Até uma Nova Liberdade

Nas minhas viagens às vezes tenho experiências profundas em contacto com as pessoas e às vezes até são dramáticas. Por exemplo, na minha última viagem pela Europa encontrei-me com diferentes grupos de pessoas. Mas todos tinham um denominador comum: reunir-se ao redor
de uma mesa e falar de uma maneira teórica. Todas as pessoas iam ser melhores, e o mundo ia ser algo assim como a cidade de Deus da que nos falava S. Agostinho, algo novo, algo melhor,onde não existisse o dinheiro, onde não existisse a opressão, nem existisse nada mau...,
e quando tinham dito tudo isso, olhavam o relógio e diziam: "Tenho que ir, a minha mulher está à minha espera" ou, "Estou cansado e amanhã tenho de me levantar cedo para ir trabalhar"...
ou seja, esses homens que falavam da liberdade absoluta, que falavam de mudar o mundo de forma absoluta, e que pretendiam ter o direito de mudar a vida dos demais, não eram capazes de libertar-se das suas circunstâncias nem por um instante!
Daí que a nossa busca face a uma nova liberdade não intelectualizada seria uma liberdade viva. E para viver esta liberdade temos que perguntar-nos que somos, que queremos ser, onde estamos, somos um monte de células animado por uma espécie de impulso eléctrico? Somos a criação da Divindade ou simplesmente o fruto de um momento da amor entre os nossos pais? Temos de conhecer-nos
a nós próprios e saber o que se vai libertar, ou seja, que sou exctamente, para poder libertar-nos. Temos de compreender que não somos a nossa pele, nem as nossas mãos, nem a nossa roupa, nem a nossa casa, nem os nossos bens materiais, nem sequer a nossa carne. Ainda que tenhamos dores e sofrimentos seguimos pensando, seguimos vivendo, seguimos sentindo, seguimos sonhsndo mais além
da nossas dores e dos nossos sofrimentos. Não somos tampouco a juventude e a vitalidade que podemos ter. Com o passar dos anos o ser inetrior não morre; o homem que realmente é idealista faz que esse idealismo continue vivendo sempre, a única coisa que envelhece são as células epitiliais. O ser humano no seu interior pode continuar sentindo-se igualmente jovem.O homem é muito mais profundo que o seu corpo e a sua vitalidade.
"Porque a alma, senhores, não tem raça, nem cor, nem sexo, nem orelhas, nem barba. A alma está muito mais além de todas as aparências. Isso é fundamental que afirmemos"
Se alguém me faz cansar e começo a dizer más palavras das que logo me arrependo, isso que julga em mim o injusto não pode ser a mesma coisa que o que se cansa. O arco não é a flecha. A flecha está cravada longe, no centro do alvo, mas há algo que a lançou. Isso quer dizer que há algo por detrás das minhas emoções, algo que está avaliando as minhas emoções, que está julgando as minhas emoções. E se me equivoco em algo digo
para mim próprio:"Homem, que bruto sou", porque disse que dois mais dois são cinco, quando são quatro, isso quer dizer que também há algo que está avaliando a minha mente. O homem recebe harmonia da sua vida interior, do seu ser interior, daquilo recôndito que está mais além de todas as coisas, daquilo que é capaz de julgar-se a si mesmo, de rectificar a sua própria vida, daquilo que está fundamentado na ética, não numa moral
de costumes, mas numa ética profunda.
A verdadeira ressurreição do homem como humanidade, a superação da crise, não está em baixar o preço do petróleo. A nossa crise é moral, espiritual, é uma crise de falta de fé. Essa é a nossa verdadeira crise. Não nos falta petróleo, não nos falta pão, o que nos falta fundamentalmente é a força espiritual. Os homens com força espiritual souberam tirar, como na velha Castilha, de quatro pedras duras e secas, frondosos jardins. Os homens
com força espiritual souberam ir sobre pequenos navios de madeira que se incendiavam a cada momento e faziam entrar água pelos quatro costados, de um lado ao outro do mundo.Os homens com uma força espiritual verdadeira souberam escrever e ditar aos demais, ainda que analfabetos, grandes obras que cruzaram a História, indo de século em século, cruzando os séculos como degraus. Sócrates era analfabeto e, sem dúvida, proferia as suas palavras
aos seus discipulos e o seu pensamento chega-nos ainda hoje. Assim encontramos em todas as partes que a verdadeira natureza do que nos impulsiona é sempre espiritual.Nós, por meio do espirito podemos fazer florescer as terras secas; podemos sulcar as águas, levantar montanhas artificiais, partir montanhas naturais. O espirito, por meio da vontade, cria a necessidade de um desenvolvimento espiritual de todas as coisas.
