Introdução às Origens e ao Culto do Deus Mitra em Roma (1)
O estudo do mitraísmo, mesmo aquele introdutório, como é o nosso, não é coisa que se faça em dois traços, nem que caiba, devido à exigida minudência, num simples artigo. Contudo, alguns elementos básicos podem auxiliar aquele que desconhece o culto e despertar nele a vontade de o estudar e aprofundar noutro lugar.
O mitraísmo foi um dos principais competidores do cristianismo no império romano, de tal forma, que é possível pensar, pelo menos, que se o cristianismo tivesse sido de alguma forma travado, provavelmente hoje seríamos mitraístas e não cristãos. Claro que a história não se faz do que “poderia ter sido”, mas sim do que “foi de facto”. No entanto, esta ideia não nos deve abandonar, mais que não seja, pelo facto do cristianismo ter bebido, e de que maneira, nos símbolos do mitraísmo romano. Este culto que surgiu essencialmente no mesmo momento histórico e que se espalhou numa área geográfica semelhante, surge em Roma no séc. I d.C., atingindo o seu apogeu no séc. III, sucumbindo finalmente ao cristianismo no séc. IV. (Ulansey, 1989: 4)
Presume-se que o culto de Mitra tenha emigrado do Irão para Roma. E se toda a investigação deve iniciar com uma pergunta (e terminar com várias), esta é, precisamente, a primeira e principal questão que devemos fazer: qual é a continuidade entre o culto a Mitra desenvolvido no Ocidente e aquele do Irão? O culto a Mitra desenvolvido no Ocidente é francamente inovador, ainda que ocultado nalgumas vestes iranianas, como veremos. No entanto, como nenhuma fonte sobre o mitraísmo sobreviveu, é difícil, para não dizer impossível, reconstruir o seu culto a partir de uma desejada “origem”.
A influência do culto a Mitra no Ocidente terá começado com as conquistas de Alexandre, com os casamentos entre soldados romanos e mulheres persas, no entanto, os primeiros contactos conhecidos com o império romano terão ocorrido no séc. I d.C. O culto a Mitra tinha uma componente militar de acção e de moral, motivo que atraiu as atenções do corpo militar romano. Mitra nasce a 25 de Dezembro, data igualmente atribuída ao nascimento de Hórus no Egipto e depois a Jesus. A celebração do nascimento de Mitra chamava-se Natalis Invicti, que coincidia com a celebração romana do Sol Invictus. Mitra, tal como Jesus, nasce numa gruta e é anunciado por uma estrela, Ambos nascem de uma Virgem que tem o nome “mãe de deus”, o seu nome é Anahita, também deusa do fogo. No nascimento de Mitra existem pastores com rebanhos, noutras tradições nasce de uma rocha. A consagração do pão e do vinho já se encontram no mitraísmo e Justino Martir refere que os devotos a Mitra compartilhavam pães e água consagrada ou vinho, o resultado do trabalho realizado durante o ano, simbolizando a carne e o sangue do deus. Este ritual ocorria ao Domingo, o dia do sol. Mitra morria simbolicamente e ressuscitava todos os anos.
Aquilo que hoje chamamos “mitraísmo” era na Antiguidade conhecido como “os mistérios de Mitra” ou “os mistérios dos persas”, nome latino para os iranianos. Os mitraístas, que não eram de forma alguma iranianos, pensavam-se a si mesmos como seguidores de um culto persa. Estes estavam igualmente convencidos de que o culto havia sido fundado por Zoroastro, como relata Porfírio, citando Eubulo, e que este dedicou, inclusivamente, a primeira gruta ao culto de Mitra, o «fazedor e pai de todas as coisas», sendo esta descrita como abundante em flores e em nascentes, e feita de forma a ser semelhante ao mundo e aos seus aspectos mundanos, de forma a que os membros do culto ao saírem da gruta, “saíssem” do mundo. (Porfírio, A gruta das ninfas 2) Platão encontraria seguramente neste culto, um espelho daquilo que desenvolveu no livro sétimo da República.
