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Maçonaria - Morte, Renascimento e os Mistérios

INTRODUÇÃO

“ A ignorância é a raiz de todos os males.” (1)
Platão

Pretendemos neste trabalho analisar a iniciação, no contexto da maçonaria. Entendemos, que esta temática é pertinente no contexto actual, de crise do mundo moderno. A crise do racionalismo exacerbado que, nos tem levado a um gradual obscurecimento e, consequentemente, ao esquecimento dos saberes e símbolos (linguagem), antigos e universais. Tendo por base a ameaçadora ilusão, do progresso sem limites. De facto, uma nova Idade Média, semelhante ao período que fez surgir a Maçonaria. Por isso, é uma oportunidade de aprender com a tradição antiga, para adquirir ferramentas, que poderão proporcionar um novo renascimento pessoal e colectivo.

Propomos analisar as origens maçónicas e o ritual de iniciação.

No fundo, acreditamos que, todo o ser humano faz, em algum momento da sua vida, as perguntas que Édipo fez à Esfinge: quem sou, de onde venho, para onde vou. Todos estamos à procura do nosso Fio de Ariana. E é com essa ideia subjacente que iremos analisar a temática da iniciação.

Pedimos ao leitor deste trabalho que, leve em linha de conta, que o tema será desenvolvido por alguém desconhecedor do tema da maçonaria, mas que não pretende, de modo algum, desrespeitar a instituição maçónica.

 

Morte, Renascimento e os Mistérios 

Não podemos falar no processo iniciático sem falar em morte, renascimento e nos mistérios. Nas palavras de Fernand Schwarz: “ A morte é um momento essencial e os valores, morte e iniciação são interactivos. Em Grego, existe um jogo de palavras entre TELEISTHAI (iniciação) e TELEUTON (morte). A morte física acaba por ser assimilada a um rito de passagem, a uma condição superior. A morte iniciática é condição sine qua non de toda a geração espiritual. Assim o templo do Homem é o seu corpo, similar a uma porta ocultando por detrás do seu aspecto material outras portas, seus componentes numéricos”. Entendemos das palavras deste mestre que, não podemos ser um Novo Homem se não morrer em nós o Homem Velho. Para iniciar o que quer que seja temos, imperativamente, de encerrar o anterior.

Os mistérios sempre foram o suporte do Ser Humano. Nas palavras de Cícero “nenhuma [instituição ateniense] é melhor do que a dos mistérios (2). Por seu meio fomos retirados do nosso bárbaro e selvagem modo de vida, educados e refinados num estado de civilização. Dos ritos que se denominam de iniciações, em verdade aprendemos através deles os princípios da vida”. Acreditava-se na antiguidade que, o Homem nasce com a sabedoria no seu inconsciente, que pode ser despertada através de uma série de práticas rituais. Por isso, para Platão saber é recordar. Esse recordar pode ser conseguido através da iniciação. Nas escolas de mistérios o iniciado recebia um conhecimento gnóstico, que ultrapassava a mera compreensão intelectual dos temas e integrava todo o ser, harmonizando imaginação, razão (3) e sentimento.

Os Mistérios tinham três vertentes. Uma primeira, mais abrangente, o culto exotérico para o povo em geral. Uma segunda vertente, a via filosófica, os chamados pequenos mistérios que, permitia a interpretação dos mitos religiosos, sendo a via da auto-descoberta interior. E por último, os mistérios maiores, a vivência mistérica da sabedoria, por uma via directa. Os mistérios menores tinham por função primordial, o despertar a alma que “morria” no aço do nascimento do corpo, esquecia-se da sua identidade e imortalidade. Ideia reiterada por várias sabedorias da antiguidade. Nomeadamente, Platão dizia: “Vós sois deuses, mas vos haveis esquecido”. No Antigo Testamento, vós sois deuses (Salmo 82, 6). Ensinavam os antigos aforismos herméticos, não sabeis que são deuses? O que está em cima é como o que está em baixo, o homem foi criado à imagem de Deus. A Divindade no Homem é e foi sempre uma mensagem recorrente dos textos antigos de incontáveis tradições.

