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O Padre António Vieira, Imperador da Língua Portuguesa

 

padre antónio vieira

Este título, “imperador da língua portuguesa” mais que honroso, pois assim o chama o poeta Fernando Pessoa, define muito bem a excelsa retórica do sacerdote jesuíta António Vieira (1608-1697), uma alma magnânima e heroica lutando como um Hercules ou um São Jorge contra as criações monstruosas do seculo em que viveu.

Uma das fortes e esbeltas colunas do templo que é a nação portuguesa. E como sempre nos versos paradoxais de Pessoa, a palavra “imperador” é um diamante multifacetado - não esqueçamos quando o autor da Mensagem, disse que a sua pátria é a língua portuguesa-, imperador, como rei dos reis, como o mais insigne, o primeiro e o mais nobre dos que usaram esta língua, pelo seu verbo de fogo, pura vontade como uma espada em chamas abrindo caminhos na noite de preconceitos e cobiças do seu tempo.

 

“Imperador da língua portuguesa” pelo uso soberbo que dela faz nos seus discursos, com a arquitectura de uma sintaxe prodigiosa (demasiado barroca hoje, claro está) e o ornato natural de umas figuras de estilo tão poderosas como oportunas.

 “Imperador da língua portuguesa” porque os seus escritos e sermões incendiários não se restringiram à sua terra natal, senão que ecoaram por toda a Europa fazendo vibrar pedras e corações em Roma, e ainda mais além nas terras do Ultramar, no seu adorado Brasil, em cidades e vilas, e adentrando-se nas selvas amazónicas para evangelizar e defender aos seus Índios aos quais tratara como filhos.

O cenário histórico no qual desenvolve a sua vida e obra, e no qual interveio activamente, é o da Restauração, a guerra da independência da Coroa Espanhola no território pátrio e os quase 30 anos de ferocíssimos combates no Brasil contra a Holanda. O rei a quem serviu como orador, diplomata e conselheiro, é o prudente João IV, o primeiro rei deste novo período e anteriormente duque de Bragança.

A Ordem Religiosa que foi a sua vida e alma, e quem educou a fogo e ferro o seu verbo e caracter, é a Companhia de Jesus à qual se entregara como fiel milites desde os 18 anos, ordenando-se sacerdote.
Os seus inimigos, os tiranos e miseráveis, enfermos de todo o tipo de dolências morais e aos quais fustigou com o seu discurso e acção incansável: a Inquisição, que o processou e culpou, querendo enterrá-lo em vida; todos os parasitas que se remoinharam em volta de um rei bobo, Afonso VI, depois da morte de D. João IV; e todos os caciques que no Brasil escravizavam os indígenas, depois de caça-los como animais na floresta, gente sem escrúpulos com uma sede insaciável de enriquecer-se o mais rápido possível e desta maneira regressarem à metrópole como senhores quando haviam partido como vilões “Zé-ninguém”.

Como disse Mafalda nas vinhetas de profunda filosofia, “amassando uma fortuna fazendo farinha dos outros”.
A inspiração do seu discurso: os clássicos eternos, os Pais da Igreja e os autores romanos; a Bíblia, todo tipo de leituras de santos, destacando a nossa Santa Teresa de Jesus; e a detalhada e profunda observação de tudo quanto sucedia ao redor e pesando na balança da razão os acontecimentos do seu século. Do mesmo modo que em Espanha falamos de um Castelar quando queremos dizer o orador por excelência, por antonomásia; em Portugal temos o sacerdote António Vieira e os jovens estudam na cátedra de literatura os seus discursos (o que infelizmente nós não o fazemos com os de Castelar).

De família humilde, nasce a 06 de Fevereiro de 1608 em Lisboa, perto da Sé Catedral. Na sua linhagem, encontram-se rasgos de sangue africano: assim o figuram a sua fisionomia pois a sua avó ou visavó eram mulatas. E chama a atenção a importância deste orador na história e nascimento do Brasil, constituído também com a força vigorante de um crisol de raças. O seu pai, que tinha servido a Marinha Portuguesa e depois a Inquisição como escrivão, mudou-se em 1614 para a cidade Baía de todos os Santos, no Brasil, e quatro anos depois consegue trazer com ele a sua família.

É educado pelos sacerdotes jesuítas no colégio da Companhia de Jesus nesta cidade, um importante centro de conhecimento naquela época. Num século, e mais ainda numa Ordem que fazia gala que “a ciência com sangue entra” podemos imaginar a férrea formação que recebeu. A disciplina jesuíta não aceitava nenhum tipo de faltas, por leves que estas fossem, que não acarretassem o seu correspondente castigo; e os seus famosos Exercícios Espirituais somente podiam ser executados por uma personalidade severa, implacavelmente dominada. Ainda que o jovenzito António Vieira fosse de natureza enfermiça, rapidamente os padres jesuítas descobriram que por detrás dela pulsava a energia incansável de um Titã.

