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A mente nas Artes Marciais

 

As artes marciais no início surgiram como uma forma de auto-defesa perante agressões a que as pessoas estariam sujeitas. Mas estas artes não se cingiam somente ao desenvolvimento físico e técnico, mas também à harmonização emocional e ao apaziguamento da mente.

No Oriente, por exemplo, com o decorrer do tempo, e à medida que os confrontos e as lutas foram deixando de fazer parte da vida quotidiana, os ensinamentos marciais foram utilizados como via de auto-conhecimento e de aperfeiçoamento.

Os exercícios físicos desenvolviam a elasticidade, a força e a resistência do corpo; exercícios energéticos, como o Chi Kung, harmonizavam a vitalidade enquanto a meditação ajudava a serenar as emoções e a mente.

Neste artigo focaremos alguns elementos relacionados com a mente.

* * * * *

Entender a mente e saber como utilizar as suas potencialidades é bastante importante nas artes marciais.

Como aparece referido num dos livros sagrados da Índia antiga, o Bhagavad-gita, a mente é instável e difícil de controlar. No entanto, quem quiser ser um bom praticante de artes marciais tem que conseguir a difícil tarefa de dominar esta ferramenta.

É na mente que nascem tanto os elementos positivos que ajudam o ser humano no seu desenvolvimento como, também, elementos negativos que impossibilitam o correcto desenvolvimento do artista marcial, mas também de todo o ser humano na vida quotidiana, como a dúvida, a ansiedade ou o medo.

O livro de Joe Hyams, O Zen nas Artes Marciais, tem alguns ensinamentos interessantes sobre a correcta utilização das faculdades mentais nas artes marciais, mas que também pode ser estendida para o quotidiano. Retirei de lá estes exemplos.

Qualquer praticante de artes marciais sabe que deve estar preparado para poder agir a partir de qualquer posição, sem denunciar os seus actos ao oponente. Porém, isso só pode ser conseguido se pensamento e acção forem simultâneos.

Joe Hyams conta como num treino com Jim Lau, um dos seus mestres, este último lhe pediu que tentasse acertar na sua mão antes que ele conseguisse desviar. Apesar dos esforços de Joe, Jim Lau conseguia retirar sempre a mão deixando somente o vazio para o seu punho. A frustração e a tensão foram tomando conta de Joe fazendo com que, cada vez mais, realizasse o exercício sem a mente e o corpo relaxados.

 

"(...) Os exercícios devem ser realizados sem a preocupação em acertar, mas sim em executar o movimento de uma forma natural, sem esforço. (...)"



Notando isso, Jim recomendou que ele relaxasse e que não realizasse tanto esforço, pois quanto mais o fizesse menos rápido e forte seria. Após várias tentativas Joe finalmente acerta e aí o mestre aproveitou para complementar a ideia referida anteriormente: “Até que enfim você atacou da forma certa! E sabe porquê? A sua mente e o seu corpo estavam relaxados. Você deixou de se preocupar em acertar ou não. A preocupação ou o desejo interpõem-se ao esforço sem esforço.” (1)

O esforço sem esforço nasce da sintonia entre o relaxamento corporal e a concentração da mente. No entanto, se a mente estiver num estado de concentração extrema isso irá causar uma tensão desnecessária fazendo com que se anule a si própria. É como um fogo que ardendo com extrema intensidade consumisse rapidamente os seus recursos, tornando a sua existência curta.

Os exercícios devem ser realizados sem a preocupação em acertar, mas sim em executar o movimento de uma forma natural, sem esforço. Através da constante repetição os golpes começam a ser feitos inconscientemente, tal como ocorre com alguns actos que efectuamos como, por exemplo, quando respiramos.

Este princípio de esforço sem esforço pode ser utilizado no quotidiano. Muitas vezes estamos agoniados, com muita coisa para fazer e parece que o tempo é pouco para tanta coisa. A solução é não pensar e não ansiar pelo término de tudo. Há que relaxar e simplesmente ir realizando as tarefas, concentrados e sem olhar para as horas. Quando nos apercebemos, todas as tarefas foram realizadas e ainda nos sobra tempo para alguma coisa mais.

Com a mente concentrada muitas coisas podem ser realizadas, algumas que parecem até impossíveis. Mais uma vez recorro a um exemplo do livro acima mencionado, desta vez tendo como interveniente a grande lenda das artes marciais, Bruce Lee.

 

 

A mente nas Artes Marciais

 

 

Joe Hyams conta como Bruce conseguia derrubar ou, pelo menos, empurrar alguém com mais estatura do que ele próprio executando um soco em que o seu punho distava cerca de dois centímetros do peito do oponente. Isso foi presenciado Joe na sequência de um teste que um dos seus amigos decidiu fazer com Bruce, dizendo que tinha dúvidas quanto à potência dos socos executados por este último.