A Pérsia, ou Pártia, era na época a grande rival de Roma, com frequentes guerras. Contudo, não parece que isto tenha gerado alguma espécie de antagonismo social ou político nos mitraístas. De facto, o seu culto “persa”, que não era escondido do olhar e conhecimento público, era aceite pelas autoridades e cidadãos. Provavelmente, a aceitação romana de uma “identidade” cultual persa, pode ser explicada pelo facto de os mitraístas serem os mais conformistas dos cidadãos, e porque só homens participavam do culto (excluindo-se totalmente as mulheres), ao contrário do que fez o Cristianismo. Sabemos que os principais membros do culto eram militares, bem como membros da burocracia do império e alguns libertos (ex-escravos). (Clauss 1992, Gordon 1972, Liebeschuetz 1994; Merkelbach 1984: 153-88)
O mitraísmo considerou que o espaço sagrado arquetípico e original era uma gruta. Esta ideia, que nos chega de Porfírio, no séc. III d.C., é atestada por evidências arqueológicas. De facto, os mitraístas chamavam aos seus locais de encontro “grutas”, fossem ou não grutas. Quando era possível, as grutas naturais eram utilizadas, mas nas cidades, como Roma, Óstia ou Tarso, utilizavam-se edifícios, cujas divisões eram por vezes decoradas de forma a imitar uma gruta. O “mitreu” (designação moderna), tal como as grutas naturais, não tinha representações exteriores, nem podia ser identificado desde fora, tal como numa gruta. (White 1990: 47-59.)
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Isto não evidência um secretismo, que não existia, mas sim um símbolo: a caverna representa o mundo (que é simbólico) e o exterior a libertação (que não o é).
Os mitreus tinham elevações laterais, de ambos os lados da nave central, servindo de leitos para banquetes e para cultos alimentares. Estes continham arte sagrada, esculturas de relevo, altares, vasos rituais e frescos, onde se representavam muitas vezes as oferendas realizadas durante o culto. (Veja-se Clauss 2000: 42-59, 114-30.)
Os mitreus espalhados pelo império romano dão-nos mais informação sobre o culto do que sobre os seus membros, podendo dai concluir que o culto se havia desenvolvido mais no ocidente latinizado do que no oriente grego. Talvez o Cristianismo tenha dado resposta ao mundo grego e o mitraísmo ao mundo latino, tendo no final sobrevivido apenas um dos cultos. De facto, o mitraísmo viril convinha mais aos romanos, e o “efeminado” cristianismo aos gregos. O culto floresceu principalmente na cidade de Roma e em Ostia, e ao longo do Reno e do Danúbio. (Clauss 1992)
Quanto aos seus membros, sabemos que o mitraísmo era um culto de pequenas comunidades, tendo em conta o pequeno tamanho das grutas. Estas comunidades eram auto-suficientes e não temos qualquer evidência de uma autoridade, nem se conhecem “bispos” à maneira cristã, nem kerdires como no zoroastrismo do séc. III d.C. As instituições sociais mitraístas são chamadas, pelo nome moderno, de “associações voluntárias”. Nem todas as associações voluntárias tinham um fim religioso, algumas tinham fins comerciais ou funerários, por exemplo. Como tal, não era um culto exclusivista, já que os seus membros podiam pertencer aos “mistérios de Mitra” e, ainda que de forma passiva, aos cultos públicos e imperiais, dos quais nem se entrava nem se saia. Como tal os mitraístas continuavam a participar nos cultos públicos. Isto pode explicar a aceitação, ao contrário do que vemos no Cristianismo, por parte dos romanos.
O nome indo-europeu Mitra (do Mitra védico e do avéstico Miθra, do persa antigo Mitra) significa «contracto», com o sentido de «aliança», «acordo», «promessa», etc. Mitra representa a luz solar, mas também a luz moral (Schmidt, 1978, 344 e ss.). Etimologicamente pode derivar do indo-europeu *mei «trocar») ou *mē «medir», i.e., o sol enquanto medidor, ou mediador, do dia e dos aspectos éticos de todo o tipo de contracto (Gray 1929: 96; Gnoli 1979: 727). Mitra parece ser aquele que separa os mundos (divino e terreno) e ao mesmo tempo os une e evidência, como faz o “sol”.
