Mitraismo e Cristianismo
Não é o propósito destas breves linhas fazer um estudo exaustivo do Mitraismo e as fortes marcas que deixou no Cristianismo, mas antes deixar algumas notas comparativas e que quem as ler possa retirar as suas conclusões ou pontos de partida para uma investigação mais exaustiva.
O mitraismo que se vai desenvolver no seio do império romano é uma simbiose entre o mitraísmo persa, a astrologia babilónica e os mistérios gregos, tendo os primeiros contactos entre o mitraísmom persa e o império romano ocorrido no séc. I a.C. Antes já o mitraismo tinha criado influências no ocidente através das conquistas de Alexandre Magno e a queda do Império Persa no ano 330 a.C., quando o próprio Alexandre e milhares dos seus soldados macedónios se casam com mulheres persas, iniciando-se nos mistérios de Mitra muitos destes soldados, os seus filhos e o próprio Alexandre Magno, introduzindo este culto na Macedónia e na Grécia. Possivelmente o centro mais importante do culto mitraico ficava em Tarso, cidade natal de apóstolo S. Paulo. O culto mitraico sobreviveu em Roma até 394, tendo a Basílica de S. Pedro no Vaticano sido construída sobre o último lugar deste culto, o Phrygianum. A partir daí muitos outros templos cristãos foram erguidos por cima das cavernas com o seu Mithrae, como a Catedral de Cantebury, a Catedral de S. Paulo em Londres, o mosteiro do Monte Saint-Michel, a Igreja de S. Clemente em Roma e muitas outras.
A mística mitraica não era apenas contemplativa mas encorajava à acção e a um grande rigor moral, tendo tido uma forte adesão por parte do corpo militar romano, para estes militares, a resistência ao mal e às acções imorais constituía uma vitória tão importante quanto as vitórias militares.
Da iniciação mitraica fazia parte a subida simbólica de uma escada cerimonial de sete degraus, cada um de um metal diferente simbolizando os sete corpos celestes e os sete raios do universo. Esses sete graus de iniciação eram: Corax (Corvo) – Mercúrio; Nymphus (Noivo) – Vénus; Miles (Soldado) – Marte; Leo (Leão) – Jupiter; Perses (Persa) – Lua; Heliodromus (Corrida do Sol) – Sol; Pater (Pai) – Saturno.
Mitra nasce a 25 de Dezembro, data também atribuida ao nascimento de Hórus no Egipto e posteriormente atribuída ao nascimento de Jesus. Sabe-se que historicamente Cristo não teria nascido nesta data e que somente no fim do mitraismo a igreja católica “cristianizou” este dia com a Festa de Natal. A celebração mitraica do nascimento de Mitra denominava-se Natalis Invicti, que coincindia a mesma data de 25 de Dezembro com a celebração romana do Sol Invictos, O Sol Invencível.
Tal como vamos encontrar posteriormente com Jesus, o nascimento de Mitra dá-se numa gruta, sendo também este anunciado por uma estrela. Ambos nascem de uma Virgem Imaculada que toma o nome de “Mãe de Deus”, o seu nome é Anihata ou Anahita, também deusa ou génio do Fogo. No momento do nascimento de Mitra vamos encontrar também a presença de pastores, que com os seus rebanhos, veem adorar o menino. Em algumas tradições, Mitra nasce da própria rocha.
Não querendo alongar-me no simbolismo da gruta, não posso deixar de citar um excerto de Porfírio, da sua obra “O Antro das Ninfas” falando precisamente sobre a importância mistérica da gruta:
“Não se considerava o antro como símbolo só do mundo sensível, mas também de todas as forças ocultas da natureza, já que os antros são obscuros e a essência das ditas forças é misteriosa.”
A consagração do pão e do vinho do ritual cristão, podemos já encontrá-lo no mitraismo. São Justino Mártir refere uma eucaristia de Mitra onde os fiéis compartilhavam pequenos pães redondos e água consagrada (segundo outras fontes também o vinho) simbolizando a carne e o sangue do deus encarnado. Este ritual ocorria aos domingos, dia consagrado ao Sol, e era denominado Myazda.
Considerava-se que Mitra não morria, senão simbolicamente, como divindade solar no seu ciclo descendente, mas ressuscitando todos os anos. Cumprida a sua missão na Terra, diz-se que jantou pela última vez com os seus discípulos, em número de 12, e subiu ao Céu. Ele encarnou para viver entre os homens e morreu para que todos fossem salvos.
Durante o ritual de ressurreição os fiéis pronunciavam as palavras:
“Aquele que não comer o meu corpo e beber o meu sangue, assim que ele seja em mim e eu nele, não será salvo”.
Também entre o mitraismo vamos encontrar o rito do baptismo, através do qual era garantida a vida eterna.
A figura de Cristo crucificado, como símbolo do Cristianismo, não era usado até ao ano 680 d.C., mas sim o Cordeiro de Deus, igualmente um símbolo mitraico.
Ao longo dos séculos várias têm sido as contraposições mais absurdas sobre estas similitudes. Alguns acusam o mitraismo de plagiar o cristianismo, argumento que morre à nascença sabendo-se que o mitraismo é anterior, então surge o argumento que foi obra do diabo para denegrir o cristianismo e afastar os homens do caminho, como o que afirmava Tertuliano (160-220 d.C.) que dizia que o mitraismo utilizava indevidamente o baptismo e a consagração do pão e do vinho e que era inspirado pelo diabo para ridicularizar os sacramentos cristãos com o intuito de levá-los para o inferno.
Penso que os factos nos mostram claramente a adopção de elementos do mitraismo pelo cristianismo, facto que tão pouco nos deve chocar, pois esse processo de assimilação encontra-se facilmente em toda a história das religiões a ocidente como a oriente. As verdades de cada religião e símbolos têm em geral um valor atemporal e simbólico, sendo natural que quando surge uma religião se adoptem, com mais ou menos adaptação, símbolos e ritos, milhares e milhares de vezes repetidos, assumindo um poder a nível do inconsciente colectivo dos povos. Porque razão não encontraríamos o mesmo processo no cristianismo? Bem, segundo alguns porque seria a religião verdadeira... pois é um argumento pouco consistente.
Para melhor compreendermos o cristianismo e a mensagem nele contida, é importante o entendimento de muitas doutrinas, grupos, religiões que deram contributos importantes ao cristianismo e outros que simplesmente foram assimilados nos seus aspectos formais para que dessa forma adquirissem o poder sobre aqueles que seguiam esses mesmos cultos.
José Ramos
Coimbra, Setembro 2012
Bibliografia:
- “O Mitraismo e o Cristianismo”, Prof Almeida Paiva, Ed. Tip. da empresa Literária e Tipográfica, 1916