A sua memória era ademais prodigiosa e aos 14 anos o seu conhecimento do latim e das Escrituras, especialmente dos Profetas, e a sua facilidade e imaginação para compor na língua portuguesa mostram-se excepcionais. A 5 de Março de 1623 – tem, portanto, quinze anos – a sua alma, já bem trabalhada com vários anos de disciplinas e estudos, ateia em fogo com um discurso do sacerdote jesuíta Manuel do Carmo descrevendo o inferno com todo o luxo de pavorosos detalhes. Sente que uma voz divina o chama ao serviço do Supremo Bem e que deve dedicar a sua vida a salvar com o poder da sua palavra os desencaminhados que se precipitam nos abismos. Como o descreve Mário Domingues (1899-1977) no seu livro “O Drama e a Glória do Padre António Vieira”, num texto que imagino deve ter extraído dos mesmos sermões do nosso protagonista:

 “E pensava – como meio de salvar tantas almas do inferno – na força maravilhosa da eloquência. Com um elemento tão fugidio e efémero como a palavra, que ora soa e logo se dissipa, ela consegue erguer perante quem a escuta mundos mais vivos do que a vida, penetrar o mistério dos céus e revelar-nos as delicias da bem- aventurança, ou descer aos infernos e desvendar-nos os seus tormentos inconcebíveis. Com o poder da eloquência, inúmeras almas foram arrancadas às garras implacáveis de Satanás. Mais impetuosa do que o sopro dos tufões, que destroça as caravelas no mar, derruba as torres mais robustas e arranca pela raiz árvores seculares, a eloquência - o débil sopro humano que é a palavra iluminada pela fé – na boca de um Moisés arrasta o povo hebreu através do deserto até à vista da Terra da Promissão; na de Jesus, fomenta a ruina do maior império do Mundo; na de S. Paulo, converte os gentios à lei da Verdade.”

Então, muito se poderia dizer comentando o valor ou veracidade histórica destas imagens retóricas, já sem actualidade, mas extremamente poderosas e vivas no século em que foram pronunciadas … Porém não é o objectivo destas breves notas.

O jovem, agora inspirado pela sua santa missão, e à qual seria fiel até ao fim da sua vida, decide assumir os votos de noviço e depois de sacerdote. O seu pai não aceita de forma alguma e o jovem foge com quinze anos de casa e refugia-se na Companhia de Jesus. Os seus mestres conseguem persuadir o seu pai, Cristóvão Ravasco, da poderosa vocação do seu filho assim como da sua lucidíssima inteligência, que merecia uma oportunidade como a que a sua alma aos gritos reclamava. Além de que, a sua sede de saber é insaciável e não há disciplina que não enfrente com valentia: teologia, humanidades, matemática, geometria, retórica, etc…

No mês de Maio de 1623 uma armada holandesa de 25 navios e 3000 homens chega à cidade da Baía, que portuguesa, estava sob o poder da coroa espanhola, entra nela e a saqueia. A cidade estava solitária, pois os seus moradores, temendo o pior, haviam-na abandonado levando os escassos bens que puderam carregar e entraram na floresta. Entre eles, os jesuítas, e com eles o jovem António Vieira que deve ter vivido durante um ano entre os indígenas e aprendeu a sua língua nativa. Foi educado também na escola militar das guerrilhas e emboscadas, senão como actor, sim como espectador; pois o ardoroso e combativo bispo Don Marcos Teixeira reuniu os seus clérigos, os fugitivos da cidade e os nativos do lugar e não deu trégua aos holandeses. E foi testemunho do saque de Baía pelas mesmas tropas libertadoras de espanhóis e italianos de modo que os portugueses perderam ainda mais com estes, os sues aliados, do que com os holandeses. As cenas de horror e gritaria, de roubo e violações, a cobiça sedenta de riquezas e sangue e as fúrias desatadas devem ter deixado uma marca indelével na sua alma juvenil ainda terna, com dezassete anos. Muito mais tarde, num dos seus discursos (1) escreveria:

“É a guerra aquele monstro que se sustenta das fazendas, do sangue, das vidas e quanto mais come e consome, tanto menos se farta!”

Tal é a confiança e a admiração que a Ordem lhe professa que o incumbe que componha a Carta Anual ao General dos jesuítas, relatório no qual descreve a frágil situação da Baía e todas as crueldades a que se entregavam os holandeses.

Com 18 anos, em 1627 é enviado ao Colégio Jesuíta de Olinda para que dê aulas de retórica e dialéctica.
Escreve comentários, infelizmente perdidos, às Tragédias de Séneca e às Metamorfoses de Ovídio, continuando a aprofundar os seus estudos humanísticos e bíblicos.

Escreve, com 19 anos, um comentário ao Cântico dos Cânticos (2)e aos 20 adentra-se nos mistérios da Teologia e escreve para si próprio um manual sobre esta matéria e outro sobre Filosofia. Quer e solicita aos seus superiores evangelizar os índios desaparecendo nas selvas, proporcionando com o seu ensinamento e exemplo até à última gota de sangue; mas os jesuítas não o deixam, a sua cabeça tem um preço demasiado elevado para que pelo sim ou pelo não lhe seja arrebatada pelos selvagens, melhor lutar contra defeitos mais selvagens ainda na cidade.

Em 1640, em plena luta contra os holandeses, profere um dos sermões religiosos mais impactantes e audazes da retórica cristã de todos os tempos. E dos mais belos também. Os portugueses estão sofrendo revés atrás de revés dos holandeses, já se tinham consolidado na cidade de Pernambuco e a Companhia das Índias trafica e enriquece-se com o açúcar; a resistência lusitana na Baía está presa por um fio, e com ela, a presença portuguesa em todo o Brasil; Madrid tinha deixado de socorrer aos seus súbditos de um país vizinho; pensa-se que tanta desgraça proveem da cólera divina e ora-se a Deus pedindo-lhe perdão se é que se tinham extraviado no caminho, sentindo-se culpáveis e com sede de misericórdia:

o que desenvolve uma vitimização muito perigosa no caracter deste povo pois os imobiliza. Durante quinze dias fazem-se preces na Igreja de Nossa Senhora da Ajuda, na Baía, suplicando o amparo divino que abençoe e proteja as armas portuguesas. No último dia, toda a cidade congregada junto ao seu melhor orador escuta as suas palavras.

