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Outono

 

Aquilo que nos sucede, ou que está prestes a suceder-nos, pode transformar-nos, se o compreendermos, ou simplesmente agitar-nos, se o recusarmos, não mais do que o vento às folhas e aos ramos de uma árvore.

Outubro é uma chamada à transformação, ao crescimento, e é uma oportunidade que, como tantas outras, não devemos descurar. Obriga-nos a despir a folhagem pesada e passada, demasiado queimada pelo sol, demasiado envelhecida para que nos alimente. E por muito que lhe tenhamos dedicado esforço e nos identifiquemos com ela, e por muito que nos custe havemos de nos habituar ao vazio, e até apegar à próxima folhagem, que por sua vez terá os dias contados. Neste processo transformamo-nos, é certo, mas somente no exterior. Passa o vento, passa o assobio, passa o fio da navalha, mas nós nem sempre somos capazes de os compreender nem de os amar. Passa o sol, chegam as chuvas e continuamos a ser a mesma árvore que ainda não interiorizou a transformação, apenas mais solitária, mais severa, mais obscura e mais acanhada. Diremos que somos uma árvore diferente em cada folha que envelhece, mas não toleramos a sua perda. E nessa incompreensão esquecemos a persistência das raízes e do tronco, abalados pelos tantos frutos e folhas que caíram silenciosamente no chão do mundo, cada vez mais desanimados por nos vermos repetidamente despidos da beleza e das ilusões que nos ocultavam as feridas e nos protegiam da visão do outro. Neste início de noite já não somos a mesma corda, como gostávamos de nos imaginar, esticada e triunfante, onde o vento podia desenhar melodias suaves, aquela das folhas e dos frutos.

Agora todas as notas que nos canta o vento são duras e melancólicas, e não se demoram nos nossos ramos desfolhados. As aves celestes deixam de nos procurar como refúgio, já não encontram utilidade nos ninhos envelhecidos, nem como palco para saudar o sol com hinos às verdades sublimes. Provavelmente morreram em algum cemitério ocidental, pensamos, juntamente com o sol, ou seguiram o caminho das folhas, e foram engolidas pelo mundo. Assim, somos deixados ao nosso destino. Vem o vento e não podemos aprender nada da sua persistência, trajecto e purificação, ficaremos no mesmo lugar, mal-humorados e envelhecidos, seja qual for a nossa idade real. Com tronco envelhecido e curvado, com raízes envelhecidas e enfiadas na terra, sem esperança, diremos que fomos abandonados, sem pensar que as folhas se sacrificaram por nós, pelo bem do tronco e dos ramos. O sol, que nos últimos tempos se fez cada vez mais distante, mais frio, mais desinteressado em nós, transformar-se agora no motivo das nossas dores e também não o compreendemos.

E nem a chuva, mais intensa, que nos quer tocar directamente a alma, nos distrairá do abandono que encerra as portas ao mundo, mas sem folhas que nos protejam, atingir-nos-á como flechas, transformar-nos-á em pedra habituada às muitas dores da vida. A horizontalidade da terra que parece morrer e do vento que nos uiva um canto fúnebre, faz-nos crer que já não existe verticalidade no céu. Temos a certeza, as coisas boas já passaram e a felicidade não se recordará mais de nós. Diremos-lhe que volte, que não a usufruímos como desejaríamos e como poderíamos, mas ela não quer saber disso e talvez nem nos oiça, talvez nunca tenha existido.

