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Introdução ao “Sonho de Rāvaṇa: Um tratado místico da Índia”

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sonho de ravana
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Em termos contextuais encontramos uma possível relação entre este sonho e o mito irlandês do “Sonho de Oengus”. Onde este, símbolo da divina “juventude”, se apaixona por uma rapariga que só lhe aparece em sonhos, tal como Rāvaṇa se apaixona pela misteriosa Floribel ou Zingarel. Depois de anos em busca da sua amada, com o auxílio do seu irmão Bodb, ele acaba por encontrá-la num lago com a forma de um cisne. Oengus transforma-se ele próprio num cisne e voa com ela para a a sua residência em Bruig na Boinne.(34) 

 

 

 

 

 



Para além da forte presença da filosofia vedānta, as designações originais parecem atribuir a esta versão uma origem no Sul da Índia. Desta forma, compreendemos o porquê de Rāvaṇa ser aqui tratado de forma mais simpática e humana, despido do manto da barbárie que os povos do Norte, ou indo-ários, lhe deram no Rāmāyaṇa. Isto porque no Sul, a região dos povos autóctones, é comum existir uma maior identificação com Rāvaṇa e com os rākṣasas, mais até do que com Rāma, que é representativo do Norte da Índia e do seu avanço violento em direcção ao Sul.

O SR encontra assim paralelo com outras obras deste carácter geográfico, onde Rāvaṇa é retratado numa retórica trágica e por vezes heróica. Para o Sul da Índia a figura de Rāvaṇa ganha um carácter tão heróico, que poderá ser simultaneamente comparado, mutatis mutandis, a Prometeu, que rouba o fogo aos deuses, ou a Epimeteu, que aceita a mulher-dolo, Pandora. Contudo, outras referências, principalmente aquelas feitas sobre Yajamāna (que tal como o autor, face à profundidade do seu discurso, desistiu de o continuar a narrativa), guiam-nos até à região de Mahārāṣṭra.

No que toca à filosofia esotérica indiana, este é o texto responsável pela primeira aparição do termo kuṇḍaliṇī em textos publicados pela sociedade teosófica. É no artigo Yoga Philosophy, assinado por “Truth-seeker” na revista The Theosophist, em Janeiro de 1880, onde se citam passos do SR e se expressa a necessidade de mais informação e traduções (pedido dirigido a Dayanand Sarasvati Svami) de textos orientais sobre o tema, nomeadamente a Jñāneśvarī, os Yogasūtras de Patañjali e textos relativos à meditação budista.(35) Representando o início de um despertar ocidental para a sabedoria do Oriente, propriamente indiana, lugar onde ainda ardia o fogo dos mistérios que há muito haviam abandonado a Europa.

Este é ainda um texto muito próximo às doutrinas desveladas por H.P. Blavatsky, obra que a autora leu e à qual recorreu (ou à mesma fonte) ao longo da sua extensa produção literária. Na introdução à primeira publicação indiana do SR, em 1974, Sophia Wadia chega mesmo a afirmar que: «quem quer que ele tenha sido (o autor) deveria ser conhecido de H.P. Blavatsky».(36) O que pode ser de alguma forma comprovado pelas referências teosóficas ao texto, bem como pelas semelhanças entre o estilo literário, tópicos e interpretações utilizadas por H.P. Blavatsky e aqueles que nos surgem no SR.

O autor, por sua vez, dá a entender que esta obra utiliza fragmentos dispersos (de uma obra indiana?), cuja identificação e veracidade não pôde, até aos nossos dias, ser confirmada. Contudo, quer se tratem de belíssimos fragmentos de uma obra perdida, ou de pura inspiração por parte do autor anónimo, a verdade é que esta é uma das mais talentosas produções que alguma vez foram escritas no Ocidente sobre um tópico indiano, e acima de tudo, sobre um tópico humano, podendo ser comparada tanto às mais belas obras literárias da humanidade, como aos mais importantes tratados esotéricos que nos chegaram às mãos.

O autor cita ainda, a par destes «dispersos e mutilados fragmentos», versos do Rāmāyaṇa, do Adhyātmarāmāyaṇa do Brāhmaṇḍapurāṇa (versão filosófica do Rāmāyaṇa), da Bhagavadgītā, do Vivekasindhu, do Mahābhārata, e de outras fontes que não haviam ainda sido traduzidas na sua totalidade para as línguas europeias. Pelo seu carácter místico e filosófico, presente quer nos fragmentos do sânscrito, quer nos comentários do mais elevado grau de compreensão e discernimento, a obra oferece ao leitor pistas para desenvolver em si um renovador olhar e entendimento sobre a sua própria natureza.

Poderemos querer por ventura, dada a nossa natureza organizativa, fechar esta obra numa interpretação, num género, numa época. No entanto, para o leitor atento, esta instrução moral e religiosa, musical e lírica, mitológica e política, ilimitada e intemporal, adornada de adágios populares e de um requintado sentido anedótico, depressa se revelará como um estreito véu para aquilo que de mais puro e espiritual existe na humanidade, alheia às delimitações mentais. É o clarim que nos chama desde o alto para a superação interna e filosófica, o mistério do Homem que se levanta do seu estado animal para o seu natural estado divino. Esta obra de extraordinária e, por vezes, aterradora beleza, transporta-nos pelo estreito caminho entre o género trágico e o cómico, desde a barbárica corte dos rākṣasas e da guerra, até ao maravilhoso e assombrado mundo de sonhos pelo qual se aventura Rāvaṇa, pelos desertos, pelas florestas e pelos mares de um mundo tão intemporal e simbólico quanto humano. O SR não passará despercebido nem ao estudante nem ao apaixonado pela cultura indiana, tão pouco o será para o filósofo, para o místico, para o crente ou para o céptico. Porque ainda que plena de símbolos indecifráveis e originais elementos de reflexão, a obra é guiada pela generosa simplicidade daquele que pleno de sabedoria, nada mais pode fazer senão partilhá-la com os outros, onde mesmo aquele leitor que não possui um conhecimento interiormente experimentado da filosofia e mitologia indianas, pode enveredar por esta viagem-sonho, e beber daí uma experiência misteriosa.

 


Ricardo Louro Martins
Lisboa, Maio de 2014

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Notas
34. Francis Shaw, The Dream of Óengus: Aislinge Óenguso, Dublin, Browne and Nolan Limited, 1934.
35. Cf. Karl Baier, Mesmeric Yoga and the Development of Meditation within the Theosophical Society, comunicaçao lida no IAHR Conference, Toronto, Agosto de 2010.
36. Sophia Wadia, “Introduction” in The Dream of Ravan: A mystery, Mumbai, Theosophy Company, 1974, p. iii.


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