A Imortalidade Forçada da Duração
Após milénios de evolução humana continua a existir uma enorme diferença entre aquilo que desejamos ser e aquilo que de facto nos traz felicidade. Aliás, esse mesmo desejo é, ainda, o nosso maior inimigo, aquele que nos faz pensar que agimos, quando na realidade apenas reagimos àquilo que nos rodeia. Fazemos muitos movimentos, muitos esgares e reciclamos muitas opiniões, mas na realidade, nem nos movemos, nem falamos nem pensamos. Dormimos. Recordemos uma vez mais que a felicidade mora na acção consciente, livre de desejos, expectativas e opiniões, mora na acção que deve ser feita e não nos frutos dessa mesma acção, mora dentro e não fora daquilo que depende de nós. A felicidade está no caminho e não nas metas. Mas há que estar livre para se poder caminhar, há que acordar para saber que de facto sonhávamos. Neste sentido, e aproveitando o curto mês dedicado a Febro, o deus da «morte» e da «renovação», recordamos os nossos leitores da importância de saber renovar-se em tempo útil, de saber escolher aquilo que queremos levar connosco durante a vida, aquilo que habitará onde habita a morte, e aquilo que, prestes a morrer, pouca falta nos faz aqui ou acolá.
Das mais variadas formas de morrer durante a vida, a maior parte delas está relacionada com o desejo, com aquilo que queremos que dure, com a imortalidade forçada da duração, do tempo e da inacção: essa paixão pelo reflexo que somos nas águas paradas do mundo, e que nos impede de contemplar o horizonte. Tal Narciso, preferimos apodrecer num charco que conhecemos, do que caminhar em terra firme e enfrentar o desconhecido. Tudo isto porque nos afeiçoámos àquilo que somos, ao nosso pedestal imaginado, e não àquilo que deveríamos ser. Entretanto, agitamo-nos em nome de qualquer coisa, ao sabor do vento e da maré que passa, carregando às costas inovadoras ilusões e expectativas condenadas à temporalidade, que só nos querem enterrar mais no lodo da ilusão aquática, mas cujo abraço nos dá um conforto passageiro. É, por isto, tempo de avançar e de renovar-se, saber abandonar a carga que trazíamos há minutos, largar o chão que outrora pisávamos como se fosse nosso, para podermos seguir o nosso caminho, mais rápidos e mais livres. Seremos úteis noutro lugar. E antes ainda que o destino tenha de nos dar mais lições e mais des-ilusões, na sua amável esperança de que aprendamos o que deve morrer e o que deve viver dentro nós, saibamos o que somos de facto, e sobretudo, o que já não voltaremos a ser. Se este mês, mais curto que os outros, nos pode ensinar alguma coisa, é que ele não deixa de ser mês só por cumprir as suas funções mais rápido, tal como os homens não deixam de o ser, só por largarem mais depressa as suas ilusões e fazerem-se mais rápido ao caminho. O reflexo que construímos para a contemplação eterna e externa está prestes a ruir, basta que não lhe demos mais importância do que aquela que de facto tem. Há que aceitar a morte como inevitabilidade do tempo e dos deuses, afinal, somos nós quem precisa da renovação e não eles. Há que aceitar a renovação para esta manta de retalhos feita de sonhos alheios e agitados, e chegar a ser aquilo que eternamente somos. Que é a acção. Há que chamar à alma aquilo que é da alma, e lançar à pira funerária aquilo que tem hora marcada com a morte. Porque, por mais que procuremos abrigo nos charcos do mundo, julgando estar no topo de uma montanha, esses ficarão secos e recordar-nos-ão do tempo perdido e do quão fundo podem descer os nossos pés. Talvez aí nos recordemos de que nem tudo precise de durar tanto tempo. O mundo tem de girar para que a noite dê lugar a um novo dia. E ele terá de nascer. Ainda que o nosso sol interior, alheio à voz da manhã, se deixe dormir um pouco mais neste leito fofo da ilusão. É por isso tempo de renovar, de suceder e de saber fazer morrer em nós aquilo que já não é valido nem verdadeiro.
Ricardo Louro Martins
In newsletter nº 4 - PÉGASO Fevereiro 2014