Mentalidade medieval, antiga e nova Idade-Média
Embora a problemática humana seja sempre a mesma, a forma como os diferentes grupos humanos a apreendem e as respostas dadas por cada um é diferente. Em antropologia e em sociologia, a noção de mentalidade (do latim mens, espírito) aplica-se a grupos humanos cujos indivíduos, embora diferentes, partilham crenças, objetivos, valores e comportamentos comuns. Aquilo que os une é mais forte do que aquilo que os distingue e têm um sentimento de pertença comum. Cada mentalidade comporta três funções que a definem: visão ou representação imaginária do mundo, ferramentas de perceção da realidade e identidade.
Pode-se falar de mentalidade medieval. O Renascimento correspondeu a uma alteração de mentalidade, que está na origem da mentalidade moderna.
Quando um certo número de sinais resultantes da imagem do mundo, da perceção da realiadade ou da identidade se desmoronam, a mentalidade entra em crise. A mudança de mentalidade na Europa ocidental entre a Idade Média e o Renascimento aconteceu como consequência, apesar de alguns valores judaico-cristãos terem perdurado, assim como uma certa concepção do indivíduo; tratou-se de uma forte questionação mas que a Europa pôde gerir e no fim do século XX o planeta era europeu.
"Quando um certo número de sinais resultantes da imagem do mundo, da perceção da realiadade ou da identidade se desmoronam, a mentalidade entra em crise."
Hoje o problema é mais grave. Há uma crise espiritual muito profunda que as Igrejas oficiais não conseguem gerir. A ciência e a técnica não conseguem gerir a perceção do real. A nível da representação do mundo, as ideologias, das quais derivavam os modelos aos quais nos referíamos, desmoronaram-se. Trata-se de uma interrogação total, que não se limita a um ou dois parâmetros. Tem de ser rever tudo, quer a nível coletivo, quer a nível individual. Caracteriza aquilo a que os sociólogos chamam a pós-modernidade, isto é, uma época diferente daquela que vivemos desde a Renanscença até ao princípio dos anos 80. O verão do Ocidente está atrás dele e não à frente dele. Foi no século XIX e no princípio do século XX que conheceram o seu apogeu a razão, o cientifismo, etc, assim como todos os elementos conceptuais bem arrumados a partir do renascimento, e também o mundo moderno, nascido na Renascença como reação à Idade Média e baseado numa tradição do novo em oposição a uma tradição de ordem. Foi nessa época em que se pensava que tudo estava de pedra e cal que se abriu uma era de progresso ilimitado.
Particularmente, desde há cerca de vinte anos que se manifesta no Ocidente uma rejeição às sociedades ideológicas do tipo homogeneizante, dirigista e tecnocrata. Assim se explicam as questões e o mal-estar que levanta a construção da Europa. Porque estamos a falar de uma Europa que resulta da Modernidade – homogeneizante, dirigista e tecnocrática – concebida durante os anos 60 e 70, que já não responde às aspirações de um número crescente de indivíduos. Não é esta a Europa que responde às suas aspirações. Tal como na Renascença houve uma rejeição à ordem precedente, a da Idade Média, há hoje rejeição à ordem precedente, a da Modernidade. A partir do momento em que até se põe em questão a própria ideia de progresso, ou, simplesmente se considera a necessidade de diminuir o seu ritmo, põem-se em causa os próprios postulados da Modernidade.
Um conceito abstrato dos indivíduos, todos idênticos, leva a Modernidade à incapacidade de aceitar as diferenças. É por isso que ela se revela incapaz de gerir os conflitos interreligiosos, interculturais e interlinguísticos. Deixar as pessoas matarem-se umas às outras, enviar Capacetes azuis com a eficácia que se sabe, ou tentar resolver as dificuldades com golpes de crédito não pode deixar de gerar problemas que não sejam de ordem económica e social mas sim problemas de identidade que manifestam a necessidade de valorizar a sua diferença. A Modernidade tinha apostado no facto de que eliminando as diferenças se suprimiam as fontes de conflito e de que bastava vencer a pobreza para se atingir a felicidade. Foi excelente a nível científico a percepção que a Modernidade teve sobre a realidade, mas revelou-se medíocre a nível humano. Foi um êxito excepcional a nível científico – nunca se atingiu tal conhecimento – que se tornou numa incapacidade espantosa em compreender o humano. Daí resulta a rejeição generalizada pelo planeta, que se manifesta particularmente pela recusa do Estado-Nação, ele próprio uma abstracção, que funciona como uma administração, e não como um quadro estruturante dos diferentes povos, línguas e religiões que constituem a nação.
"Um conceito abstrato dos indivíduos, todos idênticos, leva a Modernidade à incapacidade de aceitar as diferenças. É por isso que ela se revela incapaz de gerir os conflitos interreligiosos, interculturais e interlinguísticos."