Após alguma insistência do amigo de Hyams, Bruce decidiu mostrar quão forte era a potência do seu soco. Pede que a pessoa se posicione 1,5 metros à frente da piscina do sítio onde se encontravam e coloca a sua mão estendida, com os dedos a tocar no peito do oponente. “Vou apenas fechar os dedos e golpeá-lo.” – Avisou Bruce. A distância que o punho cerrado teve que percorrer não ultrapassou os 2 centímetros, mas foi o suficiente para projectar a pessoa para dentro da piscina após a execução do golpe por parte de Lee.

Depois de sair da piscina a pessoa golpeada comentou com Hyams que parecia ter levado com um martelo no peito.

Questionado por Hyams sobre como é que conseguiu realizar tal feito, Bruce disse que tinha relaxado até ao momento em que pôs em movimento todos os músculos do seu corpo, tendo concentrado, posteriormente, toda a energia no seu punho. Completou a ideia dizendo que para se conseguir isto é necessário um relaxamento total, físico e mental, acumulando a energia para, logo de seguida, concentrar toda a mente e a energia em atingir o alvo.

Esta história faz lembrar aquilo que acontece nos momentos prévios a um tsunami, onde se estabelece um período de grande calmaria, em que as águas recuam e que não é mais do que o prenúncio de toda a força que irão libertar, tendo como consequência a destruição de tudo o que estiver no seu caminho.
Na vida, existem momentos em que necessitamos de potência para poder alcançar os nossos objectivos. Podemos definir potência como a rapidez com que uma determinada quantidade de energia é transformada, dito de outra forma, é a rapidez com que um trabalho é realizado.

Como podemos ver pelo exemplo de Bruce Lee, um soco para ser forte não necessita de percorrer uma grande distância, pois quanto maior esta for mais força vai perdendo pelo caminho. Da mesma forma, nos trabalhos quotidianos não necessitamos, muitas vezes, de demasiado tempo para cumprir as nossas tarefas.

Quando o fazemos é porque não relaxamos o suficiente e não concentramos a mente e a energia para finalizar as tarefas num tempo curto e, assim, algo que poderia ser feito em 30 minutos, dilata-se e demora 1 ou 2 horas.

 

 

"(...)embora a mente seja de difícil manejo não é impossível conseguir a sua disciplina. As artes marciais ensinavam a conseguir a harmonia mental através de uma prática constante, sendo que o resultado pretendido não deveria ser ansiado. (...)"

 



Uma última história está relacionada com o conceito de mushin que, literalmente, significa “não-mente”. Mushin é um estado mental no qual os grandes artistas de artes marciais entram quando estão num combate. Esse estado permite à mente fluir como as águas de um rio, fazendo com que ela possa passar de uma actividade para outra, pois ela não está ocupada por pensamentos nem emoções permanecendo, deste modo, aberta para tudo.

Em termos de acção marcial isso reflecte-se numa acção, atacante ou defensiva, efectuada sem hesitação e sem distúrbios causados pelas dúvidas mentais ou pela instabilidade emocional.

O ego, o medo ou a raiva não têm espaço numa mente que consiga atingir o estado de mushin. No entanto, há que ter em conta que, ao contrário do que possa parecer, a mente não está relaxada como se estivesse num estado de quase adormecimento; ela está a trabalhar a alta velocidade, mas sem alguma direccionalidade ou intenção pré-definida. Também não há que pensar neste estado como sendo um automatismo, pois neste caso as acções são feitas mecanicamente, sem a presença da mente, ao contrário do que acontece quando se actua com o mushin.

 

A mente nas Artes Marciais

 

O que acontece é que a mente deve estar límpida como um poço de água cristalina, que reflecte as nitidamente as coisas que forem projectadas na sua superfície. Os pensamentos seriam como as ondas que surgem na água quando se atira algo para o seu interior, causando um distúrbio e distorcendo a realidade.

Para darmos um exemplo prático, imaginemos alguém que vai combater, mas está somente a pensar em vencer. Aí ele já está a condicionar a sua mente, pois o plano consciente vai interferir no desempenho, pois esse pensamento vai fixar a mente e não permitir que ela esteja a planar solta. Aqui não há que pensar, mas simplesmente deixar os movimentos fluir, sem existir a preocupação de acertar ou não. Isso é mushin.

O objectivo dos artistas marciais não era somente possuir este estado mental na altura de combater, mas manter o mesmo na sua vida, pois uma mente disciplinada permite uma análise objectiva da realidade e permite uma presença pessoal mais harmónica e equilibrada nas diversas situações quotidianas.

Em suma, embora a mente seja de difícil manejo não é impossível conseguir a sua disciplina. As artes marciais ensinavam a conseguir a harmonia mental através de uma prática constante, sendo que o resultado pretendido não deveria ser ansiado. As acções deveriam ser feitas com concentração naquilo que estava a ser executado, de forma relaxada. Deste modo conseguir-se-ia atingir a harmonização entre pensamento, emoções e acções.

O resultado obtido não permitiria somente a execução perfeita de golpes marciais, mas também acções equilibradas no quotidiano, permitindo ao ser humano navegar na vida com uma mente desperta, vigilante e harmonizada.

 

 

Cleto Saldanha
Novembro de 2011

 

Notas:


(1) Hyams, Joe; O Zen nas Artes Marciais, Pensamento.


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