Retomamos a pluma elegante de Mário Domingues no livro já mencionado:

“A sua personalidade ia afirmar-se de maneira inconfundível. As suas palavras causariam no auditório um misto de assombro e de temor. Assombro, pela sua temeridade; temor, por que Deus não o castigasse, punindo simultaneamente quem o ouvia, entre alarmado e confortado. Vieira não pregou aos fiéis a pedir-lhes humildade e contricção que amansassem a divina cólera. Dirigiu-se ao próprio Deus, a censurá-lo pelo abandono em que trazia os Portugueses, que, a despeito dos seus humanos pecados, o veneravam, e pelo favor em que trazia os hereges, que vilipendiavam o seu nome, que lhe queimavam os templos e destruíam as sagradas imagens, e que vinham exterminando aqueles que tinham levado o seu santo nome aos confins do Mundo. Tomou por tema os versículos 24 e 26 do capítulo 43 dos Salmos, que citou, em latim, no começo da sua oração:

Levanta-te. Porque dormes, Senhor? Levanta-te, e não nos desamparas para sempre. Por que desvias de nós o teu rosto? Por que te esqueces da nossa miséria e da nossa tribulação? Levanta-te, Senhor, ajuda-nos e resgata-nos por amor do teu nome.”

Em finais de novembro de 1640 produz-se a rebelião que vai entronizar como rei de Portugal, e independente já de Espanha, D. João IV. O Padre António Vieira viaja para Lisboa em missão diplomática e representante dos jesuítas para ajudar o novo monarca na tormenta que se avizinha, o nosso orador tem 33 anos e regressa à sua terra natal 25 anos depois de ter saído dela:

“Contudo, a ansiedade de rever Lisboa, de realizar aqui a grande obra de regeneração moral e de reeducação nacional de que o País devia estar carecido, após sessenta anos de cativeiro, já o tornava impaciente por chegar. Havia muito que fazer em Portugal e ele pressentia confusamente em sua alma uma energia gigantesca capaz das árduas tarefas que tanto admirava nos patriarcas e nos profetas bíblicos.” (3)

Na viagem de regresso o seu barco foi assaltado por uma furiosa tempestade e o barco, desfeito, não pode chegar ao Tejo e desembarcar em Lisboa, teve que deter-se na fortaleza de Peniche e ali foram recebidos hostilmente, pois os do lugar não sabiam se os que chegavam eram ou não partidários de Espanha, e salvaram a vida por pouco. Dois dias depois, em 28 de Abril de 1641, chegaram a Lisboa, onde o monarca os recebeu com grandes demonstrações de afecto. Um raio de cumplicidade, como o reencontro de duas almas grandes, estabeleceu-se entre D. João IV e o sacerdote António Vieira: nascia assim uma amizade que daria frutos admiráveis. E não somente isso, o orador jesuíta viu neste rei o predestinado para estabelecer uma monarquia universal da fé católica, e decidiu entregar a sua alma a esta obra e ao engrandecimento da nação portuguesa. Vemos já nestes primeiros discursos na sua terra natal uma “divina loucura” quixotesca, com seus voos e grandezas e também com irracionalidades, que nos fazem sorrir hoje, mas que fizeram chorar de santa emoção a quem os ouviram.

Pouco se sabe dos primeiros quinze meses de estância do Padre António Vieira em Lisboa, sim que entrou no círculo íntimo do rei, e ao que parece deve ter começado a escrever já fragmentos das suas obras “Esperanças de Portugal” e “A História do Futuro”, e iria conhecendo os infinitos matizes palacianos de uma corte.

Em 1 de janeiro de 1642, pela primeira vez, perora na Capela Real e deixa a todos deslumbrados. É um discurso de “bons anos”, ou seja, de início de ano em que se deseja ou conservar, ou alcançar a felicidade e o êxito. O prólogo, que segundo as regras da oratória, deve conseguir cativar a atenção e tornar amável e benevolente o auditório, é genial e sai dos tópicos comuns (algo típico nele, por certo). Diz na presença do rei e da rainha que “no mundo tão avarento de bens, é difícil empenho desejarmo-nos os …”ainda que faça votos para que estes dons do céu sejam concedidos aos reis. Disse que:

“Deus, que é autor de todos os bens, os dê a Vossas Reais Majestades felicíssimos (mui altos e mui poderosos Reis e Senhores nossos) com a vida, com a prosperidade, com a conservação e aumento de estados que as esperanças do Mundo publicam, que o bem da Fé Católica deseja, que a Monarquia de Portugal há mister e que eu hoje quisera prometer e ainda assegurar.”

Mas os ventos da guerra (Portugal havia começado uma guerra com Espanha) e os da fortuna são variados e sopram sem aparente tom nem som, e a felicidade que se procura nas coisas da terra torna-se geralmente como as mesmas raízes na terra, amargas; só a felicidade de e que Deus envia é real e constante, mais além do que nos suceda: valiosa lição de estoicismo! E começa a analisar com grande erudição e graça passagens bíblicas e dos Padres da Igreja, comparando-os à Restauração, anunciada profeticamente, que Portugal está vivendo.