O Mitra iraniano (de acordo com o Yašt 10.13 e 95) representa a manhã e a estrela da manhã, Vénus. O que é atestado pelo Mitra védico (estrela da manhã) e Varuṇa (estrela da tarde), ambos protectores da Lei. Em sânscrito mitra- significa «amigo» e no persa moderno mehr significa «amor», o que pode dar alguma luz sobre o significado tardio do deus, bem como com a relação “fácil” com a doutrina cristã em construção. (Herzfeld 1947: 467)
Os “mistérios de Mitra” eram um mistério da Antiguidade a juntar a muitos outros. Um mistério, à maneira grega, é aquilo em que um homem se inicia, sem a presença, obviamente, da percepção moderna daquilo que é “mistérico” ou “místico”. Muitos mistérios antigos eram “secretos”, mas não era o secretismo que definia um “mistério”, e nem todas as associações voluntárias transmitiam mistérios enquanto iniciação. De facto, o mitraísmo parece ser a única associação voluntária romana na qual a iniciação nos mistérios era a sua principal actividade e a condição necessária para se tornar “membro”. (Burkert, 1987) Os grupos mitraístas funcionavam como as outras “associações voluntárias”, com a adição de uma hierarquia “esotérica” de sete graus. Isto obriga-nos a pensar na existência de uma cadeia, ou num mestre, que de facto é atestado em alguns mitreus. (Clauss 2000: 131-40; Gordon 1994: 465-7; Gordon 1980: 19-99.) Os setes graus de iniciação, que estariam em relação com os planetas, são: Corax (corvo) – Mercúrio; Nymphus (noivo) – Vénus; Miles (soldado) – Marte; Leo (leão) – Júpiter; Perses (persa) – Lua; Heliodromus (mensageiro do sol) – Sol ou Mercúrio; Pater (pai) – Saturno.
Pensa-se que o principal culto no qual se era iniciado era um culto alimentar simbólico, uma refeição ritual (Kane, 1975) que recordaria o Homem do eterno sacrifício que é a existência, sempre dividida entre aquilo que come e aquilo que é comido, o sacrificador e o sacrificado. Diz-nos Porfírio que o facto de os mitraístas serem iniciados numa “gruta”, tinha o propósito de os levar a uma descida da alma, e a uma saída desta para um segundo nascimento ou para a eternidade. A gruta era um símbolo do universo ou do mundo, onde a alma entra para a existência mortal e sai para a imortalidade, numa morte ritual. Porfírio diz-nos ainda que o mitreu representava um microcosmo. (Beck, 2000: 154-65 )
Para compreendermos outros ritos iniciáticos precisamos de ver os frescos, como em Sta. Maria Capua Vetere. Numa tríade de figuras, os iniciados eram representados pequenos, nús e como que humilhados, entre dois iniciadores, um à frente e outro atrás, com vários instrumentos rituais. (cf. Vermaseren, 1971: imagens 21-8.)
O mitraísmo parece ter sido um culto astronómico, já que os corpos celestes tinham lugar nos mistérios, principalmente o sol a lua e os cinco planetas, e as estrelas. Mitra representa ele mesmo este, ou outro, Sol. O objectivo seria identificar o iniciado com Mitra, o seu culto tinha o título de “Deus Sol Invictus Mithras”, ele era “deus”, era “sol” e era “inconquistável”. O sol que desaparece de noite, e que após um sacrifício (aurora) renasce e gera o dia. Mitra era representado à maneira oriental: usava barrete frígio, o que lhe dá uma origem geográfica, mas também uma origem “solar” a Oriente.
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A morte do touro era o principal elemento iconográfico do culto. (Sobre a iconografia: Vollkommer 1992; Cumont 1903: 104-49; Vermaseren 1960: 56-88; Clauss 2000: 62-101) As cenas representadas são várias, a perseguição e caça ao touro, a ascensão de Mitra num carro solar, etc. A perseguição ao touro precede o sacrifício e o banquete e representa a caça à personalidade, até que esta se canse e se deixe dominar, terminando com o sacrifício da mesma.
A representação do sacrifício do touro trata uma série de estrelas e constelações: a constelação de touro, escorpião, a de Canis Menor, a serpente Hidra, a do corvo, a de leão, e a de crater. E a espiga de trigo provavelmente representa Spica, a estrela mais brilhante de Virgem. (Ulansey, 1989: 15; Sobre o simbolismo astral: Merkelbach 1984: 75-133, 193-244; Beck 1988; Beck 1994; Beck 2000: 154-65; Ulansey 1989; Jacobs 1999) Toda esta representação tem, geralmente, uma abóbada celeste por cima, a partir de onde contemplam, controlam, o sol e a lua.
Nas representações do sacrifício do touro aparecem geralmente sete estrelas, ou sete bustos, que representam os planetas e os graus de iniciação. Porfírio diz-nos que o mitreu tinha como objectivo representar o cosmos, pensa-se igualmente que servia para a observação ou ritual astronómicos, já que estes contêm, por vezes, aberturas. Mitra, vertical, crava a adaga de Marte no touro, que, horizontal, representa Vénus. (Ulansey 1989: 17) Nesta leitura podemos entender que a virilidade celeste fertiliza a receptividade terrena.