Até a natureza, enormíssima e que nunca reclama, que sempre nos levou nos seus braços negros e que sempre nos vigiou, parece abandonar-nos debaixo dos nossos pés, recolhe-se e gera no invisível, como numa gravidez. Já não somos o filho predilecto, a mãe fechou-se num quarto subterrâneo, longe das chuvas e longe do pai, e nunca mais a vimos. E nem os nossos filhos se mantêm por perto, pois a vida leva-os a uma espécie de morte e um deus obriga-os à aventura da queda. Os nossos frutos e as nossas folhas abandonam-nos uma vez mais. Não são poucas as aves nocturnas que nos fazem companhia, mas nós, habituados às diurnas, já não as podemos suportar. Assassinas do que dantes estimávamos, fazem-se presentes como espectros dos nossos erros passados. Na realidade tudo tem um ritmo, todo morre para que nasça, todos nós somos de vez a vez abandonados, esquecidos, deixados sozinhos frente a um longo caminho, como se de uma morte certa se tratasse. Alguém raptou a nossa companhia e levou-a ao submundo, alguém, contra nossa vontade, a aprisionou numa caverna escura.

E recordaremos Platão se não nos tiverem levado a esperança, e recordaremos que para toda a descida deve existir uma subida e que um dia os frutos caídos gerarão semente. A tristeza transforma-se, com esforço, em alegria de viver. A natureza que se libertou das trevas regressa agora a elas para contra-raptar aquilo que foi levado, e um dia, não muito longínquo, esperamos, regressará com todos os frutos da terra. Nenhum inferno é tão sombrio que de lá não se possa regressar à luz (através da morte). Podemos considerar que fomos enganados, traídos, que envelhecemos na ausência alheia, mas perante os vários Outonos da vida (que por vezes são mais angustiantes do que os Invernos) não precisamos de nos queixar nem de apontar culpas como ramos retorcidos. A natureza não nos abandona, ela vive em nós, e chama-nos, ora à introspecção ora à extrospecção, inspirando-nos a crescer para fora durante o dia, e a crescer para dentro durante a noite, numa melodia que ainda não soubemos ouvir. Dá-nos vestes que um dia já não farão falta, promessas de frutos eternos, que no fim são destruídos por um sonho, ou por um pesadelo, e outros que apodrecem agarrados a nós ou caídos perante os nossos impotentes pés. As pequenas sombras que durante o Verão eram visíveis e nos visitavam, tornam-se agora ausentes e raras vezes fazem escala à nossa porta, não há que lhes dar demasiada importância, pois agora surgem sombras bem maiores. Na maior parte dos casos nós não somos capazes de assimilar a realidade nem de caminhar pela escuridão que se faz medonha. Olhar para dentro é imaginar-se frente a um abismo do qual não sairemos vivos, uma queda eterna pelo vazio da incompreensão.

Mas o Outono é assim mesmo, um símbolo da época do recolhimento gradual, um voltar-se para dentro e um voltar a sair triunfante. As folhas caídas das árvores evidenciam novas formas, as sombras e os ecos produzidos pelas folhas vão-se tornando distantes. Deixemos que desapareçam. Um novo som far-se-á ouvir muito em breve. A noite reina e inspira-nos a outros sonhos, a outras vigilâncias e a outras conquistas, mais interiores que exteriores. E nesta época de queda e de recolhimento faremos o luto, e deixaremos aos mortos tudo o que cair no chão do mundo. Aquilo que cai é a lei dos caídos, não queiramos por isto cair também e servir, como eles, de estrume para as novas sementes do mundo. A queda não é uma nova oportunidade para sentir o mundo, a queda é uma morte que reclama um renascimento. Como tal, aproveitemos a queda das folhas para deixarmos cair também as ilusões que fomos criando, que nos fizeram pesados e que nos protegeram do sol da verdade. Entretanto, guardemos o centro, guardemos aquilo que ainda pode ser guardado, abriguemo-nos do frio, façamos um bastião onde não entre a contaminação dos ventos invernais e onde os valores possam ainda ser respirados. Que o fogo não se apague e que brilhe mais alto, como auxiliador do solitário sol que nos vai visitando. Este é o tempo que permite aos ramos da nossa árvore, assim despidos de folhas e frutos, erguerem-se mais alto, e que mais altos venham a nascer os frutos futuros, e mais altas e belas as folhas, e que de mais alto cantem as aves diurnas os belos hinos ao sol que uma vez mais se levanta. Recordemos esses hinos ainda durante a escuridão do mundo.

Ricardo Louro Martins

 

 


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