Se a leitura do Novo Testamento faz referência simbólica a um céu avermelhado (o da guerra), afirma, que este precede sempre a um dia calmo; se Cristo foi circuncisado – prática da Lei antiga – significa que não se pode fazer tábua rasa que se devem manter as leis antigas para ir pouco a pouco modificando-as e despojando-se das inúteis; se Maria Madalena não reconheceu a Cristo vivo quando o chorava morto, refere-se à profecia do rei não esperado, que somente pode ser D. João IV, e não D. Sebastião, a quem já naquela época todos esperavam, “sebastianismo” que o Padre António Vieira não deixou uma e outra vez de criticar, pelo menos no seu sentido literal; se Cristo veio com Jesus (Salvador) Rei, e não como Rei Jesus, é porque quer antes a liberação dos oprimidos que a autoridade sobre os súbditos, e assim também, disse, o nosso rei, que vem livrar-nos da opressão de Castela. Insiste em que se vivem tempos de profecia, e que se o agora sucedido foi profetizado significa que a “Mão de Deus” conduz a bom fim o destino da nação portuguesa:

 “Digo que ordenou Deus que fosse a liberdade de Portugal, como os venturosos sucessos dela, tanto tempo antes e por tão repetidos oráculos profetizada, para que, quando víssemos estas maravilhas humanas, entendêssemos que eram disposições e obras divinas, e para que nos alumiasse e confirmasse a fé onde a mesma admiração nos embaraçasse.”

A beleza e o lirismo de alguns fragmentos roçam o sublime e penetra na quinta-essência verdadeira da alma portuguesa, na sua capacidade de amar e de entrega total, em abandono perante o desconhecido:

“Mas ainda que concedamos que os Portugueses não souberam esperar, não lhes neguemos que souberam amar, e com muita ventura; que talvez buscando a um rei morto, se vêm a encontrar com um vivo. Morto buscava a Madalena a Cristo na sepultura, e a perseverança e amor com que insistiu em o buscar morto, foi causa de que o Senhor lhe enxugasse as lágrimas e se lhe mostrasse vivo. Grande exemplar temos entre mãos!

Assim como a Madalena, cega de amor, chorava às portas da sepultura de Cristo, assim Portugal, sempre amante de seus reis, insistia ao sepulcro de el-rei D. Sebastião, chorando e suspirando por ele; e assim como a Madalena no mesmo tempo tinha a Cristo presente e vivo, e o via com seus olhos e lhe falava e não o conhecia, porque estava encoberto e disfarçado, assim Portugal tinha presente e vivo a el-rei nosso senhor, e o via e lhe falava e não conhecia. Porquê? – Não só porque estava, senão porque ele era o encoberto. Ser o encoberto e estar presente, bem mostrou Cristo neste passo que não era impossível. (…)

Então se descobriu o encoberto Senhor, porque então era chegado o tempo, dizendo-nos aos Portugueses o que diz S. Gregório que disse Cristo à Madalena manifestando-se: Recognosce eum, a quo recognosceris: «Reconhecei a quem vos reconhece»; reconhecei por rei, a quem vos reconhece por vassalo. Então sim, e não antes; então sim, e não depois; porque aquele e não outro era o tempo oportuno e determinado de dar princípio à nossa redenção.”

Mas, oh tempos, oh costumes, como mudam as formas de ver com os séculos, e que naturais, se consideravam então os ódios mortais baseados exclusivamente em diferentes crenças religiosas. Disse neste discurso que:

“Grande ânimo, valentes soldados, grande confiança, valorosos Portugueses, que assim como vencestes felizmente estes inimigos, assim haveis de vencer todos os demais; que, como são vitórias dadas por Deus, este pouco sangue que derramastes em fé de seu poderoso braço, é prognóstico certíssimo do muito que haveis que derramar vencedores; não digo sangue de católicos, que espero em Deus que se hão-de desapaixonar muito cedo nossos competidores e que em vosso valor e em seu desengano hão-de estudar a verdade de nossa justiça; mas sangue de hereges na Europa, sangue de mouros na África, sangue de gentios na Ásia e na América, vencendo e sujeitando todas as partes do Mundo a um só império, para todas em uma coroa as meterem gloriosamente debaixo dos pés do sucessor de S. Pedro.”

O seguinte discurso notável, um dos mais célebres é o de Santo António, pronunciado na Capela Real, em 14 de Setembro de 1642, um dia antes de celebrar as cortes. O reino está arruinado, e não se pode manter a guerra com Espanha, com o que periga a independência. Os três estados presentes (a nobreza, o clero e o povo) sabem que o único meio é que se pague impostos. Mas a nobreza diz que quem deve pagá-los é o povo. O povo diz que se não é transparente quanto paga a nobreza, não quer carregar todo o peso sob os seus ombros. O clero nunca pagou e quer passar desapercebido apesar das suas enormes propriedades e rendas, o que fecha ainda mais os bolsos do povo.

O rei generoso (4), e do seu património, está disposto a pagar tudo o que tem e pode, mas não é o suficiente. O discurso do Padre António Vieira foi tão soberbo que conseguiu que todos pagassem, incluindo o clero, alguns de cujas fações seriam a partir deste momento seus inimigos mortais, e andariam atrás dele como os cães de caça na noite. Começa o discurso dizendo que Santo António, devia acudir invocado a estas cortes, fiel como português, Santo António de Lisboa; estadista como italiano, Santo António de Pádua. Mas é um discurso que merece um artigo inteiro dada as reflexões tão profundas e actuais que faz da natureza dos impostos… Destaco só um parágrafo muito sugestivo.

“A costela de que se havia de formar Eva, tirou-a Deus a Adão dormindo, e não acordado, para mostrar quão dificultosamente se tira aos homens, e com quanta suavidade se deve tirar ainda, o que é para seu proveito. Da criação e fábrica de Eva dependia não menos que a conservação e propagação do género humano; mas repugna tanto aos homens a deixar arrancar de si aquilo que se lhes tem convertido em carne e sangue, ainda que seja para bem de sua casta, que por isso traçou Deus tirar a costela a Adão, não acordado, senão dormindo: adormeceu-lhe os sentidos para lhe escusar o sentimento. Com tanta suavidade como isto, se há-de tirar aos homens o que é necessário para a sua conservação. Se é necessário para a conservação da pátria, tire-se a carne, tire-se o sangue, tirem-se os ossos, que assim é razão que seja; mas tire-se com tal modo, com tal indústria, com tal suavidade, que os homens não o sintam, nem quase o vejam.