A morte iniciática era vista na Antiguidade como um processo. Havia que morrer para a vida dos desejos terrestres de modo a que, a alma, prisioneira das limitações do corpo físico, pudesse reencontrar a sua origem divina. Téon Esmirna explicava-a do seguinte modo: “Esta iniciação divide-se em cinco partes: I, purificação prévia; II, a admissão à participação nos ritos arcanos; III, a revelação epóptica; IV, a investidura ou entronização; e V, a quinta, a consequência de todas estas, é a amizade e a comunhão com Deus, e o prazer da felicidade que provém da íntima relação com os seres divinos. (...) Platão denomina epopteia ou visão pessoal, a perfeita contemplação das coisas que são percebidas intuitivamente, as verdades e ideias absolutas.”.» No fundo, corresponde ao percurso do herói solar, seja ele Ulisses, Mithra ou Cristo. E acreditamos ser um percurso que todos nós como indivíduos temos de percorrer.


                                                                                                              
Mitos

O mito revela o desejo profundo, muitas vezes inconsciente do Homem religioso. Os mitos eram a pedra basilar dos pequenos mistérios. Propomos uma breve análise de alguns mitos essenciais para a compreensão da temática da iniciação.

Iniciamos esta jornada no Egipto, a pátria dos mistérios, por excelência, com o mito de Osíris. Relata este mito que, Osíris regia o Egipto, e o seu irmão Seth, era regente do deserto, o que criava nele inveja. Seth engendra um plano para matar o seu irmão. Convida-o para um banquete, onde apresenta uma magnífica caixa (sarcófago) que promete oferecer a quem nela couber. Os convidados tentam ganhar a caixa, mas ninguém cabe nela, pois Seth a tinha preparado para as medidas de Osíris. Convidado por Seth, Osíris entra na caixa. E este tranca-o e atira-o para o rio Nilo. A corrente do rio arrasta a caixa até ao mar Mediterrâneo, acabando por atingir Biblos. Ísis, desesperada com o sucedido, parte à procura do marido e encontra-o. Regressa ao Egipto com o corpo do amado. Para evitar a ira de Seth esconde-o numa plantação de papiros. Mas, Seth encontrou a caixa e enraivecido esquarteja-o em catorze pedaços, que espalha por todo o Egipto. Ísis, com a ajuda de Néftis, partiu à procura das partes do corpo de Osíris. Conseguiu reunir todas, com excepção do falo que foi devorado por um peixe. Para suprir a falta deste, Ísis criou um falo artificial com caules vegetais. Ísis, Néftis e Anúbis procedem então à prática da primeira mumificação. Então, Ísis transforma-se num milhafre que, graças ao bater das suas asas sobre o corpo de Osíris cria uma espécie de ar mágico que acaba por ressuscitá-lo. E sob a forma da ave, Ísis une-se sexualmente a Osíris e desta cópula resulta um filho, Hórus, que irá vencer Seth. Osíris é o arquétipo do iniciado e Ísis personifica a sabedoria dos mistérios.

