Os Números e o Feng Shui - Parte II
(Ler primeira parte aqui)
A Trindade, a Criação e o Ritmo
Da interacção do YIN e YANG surge a Criação e com isso a base dela que é a Trindade. Encontramos esta noção de Trindade em muitas culturas, aquilo que os gregos chamaram de Triplo Logos ou a expressão Trina do Logos.
O Primeiro Logos é a Vontade Lei, o impulso de criação e diferenciação, o Segundo Logos é o Amor Energia que permite chegar ao apogeu de cada situação e o Terceiro Logos é a Inteligência Forma que leva à consumação e prepara uma nova forma.
No Pensamento Chinês, esta Trindade, como vimos, é a seguinte:
TIEN Céu
REN Ser Humano
TI Terra
Também encontramos a Trindade na medicina chinesa, nos conceitos SHEN (Espírito), JIN (Essência) e QI (vitalidade).
SHEN é a consciência organizadora, da essência celestial, que se expressa no conjunto de todas as funções do organismo, permitindo-lhe comunicar e adaptar-se permanentemente ao seu ambiente. Espírito, conjunto de funções psíquicas e espirituais. (Eric Marié - Compêndio de Medicina Chinesa)
JIN é a essência vital, teia da vida contido no grão ou na semente de um ser, que permite que se desenvolva de acordo com os critérios da sua espécie. (Eric Marié - Compêndio de Medicina Chinesa)
QI é, o conjunto das energias e das substâncias que se encontram presentes na natureza e no ser humano. Sendo a Energia vital universal, o QI está presente em todas as manifestações da natureza. (Eric Marié - Compêndio de Medicina Chinesa)
De acordo com o Shuo Kua, o TAO, o Sentido do Céu é o escuro e o luminoso, a luz que vai criando na escuridão, a força da diferenciação. O TAO ou Caminho do Ser Humano é o amor e a justiça, a força e a plenitude. O TAO da Terra é o duro e o brando, o suporte das formas.
A Trindade são também os três momentos da criação, que se expressa nos três momentos das estações do calendário chinês:
SHAO a abertura da estação
TAI a plenitude da estação
JUE a consumação e a passagem para a seguinte estação
A Criação expressa-se, entre outras, no Ritmo da Vida, os WU HSING desdobram-se em YIN e YANG e surgem os dez troncos ou SHI GAN:

Na aplicação prática, a Trindade deve fornecer Ritmo ao Espaço Arquitectónico, tanto no tempo como nas formas. Trata-se de desenhar o espaço arquitectónico como um espaço vivo.
O Quaternário, a Cruz do Tempo e o Espaço, a Orientação
O Quaternário é um desdobramento da dualidade, como expressa claramente o pensamento chinês no Tai Chi, a divisão das duas partes não se faz numa linha reta, mas pelo Wu Chi, essa linha sinuosa que permite o YIN receber o YANG e o YANG penetrar no YIN, o que é reforçado porque no meio do YANG está a semente do YIN, e no meio do YIN está a semente do YANG.
No TA CHUAN podemos ler:
“No I Ching existe o grande começo original. Este gera as duas forças fundamentais do Liung Yi. Estas duas forças fundamentais geram os quatro símbolos de Ssu Hsiang. Os quatro símbolos geram os oito signos ou Pa Kua.”
Os quatro símbolos do Ssu Hsiang podemos vê-los em diversas realidades naturais:

Também podemos ver uma expressão dos quatro símbolos de Ssu Hsiang no plano cartesiano, considerando que o YANG é o que vai do zero para a direita, ou seja, positivo, e o YIN o que vai desde o zero para a esquerda, ou seja, negativo:

Os quatro símbolos de Ssu Hsiang são a Cruz do tempo, como já vimos nas Quatro Estações e nas Quatro Fases da Lua, e também podemos vê-lo nas quatro Idades do Ser Humano, cada quadrante indica um tipo de tempo específico, ou seja, o tempo no plano geométrico é o Tempo sagrado, ou seja, não é um tempo homogêneo, mas um tempo qualificado, cada Estação, cada Fase e cada Idade, é uma qualidade de tempo.
Os quatro símbolos de Ssu Hsiang são também a Cruz do Espaço em relação às quatro direções Norte, Sul, Leste e Oeste, que à semelhança do Tempo, indicam qualidades do Espaço.
Na sua aplicação prática no Feng Shui, os quatro símbolos de Ssu Hsiang marcam a Orientação e aqui produz-se um dos problemas mais típicos ao passar literalmente a linguagem simbólica para uma aplicação concreta. Por exemplo, no caso da China, tomado como um país, o Norte indica o frio, o Sul o calor, etc. Mas, para aplicá-lo a um determinado lugar, há que analisar as suas qualidades próprias desse terreno de acordo com os quatro símbolos de Ssu Hsiang e não considerá-lo como fixo.
A orientação também se refere ao sol, ventos, orientação em relação a marcos geográficos, edifícios ou objectos que proporcionalmente afectem o lugar que se está a estudar.
O Quinquenário, o Pentágono e o Centro
Já vimos o quinquenário expressado no Wu Hsing e também já pudemos apreciar a sua principal característica, que é a dinâmica que gera e que se expressa nos Ciclos de Geração e Controle que se expressam geometricamente no Pentágono e no Pentágono estrelado.
Outra maneira de ver geometricamente o Pentágono é como o centro, como um elemento de uma dimensão distinta dos outros quatro, que por vezes pode ser o cume como no caso da pirâmide, ou como centro receptor e transmissor, como é o caso da Mandala, que no pensamento chinês gera uma síntese que relaciona os quatro símbolos de Ssu Hsiang com este centro através do Wu Hsing.

Podemos ver outra expressão dos Wu Hsing nos Cinco Tipos de Shen como é explicado na Medicina Chinesa, a combinação harmónica dos Cinco Shen gera a saúde, o fundamental é que se encontrem no justo Meio, porque nos Shen pode haver desordem por carência, por excesso e por perturbação.
Entre parêntesis é indicado o Wu Hsing com o qual está relacionado:
HUN (MADEIRA)
Está relacionado com o Fígado, gera os projectos e é gerador do conteúdo do inconsciente sob a forma de sonhos, desejos, apetências. É uma força dinâmica que desencadeia os impulsos necessários para se empreender uma acção. Tem relação com o atavismo, o instinto hereditário, a força das palavras, pulsões e paixões. Controla a imaginação pelo que tem relação com todo o acto criativo.
A deficiência de Hun reduz os impulsos, os desejos e o entusiasmo. Também reduz a capacidade de imaginar e de projectar-se para o futuro.
A perturbação de Hun provoca sonhos agitados, violentos e pesadelos, os projectos são excessivos e incoerentes, a imaginação e as pulsões descontrolam-se.
SHEN (FOGO)
Está relacionado com o coração, coordena o psiquismo e estrutura o ser humano, é o responsável pela coerência da personalidade e expressa-se na inteligência, em particular, na capacidade de se adaptar a novas situações e ao ambiente circundante, sabe tirar partido das energias externas e internas do organismo.
O correto funcionamento do Shen é caracterizado pela clareza mental, o coração sereno e discurso coerente e inteligível.
A deficiência de Shen causa depressão, timidez, incapacidade de ter uma percepção adequada das situações, o que origina uma tendência a reclamar sempre, quando é muito grave, pode causar uma desintegração da personalidade.
A perturbação do Shen causa euforia, incoerência, confusão.
YI (TERRA)
Está relacionado com o Baço, é a parte da mente relacionada com o registro de experiências, da sua classificação, conservação, compilação e reformulação. Está ligada à memória, trabalha sobre a capacidade de integrar e de reproduzir informações, estas duas fases são complementares na aprendizagem.
Com o bom funcionamento do Yi, a compreensão é fácil e confortavelmente mantida; concebe-se bem e enuncia-se claramente.
A deficiência de Yi provoca debilidade na memória e conceptualização torna-se confusa.
Com a perturbação do Yi, a memória torna-se obsessiva, é impossível separar as experiências passadas e as experiências de ideias fixas da mente.
PO (METAL)
Está relacionado com o Pulmão, é a parte da consciência mais corporal, que determina as acções e reacções do organismo destinadas a permitir escolher, sem a intervenção da mente, o que é útil e rejeitar o que é prejudicial para a sua sobrevivência. Expressa-se nos instintos primários como sucção, deglutição, etc. E de forma mais especifica, no instinto de auto-preservação, ligado ao apego ao corpo.
A deficiência de Po, gera uma perda de auto-preservação, vulnerabilidade e desinteresse.
Com a perturbação de Po, observa-se um estado obsessivo ligado a um medo do futuro.
ZHI (ÁGUA)
Está relacionada com os Rins, corresponde à vontade, a determinação, a capacidade de pôr em prática uma intenção. É essencial para levar a cabo uma acção, sem deixar que esta seja desviada pelos obstáculos.
O bom funcionamento do Zhi, fornece autoridade e afirmação do eu.
A deficiência Zhi produz medo, carácter indeciso e mutável, desânimo e submissão à adversidade.
O excesso de Zhi expressa-se, demasiado, produz temeridade, tirania, autoritarismo e obstinação.
O centro é alternadamente gerador e receptor.

