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C.G. Jung e o « Livro Vermelho »

Uma viagem iniciática às suas próprias profundezas

JUNG BARCA


Em 1913, o psicanalista suíço C.C. Jung começou a compor uma obra. «O Livro Vermelho» (Liber Novus) onde atravessou profundamente a sua psique. Esta obra constitui, para além de um testemunho pessoal, um avanço na história da psicologia.

O Museu Guimet organizou uma exposição excecional (1) acerca do original do Livro Vermelho por ocasião do quinquagésimo aniversário da morte do psicanalista.

A apresentação foi completada por um conjunto de peças realizadas pelo próprio Jung, assim como por obras do Museu Guimet, que ilustravam o seu  interesse pela Ásia, ou experiências vividas por ele, aquando da sua viagem pelas profundezas da psique humana.

Devido ao seu interesse pelas diferentes culturas e mitologias do mundo, Jung aproximou-se do espírito de Emile Guimet que tinha fundado um museu de história das religiões.


Uma obra importante da história da psicologia
O Livro Vermelho foi feito entre 1914 e 1930 por C. C. Jung (1875-1961) que, por volta dos quarenta anos, quando atravessava um período de incerteza interior, registou os seus sonhos e visões naquilo que viria a ser uma das obras mais importantes da história da psicologia. É uma obra que pesa sete quilos, encadernada em couro vermelho. O texto manuscrito à moda  medieval, iluminado e ilustrado pela sua própria mão oferece um olhar espantoso sobre o trabalho do psicanalista  durante o período mais importante da sua vida. Acaba de ser editado em várias línguas depois de ter sido mantido em segredo num cofre de um banco durante cinquenta anos e está aumentado por uma excelente introdução da autoria de  Sonu Shamdasani (2) que obteve o acordo dos herdeiros de C. C. Jung para realizar esta edição.

YUNG

Visões internas
Jung começou no inverno de 1913 um processo de auto-experimentação das suas próprias visões internas. Deu livre curso à sua imaginação e anotou cuidadosamente as suas vivências em pequenos cadernos pretos. Quando rebentou a primeira guerra mundial, percebeu que um certo número dos seus fantasmas eram premonições de acontecimentos que haviam de acontecer. Estes levaram-no a compor o primeiro esboço do manuscrito do Liber Novus, no qual retranscreveu as suas visões, acompanhando-as com comentários redigidos num estilo poético. Nesta obra maior, encontram-se a germinar os seus trabalhos mais tardios e afirma-se que é a obra inédita mais influente de toda a história da psicologia. Com efeito, foi durante a primeira guerra mundial que Jung elaborou as suas principais teorias: a dos arquétipos, do inconsciente coletivo e do processo de individuação (3). Transformou a psicoterapia num meio de aprofundamento e de desenvolvimento da personalidade.


O diálogo entre Yung e algumas figuras arquetípicas
Os capítulos do Liber Novus começam pela exposição de fantasmas visuais espetaculares, nos quais o «eu» de Jung encontra personagens muito variadas que evoluem em diversos contextos. Graças à prática da «imaginação activa», Jung encontra diversas imagens arquetípicas como Élie, Salomé e a Serpente, Loki (um deus da mitologia nórdica) ou encontra Hephaïstos. Instala-se o diálogo entre eles, e Jung é confrontado com acontecimentos inesperados e com declarações chocantes. Tenta compreender o significado destas visões. Estas experiências levam-no a compreender-se a si próprio e a integrar progressivamente os diferentes componentes da sua personalidade. Mas esta reflexão não se limita ao seu caso particular porque ele interroga-se sobre a estrutura da personalidade humana em geral, a relação entre o indivíduo, a sociedade actual e a comunidade dos mortos; sobre os efeitos psicológicos e históricos do cristianismo assim como sobre a evolução da religião no ocidente. O tema geral da obra é a maneira como Jung encontra a sua alma e ultrapassa o mal-estar contemporâneo da alienação espiritual. Chega mesmo a fazer renascer uma nova imagem de Deus na sua alma e uma nova visão do mundo sob a forma de uma cosmologia psicológica e teológica. O Liber Novus contém o protótipo da conceção que Jung faz para si próprio do processo de individuação que é para ele a forma universal do desenvolvimento psicológico pessoal.

