O Ocultismo em oposição às Artes Ocultas
Parte I
A palavra ocultismo induz em erro, tal como está traduzida da palavra composta Gupta-Vidya, que significa «conhecimento secreto». Mas conhecimento de quê? Alguns termos sânscritos ajudar-nos-ão a responder.
Entre muitos outros nomes das diversas classes de ciência esotérica que aparecem nos Puranas esotéricos, citaremos os quatro seguintes, por serem os mais notáveis:
- Yajna-Vidya(1) é o conhecimento das forças ocultas da natureza, postas em acção pela prática de certos ritos e cerimónias religiosas.
- Mahavidya, que significa «grande conhecimento». É a magia dos cabalistas e do culto tantrika, embora costume degenerar em feitiçaria da pior espécie.
- Guhya Vidya, ou conhecimento das forças místicas do som (éter) e, portanto, dos mantras cantados nas orações e encantamentos, cuja eficácia depende do ritmo e da melodia. Também se define dizendo que é uma prática mágica fundada no conhecimento e correlação das forças da natureza.
- Atma-Vidya, que os orientalistas traduzem literalmente por «Conhecimento da alma» ou verdadeira Sabedoria, mas que significa muito mais.
O Atma-Vidya é a única classe de ocultismo à qual todo o prudente e inegoísta teósofo admirador de Luz no Caminho, deve aspirar. As restantes modalidades de ocultismo são ramificações das ciências ocultas, isto é, artes baseadas no conhecimento da última essência de todas as coisas nos reinos da natureza (mineral, vegetal e animal). Quem conhece esta última ciência conhece também o reino material da natureza, por mais invisível que seja a dita essência e por muito que até agora tenha escapado às investigações científicas.
A alquimia, a astrologia, a fisiologia oculta e a quiromancia têm a sua razão de ser na natureza, e as ciências que talvez pela sua inexactidão se chamam exactas nesta época de paradoxos filosóficos descobriram já não poucas das citadas artes.
"Não aspire a coisas maiores do que aquelas que seja capaz de cumprir."
Mas a clarividência, simbolizada na Índia pelo «Olho de Shiva» e chamada no Japão «Visão Infinita», não é o hipnotismo, filho bastardo do mesmerismo e nem se adquire por intermédio de tais artes.
Todas as demais modalidades de ocultismo podem dominar-se e obterem-se delas resultados bons, maus ou indiferentes; mas o Atma-Vidya não lhes dá muito valor, pois inclui a todas e mesmo às vezes utiliza-as com propósitos benéficos depois de eliminar as escórias e ter cuidado para que não fique o menor elemento egoísta.
Expliquemos a questão. Qualquer pessoa pode estudar alguma das mencionadas «artes ocultas» sem preparação especial, sem restringir demasiado o seu género de vida nem depurar grande coisa a sua moral; mas neste caso, noventa por cento dos estudantes que se tenham distinguido numa razoável modalidade de magia, precipitam-se sem consideração na negra. Mas, o que é que lhe importa? Também os vudus e os dugpas comem, bebem e alvoroçam-se nas hecales; e outro tanto, em diversos sentidos, fazem os amáveis cavaleiros que praticam a vivissecção e os hipnotizadores diplomados pelas Faculdades de Medicina. A única diferença entre ambos consiste em que os vudus e os dugpas são feiticeiros conscientes e os vivisectores da taifa de Charcot e Richet são-no de uma forma inconsciente.
Mas como uns e outros hão-de colher os frutos das suas acções na arte negra, os praticantes ocidentais não deixarão de obter um gozoso proveito embora logo recebam o seu castigo, porque o hipnotismo e a vivissecção, tal como se praticam no Ocidente, são pura e simples feitiçaria, menos o conhecimento que possuem os vudus e dugpas, e que nenhum Charcot nem Richet pode adquirir em meio século de árduos estudos nem observação experimental. Portanto, que fiquem sem Vidya-Atma ou verdadeiro ocultismo quem o desdenha para chafurdar na magia, conscientes ou não da sua índole, e repugnam pelas regras demasiado rigorosas impostas aos estudantes. Deixemo-los que sejam magos através de qualquer meio, embora durante as dez encarnações seguintes não passem de vudus e dugpas.
