Liberdade? Uma palavra vazia ou uma realidade?
Liberdade é uma palavra que tem ecoado em muitas ocasiões ao longo da História, geralmente porque se deseja ou se carece dela. Mas em que consiste a liberdade? O nosso mundo oferece-nos a possibilidade de sermos livres?
Há muitas formas de liberdade, mas a essência da liberdade surge do espírito.
A nossa liberdade está condicionada pelos meios em que podemos expressá-la e a sua constante relação com o mundo vai dando-lhe diferentes matizes. O que permanece é o sentimento interior de querer ser livre.
As tradições do Oriente dizem-nos que o homem está em constante busca de liberdade, que nós traduzimos como libertação. Mas esta procura de libertação surge do mais profundo da raiz espiritual do ser humano. É uma necessidade de expressão, uma necessidade de ser.
Aristóteles disse-nos que existem certos princípios de justiça e de procura de liberdade que estão condicionados fundamentalmente pela união do homem a Deus.
Em geral, tanto no Oriente como no Ocidente, tem-se identificado a espiritualidade com a liberdade, e pelo contrário, relacionou-se a matéria com a escravidão, com a limitação. O ser humano, por natureza, ama a verdade e a liberdade.
Hoje em dia, muitas pessoas não têm qualquer interesse pela verdade, já que cada um fabrica a sua própria, subjetiva, particular, burilada segundo as suas preferências, escolhendo o que gosta e rejeitando o que não lhe apetece, sem que isso implique um compromisso existencial, nem consequências pessoais. Se não existe interesse pela verdade, a liberdade perde peso e, no limite, serve apenas para garantir a mobilidade, mas sem dar demasiada importância ao seu conteúdo. O psiquiatra Enrique Rojas diz-nos que o conteúdo da liberdade justifica uma vida, traça uma trajetória, deixa a descoberto o que temos dentro de nós, as aspirações fundamentais e os argumentos.
"Acreditamos que somos livres porque podemos escolher, mas o que é que realmente escolhemos? Sejamos sinceros e reflitamos."
Liberdade ou escravidão?
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Atualmente crê-se que o ser humano mais livre é aquele que não se compromete com nada, que vive a vida sem compromissos, que não tem amarras. Crê-se que a fidelidade a um ideal, a um sentimento, limita a liberdade. Desta forma, afastamos de nós os nobres ideais, as formas de vida dignas, os sentimentos, os valores atemporais…que não parecem indicados para esta suposta liberdade moderna. A mesma que esconde uma terrível escravidão: viver amarrado às correntes do medo, da indecisão, do que possam dizer, da incapacidade de escolher viver ideias e sentimentos próprios.
Acreditamos que somos livres porque podemos escolher, mas o que é que realmente escolhemos? Sejamos sinceros e reflitamos.
A força dos hábitos e dos costumes que nos impõe o materialismo dirige-nos para uma vida ligeira, fácil e divertida, deixamos de vivê-la com autenticidade e realização do próprio ser. Isto como nos dizia o poeta checo Rainer Maria Rilke, não é progresso no sentido da vida, senão renuncia a todas as suas possibilidades e amplitudes, e consequentemente, leva-nos a um empobrecimento do ser humano.
A sociedade promete-nos sermos livres e únicos, mas com as suas pautas e normas, para que todos sigamos a mesma estratégia vital, através do consumo, o ingrediente mágico da fórmula pós-moderna da liberdade.
O mito da caverna de Platão continua vigente. Nos dias de hoje decoraram a caverna de liberdade, e os elementos decorativos mais relevantes são:
⦁ Relativismo, seguramente muito cómodo, porque garante que ninguém se “molhe” e e ganhe sentido de responsabilidade. A qualquer pergunta, a resposta é “depende”, as normas e as crenças acomodam-se segundo o momento e o arbítrio de cada indivíduo. Com esta atitude evaporam-se as instituições, debilitam-se as ideias e finalmente perdem-se as utopias, ou seja, a capacidade de sonhar com um mundo melhor.
⦁ Hedonismo, esse culto cego a si mesmo para disfrutar ao máximo, à custa do que quer que seja. Um egocentrismo puro e duro que nos mantem fixados em nós próprios e nos faz perder o mundo de vista, que aponta para a morte dos ideais, o vazio de sentido e a busca de sensações novas cada vez mais excitantes.
⦁ Permissividade, tudo vale, tudo se deve provar, a rédea solta das sensações, arruinando os melhores propósitos e ideais.
As suas sombras, projetadas na parede da caverna, tergiversam a realidade. À prisão chamamos liberdade, ao sexo praticado sem compromisso chamamos amor, e ao bem-estar e ao nível de vida equiparamo-los à felicidade. Como nos disse o sociólogo polaco Zigmunt Bauman, a novidade converte-se em boa notícia, a precaridade torna-se agora um valor, a instabilidade um ímpeto e a hibridez uma riqueza.
Animalizar o homem pelo interesse de não sei que liberdade é um dos maiores enganos.
A verdadeira liberdade
O mundo de hoje é excessivamente materialista, egoísta e implacável. E com frequência, parece natural subjugar a liberdade dos outros utilizando os meios económicos ou físicos para impor determinadas ideias, sem ter em conta que a liberdade individual termina quando choca com a liberdade coletiva. Tornou-se-nos demasiado natural a falta de princípios morais.
Apesar de todas as organizações de direitos humanos e todas as leis fundamentais que regem a convivência, prevalece o material, e mais ainda, a parte económica. Num mundo assim é difícil que se possa dar a liberdade autêntica. A propaganda, mantida por fatores económicos e de força, é tão excessiva que asfixia.
Como nos dizia o filósofo argentino Jorge Ángel Livraga, podemos ser livres tendo consciência de nós mesmos, ou seja, tendo conhecimento e aceitação de nós mesmos e um conhecimento e aceitação do mundo circundante. Mas, em geral, não sabemos reconhecer-nos, inventamo-nos e sonhamo-nos, e não temos amor para connosco para aceitarmo-nos com as nossas debilidades, erros e mesquinhez. Isto implica que nos custe aceitar os outros com esta mesma condição, sem sonhá-los na sua perfeição física, psíquica ou espiritual, quando nós não a podemos dar.
A filosofia clássica ensina-nos que apenas é livre o ser humano que se conhece e se possui a si mesmo. Isso não se afasta da ação ou da entrega, mas antes cresce mais quanto mais se experimenta e é mais livre quanto mais cresce.
Cinta Barreno
Na revista Esfinge, Novembro 2013
(Conforme o novo acordo ortográfico)