Deus tirou a costela a Adão, mas ele não o viu, nem o sentiu; e se o soube, foi por revelação. Assim aconteceu aos bem governados vassalos do imperador Teodorico, dos quais por grande glória sua dizia ele: Sentimus auctas illationes, vos addita tributa nescitis: Eu sei que há tributos, porque vejo as minhas rendas acrescentadas; vós não sabeis se os há, porque não sentis as vossas diminuídas. Razão é que por todas as vias se acuda à conservação; mas, como somos compostos de carne e sangue, obre de tal maneira o racional, que tenha sempre respeito ao sensitivo. Tão ásperos podem ser os remédios que seja menos feia a morte que a saúde.

Que me importa a mim sarar do remédio, se hei-de morrer do tormento, Divina doutrina nos deixou Cristo desta moderação na sujeita matéria dos tributos. Mandou Cristo a São Pedro que pagasse o tributo a César, e disse-lhe que fosse pescar, e que na boca do primeiro peixe acharia uma moeda de prata com que pagasse (…) Notai. Da boca do peixe se tirou o tributo; porque é bem que, para o tributo se tire da boca. Mas esta diferença há entre os tributos suaves e os violentos: que os suaves tiram-se da boca do peixe; os violentos da boca do pescador. Hão-se-de tirar os tributos com tal traça, com tal indústria, com tal invenção: invenies statérem, que pareça o dinheiro achado, e não perdido; dado por mercê da ventura e não tirado à força da violência.”

A fama do padre António Vieira cruza as fronteiras. A rainha, Mª Luísa de Gusmão, uma mulher de grande inteligência e discrição entrega-lhe o seu filho, o infante Teodósio para que o eduque. É nomeado orador da Capela Real, e o monarca consulta-o habitualmente sobre as medidas de governo, e em assuntos de toda a índole. E não só ele. Conservamos como tesouro histórico uma carta que Pedro Vieira da Silva, secretário do Estado pergunta-lhe que tipo de guerra deve fazer a Castilha, se ofensiva ou defensiva.

Dados os primeiros êxitos militares, a embriaguez do triunfo faz com que muitos nobres e palacianos considerassem que se devia levar a guerra até às portas de Madrid, sem dar-se conta das dificuldades, riscos e a quase impossibilidade de manter uma guerra assim. O juízo do Padre António Vieira é diáfano, essa seria a perda da recém-conquistada liberdade de Portugal. Põe como exemplo as estratégias dos Países Baixos, quem começavam a ser os novos senhores do mundo, depois de fazerem-se fortes e blindar o seu país e desgastar o poderio de Espanha. No seu estilo tão vivaz encontramos acertados conselhos, e foi tal o efeito desta carta, que como os raios do sol, desvaneceram as nevoas da fantasia que podiam evocar de novo uma catástrofe como a de Alcácer Quibir em que pereceram o rei e grande parte da nobreza, o país ficou arruinado e perdeu a sua independência.

“Enquanto o reino não está fortificado de maneira que possa resistir a qualquer invasão do inimigo, toda a outra empresa é arriscada, por não dizer temerária, e nas matérias em que não vai menos que a monarquia sempre se deve seguir a parte mais segura. Na guerra ofensiva, tantas vezes pode o inimigo ser vencido e desbaratado, quantos foram os lugares que se puseram em defensa. Na ofensiva pode-se perder tudo em um dia; na defensiva, ainda que se perca, será pouco em muitos anos, porque nenhuma cidade tem Portugal que, se estiver fortificada e prevenida, não custe ao inimigo um exército e uma campanha, ficando impossibilitado para fazer outra em muitos dias.”

A influencia sobre o rei aumenta cada vez mais, e com ela, a desconfiança dos eclesiásticos, e ainda dos seus irmãos jesuítas, pois a sua independência de caracter faz que o orador e agora diplomata não seja um boneco nas suas mãos, e como servidor do monarca e da sua missão histórica não desejara quiçá ser um fio mais da teia de aranha que a Companhia ia tecendo na Europa e no mundo.

D. João IV encomenda-lhe que redacte um extenso memorial com toda a política de fomento para o país, e este põe mão à obra com todo o ardor que o caracterizava. No dossier que entrega estão todos os lineamentos, mais do que modernos para aquela época, de uma nova economia, industria, comércio, etc. Emulando as nações mais avançadas, quer que uma “burguesia de elite” vá substituindo cada vez mais a cediça nobreza e a um clero petrificado no seu imobilismo. Os bens móveis dos comerciantes devem ser imunes (5) ao fisco, o país devia fundar o seu banco próprio – como já existia em Amsterdão – para não depender dos alheios, devem-se criar duas companhias mercantis com extensos poderes, uma para a India e outra para o Brasil:

os barcos que fossem mais além do Equador deviam ser de 400 toneladas, os que não, irem nas mais leves caravelas (o tráfico com São Tomé, Cabo Verde, os Acores, Madeira, Maranhão, a Costa de Africa e a pesca do bacalhau); que se abrisse, sem nenhum impedimento, o comércio com os estrangeiros de nações neutrais ou amigas; outorgar títulos de nobreza aos comerciantes com operações de maior envergadura e também alguns retalhistas que prestassem assinalados serviços à nação arriscando mercadorias e lucros; que desaparecessem as distinções entre cristãos velhos e cristãos novos por ser contrário aos Evangelhos e à paz e prosperidade do reino (isto somente se conseguiria em Portugal com a visão moderna e a mão de ferro do Marquês de Pombal) e que a Inquisição se moderasse e não pudesse confiscar as posses das suas victimas, pois a sua política de terror truncava toda a boa iniciativa.

