Maçonaria - Iniciação e Rituais
Ler Parte I - A Maçonaria - Morte, Renascimento e os Mistérios
Ler Parte II - Maçonaria - as Origens
Iniciação
Tudo tem sentido na iniciação cavaleiresca em que, os ritos nada têm de arbitrário. Diz Mircea Eliade,”compreender-se por iniciação um conjunto de ritos e de ensinamentos orais que persegue a modificação radical do estatuto religioso e social do indivíduo a iniciar […] no final das provas, o neófito goza de uma existência completamente diferente da de antes da iniciação: tornou-se um outro”. Continua, dizendo, “Torna-se capaz de assumir plenamente o seu modo de ser”. O rito (1) tem uma força operativa, veicula pela sua prática a energia contida no símbolo, transmite a iniciação. É uma ferramenta de realização interior, na medida em que abala a estrutura do indivíduo, que sofre, mesmo inconsciente, uma verdadeira mutação. O ritual de morte e renascimento leva a uma metamorfose interior.
O símbolo é elemento essencial à iniciação. Neste sentido, diz René Guenon, os ritos são símbolos postos em acção. Um modo de acção do mito. Defende Henri Stéphane, o rito tende para tornar presente, actualizar e realizar o conteúdo do mito. O símbolo permite a transmissão da mensagem, veicula o elemento central da ideia, para além das diferenças de cultura e civilização, é intemporal. Mas é necessário estar desperto para a iniciação. Por isso mesmo, diz André Pothier, que o símbolo afere-se em silêncio àquele cujos olhos do coração estão abertos. Os símbolos são a linguagem natural dos principais mitos da Humanidade, tal como vimos supra, implicam uma concepção global do cosmos, integrando o universo físico dentro de uma estrutura espiritual. O símbolo liga a dimensão individual à escala cósmica, liga o micro ao macrocosmo. Por isso mesmo o candidato à iniciação, como veremos, na primeira prova, na gruta da reflexão está só, perante ele mesmo.
A iniciação implica um trabalho interior prévio, temos que nos purificar para conseguir compreender a mensagem. Por isso defende Schwaller de Lubicz: o que é visível é o reflexo daquilo que é invisível. Nunca houve nenhuma tradição a vontade de esconder seja o que for com o auxílio de símbolos. O enigma não reside na coisa, mas resulta da nossa inteligência (2) e da nossa pureza moral”. Neste sentido, HPB na Voz do Silêncio diz, antes de ser iniciado o caminho deves destruir o teu corpo lunar, purificar o teu corpo mental e tornar limpo o coração. Não sendo suficiente o nosso trabalho interior e individual é necessário um mestre.
(3)Quem já tenha feito o caminho e o conheça as suas coordenadas. Nas palavras de Fernando Pessoa “iniciar alguém é conferir-lhe conhecimentos que ele não poderia obter por si, quer pela leitura de livros, quer pelo exercício da sua inteligência por forte que seja, quer pela leitura de livros dessa mesma inteligência.” No contexto da maçonaria e de acordo com o dicionário maçónico, a iniciação é a cerimónia de admissão de um profano nos mistérios maçónicos.
O ritual. A descida ao interior da terra.
Iremos expor o processo de iniciação, no contexto da maçonaria. Primeiro, o postulante deve expor os seus objectivos e as suas manifestações. Tanto no plano profissional, familiar, como ao nível das suas aspirações espirituais. Na primeira cerimónia, na realidade recebe-se uma iniciação virtual. Isto é, faz-se real e efectiva à medida que o candidato se vai conhecendo. Vai existir a “verdadeira” morte e renascimento, que o próprio rito de iniciação simboliza.
Tal como a semente contêm em potência a árvore inteira todo o ensinamento simbólico vinculado pelos diferentes graus maçónicos de aprendiz, companheiro e mestre está contido, sinteticamente, no rito de iniciação. O iniciado recebe o nome “neófito”, significa o de novo nascido ou renascido. A iniciação é uma perda e abandono de tudo aquilo que não se é, mas ao mesmo tempo, de recuperar a identidade do verdadeiro ser. Para isso, há que primeiro descobrir em si mesmo a sua “pedra bruta”, símbolo maçónico das imperfeições inerentes à natureza humana. Os nossos Kuravas. Então, pelo efeito da concentração (4) o candidato descobre que a sua consciência individual é em tudo semelhante à inteligência universal (Lei da analogia). (5) Então a primeira porta que conduz à verdadeira libertação está aberta.
