza são completamente ignorados pois não são suficientemente rápidos e não se adequam aos altos padrões de rentabilidade exigidos pelo mercado global. Os próprios padrões de consumo actuais não são sustentáveis para o Planeta e os desastres naturais são a forma de o planeta chamar a nossa atenção.

Para conseguirmos viver num mundo novo e melhor há que mudar o centro de acção que faz mover a roda deste mundo. Neste momento o eixo está no valor do dinheiro, daí verificar-se hoje uma grande distorção no pensamento do homem sobre qual é o real sentido da vida, sobre qual é o sentido do trabalho, sobre qual o sentido do lazer, sobre qual a nossa relação com a natureza e com os outros.
De uma forma muito resumida, posso dizer que:

  • O sentido da vida não é a satisfação básica das necessidades físicas e de sobrevivência do homem, pois isso é um acto meramente animal de subsistência que não revela qualquer inteligência da nossa parte. O sentido da vida é a evolução contínua do ser humano enquanto tal. E o que nos torna humanos é a nossa capacidade mental e espiritual. O sentido da vida é tornarmo-nos cada dia mais leves e espiritualmente evoluídos, é encontrar a harmonia na vida, na natureza e em nós mesmos. “É sermos felizes e fazermos ou outros felizes.”
  • O sentido do trabalho, como diz Délia Steinberg Guzmán, «não é somente “ganhar a vida”. O homem é um produto das suas acções, do seu trabalho constante. O que trabalha desenvolve e acrescenta as suas aptidões, a maioria das vezes escondidas e adormecidas; o trabalho é o que nos ajuda a activar os nossos poderes latentes, a descobrir vocações ocultas e a obter realizações insuspeitas. Fortalece a nossa vontade e a nossa inteligência; ensina-nos a amar.» É também uma forma de participarmos activamente na sociedade de uma forma construtiva, mas este construtivo não pode ser destrutivo de nós próprios.
  • O sentido do lazer não é a satisfação de prazeres inúteis que apenas servem para corromper a alma. Não podemos deixarmo-nos levar pela publicidade que apenas instiga os nossos piores instintos. Há que procurar aquilo que realmente é belo e que nos inspira, aquilo que nos torna melhores e mais puros. Porque afinal o que fazemos com o pouco tempo de lazer que nos resta é da nossa inteira responsabilidade e há que fazer a nossa Alma voar.
  • O sentido da nossa relação com a natureza e com os outros não é a destruição da natureza, a exploração de acordo com os nossos interesses egoístas, a competitividade até ao ponto de aniquilarmos o outro, ou de pisarmos alguém para subirmos mais um degrau na escala hierárquica da sociedade. O sentido da nossa relação com o outro e a natureza é a busca da harmonia em tudo. É a contemplação activa de nós próprios e da nossa relação com o outro e com a natureza que nos leva a conhecermo-nos melhor. É o sentido de cooperação e de fraternidade em que todos fazemos parte de um todo que tem de ser preservado e protegido pelo ser humano.

Assim, o centro da acção para conseguirmos um Mundo Novo terá de ser o homem com novos valores, terá de surgir uma nova ética.

A Nova globalização tem que:

  • Suprir de uma forma generalizadas as necessidades básicas para a dignidade humana e não as necessidades criadas por uma publicidade agressiva e incentivo ao consumo desmedido.
  • Dar primazia ao interesse social sobre o interesse económico, o que levaria a uma nova ordem de prioridades no sistema público, empresarial e privado.
  • Fazer com que as relações internas e internacionais tenham como base a cooperação e não uma competitividade sem escrúpulos.

Para que tudo isso seja possível as pessoas vão ter que se implicar nesta construção de um mundo novo e melhor. As pessoas vão ter que ter uma ética que, posteriormente, devem aplicar na sociedade.

Carla César
Conferência proferida em Maio de 2013 na Nova Acrópole de Lisboa

Ler primeira parte aqui - Globalização e as suas Bases Teóricas

Ler segunda parte aqui - Globalização e as suas Ideias Base

Ler terceira parte - Globalização - Exemplos Reais

Ler quarta parte aqui - Globalização e os Novos Governantes e Escravos do Mundo

 

Bibliografia

Documentários:
Pilger, John; New rulers of the world (Os novos governantes do mundo);
The war on democracy (Guerra contra a democracia).
Santos, Milton; Vozes contra a Globalização.
Klein, Naomi; The Shock Teory (A doutrina do choque).
Money as Debt (O dinheiro como dívida).
The dark side of chocolate (O lado negro do chocolate).

Livros:
Latouche, Serge; Os perigos do mercado planetário.
Latouche, Serge; Que Ética e economias Mundiais – Justiça sem limites.

Artigos:
Ferreira, João; Globalização e a urbanização subdesenvolvida.
La globalización: sus efectos y bondades.
Por uma outra globalização, Milton Santos e a visão em perspectiva de Pedro Sahium.
Globalização e Geografia em Milton Santos.

Carla César
Conferência proferida em Maio de 2013 na Nova Acrópole de Lisboa

 


 

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