A Guerra Íntima e a Paz Alheia
Os símbolos não são criados pelos homens, mas pré-existem na Natureza que os reflecte de um mais alto lugar. É desta forma que a ordenação da Natureza, decretada pela Vida e pelos Deuses, é também a ordenação dos homens. Há que observá-la e saber recebê-la.
Neste mês de Março, que marcava na Antiguidade o início do calendário e que deriva o seu nome do deus da guerra romano, dedicamos umas palavras à necessidade de nos prepararmos, na difícil prova do tempo, para a nossa guerra interior. Esta guerra interior não deve ser confundida com aquela exterior, nem com aquela praticada entre povos irmãos, nem com nenhuma forma de guerra ou violência mediática, movida por questões religiosas, políticas, e sobretudo, económicas. Não é essa guerra, nem devemos entrar nesse jogo bélico que nos pede que escolhamos uma facção, como quem escolhe uma claque ou determinada moda passageira. Tudo aquilo que nos divide é ilusório e deve ser evitado. Não é dessa guerra que falamos, mas daquela feita entre a Luz da nossa alma e as nossas Trevas, entre os nossos Deuses elevados e os nossos Demónios, essa batalha em que fomos sendo derrotados durante o Inverno e que agora nos chama ao dever. Falamos da guerra interior, que não é uma guerra nova, ainda que renovada, nem totalmente privada, ainda que dependa de nós. Nem é uma guerra ilegítima ou sombria. É a mais justa das batalhas. A mais honrada forma de se partilhar e de se sacrificar o tempo, a única realidade que conhecemos e o motivo pelo qual nascemos – combatermo-nos a nós mesmos, internamente. E este é o momento oportuno para se iniciarem todos os trabalhos internos, para voltar a abrir a porta aos simbólicos Pânico e ao Terror, esses temidos filhos de Marte, e enfrentá-los, vencê-los e enviá-los como aliados contra tudo aquilo que dentro de nós, nos impede de crescer, fazer e ser neste intervalo existencial.
Diz-nos Heráclito que «a guerra é a mãe e rainha de todas as coisas». Essa guerra interior que, se bem compreendida, é como um sol dador de vida, que nos ilumina e nos obriga a avançar. E sempre que avançamos, impulsionados por ela, também encontramos obstáculos, dentro e fora daquilo que somos. Podemos abraçá-los como crianças ou ultrapassá-los como homens. Mas para o fazermos, teremos primeiro de travar uma batalha contra a inércia, contra a preguiça, contra o medo, contra a cobardia mental e espiritual, contra os dogmas, contra as estátuas de sal interiores que não soubemos controlar e, acima de tudo, contra nós mesmos. Mas há uma boa notícia em Março, nós não estamos sozinhos. Essa guerra interior harmoniza-nos a nós próprios, para que nos harmonizemos com o próximo e possamos viver em comunidade, para que todos participemos de uma mesma Acção. Viver é agir e enquanto estejamos vivos, todos nós agimos. Ninguém pode deixar de respirar, pensar ou sonhar, e até a inacção não deixa de ser uma forma de acção, uma forma de guerra íntima. Estas acções podem ser desprovidas de moral e inconscientes, mas quando honradas, são elas que nos elevam até aos nossos deuses interiores, para fora do terreno baldio das nossas dúvidas individualistas. Há que agir conscientemente, queimar as dúvidas e limpar as silvas do caminho. Março é por isto o mês das limpezas, o mês de nos despedirmos da inércia, do medo e da tristeza. O mês da primeira torrente de luz que abre caminho nas trevas. Em que o sol celeste acorda o nosso sol interior.
Recordemos que tudo é criado pelo sol e tudo será destruído por ele. Ele brilha de igual forma em todos nós e para todos nós, como forma de amor universal. Mas para o receber e para o dar aos outros, há que limpar aquilo que o oculta. Estejamos, portanto, atentos e preparados para os primeiros raios de luz, para que gerem vida e sacrifiquem as nossas trevas pessoais – sirvam elas de combustível e não os nossos sonhos! Para que sejamos instrumentos neste “sacrifício universal” que é o ano, e não apenas vítimas desamparadas e desatentas. Pois também o homem é um animal sacrificial em si mesmo, um sacrificador em si mesmo, e uma acção ritual em si mesmo, fruto de anteriores sacrifícios. Sacrifiquemo-nos a nós mesmos e sacrifiquemo-nos em nome daqueles que nos deram tudo o que temos. E recordemos aqueles que como nós, também travam um combate interior, uma guerra interior. Todos temos direito à liberdade e todos temos direito a esse sol. Sacrifiquemo-nos com eles e por eles. Mas façamos a nossa guerra interior sozinhos, para que alcancemos em conjunto a paz exterior.
Aqui se iniciam todas as formas de cultivo, internas e externas. Não desprezemos uma em nome da outra. Apressemo-nos a limpar e a fertilizar o nosso terreno interior, para que se depositem as renovadas sementes dos nossos sonhos e dos nossos ideais e para que possam crescer livres de ervas daninhas. Prepare-se o arado e a relha, mas também a espada da vontade e a armadura do intelecto, para que estejamos prontos quando o carro do sol nos iluminar o caminho e as sombras assustadas se precipitem sobre nós. Basta de esperar por aquilo que só depende de nós próprios. Basta de fazer guerra aos outros. Este é o mês da guerra interior feita em nome de causas nobres, e acima de tudo, feita em nome do amor, essa Vénus que dará a Marte a sagrada Harmonia – a verdadeira finalidade da guerra.
Feliz mês de Março e feliz Primavera.
Ricardo Louro Martins
In newsletter nº 5 - PÉGASO Março