O Outono da Primavera Árabe
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Muito se tem escrito sobre os movimentos populares que têm ocorrido em vários países do norte de África. A reacção desigual das diferentes potências e a sequência dos acontecimentos no tempo, levam o autor deste artigo a presumir a existência de interesses encobertos nesses acontecimentos.
As revoluções e protestos no norte da África que ocorreram de 2010 a 2012, designados por vários meios de comunicação como a Primavera Árabe, começaram com uma série de levantamentos populares na Tunísia, Líbia e Egipto, qualificados pela imprensa internacional como uma revolução que começou com a revolta tunisina. As reacções internacionais foram de dois tipos: silêncio inicial da União Europeia, silêncio cúmplice da China e apoio incondicional dos Estados Unidos.
Ao observar a enorme velocidade com que se organizaram os movimentos estudantis na Tunísia, dos rebeldes na Líbia e a sincronicidade desses motins, não podemos deixar de nos perguntar se tudo isso não estaria já preparado de antemão. Além disso, com todos os antecedentes do século XX e os altíssimos interesses comerciais e estratégicos que as superpotências mundiais possuem nesta zona, a pergunta que seguramente se coloca na mente de muitos de nós é se essas superpotências orquestraram essas revoltas para conseguir sacar a sua própria fatia.
"(...)Ao observar a enorme velocidade com que se organizaram os movimentos estudantis na Tunísia, dos rebeldes na Líbia e a sincronicidade desses motins, não podemos deixar de nos perguntar se tudo isso não estaria já preparado de antemão.(...)"
Recordemos algumas notícias que foram aparecendo nos média e que demonstram a participação de países terceiros na Primavera Árabe.
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Caída do Governo |
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Conflito Armado / Mudanças no Governo |
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Protestos / Mudanças no Governo |
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Protestos Maiores |
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Protestos Menores |
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Protestos fora do Mundo Árabe |
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Sem incidentes |
Em Abril de 2006, o Presidente da República da China, Hu Jintao, visitou Marrocos, Nigéria e Quénia. Logicamente fez visitas "informais" a outros países da região, uma vez que obteve um grande número de contratos de exploração de petróleo.
Em 2010, a China comprou 7,5 milhões de toneladas de petróleo à Líbia, 3% do total das importações chinesas de petróleo. Além disso, a petrolífera chinesa CNPC participava no projecto de exploração da escavação Pelagiana 17-3 na costa Oeste da Líbia.
Em 15 de Março de 2011, Muamar Gadafi declarou em entrevista à televisão alemã RTL que " não confiamos nas suas empresas (referindo-se às ocidentais) conspiraram contra nós. " Por esta razão, "os nossos contratos de petróleo irão para as empresas russas, chinesas e indianas ", “o Ocidente é para ser esquecido".
Em Junho de 2013 Barack Obama passou uma semana em visita ao Senegal, África do Sul e Tanzânia. "Esta visita ocorre no contexto da competição estratégica entre os EUA e a China", disse o analista sul africano Aubrey Matshiqi da Fundação Helen Suzman. De acordo com o editorialista do Le Pays de Burkina Faso, esta " ofensiva " foi “ditada pela vantagem conseguida pela China no comércio, especialmente em sectores importantes, como o das minas e energia”.
Matérias-primas para que os ricos sejam mais ricos
O colonialismo na África não terminou com a independência dos países africanos. Os EUA, a Rússia, a UE e a China têm explorado sem compaixão os países produtores de matérias primas como o minério de tântalo, petróleo, madeira e diamantes. E essas superpotências não hesitaram em montar exércitos, derrubar governos e criar guerras civis que produziram milhões de mortos e deslocados.
É chocante o relatório do Grupo de Peritos encarregado de examinar a exploração ilegal dos recursos naturais e outras fontes de riqueza da República Democrática do Congo, que data de 12 de Abril de 2001 ( http://www.veritasrwandaforum.org/material/Informe_ONU_12 .04.01 . pdf) . Nesta publicação, demonstra-se a ligação dos países desenvolvidos com a exploração ilegal de recursos, através de bancos e intermediários.
Recapitulando: China, Rússia, a UE e os EUA saquearam os países africanos desde o século XIX até ao momento presente. Os métodos nem sempre foram legais nem legítimos. O petróleo acaba-se e a China conseguiu contratos com países como a Líbia, em 2006. Qual foi a reacção das restantes superpotências? Como sempre, criando guerras, tumultos, derrubando governantes e colocando no seu lugar marionetes. No caso do Norte de África actuaram como na região dos Grandes Lagos (para mais informações " Fundação S'Olivar " http://juancarrerosaralegui.wordpress.com/). Prepararam desde 2006 até 2010 grupos " dissidentes " para derrubar os governos pró- chineses e poderem negociar com eles.
"(...)Quiseram-nos convencer que os estudantes conquistaram a glória na Tunísia, que os partidários da liberdade derrubaram Muamar Gadafi e que os leigos derrotaram o tirano do Cairo. E é aqui que por detrás da Primavera chega o Outono, as folhas caem das árvores secas e sem cor e a promessa de um prado verde, quebra-se ao comprovar que na Tunísia, na Líbia e no Egipto as coisas continuam como antes ou pior.(...)"
À luz da opinião pública, aparece uma legítima guerra civil pela liberdade, em que não participam países estrangeiros. Mas a verdadeira motivação é que as grandes multinacionais consigam as matérias-primas que tanto necessitam os países ricos para serem mais ricos. EUA, Rússia e a CEE já reconheceram o Conselho Nacional de Transição da Líbia como governante legítimo. E é exigida urgência para que os contratos de exploração possuam força legal o mais rápido possível. A pergunta é: por que é que não reconhecem tão rapidamente a OLP?
Venderam-nos o motor com a Primavera Árabe! Em todos os meios de comunicação se tem falado e discutido sobre o ressurgimento da democracia no Norte da África. Quiseram-nos convencer que os estudantes conquistaram a glória na Tunísia, que os partidários da liberdade derrubaram Muamar Gadafi e que os leigos derrotaram o tirano do Cairo. E é aqui que por detrás da Primavera chega o Outono, as folhas caem das árvores secas e sem cor e a promessa de um prado verde, quebra-se ao comprovar que na Tunísia, na Líbia e no Egipto as coisas continuam como antes ou pior. Onde estão as promessas de liberdade? Não há nada disso e as multinacionais (verdadeiros governantes das superpotências) continuam a sugar o sangue aos povos, enquanto a opinião pública brinda eufórica pela liberdade democrática.
Ainda não podemos cantar vitória. Temos que continuar a lutar. Mas não contra ninguém, mas sim a favor da fraternidade entre todos os povos, a favor da justiça para todos os seres humanos, a favor da bondade que permita uma equitativa redistribuição da riqueza e da felicidade. Não nos acomodemos em ilusórios paraísos de consumo. A luta pacífica ainda não terminou!
Francisco Capacete González