Ibn ’Arabi, Grande Mestre do Sufismo
“Prestigiosa figura do Islão espanhol e um dos maiores visionários de todos os tempos, Ibn 'Arabi é o teórico do esoterismo muçulmano ; a sua obra domina a espiritualidade islâmica desde o séc. XIII e pode ser considerado como o pivot do pensamento metafísico do Islão”. (Fernand Schwarz, em a tradição e as vias do conhecimento ontem e hoje)
Ibn’Arabi foi um escritor de uma fecundidade colossal, embora o sufismo se apresente acima de tudo como uma experiência espiritual vivida, interior, cujo domíno se encontra para além do que pode ser apreendido pela razão ou os sentidos físicos. É só numa etapa posterior, no seguimento de uma realização espiritual, que certos sufis, servindo-se de uma linguagem simbólica e metafórica, transcrevem a sua experiência de forma verbal.
Através da sua obra escrita, Ibn ’Arabi tornou acessível um imenso corpus de ensinamentos que se transmitiam principalmente por via oral e foi também uma ligação entre as tradições sufis da Espanha e de Marrocos e as do Egipto e da Síria.
A sua vida
Nascido em Múrcia (sudeste de Espanha) a 7 de agosto de 1165 numa família nobre, cresce numa atmosfera de piedade e de conhecimento. Por volta dos 7 anos os seus pais instalam-se em Sevilha onde começa a adquirir a cultura muçulmana clássica religiosa e literária. Maryam bint 'Abdun, que aos seus olhos representa o ideal da vida espiritual, tornar-se-á sua mulher.
Após uma doença que o conduz às portas da morte, abandona a sua
existência de letrado e de alto funcionário. Por volta dos vinte anos converte-se e orienta a partir de então a sua existência e a sua actividade no sentido do aprofundamento dos estudos metafísicos e tradicionais. Visita os grandes mestres espirituais, redige obras esotéricas, forma almas que aspiram à vida do pensamento puro e da espiritualidade.
Desde a sua entrada no Caminho, manifestam-se fenómenos psíquicos excepcionais que atraem a curiosidade de Averróis. O relato deste encontro será registado nas Iluminações de Meca, onde Averróis defende o aristotelismo e Ibn ‘Arabi o platonismo. Entre os seus numerosos mestres, duas mulheres muito idosas marcaram particularmente a sua juventude, Shams de Marchena e Fatima de Córdova.
A existência de Ibn ‘Arabi não foi senão uma procura da perfeição e uma evolução contínua em direcção à verdade e à paz. O seu desejo de penetrar o segredo das coisas e as suas buscas dos meios apropriados não conheciam limites. F oi por isso que se apaixonou pela descoberta de todos os graus da devoção em todas as religiões e todas as doutrinas, por meio de uma comunhão directa com o espírito dos seus fundadores.
No entanto, esta atitude de abertura ao universal no meio andaluz foi pouco a pouco entrando em choque com a autoridade espiritual e temporal. Teve pois de deixar o Magrebe e ir para o Próximo Oriente em 1202. Começou assim para ele uma grande aventura de quarenta anos no oriente muçulmano. Ficou em Meca de 1202 a 1204 após ter atravessado rápidamente o Egipto e a Palestina. De 1204 a 1223 o mestre percorreu as diferentes regiões do mundo muçulmano no Próximo e no Médio Oriente – exceto o Irão, teatro dos ataques mongóis.
De 1224 até à sua morte instalou-se definitivamente em Damasco onde a sua actividade intelectual se pôde expandir. Morreu nesta mesma cidade,
rodeado pela sua família, pelos seus discípulos e pelos seus próximos, em 15 de Novembro de 1241.
A sua obra
Ibn ‘Arabi formulou os ensinamentos e as intuições das gerações precedentes, registando por escrito, pela primeira vez, de forma sistemática e detalhada, o vasto substrato da experiência sufi e da tradição oral, recorrendo a um tesouro de termos técnicos e símbolos fortemente enriquecido por séculos de elaboração.