Na prática do Feng Shui, um dos pontos fundamentais consiste em encontrar ou desenhar o centro. Cada espaço, por exemplo, uma casa, tem o seu Centro Vital e também cada um dos quartos que a compõe.
Mais uma vez devemos lembrar que a imagem que temos mostrado acima, onde aparece o Centro como um centro geométrico, é um símbolo, está precisamente em linguagem geométrica, mas em concreto deve ver-se ou desenhar o Centro de acordo com as características específicas de cada espaço.
Números Derivados
A partir dos Números que já vimos derivam outros que examinaremos de uma forma breve:
O Seis e as Direcções do Espaço
As Seis Direcções através dos Três Eixos geram uma séptima direcção que é o Centro.
Os Oito Signos ou Pa Kua
Como vimos anteriormente no Ta Chuan:
“No I Ching Original existe o Grande Começo original. Este engendra as duas forças fundamentais do Liung Yi. Estas duas forças fundamentais geram os quatro símbolos de Ssu Hsiang. Os quatro símbolos geram os oito signos ou Pa Kua.”

Estes oito signos formam também um Ciclo que se expressa geometricamente em relação ao ciclo do Tempo marcando cada Trigrama um momento de mutação.

Os trigramas são momentos de mutação que se expressam através das Oito Direções do Espaço e os Oito Gonzos no Tempo. É também uma linguagem simbólica e geométrica pelo que não pode tomar literalmente para a sua aplicação concreta, o importante é conhecer as qualidades de cada signoe depois, na análise do espaço, encontra-los ou desenhá-los para que o conjunto tenha Harmonia.
Ficam por tratar os outros números, que não faremos neste trabalho, como o Dez que se expressa nos Dez Troncos que são, como já foi indicado, um desdobramento dos Wu Hsing. E o Doze, que se expressa nos Doze Ramos ou Doze Signos do Zodíaco Chinês, que formam o ciclo das Doze Horas do Dia, os Doze Meses do Ano e em combinação com Wu Hsing, formam o grande ciclo de 60 anos.
Conclusão
A intenção deste trabalho, como foi dito no início, foi a de apresentar a necessidade de considerar os diferentes planos de realidade, que neste caso, expressámos nos Números.
Em cada um dos Números que tratamos neste trabalho e nos que apenas mencionámos, há muitos aspectos que não foram mencionados pela extensão em alguns casos, e porque é uma tarefa que avança diariamente e requer investigação e maturidade, na maioria deles.
Sem dúvida, trabalhar com receitas, mais ou menos estáticas é muito mais fácil e, portanto, é mais fácil de gerir. É por isso que as encontramos em muitos textos de Feng Shui, o que permite, sem grande esforço, introduzir-se nesta Arte Ciência, mas raramente o fácil é válido.
O Feng Shui, traduzindo os seus dois vocábulos, é Vento Água, mesmo no plano físico o vento e a água são as duas formas mais evidentes da Vida que se manifesta entre o Céu e a Terra, nesse espaço intermédio, onde o ser humanos desenvolve a sua vida.
Se pudermos entender como flui a água encontrando sempre o caminho mais adequado para cumprir com o seu destino de chegar ao mar, como ela pode ser elevada pelo fogo e movida pelo vento, se formos capazes de ouvir o sussurro do vento por entre as folhas das árvores e como canta entre as rochas. Se podemos fluir na vida como a água do riacho e fazer ondear a nossa alma como faz o vento com uma bandeira, então podemos começar a compreender esta Arte Ciência que existiu em todas as civilizações e que os chineses chamam de Feng Shui.
Leonardo Santelices