Mitra, ele mesmo, representa uma constelação. É aquela que “empurra” a constelação de touro para baixo, e que corresponde, na altura do Inverno, à de Perseu. De facto Perseu assemelha-se muito a Mitra, usando o barrete frígio, símbolo de um oriental, bem como a adaga. O próprio nome Perseus, ainda que etimologicamente não tenha nada que ver, foi facilmente correspondido em Roma com a Pérsia. E este nasceu igualmente numa caverna subterrânea.
Mitra que espeta a sua adaga no touro, fá-lo numa zona que pode ser identificada com as Pleiades. (Cf. Ulansey 1989: 25 e ss.)
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O facto de Mitra nunca olhar para o touro, mas desviar o olhar para trás ou para cima (ele só olha para o touro nos casos em que o restauro da representação foi mal feito!), representa o mesmo que Perseu ao matar a Medusa, este desvia o olhar para não ficar petrificado. Podemos subentender várias coisas. Tal como nas representações mais tardias de Cristo na cruz, Mitra cumpre a sua acção no mundo mas desvia o olhar em direcção ao Pai, indicando a sua origem, bem como a origem e motivo do seu acto.
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Mas também, ao desviar o olhar do touro, indica-nos que a destruição da personalidade deve ser feita fora dela, por vontade alheia a ela, e não correndo riscos de encontrar nela um reflexo nosso. Por outro lado, numa leitura socialmente mais romântica, Mitra desvia o olhar do touro, porque se sacrifica a si mesmo, representando um sofrimento, só atenuado pela visão superior do divino. Enfim, deixamos o leitor entregue à sua imaginação, pois os símbolos não servem para gerar nós mentais, mas sim para nos libertar dos preconceitos, para nos fazer dar um salto, como aquele de Paulo a caminho de Damasco. Interpretemos pois, livremente.
Também o touro, representando Vénus, poderá indicar que o Homem não pode olhar directamente para “aquilo que vem de Vénus”, mas apenas para um reflexo ou uma ideia sua. No entanto, Mitra olha para Vénus, e não para o seu reflexo.
Mitra, quando é representado sobre o touro, com uma adaga espetada no “coração”, está rodeado por vários elementos, um cão e uma serpente lançam-se sobre o sangue que jorra da ferida touro, um escorpião posiciona-se na zona genital do touro, e um corvo empoleira-se sobre o manto esvoaçante do deus. A cauda do touro termina frequentemente em forma de espiga de trigo ou em forma de tridente.
De cada lado estão representados os gémeos divinos Cautes e Cautopates, cada um com um tocha, geralmente o da esquerda tem a tocha apontada para cima e o da direita apontada para baixo. Perto de cada um dos gémeos está uma árvore, a da esquerda tem frutos e a da direita está despida, representando provavelmente a morte da natureza durante o inverno. Por cima da abóbada celeste ou gruta, estão as personificações do sol e da lua.
Nas representações das áreas do Reno e Danúbio acrescenta-se um leão e uma taça à cena. Cautes e Cautopates são iconograficamente cópias de Mitra, representam o início e o fim do dia, ou de um ciclo, sendo Mitra o meio-dia, ou o ponto mais elevado desse processo. Eles representam a entrada das almas (Cautopates) e a saída das mesmas (Cautes) do mundo onde se sacrificam. (Hinnells 1976; Beck 1984: 2084-6) )
O Sol e alguns deuses olímpicos são geralmente representados com Mitra, e este é muitas vezes comparado com Hélio, o sol.
Na forma de leão, Mitra é representado sobre o mundo, com uma cruz, que representa por uma lado os quatro cantos da matéria, e por outro, os movimentos que a Terra faz durante o ano ou em determinados ciclos astronómicos.
No nascimento de Mitra ele é representado a emergir de uma pedra, jovem, portando uma tocha e uma espada, símbolos, se quisermos, da sabedoria e da vontade. A pedra é chamada Petra Genetrix, a «rocha que dá à luz», que é a sua “mãe”, a matéria densa.
No Ísis e Osiris (46-7), Plutarco refere-se a Mitra como estando no meio (meson) entre o deus Horomazes (Ohrmazd) e o demónio Areimanius (Ahriman), sendo por isto que ele é chamado «mediador».