Queria, diz-nos Mário Domingues, definitivamente, paliar o erro que havia suposto a expulsão dos judeus, e atrair a Portugal os capitais que fugiam por medo de serem confiscados por uma denúncia da Inquisição, já que a esta e aos dominicanos as acusações (6) de heresia rendiam-lhe abundantes benefícios. Queria criar um clima de justiça e confiança, isto é, fazer prevalecer o direito das gentes, que é o único que pode levantar de um modo são uma sociedade e inspirar os valores civilizatórios.

Não sabemos se o efeito deste memorial, dos seus discursos ou das suas crenças proféticas num Quinto Império - este seria o Português, depois do Assírio, do Persa, do Grego e do Romano, - ou se porque a sua influência no rei e ao mesmo tempo a desvinculação politica da Ordem, gerava a esta demasiados problemas (por exemplo, em relação com as outras ordens religiosas e poderes, os três estados), finalmente recebe um mandato da Companhia de Jesus, em 1644 para regressar ao Brasil. O Padre António Vieira, com muitas hábeis e acertadas desculpas não obedeceu, e o próprio rei interveio, dizendo que a sua colaboração era-lhe mais do que necessária.

A Companhia não se retraiu nem perante o poder régio e ameaçou expulsá-lo. O monarca disse que se isto sucedia, ofereci-lhe a mitra do bispo, e assim manteria o seu conselheiro junto dele. Mas o sentido de obediência total e o vínculo com a Ordem eram demasiado poderosos, e as ambições políticas estavam submetidas aos imperativos da sua consciência. Deste modo, respondeu ao soberano:

“Que não tinha Sua Majestade tantas mitras em toda a sua monarquia pelas quais ele houvesse de trocar a pobre roupeta da Companhia de Jesus; e que se chegasse a ser tão grande a sua desgraça que a Companhia o despedisse, da parte de fora das suas portas se não apartaria jamais, perseverando em pedir ser outra vez admitido nela, senão para religioso, ao menos para servo dos que o eram. Que se nem para servo o quisessem admitir, ali estaria sem mais alimento que o seu pranto, até acabar a vida junto daquelas amadas portas dentro das quais lhe tinha ficado a alma toda.”

A Ordem de Jesus finalmente abrandou a sua mão de ferro e o “imperador da língua portuguesa” continuou as suas prédicas fustigando os erros da sociedade e tencionando fazer que triunfassem estas ideias salvadoras e de paz; fosse qual fosse o seu posto, defenderia sempre os perseguidos e indefesos.
No ano de 1646 o rei decidiu usá-lo como arma diplomática, o que talvez não fosse o melhor dom do Padre António Vieira, dada a sua exaltação, sinceridade e franqueza.

Viaja para França onde não consegue nada de concreto do governo francês, e depois para a Holanda onde se entrevista com os descendentes de antigos judeus (os expulsos de Portugal por D. Manuel I), sondando a possibilidade de que regressem de novo a esta terra, e com eles todas as suas actividades mercantis; e tenta afiançar a paz entre ambos os países. Regressa a Lisboa no verão desse mesmo ano, 1646, e volta de novo à Holanda com a missão de comprar cereais e navios para a frota portuguesa; e para conseguir que Portugal seja incluído na cimeira da Paz das nações daquele momento, a Paz de Vestfália, o que significaria ser reconhecido politicamente como país, o que ainda não tinha sido conseguido. Nesta segunda viagem a França o barco é arrastado por um temporal e vê-se obrigado a desembarcar em Dover.

Aproveita a tão boa oportunidade para dirigir-se a Londres e conhecer esta cidade inteirando-se como correm os negócios diplomáticos. Já em Paris, tem uma entrevista pela primeira vez com o Cardeal Mazarino, a quem propõe o casamento entre o príncipe herdeiro, Teodósio e a filha do duque de Orleães, querendo selar assim uma aliança bipartida. Tal é a necessidade de ser protegido por um país poderoso, que o próprio rei estava disposto a renunciar à coroa e a retirar-se para o Brasil, ou para a ilha Terceira, nos Açores, ainda que o Padre António Vieira negava-se totalmente a dita abdicação. E deveu, o nosso diplomata, convencer o cardeal Mazarino da inutilidade desta cláusula já que este último escreveu pouco depois ao ministro de França em Lisboa a seguinte carta:

“Se o rei de Portugal, após oito anos, tendo o amor dos povos, como natural do país e seu legítimo rei, temia não poder sustentar-se contra as forças de Espanha depois de feita entre as Coroas (os vários soberanos da Europa) uma paz em que não fosse compreendido, embora a França se tivesse reservado a faculdade de o auxiliar e o fizesse poderosamente por maioria de razão outro príncipe que não tivesse no país as mesmas vantagens, nem o amor dos povos, nem o conhecimento dos seus costumes e do estado do reino, nem mais segurança que o rei de Portugal de obter desta Coroa socorros adequados às necessidades, não quereria meter-se em negócio de tanto peso que fosse incerto, nem correr o risco da mais desgraçada condição do mundo, que é a de ter perdido uma Coroa.”

Na viagem à Holanda, quer negociar a compra de todas as praças conquistadas pelos holandeses, e entregar Pernambuco. Resulta que na Paz de Vestfália Holanda e Espanha assinaram o cessar das hostilidades, o que significa que são aliados contra Portugal: Holanda atacaria as colonias do Ultramar e Espanha podia lançar toda a sua força contra Lisboa. O Padre António Vieira quer pagar a paz cedendo Pernambuco aos holandeses, sem saber que o tempo vai cada vez mais a favor de Portugal, que os holandeses cedem terreno e perdem a esperança enquanto os portugueses são mais e mais aguerridos e heroicos.

