Introdução ao “Sonho de Rāvaṇa: Um tratado místico da Índia”
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Vários são os investigadores (em especial teósofos e teosofistas) a atribuir a autoria do SR a Kuthumi Lal Singh. No entanto, é agora impossível comprovar a sua autoria ou participação na obra, recorrendo a indícios exotéricos. Kuthumi Lal Singh, grande personalidade do séc. XIX, comummente referido como mestre “K.H.” (da forma inglesa: Koot Hoomi), viveu na Europa durante o período de tempo em que o SR foi editado na DUM, estudou na Universidade de Oxford (ou noutra universidade europeia) por volta de 1850, e terá escrito neste período de tempo, antes de regressar ao Kāśmīra, no Punjāb.
Durante o seu percurso pela Europa esteve também em Dresden, Würzberg e Nürnberg.(37) Também pelo facto de alguns passos do SR serem posteriormente desenvolvidos na Voz do Silêncio (1889), e genericamente noutras obras da autora, alguns autores defendem que a obra possa ser da autoria de H.P. Blavatsky (1831-1891), o que seria igualmente extraordinário.
Parece-nos, contudo, que Blavatsky, no seu papel de discípula de K.H, terá utilizado, naturalmente, as suas ideias, sem quaisquer compromissos e mantendo o seu anonimato, à semelhança do que acontecia na Antiguidade. Mas nunca se terá tratado, como alguns na sua ignorância pretendem insinuar, de um plágio, pois que maior verdade poderá ser escrita, aquela que é anónima e por isso universal, ou aquela que de forma “egoísta” aparece patenteada e agrilhoada ao autor que a recordou?
H.P. Blavatsky nunca se declarou autora, mas sim, compiladora de verdades universais. Por outro lado, algumas expressões e ideias que K.H. avança nas suas cartas são evidentemente próximas às utilizadas no SR,(38) mas isso pouco ou nada nos diz sobre a autoria. A par destas opiniões, presume-se que o autor tenha sido um ocidental, muitíssimo familiarizado com a cultura indiana antiga, em especial com o Rāmāyaṇa,(39) mas mais ainda com o seu esoterismo.
E na realidade, o SR não se encontra totalmente isolado neste contexto literário irlandês. Dentro de outros volumes da revista DUM, foram editados textos que podem ser atribuídos com toda a facilidade ao mesmo autor, quer pelo facto de serem igualmente anónimos, quer pelos tópicos tratados e estilo literário.
No volume 35, de Abril do ano de 1850, i.e., três anos antes da edição do SR nos números 42 e 43, um mesmo hino é utilizado (O Coro dos Titãs canta o Bhūpālī, ou Hino Matinal, em honra de Kṛṣṇa), com os mesmos significados em nota de rodapé que foram utilizados pelo autor do SR, num texto igualmente anónimo, intitulado India:
The Mysteries of Kanoba, or the Mesmeric Waren (pp. 17-34, pp. 447-460,).
Este artigo do número 35 da DUM remete-nos em nota de rodapé para um outro artigo publicado no número 34, em Dezembro de 1849, igualmente anónimo e intitulado Special Exhibitions of Waren; or the divine afflatus of the Hindoos (pp. 647-664). Este artigo, por sua vez, também nos remete em nota de rodapé para um outro, publicado no número 33, em Março de 1849, intitulado Waren, or the oracular afflatus of the Hindoos (from the writings of Bal Gungadhur Shastree), pp. 307-324.(40) Este artigo de 1849 faz referência a artigos anteriores, editados em 1848, Pythonic and demoniac possession in India and Judea, (volume 32, pp. 262-275, pp. 421-443, Setembro-Outubro de 1848) e Theory and phenomena of possession among the Hindoos, (volume 31, pp. 315-330, Março de 1848), que são igualmente anónimos.
Todos estes artigos (sem excepção) contêm semelhanças com o SR, quer na linguagem utilizada e sentido poético, quer nos mantras descritos, notas de rodapé às designações sânscritas, referências à filosofia vedānta, ao mesmerismo, e comparações com a literatura ocidental (nomeadamente cristã, grega e latina), mas mais nenhuma referência palpável nos é feita. Ao lermos os vários artigos publicados, certamente pelo mesmo autor do SR, ficamos apenas com a ideia de que se trata de alguém próximo aos editores e contribuidores da DUM, pelas referências a eles feitas, alguém que viajou por várias regiões do Oriente e da Europa, e que a par da sua extraordinária erudição, trouxe conhecimentos verdadeiramente “estranhos” à Europa do séc. XIX, como a hipnose, o magnetismo, as possessões, a mediunidade e a tradição indiana (erudita e popular).