A grande revolução que se está forjando dentro dos nossos jovens, que nos olham às vezes com olhar admirado, não é um revolução capitalista nem marxista, é uma revolução espiritual. É o espirito que causa uma revolução de um mundo novo, de um mundo diferente, onde os valores não se comprem nem se vendam e onde exista uma real liberdade. A real liberdade que não está em confronto com a obediência às leis da natureza, que são mecânicas e inamoviveis. Por
natureza os astros giram no firmamento; por natureza reproduzem-se as aves que sulcam o céu e reproduzem-se os peixesno fundo dos mares ou na corrente dos rios. Por naturza temos de chegar a revitalizar-nos. Por natureza espiritual, por vocação de vida e de perpetuidade temos que tirar de nós o medo à morte, o medo a perecer, o medo à frustação, o medo à pequenes. Essas são as verdadeiras barreiras que devemos deitar abaixo em busca de uma nova liberdade que nos
libertará, não dos demais homens, mas das nossas próprias limitações, do nosso temor à morte, do nosso egoísmo atávico, da nossa indiferença, da nossa cobardia, que nos faz intervir cada dia menosno socorro dos necessitados e passar ao largo.
Temos que libertar-nos dessa alienação profunda que é sentir que podemos manipular o nosso redor e os demais; temos que tirar de nós essa demagogia. Todos os homens têm direito não só a um pedaço de pão, não só a ter roupa; todos os homens têm direito a ter um pouco de dignidade, por Deus! Vale mais um mendigo que ainda que mal vestido e atirado no chão guarde no seu rosto um só sinal de dignidade, que o homem coberto de veludo e ouro que, sem dúvida, tem os olhos mortos,
porque dentro do seu coração atraiçoou os seu próprios compromissos...
A dignidade é o que nos verticaliza, o que nos permite ser diferentes das bestas. Devemos então perseverar na nossa dignidade. No nosso mundo novo, no nosso acesso à nova liberdade, pomos como elementos de necessidade absoluta o conhecer-nos a nós próprios, saber onde estamos, respeitar os demais homens e mulheres, dignificarmos a nós mesmos, tratar de dignificar aos demais, tratar de dignificar todas as coisas. Respeitar não somente todos os homens e mulheres, mas também
aos velhos simbolos; respeitar aos animais e às plantas, porque todos têm direito a viver num mundo que seja mais justo e mais luminoso.
E essa liberdade, sem dúvida, é uma obediência à lei da natureza. Quem mais livre do que o sol? Quem pode parar o sol com a mão? E, sem dúvida, o sol ciclicamente aparece e desaparece, o sol segue o seu curso através dos astros, preso a uma galáxia, à sua Via Láctea, evoluindo naquela imensidão escura, mas ele, é todo luz!
Queremos ser como o sol! Temos que voltar a entender os simbolos naturais, que não os traduzam os pseudo-filosofos através de palavras abstrusas em livros estranhos que nunca escrevemos e que poucas vezes temos lido. Temos que voltar à leitura directa das coisas; temos que voltar a florescer com as flores, a fundir-nos na terra com as raízes, a correr com a água, a queimar com o fogo; e a amar, viver, progredir, sentir, sonhar com todos os homens do mundo, sem nenhuma diferença de raça
nem de cor. Porque a alma, senhores, não tem raça, nem cor, nem sexo, nem orelhas, nem barba. A alma está muito mais além de todas as aparências. Isso é fundamental que afirmemos.
Essa é a grande liberdade que propomos, uma nova liberdade que não se baseie em formas intelectuais, mas numa vivência individual e depois colectiva das leis da natureza. Porque só - como disse Platão - a obediência nos fará livres. Mas não a obediência a outro homem, não a obediência a uma só jaula ainda que esteja pintada de ouro, mas a obediência à lei natural que levamos em nós mesmos. É o "Eu sou! Eu sou! Eu sou!" e com isso não prejudicar aos demais. E que os demais também possam
Dizer: "Eu sou!" Que cada qual possa afirmar a sua própria liberdade fundamentada na sua recta consciência. Nesse dia, meus amigos, nascerá de novo o diálogo. Voltaremos a sentar-nos nas mesmas mesas, a cantar velhas canções, a unir os nossos corações; voltaremos a entender o calor e a cor do fogo; voltaremos a entender outra vez o o voo dos pássaros e o idioma sussurrante das ondas do mar sobre a costa. Nesse dia seremos realmente livres. E isso proponho a todos; Uma marcha orgulhosa e alegre até uma nova liberdade!
Jorge Angel Livraga
Fundador da Org. Internacional Nova Acrópole
Extraído do livro Magia, Religión y Ciencia para el Tercer Milenio da Editorial Nueva Acropolis Espanha