Desconhecedor da realidade fáctica e psicológica no Brasil, e a instâncias do rei e do seu Conselho, que não querem de nenhum modo ceder Pernambuco, redacta um memorial “tão bem deduzido e argumentado, que o soberano lhe chamou papel forte, exprimindo por estas duas palavras a sua admiração pela férrea lógica do jesuíta”, apoiada desgraçadamente, neste momento no vazio da ignorância dos factos.
No ano 1649 funda-se finalmente a Companhia de Comércio com o Brasil, auspiciada pelo Padre António Vieira (não com a amplitude de objectivos com que ele a tinha desenhado), e que tanto ajudaria a que os portugueses vencessem em Pernambuco vários anos depois.

Neste mesmo ano, um correligionário jesuíta denuncia-o ao Santo Oficio, mas a mesma é mantida em silêncio, sem ser recusada, esperando o momento em que a protecção do rei não fosse o seu escudo.
Depois da aliança de holandeses e castelhanos, temia-se que estes atacassem em qualquer momento, e o lugar mas fácil e directo para fazê-lo era a região do Alentejo; esperava-se uma força muito maior que as que até esse momento tinham sofrido e todos pensavam que uma manobra diplomática seria o único modo de paliar o desastre. O rei D. João IV recorre ao seu amigo e conselheiro, o Padre António Vieira, pois “O pregador jesuíta percebia de tudo: de impostos, de petrechos militares, de tipos de navios, de táctica de guerra, de manobras diplomáticas.

O rei confiava nele, e ele esforçava-se por merecer essa confiança.” (7) A proposta era um enlace matrimonial do herdeiro de Portugal, Teodósio, com a princesa Maria de Áustria, filha do rei espanhol Felipe IV e herdeira do seu Império. Isto significaria a união, não a submissão de Portugal, num reino ibérico comum, com capital comum em Lisboa, por que o príncipe varão era português. Que pouco conhecimento da psicologia espanhola! E dirigiu-se a Roma com tais negociações, mas ao mesmo tempo com a missão secreta de promover revoltas em Nápoles para que a força militar espanhola tivesse que dividir-se em duas frentes. O embaixador espanhol pouco caso fez da proposta, menos ainda ouvida de quem era famoso por mover motins e pactos contra a coroa de Espanha. A reunião com os conjurados de Nápoles, não sabemos por quê, não se levou a cabo, porém estes protestaram ao não receber a visita esperada, e o segredo da sua vinda a Itália deixou de o ser.

A vida do padre jesuíta pendeu de um fio, pois sabendo isto, o embaixador espanhol deu ordem aos sicários de que o matassem e este salvou-se por pouco, ao ser posto ao corrente e fugindo ipso facto de Roma. Com o que no mês de Junho de 1649 regressava com as mãos vazias e o peso da derrota nas suas costas. Demasiados fracassos diplomáticos seguidos deveram ter quebrado a confiança do rei no seu conselheiro, pelo menos nos assuntos tão mundanos e escorregadios. O seu poder na corte e a sua influência política estavam-se eclipsando, era preciso que a sua estrela brilhasse de novo no outro lado do mar, na sua terra amada do Brasil.

No ano 1652 parte até à ilha de Maranhão, Brasil, por uma ordem irrevocável dos jesuítas, que queriam afastá-lo da política portuguesa. Como, diferente da vez anterior, o rei, talvez porque os jesuítas habilmente adiantaram a hora de saída da embarcação, não pode – ou não quis - enviar um emissário para deter o navio e impor a sua autoridade régia fazendo que regressasse; o nosso idealista assumiu contente o seu novo destino. Se não podia fazer o bem à nação portuguesa politicamente, o faria evangelizando e protegendo os inocentes da brutal cobiça dos colonos. “Aceitava o desterro com gratidão” e faria “do púlpito o seu melhor posto de combate, no ataque directo ao erro e à perversidade.” (8)

Os indígenas eram considerados animais de carga e tratados como escravos, os jesuítas atraiam-nos desde a selva para convertê-los à fé cristã e educa-los na civilização, mas os colonos levava-os e fazia-os trabalhar até que caiam exaustos. Às mulheres arrancavam-nas das aldeias, separando-as das suas famílias e violentavam-nas a prazer.

A moral estava relaxada, as leis que os governadores (9) deviam respeitar e que chegavam da metrópole eram papel molhado, pois muitas vezes estes tinham ainda a desfaçatez de pensar que se o rei lhes tinha outorgado esse “presente”, o de estar ali, em relação aos serviços prestados, era para extrair o máximo lucro num tempo mínimo e para isso deviam ser aliados e títeres dos colonos. Três anos tinham nas suas funções para fazerem-se ricos e se amancebavam - moralmente falando – com os caciques, os donos das máquinas de fazer açúcar e os “caçadores de homens”, para consegui-lo. O que poderia ser chamado direito internacional da época protegia, com sentido humanitário os indígenas e abolia a escravatura de acordo com a lei de Burgos do ano 1512 e a bula papal de Paulo III em 1537 (e sob pena de excomunhão) numerosas clausulas do (10) direito privado português iam na mesma direcção, como a lei portuguesa de 1572, inspirada na espanhola que reconhecia a sua liberdade.

O padre António Vieira chega com a consigna de organizar as missões no interior da selva, para mostrar aos nativos a religião do Amor e da Justiça, de um Deus que envia o seu Filho para redimir a todos os homens da sua culpa original. Pasmados e desfeitos ficariam os inocentes seduzidos por estas doces palavras e o exemplo viril dos jesuítas quando os cercassem nas aldeias como gado, e como tais os levavam como escravos os mesmos cristãos que lhes roubavam para sempre a sua liberdade e felicidade. Não pensariam que os tinham enganado miseravelmente?