 


"É pelo interior de si próprio que se comunica com a fonte de tudo."



Philémon, uma das imagens do Eu Profundo
Entre todas as figuras arquetípicas, é Philémon (transformação de Élie) que aparece a Jung como o seu guru, o seu mestre, portador do conhecimento mais elevado.

YUNG



Entretém-se com ele no seu jardim, descreve-o e desenha-o como uma personagem dotada de asas de pica-peixe, suspenso no espaço com chaves nas mãos. Dirá: « Philémon é um pagão numa atmosfera meia egípcia, meia helenística, meia gnóstica.» Traz-lhe um conhecimento intuitivo e acompanha-o na descida aos infernos, inspirado em Virgílio e em Zaratrusta. Depois, Jung dirá que Philémon está frequentemente ao seu lado, embora saiba que ele não está lá fisicamente. É uma das imagens do Eu Profundo, portador de toda a sabedoria do ser interior que aparece quer como um velhote, quer como uma criança de luz. Ensina-lhe o renascimento de Deus sob uma nova forma, mais interiorizada. É pelo interior de si próprio que se comunica com a fonte de tudo.




O meio que Jung utiliza é religioso, no sentido latino do termo religare «estabelecer elos». Ele recorda que a sua etimologia exata vem de religere e remete-nos para um velho radical indo-europeu que quer dizer exatamente: «O que é que os deuses esperam de mim?». É, portanto, um processo de avaliação que exige uma visão clara e discernimento para encontrar uma resposta.

Ilustrações originais
Jung ilustrou a sua obra com desenhos, especialmente com mandalas. A mandala (círculo em sânscrito) é uma figura simbólica que serve de suporte à meditação e à concentração nas tradições hindu e budista e que foi particularmente desenvolvida no budismo tibetano. Jung pintou a sua primeira mandala em 1916, o Sistema mundi totius (Sistema do mundo inteiro) que representava a cosmologia dos Sete Sermões aos Mortos, sem se importar com o seu significado. Em 1917, desenhou uma série de mandalas no seu caderno militar que reproduziu mais tarde no seu Liber Novus. Pouco a pouco, percebeu o verdadeiro significado da mandala. «Os meus desenhos de mandalas eram criptogramas sobre o estado do meu Eu Profundo, que me eram mandadas diariamente.» (4) Para Jung, a mandala é uma «expressão do Eu Profundo», que é o centro e a totalidade da personalidade e o arquétipo central cujos símbolos se aproximam da imagem de Deus. O objetivo do processo de individuação é realizar o «Eu Profundo» de maneira consciente. Ligamo-nos à simbólica oriental do encaminhamento da luz da unidade em direção à pluralidade e do retorno da consciência da pluralidade em direção à unidade.


O fim da obra em 1930
No posfácio do Livro Vermelho, Jung escreveu em 1959. «Trabalhei neste livro durante dezasseis anos. O encontro com a alquimia, em 1930 virou-me do avesso. […] Graças à alquimia, pude integrar (estas experiências originais) num todo.» A finalidade da alquimia espiritual é a transmutação do chumbo material em ouro espiritual. Jung tomará a alquimia como o grande teatro do inconsciente. Procurou a transformação interior e a descoberta de Deus. Para ele, o inconsciente coletivo correspondia àquilo a que os antigos chamavam a alma do mundo. A alma do mundo é o estádio intermédio entre o mundo sensível onde vivemos e o mundo do intelecto divino. Exprime-se através da linguagem dos símbolos e dos mitos.


A pedra de Bollingen, prolongamento da obra
Em 1922, Jung comprou um terreno na margem do lago superior de Zurique, em Bollingen. Sentiu necessidade de representar os seus pensamentos mais secretos na pedra e de construir uma habitação completamente primitiva. Considerava a torre como uma «representação da individuação». Ao fim de alguns anos, fez pinturas e esculturas nas paredes. A torre é uma continuação em três dimensões do Liber Novus. Em 1950, esculpiu um bloco cúbico de pedra nas suas quatro faces, onde explicou o que a torre significava para ele.

