Hipátia e o Poeta Cláudio Claudiano
— Falando de outro tema — terçou Teocteno captando a indirecta de Atanásio — sabeis que recebi uma carta de Cláudio Claudiano? Finalmente conseguiu chegar a Roma e estabelecer-se como poeta na corte. Era o sonho da sua vida. Comentou também, discretamente, os preparativos de guerra que se estavam a organizar e os últimos acontecimentos na cidade. Não vos esquecestes que ele esteve primeiro em várias das conferências que a nossa Mestre dava pelas tardes e participou em vários dos recitais de poesia que organizamos na Escola.
Recordareis também as vezes que Hipátia, com os poemas de Claudiano, seguiu o método que tinha Plotino de improvisar os seus discursos. Claudiano lia alguns versos que tinha escrito nesse mesmo dia e a nossa Mestra, sem nunca os ter ouvido e quando o poeta tinha terminado de recitar, construía um discurso elevado e sublime, improvisando: as ideias eram tecidas como o véu de Atena nos mais milagrosos bordados; os ensinamentos morais enlaçavam-se com as imagens poéticas; estas ganhavam vida própria animadas pelo fogo da palavra de Hipátia e, finalmente, como uma música arrebatadora, sentíamos que a alma abandonava esta terra e caminhávamos como crianças num jardim celeste, com os olhos bem abertos às inefáveis maravilhas. Que pena que após o massacre do Templo de Serápis e a destruição de todas as estátuas sagradas, e perseguido pelo fanatismo, ele tivesse fugido para Roma! — Concluiu com mágoa Teocteno.
— Sim — disse Herculiano —, foi então no dia em que se despediu de Hipátia quando pronunciou estes versos tão estranhos que pareciam a voz de um oráculo: «Num céu de beleza reinam os Deuses a quem se rende e entrega a minha alma, num céu onde não chegam os frios dedos do medo. Eu irei por ignotos caminhos, buscando consolo para o meu coração ferido, eu irei aonde morre o Sol, buscando as suas sombras, e sorrirei por fim, dentro de um sonho que faz dormir as estátuas de pedra mas que abre os seus olhos de luz no mundo sem mudanças nem horas». Enviou vários dos seus novos poemas, se ainda não estais cansados ler-vos-ei alguns.
— Sim, sim — responderam os discípulos em uníssono.
Todos amavam a poesia, e mesmo que uns mais do que outros, todos se deleitavam com a perfeição musical das rimas que parecem descer como orvalho que beija a terra, com ideias e imagens que nos fazem abandonar a vulgaridade quotidiana e fazem com que nos sintamos irmãos da natureza, do céu, dos ventos e do fogo. A poesia, ensinara-lhes Hipátia, é um dom de Deus, um Pégaso alado que, na boca destes filhos e servidores da beleza nos faz penetrar na sua Vida e Sonhos, ali onde nunca ninguém está só; esse reino de eterna pureza que Plotino chamou reino da Inteligência.
— Estes versos — explicou Herculiano — formam parte de uma obra que ele está a compor sobre o Rapto de Proserpina. Visto que encerraram os Templos de Elêusis e os jovens já não podem experimentar as divinas vivências do teatro mistérico, nem superar as provas rituais, apenas nos resta a literatura para recrear na imaginação estes ensinamentos — disse ironicamente Herculiano com um toque de amargura. Em vez de ritos, apenas dispomos de imagens construídas com palavras. Mais cedo ou mais tarde ser-nos-ão arrebatadas e mais não teremos que recordações… que se irão submergindo nas trevas do esquecimento.
— Não te ponhas melancólico — disse Atanásio. — Podemos pedir autorização a Hipátia para representar teatralmente estes versos, e duvido que alguém se oponha se soubermos manter segredo.
E assim Herculiano, esforçando-se por suavizar a amargura que sentia por tudo o que a ignorância e o fanatismo lhes ia arrebatando, como excelso declamador de poemas que era, começou:
«O meu espírito, arrebatado pelos Deuses, obriga-me a revelar com canto audaz os cavalos do raptor do inferno, os astros que recebem o vento do seu carro do Ténaro e o leito nas trevas da Rainha do Hades. Não vos acerqueis, os que não haveis sido iniciados! O delírio sagrado afastou com violência os sentimentos humanos e no meu coração transborda a inspiração de Febo. Vejo como os santuários se agitam desde os trementes alicerces e os umbrais difundindo brilhante luz são testemunhos da chegada do Deus.