No entanto, o interesse do leitor focar-se-á, provavelmente, em quem sente uma atracção invencível pelo ocultismo, embora, todavia, não tenham subjugado as suas paixões nem muito menos sejam verdadeiramente inegoístas. Como proceder com estes desgraçados a quem, deste modo, forças antagónicas rasgam a meio? Porque demasiadas vezes se disse, para que haja necessidade de o repetir, e é coisa evidente a qualquer observador, e que uma vez tenha despertado verdadeiramente no coração do homem o anseio pelo ocultismo, não lhe resta esperança de paz nem lugar de descanso e consolo no mundo. Uma incessante e roedora inquietude, que não pode apaziguar, empurra-o para as mais desoladas e ásperas circunstâncias da vida. O seu ânimo é demasiado passional e egoísta para lhe permitir a passagem pelas Portas de Ouro, e não encontra paz nem descanso na vida normal. Assim, pois, há-de cair inevitavelmente na feitiçaria e magia negra e acumular durante muitos anos um karma terrível? Não existe para ele outro caminho?
Seguramente que existe. Não aspire a coisas maiores do que aquelas que seja capaz de cumprir. Não deite sobre os seus ombros uma carga demasiado pesada. Embora não chegue a ser um mahatma, um buddha ou um grande santo, se estuda a filosofia e a ciência da alma poderá ser um modesto benfeitor da humanidade, por mais que careça de faculdades «sobre-humanas», pois os siddhis ou faculdades do arhat são unicamente reservadas para aqueles capazes de consagrar a sua vida ao cumprimento ao pé da letra dos terríveis sacrifícios que a sua aquisição requer. Há-de saber e recordar para sempre que o verdadeiro Ocultismo ou Teosofia é a incondicional e absoluta renúncia da personalidade em pensamento e obra. É altruísmo, e quem o pratica fica inteiramente escolhido dentre as filas de viventes assim que se entrega à obra e porque «não vive para ele mas para o mundo». Muito lhe é dispensado durante os primeiros anos de prova; mas logo que passa a ser discípulo «aceite» deve desvanecer a sua personalidades e converter-se numa força benéfica da natureza. A partir de então abrem-se dois caminhos na sua caminhada: há-de ascender trabalhosamente, passo a passo, durante numerosas encarnações, sem intervalo devachánico, pela escada áurea que conduz ao arhatado; ou ao dar o primeiro passo em falso, resvalará escada abaixo, rodando até ao fundo da magia negra.
"No santuário da nossa alma, o «Mestre» é o «Eu superior» o divino Espírito cuja consciência deriva e se funda na Mente (pelo menos durante a vida mental do homem), à qual chamamos alma humana ou alma pessoal (pois a alma espiritual é o veículo do Espírito)."
Tudo isto se ignora ou foi esquecido inteiramente nos nossos dias. Com efeito, quem for capaz de observar a silenciosa evolução das aspirações preliminares dos candidatos, verá que estranhas ideias costumam preocupá-los. Existem aquelas cujas faculdades racionais torceram influências alheias até ao ponto de se figurar que as paixões animais podem sublimar-se e elevar-se de modo que todo o seu ardor se dirija para dentro, com a finalidade de as manter encerradas no peito até que, em vez de a sua energia estalar, se inverta em direcção ao alto com propósitos santos; quer dizer, até que a força colectiva das paixões reprimidas capacite o homem para entrar no verdadeiro santuário da alma e permanecer ali na presença do seu Mestre, do Eu superior. Tendo este objectivo, não lutam contra as suas paixões nem as matam, mas mediante um esforço violento de vontade reprimem-nas e mantêm-nas em cheque, deixando as suas brasas em rescaldo. Submetem-se com prazer à tortura do jovem espartano que consentia que a raposa lhe devorasse as entranhas antes de se desfazer dela. Oh, pobres visionários cegos! É o mesmo do que se encerrasse uma quadrilha de limpa-chaminés, gordurentos devido ao seu trabalho, num santuário adornado de branquíssimas telas, e em vez de, através do seu contacto, as converterem num monte de sujos farrapos, se apropriassem do sagrado recinto e saíssem dele tão imaculados como as telas. De igual modo pode-se imaginar que uma dúzia de texugos encerrados na pura atmosfera de um mosteiro (dgon-pa) pudessem sair dele impregnados dos perfumes do incenso. Estranha aberração da mente humana! É possível que assim seja? Discutamos o assunto.