O SR pode ainda ser enquadrado na linha literária da Irlanda vitoriana (1837-1890), em especial daquela que viu nascer a Sociedade Céltica (1852) e a Sociedade Ossiânica (1853) com o fim de preservar e publicar manuscritos do ciclo feniano que viriam a gerar um revivalismo céltico.(41) Época que coincide com a literatura mistérica e de terror (aqui geralmente associadas), bem como com o orientalismo exótico iniciado por Thomas Moore e Byron, que foi perpectuado na DUM por James Mangan.(42) Este último, Mangan, é um possível candidato à autoria do SR.
Devemos salientar que a altamente aclamada e conservadora revista literária DUM é descrita como a mais influente revista irlandesa do séc. XIX, «o derradeiro arquivo da experiência vitoriana na Irlanda».(43) No entanto, aqui foram publicados vários artigos sobre o mesmerismo e o magnetismo animal na Europa e na Índia, com recurso a sérias interpretações, quer materialistas quer espiritualistas, bem como narrações de estranhas práticas de hipnose e possessão contadas ao pormenor, que se aproximam tematicamente ao SR.
Estes artigos sobre o mesmerismo foram publicados durante os anos 40 do séc. XIX na DUM e noutras revistas irlandesas, anónimos ou assinados por Irys Herfner.(44) Um pseudónimo que terá pertencido a James Clarence Mangan, a Henry Ferrys ou a um outro autor desconhecido. Em sequência destes artigos, o mesmerismo tornou-se famoso por toda a Europa, unindo-se rapidamente à magia, levitação, magnetismo, possessão e doenças nervosas, inspirando, em certa medida, a famosa obra de Robert Carter, On the Pathology and Treatment of Hysteria (1853).(45)
A obra e biografia de James Clarence Mangan, salvo ser um dos nomes apontados para o pseudónimo Irys Herfner, nada nos diz de relevante para que o possamos unir ao SR ou mesmo ao pseudónimo em questão. No entanto, quando observamos o enigmático Henry Ferris (nome a partir do qual surge o anagrama Irys Herfner?) a situação altera-se bastante.
Para além do seu gosto por histórias de terror, fantasmas e espectros, que levaram os seus textos a ser primariamente atribuídos a Sheridan Le Fanu, revela igualmente um grande interesse pela observação real destes fenómenos, bem como um sarcasmo e sentido de humor que está muito além do comummente aceite, tal como observamos no autor anónimo do SR. H. Ferris terá nascido em 1801 ou 1802 e morrido em 1853 (ano em que saiu à luz o SR), tendo sido o presumível autor, de acordo com o Wellesley Index to Victorian Periodicals e a investigação de S.T. Joshi, de mais de vinte trabalhos publicados na DUM, entre 1839 e 1851.(46) No entanto a escassa biografia não nos permite saber quem ele foi, se foi, e muito menos relacioná-lo com o SR.
Desta forma, o desejo de anonimato do autor do SR foi mantido como que por forças mágicas, pois todos os possíveis fortes candidatos à autoria da obra (os mais empolgantes já referidos) que as circunstâncias, a investigação sistemática e a nossa curiosidade nos colocaram infinitas vezes à frente, desvaneceram-se constantemente depois como no kālavivarta ou «miragem negra» do rei Rāvaṇa. Pois sempre que sondávamos um nome que certamente teria que ver com a obra, um editor, um sanscritista, um teósofo, depressa este se esbatia num terrível vazio, e no final deixava-nos definitivamente mais questões do que respostas. Assim, também não será a edição portuguesa a avançar para já e com segurança a identidade do autor do SR, mas sim mais uma a perpetuar o seu sagrado anonimato.
Ricardo Louro Martins
Lisboa, Maio de 2014
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Notas
37. Cf. Mark L. Prophet; Elizabeth C. Prophet; A. Booth (edd.), The Masters and Their Retreats, Montana, Summit University Press, 2003, p. 72.