A rejeição da mentalidade moderna manifesta-se por uma fragmentação. A enorme maioria dos franceses (90%) reconhece-se nesta mesma mentalidade há vinte anos. Partilhavam os mesmos valores, embora os aplicassem de forma diferente, quer fossem de direita, quer fossem de esquerda. Agora não são mais do que 38%. Melhor dizendo, 62% dos franceses pertencem hoje a uma nova mentalidade. O parcelamento não permite as mobilizações em massa, mas favorece sim os agrupamentos restritos entre descontentes que se sentem «aparentados». Foi assim que nasceu a França das tribos. (Os sociólogos inventariam em França cinco clãs e catorze tribos, e voltamos a um funcionamento que pensávamos estar ultrapassado. Cada uma tem a sua ideia acerca da forma como resolver a crise: para uns, a solução situa-se a nível sócio-económico (38%), para outros, a nível cultural (20%), para outros ainda a nível ético-moral (20%), para outros, finalmente é uma questão de garantir a segurança e de sanear a sociedade (22%). Cada uma destas mentalidades está ligada a uma solução parcial, à qual os seus partidários se agarram como a uma bóia de salvação, virados sobre si próprios. Como é que se pode lançar para o futuro uma população da qual dois terços estão na defensiva?
A situação é mais ou menos idêntica nos outros países da Europa ocidental. Passou-se qualquer coisa de irreversível: as instituições já não são reconhecidas e estão condenadas a defenderem-se, o que prejudica a socialização e criam-se numerosas organizações de toda a índole, o que contribui para a confusão e para a dispersão. Procura-se cada vez mais a expressão individual, de liberdade de escolha, e, acima de tudo, recusa-se o modelo único. Os modelos que emergem não são abstracções que já não podem convencer ninguém, são sim valores humanos.
Para além disso, cada um quer fazer a sua experiência. Rejeita-se a experiência do passado, esquecimento da história, amnésia, características próprias da idade média. Quando um povo rejeita a experiência passada como negativa, isso pode permitir renovação, mas exige muito tempo. O próximo mundo será heterogéneo. Já não haverá grandes conjuntos como conhecemos hoje, haverá sim regionalização, transferência da soberania para o local. É outro quadro, outro referencial que emerge para o qual nem o mundo político nem o mundo da educação nos prepararam. Ora o medo do desconhecido arrasta a resistência à mudança e o bloqueio. Temos diante de nós anos muito difíceis para viver, a nível de mentalidades. Durante quanto tempo ainda é que as cidades se transformarão em selvas e os campos em desertos? Temos de nos dedicar a uma revisão completa das nossas matrizes para que possamos encontrar cidades que sejam humanas e campos que não se tornem incultos. Para que construamos uma Europa onde os nossos filhos possam viver dentro de vinte anos.
A história das mentalidades permite pôr em evidência muitíssimos pontos comuns entre a nossa época, pós-moderna, e a Idade Média, o que nos conduz à noção de antiga e nova idade média. Esta noção explica-se na medida em que é possível encontrar, a nível das três funções da mentalidade, elementos paralelos entre a mentalidade medieval e a da pós-Modernidade. Isto não quer dizer que a história se repete tal e qual, mas que o mesmo cenário se repete com atores e paisagens diferentes, embora a peça seja inevitavelmente diferente. O que nós vamos viver será diferente do que foi a Idade Média mas as estruturas mentais, os valores, as metas serão mais ou menos idênticas. Poderíamos também traçar um paralelo entre o Império Romano e a Modernidade. E isto para dizer que há cenários de base que se encontram na história e se repetem com variantes.
"Esta crise do futuro é um dos sinais da mentalidade medieval. Numa mentalidade moderna, o futuro aparece como certo."
É interessante examinar nesta perspetiva o futuro, do qual Edgar Morin falou, dizendo que estava em crise. Esta crise do futuro é um dos sinais da mentalidade medieval. Numa mentalidade moderna, o futuro aparece como certo. Era o caso, ainda há vinte anos… Hoje vivemos uma época em que o futuro aparece como incerto.
Há raízes espirituais, valores que nos chegam de outras civilizações que poderiam ser muito úteis para a Europa de amanhã. Nós fechamo-nos nos nossos recônditos. A introdução de novas raízes espirituais é urgente. Graças às ciências do homem, aos estudos antropológicos, aos estudos comparados das religiões e das mentalidades, nunca conseguimos juntar tanto conhecimento sobre o património cultural e religioso da humanidade e as suas raízes. Mas nunca foram tão pouco aplicados. Podemos enriquecer com muitos dados a integrar pela experiência, compreender, por exemplo, que estamos no interior do mundo e não no exterior, que somos parte integrante do «ambiente», que já não se pode separar o sujeito do objeto, como fizemos no passado.
Se o Europeu se tornar mais concreto, se der menos lições aos outros, se deixar de exportar revoluções e ideologias para se interessar mais pelos próprios valores dos países e dos povos, poderemos dar um salto considerável. Para isso, é preciso ter confiança em si próprio, nos meios de que dispomos e aceitar trabalhar com esses meios. Por nos termos tornado perfeccionistas, tornámo-nos incapazes de concretizar se tal ou tal meio nos falta. Como é que em tais condições se puderam construir catedrais? Quantos projetos, transversais a várias gerações, como a construção de uma catedral, se lançam hoje na Europa? É pelo seu número que se mede a confiança que um povo e uma civilização têm pelos seus valores.
Fernand Schwarz