No santuário da nossa alma, o «Mestre» é o «Eu superior» o divino Espírito cuja consciência deriva e se funda na Mente (pelo menos durante a vida mental do homem), à qual chamamos alma humana ou alma pessoal (pois a alma espiritual é o veículo do Espírito). Por sua vez a alma pessoal está constituída no seu aspecto superior por aspirações espirituais, volições e amor divino; no seu aspectos inferior por desejos animais e paixões terrenas, comunicadas pelo seu contacto com o corpo astral que é o assento de todas elas. Portanto, a alma pessoal é o enlace ou elo entre a natureza animal do homem, que a razão procura dominar, e a natureza espiritual para a qual aquela propende quando consegue vantagem na sua luta com a natureza animal. Esta última é a instintiva alma animal, nicho das paixões que o imprudente entusiasmo arrulha no seu peito em vez de matar. Como esperar que a lodosa corrente da cloaca animal se converta no cristalino manancial das águas da vida? A que terreno neutral podem ser relegadas as paixões, sem que afectem o homem? As violentas paixões de amor e luxúria mantêm-se vivas no seu berço, quer dizer, na alma animal, porque tanto no aspecto superior como no inferior da mente ou alma humana rejeitam semelhantes hóspedes, embora não possam evitar roçar com eles como vizinhos. O Eu superior ou Espírito é tão impermeável aos maus sentimentos como a água é incapaz de se misturar com o azeite ou qualquer outro líquido impuro e gorduroso. O único laço com o homem e o Eu superior é a Mente, a única que se pode contaminar e está em incessante risco de que as adormecidas paixões despertem a qualquer momento e a arrastem para o abismo da materialidade. Como pode concertar-se com a divina harmonia do Eu superior, se esta harmonia está quebrada pela presença das paixões animais no santuário? Como é possível que a harmonia prevaleça e triunfe, quando a mente está contaminada e turva pelo turbilhão das paixões e dos desejos terrenos dos sentidos corporais e do homem astral?
Porque o corpo astral não é companheiro do Eu superior, mas do corpo terreno. É o laço entre o manas inferior e o corpo físico; o veículo da vida transitória, não da imortal. Como sombra projectada pelo homem, segue servil e mecanicamente os seus movimentos e impulsos, inclinando-se, portanto, para a matéria, sem ascender jamais para o Espírito. A união com o Eu superior somente pode cumprir-se quando, anulada a força das paixões, fiquem trituradas e aniquiladas na retorta de uma inflexível vontade; quando não somente morreram as concupiscências e ânsias da carne, mas que, também morta a personalidade, se invalida o corpo astral, que reflecte o homem triunfante e não a cobiçosa e egoísta personalidade. Então o brilhante Augoeides, o divino Eu, vibra em consciente harmonia com os dois polos da entidade humana: O homem de purificada matéria e a sempre pura alma espiritual. O homem permanece na presença e para sempre se une intimamente com o Eu superior, com o Mestre, o Cristo dos gnósticos(2).
H. P. Blavatsky
Fragmento do artigo supra citado, retirado de Estudos Ocultistas
(1) Dizem os brahmanes que o Yajna existe desde a eternidade e procede do Ser Supremo… em quem está latente «sem princípio». É a chave da traividya, a ciência três vezes sagrada, contida nos versículos dos ritos sacrificiais. Segundo a INTRODUÇÃO ao brahmana Aitareya: «O Yajna existe em todo o tempo, tão invisível como a energia armazenada num acumulador eléctrico cuja actualização requer unicamente o devido manejo do aparato. Supõe-se que o Yajna se dilata desde o ahavaniya ou fogo do sacrifício, até aos céus, em forma de ponte ou escada pela qual o sacrificador pode comunicar-se com o mundo espiritual e ainda elevar-se até às moradas dos deuses». O Yajna é uma modalidade do akâza, e para actualizá-la é preciso que o sacerdote iniciado pronuncie a Palavra pedida, sob o impulso do poder da vontade. – Ver Ísis sem Véu, «Diante do véu», tomo I.
(2) Quem se incline a ver três Egos no homem denotará a sua incapacidade para advertir o metafísico significado desta afirmação. O homem é uma trindade de corpo, alma e espírito; mas, no entanto, o homem é um e seguramente não é o seu corpo físico ou transitória veste. Os três Egos são os três aspectos do homem nos planos astral, mental e espiritual.