Ouve-se um grande estrondo vindo das entranhas da terra, estremece o templo de Cécropo e ergue Eleusis as suas tochas sagradas. As serpes de Triptolemo lançam agudos silvos, erguem-se de escamas encalecidas pelo curvo jugo e deslizando calmamente para o canto alçam as suas rosadas cristas. Olha, ao longe surge Hécate com as suas três cabeças diferentes e com ela avança Iaco, lampinho, os seus cabelos coroados com hera, coberto com uma pele de tigre da Partia cujas garras douradas ata, e o tirso de Meonia guia o seu caminhar embriagado».
Herculiano continuou a ler o drama do rapto de Proserpina, que era representado nos Mistérios de Eleusis e que evoca as provas da alma humana condenada a submergir-se na matéria; acorrentada às sensações do corpo e renascendo depois à verdadeira vida, a que faz florescer a natureza. Este mito narra também como a alma da vida torna fértil a terra, afastando-se depois dela quando parece que morre; mas no Inverno a terra guarda a semente oculta no seu seio, esperando outra vez o chamamento da Primavera.
— Enviou outro — disse Herculiano — que expressa muito bem a sua saudade pelo Egipto, terra amada que teve de abandonar contra a sua vontade. É sobre a Fénix, a ave solar, símbolo do Ser Interior, a chama de Deus no homem, espírito imbatível que surge depois da morte, renascendo uma e outra vez. Ouvi a musicalidade dos seus versos e a embriagadora mas serena beleza que transmitem:
«Há um bosque verdejante, rodeado pelas ribeiras mais distantes do Oceano, mais além dos indos e o sopro do Euro, o primeiro a ser despertado pelos ofegantes cavalos da Aurora, o que primeiro ouve o estalar do seu látego, quando o seu carro que derrama orvalho ressoa nos umbrais húmidos do seu palácio e desde aqui avança a manhã rosada enquanto a noite, ferida pelos brilhantes fulgores das suas rodas de fogo, abandona o seu negro manto e cisma tristemente.
Este é o reino da bendita ave do sol, onde mora em solidão, defendida pela inóspita natureza desta terra e imune aos males que afligem os outros seres vivos, e não sofre o contágio cruel do mundo dos homens. Ave igual aos Deuses, que cheia de vida iguala em duração a vida das estrelas e que renascendo sempre o seu corpo cansa a própria roda do tempo. Não necessita comida para satisfazer a sua fome e nenhuma bebida para acalmar a sua sede. Os raios do Sol, mais puros, são o seu alimento e bebe os eflúvios de Tétis [o mar sem margens do espaço infinito] que o vento leva. Um misterioso fogo brilha nos seus olhos e uma auréola chamejante coroa a sua cabeça. A sua crista resplandece com a própria chama do sol e com a sua luz serena fende as sombras, e as suas patas estão tingidas com a púrpura de Tiro. Mais rápidas que as asas do vento Zéfiro são as suas asas, da cor azul de uma flor e enriquecidas nos extremos por brilhos dourados.
Nem foi concebida de um feto, nem cresceu de uma semente, mas sim é o próprio pai e filha de si mesma, sem que ninguém a tenha criado pois renova com a morte fecunda os seus membros cansados, e sempre pela morte alcança uma nova vida. Pois quando já transcorreram mil longos verões, e outros tantos invernos fugiram, e tantas primaveras cumprindo o seu curso devolveram aos que cultivam as terras as sombras das folhas que o Outono lhes arrebatou, por fim então sucumbe esta ave, já muito débil pelos múltiplos anos vividos, e vencida pelo número de lustros: do mesmo modo que se balanceia no cimo do Cáucaso um grande pinheiro abatido pela tempestade e finalmente se desmorona com todo o seu peso: uma parte é derribada pelo vento incessante, a outra, já corroída, quebra-a a chuva, e a outra arrancou-a o decaimento da sua velhice.
Já mingua o seu débil resplendor e a sua estrela elanguesce pálida pelo gelo da velhice como as nuvens ocultam, casualmente a Cintia, a Lua, e vacilante se desvanece o seu corno. Já as suas asas, acostumadas a fender as nuvens, apenas podem erguer-se do solo. Sabendo, então, que o seu tempo expirou e preparada para começar a renovação do seu esplendor, recolhe ervas secas das cálidas montanhas e entrelaçando-as prepara com esta preciosa fronde de Saba um montículo, pira de onde novamente nascerá.