38. Também Sri Aurobindo parece dar a entender que Kuthumi teve algo que ver com o SR, quando no seu poema, intitulado precisamente The Mahatmas: Kuthumi, escrito em 1910, refere Rāvaṇa, assim como algumas descriçoes comparáveis as existentes no SR. (Sri Aurobindo, “The Mahatmas: Kuthumi”, Collected Poems, Vol. II, Col. The Complete
Works of Sri Aurobindo, Pondicherry, Sri Aurobindo Ashram Trust, 2009, pp. 325-328). No mesmo ano escreveu os poemas The Raksasas e Kama, que nao deixam de estar relacionados. Contudo, esta nao passará de uma especulação, a juntar a tantas outras.
39. H.A. Fausset, Poets and Pundits: Essays and Addresses, New York, Kennikat Press, 1967, p. 290.
40. Aqui é-nos apresentado um sanscritista, que não será o autor do SR, mas cuja relação com o autor anónimo não deverá passar despercebida. Estas são as palavras do compilador anónimo em Março de 1849: «Introduzimos agora aos nossos leitores o primeiro fascículo dos prometidos esboços ilustrativos sobre o tópico do Waren, ou o afflatus divino dos Hindus. Estes esboços, veremos, foram dados, logo após estarem completos, para a revisão de um muito eminente brāhmaṇa, já falecido – Bal Gangadhar Sastri – que detinha um competente conhecimento da língua inglesa, um profundo conhecimento da literatura sânscrita, e as mais altas competências na ciência matemática, tendo por isto ganho o honroso cargo de professor de matemática e astronomia no Instituto Elphinston em Mumbai. Este cavalheiro – cuja morte, acerca de dois anos, foi pronunciada pelo Sir Erskine Perry, o chefe da justiça de Mumbai, como uma calamidade pública para a presidência Ocidental, e devido aos seus valiosos serviços em nome da educação pública, o governo local garantiu uma pensão a sua viúva – é originário de uma parte do país, o Concão do Sul, onde a possessão é muito frequente; e foi, a partir destas capacidades, bem como do seu conhecimento geral e inteligência, bem qualificado para corrigir e aumentar os detalhes que havíamos acumulado sobre o tópico. Ele também fez notas em muitas das folhas, e ele próprio forneceu a descrição de um singular tipo de possessão, o Daku Waren, que será adiante apresentada. As notas deste sábio e iluminado hindu, cujo nome e reputação são bem conhecidos na Índia Ocidental, contem tão importante autenticação dos factos, que nos achámos no direito de as publicar exactamente nas suas palavras, tal como foi escrito sobre as folhas que lhe foram enviadas; e, consequentemente, apresentaremos o texto original tal qual lhe foi enviado – em vez de o corrigir de acordo com as informações de Sastri ou notas nossas – dando-lhe uma forma e sequencia mais consistente e decisiva, do que aquela que surgiu das primeiras tentativas de editar este tema tão complicado, multifacetado e sombrio, que agora apresentamos. (…)» (p. 307). As notas do sanscritista Bal Gangadhar Sastri editadas neste texto pouco tem que ver em estilo com o texto que é apresentado pelo autor anónimo fora das notas (semelhante ao utilizado no SR), motivo pelo qual, temos de supor continuar a tratar-se de autores diferentes. No entanto, o facto de se referirem novamente folhas dispersas, e de este ser o texto inicial de vários escritos pelo pressuposto autor do SR, liga-nos a nossa tradução, a existência de textos indianos que parecem ser hoje desconhecidos, e ao referido tópico do mesmerismo e das possessões.
41. Norman Vance, Irish Literature Since 1800, Edinburgh, Longman Publishing Group, 2002, pp. 65-66 e ss.
42. Idem, ibidem, p. 87.
43. Cf. W. J. McCormack, “The Intellectual Revival: 1830-50”, in Field Day Anthology of Irish Writing, I, Derry, Field Day Co., 1991, p. 1176 e ss.
44. Veja-se por exemplo: Irys Herfner, “German Ghosts and Ghost-Seers”, DUM, 17, Janeiro de 1841, pp. 33-50, estranhamente empolgante e semelhante, em estilo, ao SR.
45. Cf. Gaid Girard, “Mesmerism in the Dublin University Magazine and Sheridan Le Fanu”, comunicação apresentada no âmbito do colóquio Medicine at the Margins: Ideas, Knowledge & Practice – c. 1500-2000, na Universidade de Glamorgan, 15 de Abril de 2011.
46. Brian Stableford, News of the Black Feast and Other Random Reviews, Maryland, Wildside Press, 2009, pp. 120-123; S.T. Joshi (ed.), A Night with Mephistopheles: Selected Works of Henry Ferris, East Sussex, The Tartarus Press, 1997.