Poucos mestres espirituais fizeram uma exposição tão generosa dos seus ensinamentos, nada menos que novecentos e quarenta e oito títulos de obras tratando de assuntos diversos lhe são atribuídas: a exegese, a tradição profética, o esoterismo, a metafísica, a ética mística, a jurisprudência, a poesia…
O livro das conquistas espirituais de Meca
É a obra chave, cuja primeira versão , redigiu em 1203 em Meca. Após ter reunido os materiais e traçado o plano, levará trinta anos na realização do projeto. A obra, na sua conceção primitiva, compunha-se de quinhentos e sessenta capítulos, divididos em seis grandes secções.
Essas várias partes estão organizadas organicamente. Logo no princípio são colocados os fundamentos doutrinais, os conhecimentos, essencialmente esotéricos, que Ibn ‘Arabi considera necessários ao sufi para ascender em direcção ao Real. Parte da Cabala e termina com uma exposição sobre os segredos dos ritos religiosos. Não há lugar à teologia, quer seja sob a forma de uma simples apresentação da profissão de fé destinada ao povo, quer sob a forma teórica para uso das elites. Também não consagra nenhuma secção à descrição da sua própria profissão de fé. No entanto, após ter tratado sobre a tripla profissão de fé, a do povo, a dos teólogos e a dos filósofos, diz que cada um deve procurar a sua própria nas diversas referências que sobre ela faz no decurso de toda a sua obra.
As práticas que o peregrino deve seguir para o seu avanço espiritual e a sua perfeição pessoal descrevem os estados espirituais pelos quais o sufi deve passar e os acontecimentos que deve enfrentar.
Em seguida vêm as “moradas espirituais” (manazi). Os cento e catorze capítulos desta secção correspondem, em ordem inversa, às cento e catorze suras do Corão.
Retomando então a sua ascensão, o cavaleiro espiritual vai em direcção ao “confronto” (munazalat), em direcção ao ”encontro a meio do caminho” entre Deus e o homem no ponto exato onde se juntam a “descida divina” com a “subida” humana (teofania).
A secção dos estádios espirituais (magamat) comporta noventa e nove capítulos, número idêntico ao dos Nomes divinos nas listas tradicionais. A concepção comum duma “escada” dos estádios existente por si própria e disponível para todo aquele que empreenda subir os degraus da ascenção em direcção a Deus é consequentemente imprópria: as barras da escada só aparecem no momento em que o aspirante pousa nelas o pé e a sua repartição adequa-se às predisposições de cada ser. Por outro lado, “o percurso não consiste em deixar para trás o estádio (precedente para atingir o seguinte), mas em obter algo que lhe é superior sem sair dele. O percurso consiste em ‘ir em direcção a’ e não ‘a partir de’…”
A cada estádio corresponde um conjunto de ciências espirituais. Pode-se ter a experiência do estado característico de um estágio sem o ter ainda atingido, e, inversamente, pode-se atingir um estádio sem ter a experiência do estado que lhe é próprio. Mas a própria ciência deve ser ultrapassada: sucede-lhe, naquele que os estádios já não encerram, a hayra – a perplexidade, a estupefação deslumbrada, uma ciência que transcende qualquer ciência, como a Essência divina transcende toda a perfeição.
A herança do Mestre
Num mundo muçulmano que iría receber o golpe esmagador que o enfraqueceria cultural, política e económicamente Ibn ‘Arabi deixa um tratado
definitivo dos ensinamentos sufis assim como um memorial completo da herança esotérica do Islão. Influenciou deste modo profundamente todo o ensinamento sufi posterior e consequentemente subsiste como a ligação mais importante entre os sufis que o precederam (ensinamento oral) e aqueles que lhe sucederam ( ensinamento sintetizado).
O ensinamento de Ibn ‘Arabi continua a ser atual pois a sua demanda é
atemporal. A sua obra colossal ostenta uma rede vasta de visões, pensamentos e reflexões.
Graças a um mundo intermediário, mundo da alma (revelado por Ibn ‘Arabi) o homem pode passar do plano da aparência, do fenómeno, do exotérico, ao
plano do oculto, do invisível, do esotérico, e obter a libertação.
A sua busca permite transcender as polaridades, reconciliar a Fé e a Razão. É a busca do Centro, a que permite ver a vida do interior, com uma consciência que se situa no interior das coisas.
Jean-Claude Serres