Na Grécia eram soberanos os Mistérios de Elêusis. Mistérios que foram durante 2000 anos a coluna vertebral da alma Grega. Eram ritos de iniciação ao culto da deusa Deméter. Os ritos e crenças eram secretos e só transmitidos a iniciados. Uma doutrina esotérica proveniente do Egipto. A participação nos mistérios oferecia a garantia de uma vida sem temor à morte, a confiança perante a morte. É impossível falar de morte e renascimento e não vir à nossa memória o mito de Deméter e Perséfone. Conta o mito que, Perséfone detinha uma grande beleza e feminilidade. Razão pela qual Hades se apaixonou e pediu-a em casamento a seu pai, Zeus. Este, sem sequer consultar a sua mãe, Deméter, assentiu. Hades levou-a para seus domínios (o mundo subterrâneo), e desposou-a. Deméter, deusa da agricultura, ficou inconsolável, acabou por se descuidar de suas tarefas e as terras tornaram-se estéreis. Depois de muito procurar, descobriu que a filha havia sido levada para o mundo dos mortos, e com ajuda de Hermes, foi buscá-la ao reino de Hades. Mas, Perséfone tinha comido um bago de romã e não podia abandonar o submundo. Porquanto, estabeleceu-se um acordo, ela passaria metade do ano junto da mãe e outra metade junto do marido. Este mito explica os mistérios cíclicos da natureza e do enigma da demanda de Psykhé.

Já no Império Romano, que foi beber à cultura grega, o mito de Deméter mantém-se, mas, com a sua adaptação à mitologia Romana. Então, Ceres, é a mãe, Júpiter é o pai, e Plutão o esposo de Proserpina.

Na índia, quem personifica a morte e o renascimento é Shiva. É um deus, Deva, hindu, o Destruidor ou o Transformador. Pertence à tríade hindu, juntamente com Brahma e Vishnu. Nesta tradição Shiva é o destruidor, que destrói para construir algo novo. É-lhe atribuída a criação do Yôga. Em muitas representações aparece segurando um tridente, o trishula. E com esta arma destrói a ignorância, que como veremos mais à frente neste trabalho, relaciona-se com os objectivos da maçonaria. Suas três pontas representam as três qualidades: Tamas (a inércia), Rajas (o movimento) e Sattva (o equilíbrio). É, também muitas vezes representado com a serpente Naja. A serpente que é um símbolo universal de renascimento, que ao crescer precisa de deixar a pele velha para trás. Usar esta serpente significa que, Shiva dominou a morte e tornou-se imortal. Representa kundalini, a energia de fogo que reside adormecida na base da coluna. Shiva está também associado ao crescente lunar representando a ciclicidade da natureza e a renovação contínua.

Para finalizar, a Tradição Cristã fala em ressurreição. Pedra basilar da sua doutrina, o que os cristãos almejam. Ideia que incorporou da tradição judaica que, por sua vez herdou das tradições babilónias e persas. A ressurreição de Lázaro (4) é o episódio bíblico que, melhor representa o mito da morte e renascimento. Começa o mito por contar que, Lázaro adoeceu, gravemente, e as suas irmãs Marta e Maria enviaram uma mensagem a Jesus dizendo: "Senhor, aquele que amas, está doente". Aos seus discípulos, Jesus diz que Lázaro dorme (5) e seria acordado. Mas, apenas no quarto dia após a sua morte, chega a Bethânia. Maria diz a Jesus, que se ele tivesse estado presente Lazaro não tinha morrido. Ao que Jesus responde: "Eu sou a ressurreição e a Vida. Quem crê em mim, mesmo que tenha morrido, viverá.” E disse: Lázaro, vem cá para fora! E Lázaro ergueu-se e depois de quatro dias morto, foi ressuscitado milagrosamente. Pretende este mito mostrar que, quem crê em Jesus Cristo (6) pode aspirar à mesma ressurreição de Lázaro.

 

Margarida Mourão
2011

 

Ler Parte II - Maçonaria - as Origens

Ler Parte III - Maçonaria - Iniciação e Rituais

 

(1) E a raiz de todo o sofrimento.

(2) Mistério – deriva do grego muô, fechar a boca.

(3) Para os Antigos, a razão era a acção da inteligência harmonizada com o sentimento e a imaginação.

(4) Evangelho de São João, 11, 1- 12,50.

(5) Há quem defenda que não estivesse realmente morto, mas a participar em algum rito de iniciação.

(6) "Eu sou a ressurreição e a Vida. Os que acreditam em Mim, não morrerão para sempre".

 

 

 


 

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