Primeiro, o candidato à iniciação é conduzido por um irmão à Câmara de Reflexão. Aí vai permanecer encerrado, antes de entrar pela primeira vez no templo. Vai enfrentar a primeira prova, a da terra. É o desfazer de toda a ilusão. Podemos observar esta prova, de uma forma majestosa, na Flauta Mágica de Mozart. Quando Tamino e Papageno prestam provas no templo da sabedoria. A prova do voto de silêncio. E os sacerdotes avisam dos perigos das tentações psíquicas. Tamino, ao contrário de Papageno, passou esta prova. O neófito vai experienciar a solidão, o silêncio e a meditação para conseguir o desapego material e emocional. O purificar das ilusões, egoísmos e vícios, que conformam o quaternário da personalidade. Em analogia com a alquimia, é despojamento dos metais que impedem que a tríade se manifeste. Durante este período, o candidato à iniciação vai morrer para a condição de profano. Para esta morte simbólica é necessária a solidão da câmara de reflexão, para realizar um trabalho individual que, só o próprio pode fazer. Esta câmara de reflexão é o Athanor, ovo filosófico ou o forno alquímico. A consciência fica hermeticamente fechada às influências externas, e leva-se a cabo um processo de coacção, fermentação, destilação, sublimação e transmutação do grosseiro no subtil, do terrestre no celeste. Processo semelhante à semente e à borboleta na natureza.
A câmara ou caverna de reflexão é um local com pouca luz, para permitir a concentração no interior. Tem uma mesa e sob ela estão três recipientes contendo enxofre, mercúrio e sal. Representando, respectivamente, o espírito, a alma e o corpo. Estão, também, presentes um jarro com água e um pedaço de pão, representando a água da vida e o alimento espiritual. Servem de lembrança e fortalecimento do candidato. O crânio e as tíbias cruzadas são símbolo, por excelência, da morte iniciática que, o candidato se encontra a experimentar. Na alquimia corresponde ao nigredo e assinala a decomposição da personalidade egóica. Em oposição, o galo, também presente, é símbolo do germe do novo nascimento. É o símbolo de Hermes. O seu canto anuncia a proximidade do dia e da luz do sol nascido a oriente. Na parede está escrita a expressão V.I.T.R.O.L. Significa este expressão latina, visita ao interior da terra, rectificando encontrarás a pedra oculta. Rectificar no sentido de mudar a orientação.
A câmara de reflexão é um lugar sagrado. Onde se produz o começo do despertar para a autêntica realidade do mundo e da vida. Efectuar-se, simbolicamente, com uma passagem do obscuro interior da terra, do infra-humano, para a claridade ordenada da verdade humana. Das trevas para a luz. Uma ressurreição espiritual em que o Homem Velho, ignorante de certas realidades ou conhecimentos esotéricos, cede o seu lugar ao Homem Novo (uma semente de ouro). Transmutação que tem por base o estudo e meditação sobre as antigas tradições e símbolos da ordem iniciática. Ao ser fecundado pelo conhecimento e começa a produzir o seu renascimento. As resistências do Homem Velho geram várias tensões, que representam a luta entre as trevas e a luz (6). O neófito tem de escolher entre dois caminhos realizando a operação alquímica de “separar o grosseiro do subtil”. Só então, quando a pedra bruta começar a ser talhada para se converter na pedra cúbica que, representa o alicerce sobre o qual se erguerá o templo espiritual. E a “Verdade vos libertará”, (7) alcançando a almejada sabedoria.
A via sagrada da iniciação representa o despertar das nossas potencialidades, que nos conduzirão à obtenção de conhecimento, simbolizado pela pedra filosofal. Depois de o candidato compreender e assimilar a mensagem de todos os símbolos, presentes na câmara, terá superado, satisfatoriamente, a prova da terra.
Agora, ao iniciado são lhe abertas as portas do templo. É lhe dada a autorização para entrar.
Glória a vós, iniciados! Atravessasteis a noite. (8)
Ferramentas esotéricas
Propomos, agora, uma breve referência, da temática da iniciação, à luz de algumas ferramentas esotéricas. Referimo-nos ao seu verdadeiro conteúdo e não à sua manifestação vulgar, actual. Manifestação de culto exotérico e não esotérico. Estas ferramentas devem ter como objectivo o nosso auto-conhecimento, que a posteriori, permitirá conhecer o todo (9).
Comecemos pela matemática sagrada. O 1 é a semente de tudo, o inicio, a essência, a mónada. Tal como diz o mestre Sri Ram, cada um de nós é um ponto, é um indivíduo (não pode ser dividido). O pensamento de Fernando Pessoa vai no mesmo sentido, ao dizer, quanto mais individual mais universal. É o processo individuação de que fala C.G. Jung. Vai resultar no âmbito da geometria na linha, isto é, o ponto em movimento. É o início de tudo. A unidade a que aspiram todas as escolas iniciáticas.
Vai no mesmo sentido, o pensamento preconizado pela Cabala. É Kether, a coroa, o despertar do ser. O seu atributo é a vontade. É o princípio masculino e fecundador, que contem as sementes dos frutos do futuro. No Nome divino de Deus (YOD-HE-VA-HE) corresponde ao YOD. É o fogo. Na Cabala Medieval as dez Sefirot representam as dez qualidades da natureza divina, é o modelo divino de “o ser humano ser criado à imagem de Deus” como dispõe o Génesis. Mais uma vez é apregoado o carácter divino do Homem.
