Laboratório da Ciência Moderna
A física moderna optou, definitivamente, por Platão. Com efeito, as mais pequenas unidades de matéria não são objectos físicos no sentido vulgar do termo, mas formas, estruturas, ‘Ideias’ – na acepção platónica da expressão – de que não é possível falar sem ambiguidades a não ser em termos matemáticos.
Werner Heisenberg (1901-1976)
Goethe desenvolveu uma teoria relativa ao processo do devir da Natureza que pode ser perfeitamente aplicada no estudo do devir humano. Referimo-nos ao seu postulado do protofenómeno, conceito que hoje volta a ser estudo em certas academias. Para o grande génio alemão, no «labirinto da Natureza», antes de uma ideia se manifestar em toda a sua complexidade passa sempre pela sua proto-história, ou seja, acontecem manifestações mais simples, esboços (mas onde a matriz essencial – o ‘ideal formal’ – já está realizada) dessa ideia – manifestações arcaicas – que servem para verificar o resultado da ligação entre essa ideia e o mundo sensível. Nesse período «proto-histórico» a forma mental vai melhorando os seus contornos até que surja o «tempo histórico» da sua realização onde se concretiza com todas as suas potencialidades possíveis e sob inúmeras manifestações particulares. Spengler, no Declínio do Ocidente, recuperou este conceito e aplicou-o ao devir da história da humanidade. Nesta perspectiva, a Grécia antiga constituiu um assombroso laboratório da humanidade onde se manifestaram inúmeros protofenómenos que só se realizaram em pleno nos últimos quatro séculos. Mas a outros destes proto-fenómenos ainda não chegou o seu tempo histórico.
Recentemente, dizia-nos Lothar Schäfer, um cientista amigo ligado ao estudo experimental do mundo quântico, que fica muitas vezes impressionado como encontra nos filósofos gregos os conceitos consequentes do estudo do mundo atómico e sub-atómico que ele realiza. Esta perspectiva no estudo do processo da manifestação das ideias ou arquétipos que emanam da mente cósmica (Maat para os egípcios e Mahat para a tradição hindu) em que, antes de se manifestarem em plenitude, primeiro encarnam em esquissos, num processo mistérico da relação entre as ideias, as formas e a matéria, confirma a teoria de Jorge Angel Livraga de que a Grécia constituiu um ensaio não só para a actual cultura ocidental, mas também para uma futura civilização de arquétipos mais espirituais que poderá emergir depois de uma nova Idade Média, já postulada por alguns pensadores modernos tais como Umberto Eco e Alain Minc. Na verdade, na espiral do devir histórico, existem grandes semelhanças entre o período final e decadente do império romano e o Ocidente actual.
Verifique-se, no quadro que apresentamos em baixo, como muitas das descobertas da ciência moderna já eram conhecidas, pelo menos em germe, no mundo grego ou mesmo no protogrego.

Paulo Alexandre Loução
Investigador e Escritor
(1) Mircea Eliade, Tratado da História das Religiões, Asa, Porto, 1994, pp. 197-199.
(2) José Mattoso, As máscaras. O rosto da vida e da morte, in Poderes Invisíveis – O imaginário medieval, p. 24.