Numa face, colocou uma estrofe latina do alquimista Arnaud de Villeneuve (6),que falava da pedra filosófica alquímica dizendo que era uma pedra de aparência humilde, desprezada pelos ignorantes e apreciada pelos iniciados. Na outra face, uma figura de Télesphore, que viaja através dos mundos, como Hermes, e brilha como uma estrela nas profundezas. Indica o caminho para as portas do Sol e para o país dos sonhos. À volta desta figura central mercurial, apareciam símbolos planetares: Sol, Lua, Saturno, Júpiter, Marte e Vénus. Na terceira face, aparecia o célebre grito de Merlin, onde o velho mágico druida se identificava com todos os estados da natureza num processo de metamorfose: «Eu sou Uma, mas oposta a mim mesmo». Sou simultaneamente adolescente e velho. Não conheci nem mãe nem pai. […]Vagueio pelas florestas e pelas montanhas, mas estou escondido no mais íntimo do homem. Sou mortal para cada um, mas, no entanto, a sucessão do tempo não me atinge.»

Em 1956, Jung escreveu «todos os volumes que escrevi estão contidos em embrião nesta pedra».


A herança de Jung
Poderíamos resumir a sua herança por esta frase que está inscrita no Liber Novus: «Não há um grande número de verdades, só algumas. O seu significado é profundo demais para que consigamos agarrá-las sem ser sob a forma de símbolos».


YUNG

 

Sendo a sua vida «a história de um inconsciente que cumpriu a sua própria realização», é a partir da sua própria vivência, servindo-se da sua experiência particular em relação às raízes universais do ser, que Jung conseguiu transmitir-nos um modelo de desenvolvimento: a individuação. Embora sendo sua criação particular, inscreve-se nesta demanda de unidade e de unificação do ser que atravessa as grandes correntes filosóficas e espiritualistas do Oriente (onde o atma inspira a sua imagem do Eu Profundo) e do Ocidente (o indivíduo de Platão, o ser unificado, um outro antepassado da individuação).

No entanto, não procurou inventar nada de novo, procurou sim fazer reviver os valores universais da filosofia atemporal na caixa-de-ressonância que é a psique humana em constante movimento e metamorfose. Mas movimento em direção a onde? «O mundo onde o Homem nasceu é um mundo brutal e cruel, mas ao mesmo tempo, de uma beleza divina. Eu acalento a esperança de que a vida tem um sentido, que se impõe perante o nada e ganha a batalha». (7)

Confiante no espírito humano e inquieto com a situação do mundo num século XX atingido por tantas disfunções, poderá ele ser mais ouvido nos inícios de um século XXI tão conturbado?

A exposição do Museu Guimet permitiu dar um passo nesta aproximação Oriente-Ocidente e nesta necessidade de estar mais atento às nossas intuições profundas para encontrar talvez esta solução que um homem «com dois milhões de anos», despertado, de novo, através de Yung, nos transmite desde as profundezas do inconsciente coletivo.

  1. De 7 de setembro a 7 de novembro 2011, O Livro Vermelho de C.C. Jung, contos de uma viagem interior.
  2. Autor nascido em Singapura em 1962, editor estabelecido em Londres, titular da cadeira Philémon de História de Jung no «Centro para a história das disciplinas psicológicas», University College em Londres. Os seus trabalhos baseiam-se na história da psiquiatria e da psicologia.

 

  1. Processos de tomada de consciência da individualidade profunda, descrito por Jung
  2. A Minha Vida, Gallimard, 1991, páginas 227-228
  3. O Livro Vermelho, C. C. Jung, posfácio, página 360
  4. Médico (1238-1311), alquimista, teólogo, astrólogo. Considerado como o mais eminente médico do seu século
  5. A Minha Vida, op. Cit., página 405

 


Laura Winckler
Artigo publicado na revista Acropolis Nº 227

 

 

 

Bibliografia:
Para saber mais sobre Yung:

O Livro Vermelho, Liber Novus, C. C. Yung, Ed. L’iconoclaste, A companhia do Livro Vermelho, 2011
O Livro Vermelho de C. C. Yung, contos de uma Viagem interior, Sonu Shamadasani, Ed. Musée Guimet, 2011.
C. C. Yung ou a experiência do divino, Jean-Jacques Antier, Ed. Presses de la Renaissance, 2010
C. C. Yung, o seu mito no nosso tempo, Marie-Louise von Franz, Ed Buchet Chastel, 1975
C. C. Yung, a sacralidade da experiência interior, Ysé Tardan-Masquelier, Ed Droguet & Ardant, 1992.

 

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