Na Astrologia a iniciação é representada pela casa VIII, de Plutão. (10) É a casa da morte e renascimento. Regida por escorpião. A Casa VIII pede-nos para ampliar ou sacrificar os limites do nosso ego, no fundo, a morte do que nos limita, da nossa personalidade. A casa da evolução pessoal, do crescimento, da transformação, da mudança, da morte, do renascimento, do sexo, das posses de um relacionamento, heranças, impostos, rituais, iniciações e ocultismo, o corpo astral e reencarnação, e o corte de todas as coisas a que estamos apegados. No fundo, o mesmo objectivo do ritual maçónico de iniciação.
Já no Tarot, a iniciação é representada pelo I Arcano, O Mago. Curiosamente a carta assemelha-se muito à caverna de reflexão. Se não vejamos, no topo está o símbolo do infinito, reapresentando o absoluto, a unidade celeste. O bastão a apontar para cima representando a vontade. A mão a apontar para baixo, representando a relação entre o que está em cima, com o que está em baixo. Tem o ouroborus na cintura como símbolo da unidade terrestre. Sob a mesa estão representados a terra (pentáculos), o ar (espada), a água (taça) e o fogo (pau). As rosas e lírios são a matéria princípio activo, exaltação da natureza. Assim, o Mago representa o primeiro trilho da estrada, no percurso de transformação.
A iniciação, também está presente em todas as religiões. Nomeadamente, no Cristianismo. O baptismo representa o inicio, a admissão à Igreja, para se tornar uma pedra do Templo. É um sacramento, um ritual de invocação de passagem do poder do sagrado para a alma do indivíduo.
Todas estas ferramentas são um auxílio para deixar morrer em nós o que já não precisamos e, paulatinamente, criar um novo ser. Mas, é necessária uma intenção pura, pois caso contrário, podem ser muito prejudiciais, por criarem ilusões, autodestrutivas.
Conclusões
“O conhecimento é poder”
Francis Bacon
O ideal da Maçonaria abriu à séculos um caminho como o fez a filosofia neo-platónica no renascimento, que teve por base a primeira de todas as virtudes, da humanidade e do amor fraternal.
Ao fazer este trabalho compreendi que todos estamos na mesma jornada da alma. Cada um escolhe o seu percurso. O ideal da Maçonaria abriu há séculos um caminho como o fez a filosofia neoplatónica no renascimento, que teve por base a primeira de todas as virtudes, da humanidade e do amor fraternal. E propondo um lugar de união, um ponto de encontro para os homens, que procuraram um mesmo ideal. Os ritos e símbolos foram conservados para compreender a iniciação. Mas os símbolos não passam de letra morta se não os vivemos do interior.
Compreendi que a iniciação está presente no todo. No micro e no macrocosmo. Até uma Civilização tem um ciclo de morte e renascimento. Começa com uma “semente”, que vem à luz do dia com a fundação, atinge o seu apogeu e entra em decadência e “morre” e volta a renascer. Na Natureza, está presente, também a morte e renascimento, vejamos que tudo na natureza é cíclico, as estações, o dia e a noite, tudo tem de morrer para renascer. A borboleta e a serpente, a primeira tem de deixar o seu veículo físico para poderem adquirir outro, e a serpente tem de largar a pele velha para crescer e adquirir uma nova. Uma estrela, um planeta, uma galáxia e um Ser tudo nasce para um dia morrer e voltar a nascer. "Na Natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma." (11)A iniciação é um processo constante do espírito humano. Resulta de uma ruptura entre dois níveis de consciência, que faz morrer o Homem Velho para assegurar o renascimento do Homem Novo.
Acredito que, é possível estudar e analisar os ritos, mitos relacionados com a iniciação, mas não se pode comunicar a luz interior. Pois esta continua a ser propriedade pessoal de cada ser.
Iniciei este trabalho falando em ignorância e para fechar o ciclo, cito Nicolau de Cusa, “para conhecer é preciso ignorar, é preciso conhecer a nossa ignorância”.
Margarida Mourão
2011
(1) Do sânscrito Rita relacionado com a ideia de ordem. Permite ao seu participante ordenar-se.
(2) “Inteligência é um captar sem pensamento e um fazer sem impulso o que se deve captar e fazer, para logo «SER»”
(4)Ir ao centro de si mesmo.
(5) Princípios herméticos.
(6) Representada pela carta VI do Tarot, os Enamorados.
(7) Jesus no Evangelho de S. João
(8) Final da Flauta Mágica.
(9) Conhece-te a ti mesmo e conhecerás o universo e os deuses. Sócrates
(10) Corresponde ao Hades Grego.