Existe uma continuidade, não contínua, entre o Mitra iraniano e o romano. O Mitra iraniano era o deus da luz da aurora, o Mitra romano deus do sol. O Mitra iraniano é deus do gado e das pastagens, o Mitra romano é ladrão de gado. (Porfírio, 40) O Mitra romano sacrifica um touro, enquanto que o iraniano não, mas o acto de matar um touro tem forte presença na cosmologia de Zoroastro, como acto negativo, protagonizado por Ahriman, que mata o touro primordial, contudo o sémen do touro morto é purificado pela Lua e gera todos os animais domésticos. É também do sangue que surge o elixir da imortalidade (hôm). Assim, o acto de matar o touro pode ser uma tradução romana do mito iraniano, já que a cauda do touro se transforma em espiga de trigo e o escorpião repousa nos genitais do touro, tal como a presença recorrente da Lua e do Sol.
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Contudo, os mitos iranianos, em especial o Bundahišn, são francamente mais antigos do que a representação romana, o que permite pensar que o culto romano influenciou o mito iraniano. (Hinnells 1975; Beck 1984: 2068-9, 2080-1) Provavelmente, o culto romano terá importado o mito de Mitra da Índia Védica e não do Irão, em que Mitra mata Soma (o Haoma iraniano). (Lommel 1949) Os nomes dos portadores das tochas poderão ter uma origem iraniana: Nama (saudação, como no romano ave) e Nabarzes (prov. «inconquistável») (Schwartz 1975: 422-3). O leão poderá ter que ver com o iraniano Zurvān, deus do tempo infinito e mediador entre o benéfico Ohrmazd e o maléfico Ahriman.
O Mitra romano é ainda facilmente associado com Ahriman, deus representativo do mal. Mas aqui, e concluindo o que referimos, ele simboliza o Logos que projecta a sua sombra, ou Satã, o «adversário», no sentido em que dá as provas e coloca à prova os membros do seu culto. Mitra represente e permite, em suma, a libertação da alma através do grande sacrifício que é a vida.
Ricardo Louro Martins
Bibliografia:
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E. Will, Le relief cultuel gréco-romain, Paris, 1955.
E. Will, “Origine et nature du Mithriacisme,” in Duchesne-Guillemin ed. 1978.
G. Gnoli, “Sol Persice Mithra,” in U. Bianchi, ed., Mysteria Mithrae, Leiden, 1979.
H-P. Schmidt, “Indo-Iranian Mitra Studies: The State of the Central Problem,” inÉtudes Mithriaques,Acta Iranica 17, Leiden, 1978.
J.P. Kane, “The Mithraic Cult Meal in its Greek and Roman Environment,” in Hinnells ed. 1975, pp. 313-51.
J. Gonda, The Vedic God Mitra, Leiden,, 1972.
L. H. Gray, The Foundations of the Iranian Religions, Bombay, 1929.
L.M. White, Building God’s House in the Roman World: Architectural Adaptation among Pagans, Jews, and Christians, Baltimore, 1990.
M. J. Vermaseren, Corpus Inscriptionum et Monumentorum Religionis Mithriacae, 2 vols, The Hague, 1956-60.
M. Clauss, Cultores Mithrae: Die Anhängerschaft des Mithras-Kultes, Stuttgart, 1992.
M. Clauss, The Roman Cult of Mithras, trans. R.L. Gordon, Edinburgh and New York, 2000.
R. Merkelbach, Mithras, Königstein/Ts., 1984.
R.C. Zaehner, The Dawn and Twilight of Zoroastrianism, London, 1961.
R. L. Gordon, “Reality, Evocation, and Boundary in the Mysteries of Mithras,” JMS 3, 1980.
R. L. Gordon, “Who worshipped Mithras?” Journal of Roman Archaeology 7, 1994.
R. Vollkommer, “Mithras,” Lexicon Iconographicum Mythologiae Classicae 6.1, 1992.
S. Wikander, “Études sur les mystères de Mithras,” Vetenskapssocieteten i Lund, Årsbok 1951.
S. Zwirn, “The Intention of Biographical Narration on Mithraic Cult Images,” Word and Image 5, 1989.
W. Liebeschuetz, “The Expansion of Mithraism among the Religious Cults of the Second Century,” in Hinnells ed. 1994.
W. Burkert, Ancient Mystery Cults, Cambridge MA, 1987.
(1) Este artigo baseia-se, em parte, na nossa comunicação “Cultos Mistéricos: Realidades Históricas no Cristianismo”, do ciclo “Conversas Históricas na Almedina”, organizado pelo Instituto Prometheus: Associação de Estudos Históricos e Interdisciplinares, na Almedina, Lisboa, a 24 de Outubro de 2014.