Ela coloca-se e, já bastante débil, saúda o Sol com doces acenos, roga e num cântico de súplica reclama os fogos que lhe outorgarão novas forças. Febo, deixando as suas rédeas quando a vê ao longe, pára prontamente e dá consolo à sua piedosa filha com estas palavras: “Oh, tu!, que vais deixar a tua velhice no fogo e num falso sepulcro vais de novo nascer, tu que tantas vezes renasceste das tuas ruínas e foste outra vez jovem morrendo, recebe uma vez mais o começo da tua vida e deixa esse corpo já débil. Mudando, a tua figura mais bela aparecerá”.
Tendo assim falado, e sacudindo o seu pescoço, lança rapidamente um dos seus cabelos resplandecentes, e alcança a ave, que tanto o deseja, com este fulgor de vida. E então, por sua própria vontade, arde nas chamas para regressar de novo, e alegra-se por morrer, impaciente por voltar a nascer. Os dardos divinos fazem arder o oloroso monte da fronde e consome a ave velha; a lua retém espantada os seus resplandecentes novilhos e o céu não agita os seus astros, preguiçosos, enquanto a pira de novo a cria; a Natureza preocupa-se, inquieta, para que não se perca a ave eterna e adverte as suas fiéis chamas a devolverem-lhe a glória imortal do mundo…».
«todos se deleitavam com a perfeição musical das rimas que parecem descer como orvalho que beija a terra, com ideias e imagens que nos fazem abandonar a vulgaridade quotidiana e fazem com que nos sintamos irmãos da natureza, do céu, dos ventos e do fogo.»
Assim continuaram lendo os poemas que Claudiano tinha enviado aos seus amigos, todos eles discípulos de Hipátia, até que chegaram a um poema belíssimo e profundo de Cristo. Herculiano disse:
— Neste poema a Cristo é evidente que está a falar de «O Ungido», isto é, «A Palavra de Deus» que vivifica a Natureza e que a faz emergir da pureza do Espaço: a Virgem transforma-se na Mãe sem perder a sua natureza imaculada. Recordai como o Crismon é, numericamente, a Proporção de Ouro que rege a natureza, desde o infinitamente grande ao pequeno, desde o crescimento das plantas até ao tamanho das órbitas dos planetas. Este Logos também representa toda a Alma da Humanidade, crucificada entre o Céu e a Terra e que renasce vitoriosa, como filha de Deus que é. E também representa o Iniciado que vence a sua natureza animal e que já não é, portanto, filho de pai e mãe mas Auto-engendrado, ou melhor, filho da sua natureza essencial, pura e virgem como a luz de uma estrela que chega descontaminada desde o infinito; uma chama, portanto, do seu próprio Arquétipo ou Deus, ou do Sol Central que dá vida a todos os Arquétipos.
— Hipátia também nos falou — disse Teocteno — que Cristo representa a Luz Divina, ou o Mistério, puro Amor e Sabedoria, que encarna nos Enviados de Deus. Os filósofos da Índia que ensinavam em Alexandria, os gimnosofistas, chamavam a estes Enviados ou filhos de Deus «avatares» que na sua língua significa «descensos» do Senhor.
— O poema da Fénix, que é auto-engendrado e que salva e renova a vida e o mundo é, para quem sabe ler nas entrelinhas, o mesmo Logos Cristo crucificado na alma da natureza e, portanto, na alma humana também — replicou Evoptio.
— É verdade — disse outra vez Herculiano — que, mesmo assim, o nosso amigo poeta teve que ser muito cuidadoso para escrever o que sabe mas não ferir nenhum dos dogmas vigentes, e ainda fazer certas concessões para que os cristãos menos cultos, que o podem condenar por herege, não vejam reflectido neste poema nada diferente daquilo que pensam. É evidente também que quando chama a Cristo «olho venerável de Deus todo-criador, guardião da vida…» refere-se ao Sol e ao seu Espírito de Vida; o que Platão chamava Sol de Inteligência e Bondade, Luz de toda a luz e sumo Bem.
E Herculiano começou a leitura com a sua voz cálida e vibrante, que parecia um encantamento:
«Oh tu, que custodias o sábio nascimento do fogo eterno, entronizado sobre o destino cíclico do universo, Cristo, manancial vivificador da existência decretada pela divindade, palavra que primeiro engendrou Deus, teu inefável pai; e tu, que depois da fecunda carga do parto materno e da procriação, levada a cabo por si mesma, de um himeneu não consumado, depois de ter detido o furor insensato da raça assíria, e depois de pôr fim aos falsamente chamados ritos de vãos ídolos, te elevaste ao broche das sete faixas circulares do céu, sustido pelas misteriosas e angélicas asas: sê propício comigo, olho venerável de Deus todo-criador, guardião da vida, salvador dos mortais, senhor da eternidade».
José Carlos Fernández
Extraído do Livro Viagem Iniciática de Hipátia