As valentes cartas que o Padre António Vieira enviou ao rei são um retrato da face mais obscura da natureza humana, e um grito de ajuda para que ponha remédio a estes despropósitos. Numa destas cartas, escreve, por exemplo:

“São os índios que fazem as canoas, as toldam, as calafetam, os que velejam, os que remam, os que as levam às costas e os que cansados de remar as noites e os dias inteiros, vão buscar o que hão-de comer eles e os portugueses; os que lhes fazem as casas, e, que se há-de marchar por terra, os que lhes levam as cargas e ainda as armas às costas”

Claro, estas cartas provocaram o ódio dos colonos tanto ao Padre António Vieira como a todos os jesuítas que estavam na sua orbita, acabando por explorar e perigar de novo a vida dele próprio. Salvou-o a sua eloquência e chegando a um frágil acordo em que se decidiu que deviam ser nomeados dois procuradores para decidir que indígenas tinham direito à liberdade e os quais não. Mário Domingues descreve-nos o seu incansável empenho:

“A actividade do Padre António Vieira era prodigiosa. Deslocava-se do Maranhão ao Pará, de Pará à Baía, pregando, evangelizando. Compôs ele próprio um catecismo pelo qual ensinava os Índios e até os Portugueses. Levava conforto aos presos nas cadeias. Despojava-se de tudo quanto tinha para socorrer a miséria, onde quer que a descobrisse, pouco se importando que o mísero fosse branco, negro ou vermelho. Um hospital, que se fundou por sua iniciativa, recebeu dele o único bem de que disponha – a sua própria cama. Até a sua parca alimentação repartia. E ainda lhe sobrava tempo para subir ao púlpito e fulminar o vício, o luxo e a vaidade, e para, nas quietas horas de vigília, ir escrevendo o seu livro “Esperanças de Portugal.”

Os jesuítas inimigos da sua política na Europa apoiam-no em toda a sua tarefa de evangelizar, mas chega um momento que se dá conta que não pode lutar contra tal soma de má vontade, intrigas, calúnias e resistências a fazer o que era de lei e humanitário e racional ao mesmo tempo. Como nos disse certeiramente Mário Domingues, e provoca horror pensar que isto é assim, e que não é muito diferente do que vive o mundo de hoje com a globalização:

“É que Vieira, atribuindo tudo à maldade dos homens, não se apercebia de que estava lutando contra os fundamentos da própria estrutura económica do Brasil, fundamentos iníquos sobre os quais já se ia edificando o período histérico do feudalismo rural, que daria à nação nascente uma ossatura política e social destinada a durar o melhor de dois séculos. A formação do Brasil precisava de escravos, e se, bastante devido à oposição de Vieira, não perdurou por longo prazo a exploração do Índio, que em grande parte se sumiu nos confins da selva, outra raça já começava a chegar para o substituir - a raça negra, importada cada vez em maior escala, a qual nem sequer tinha possibilidade de escapar-se em massa para o sertão que lhe era desconhecido e hostil.”

Sabendo que tinha chegado a um ponto em que nada pode auxiliar se o rei não intervém, e que devem ser leis muito especificas as que transfiram o poder e as forças sociais sobre os indígenas desde os colonos aos eclesiásticos, empreende uma viagem secreta a Lisboa. Vários dias antes profere o discurso mais famoso da sua vida e talvez também o mais belo, o que todos os estudantes portugueses estudam e analisam, como modelo retórico e de escrita. Na catedral de S. Luís, a 17 de Junho de 1654 predica o “Sermão de Santo António aos peixes”.

Não quer falar do santo, senão, como ele, falar aos peixes, pois “havia muitos dias que tinha metido no pensamento que, nas festas dos santos, é melhor pregar como eles, que pregar deles”. Neste caso não fala a peixes, claro está, mas já que a natureza humana está como ausente, e o bruto toma conta e conduz o ser racional, faz uma alegoria em que compara os peixes com os que o escutam. De forma subtil e irónica desfilam os caracteres moralmente amorfos e os defeitos que são comparados ao peixe que quer voar demasiado, o peixe torpedo que dá descargas elétricas ou o polvo especializado na arte de camuflagem para melhor atacar a sua presa.

“Pudera-se fazer problema: onde há mais pescadores e mais modos e traças de pescar, se no mar ou na terra? E é certo que na terra. Não quero discorrer por eles, ainda que fora grande consolação para os peixes; baste fazer a comparação com a cana, pois é o instrumento do nosso caso. No mar pescam as canas, na terra pescam as varas (e tanta sorte de varas), pescam as ginetas, pescam as bengalas, (11) pescam os bastões e até os ceptros pescam, e pescam mais que todos, porque pescam cidades e reinos inteiros. Pois é possível que, pescando os homens coisa de tanto peso, lhes não trema a mão e o braço? Se eu pregara aos homens e tivera a língua de Santo António, eu os fizera tremer.”

 E disse que não são só os peixes que se comem entre si, que os homens fazem o mesmo e não menos. E não somente os indígenas antropófagos no interior da selva:

“Olhai, peixes, lá do mar para a terra. Não, não: não é isso que vos digo. Vós virais os olhos para os matos e para o sertão? Para cá, para cá; para a cidade é que haveis de olhar. Cuidais que só os tapuías se comem uns aos outros, muito maior açougue é o de cá, muito mais se comem os brancos. Vêdes vós todo aquele bolir, vêdes todo aquele andar, vêdes aquele concorrer as praças e cruzar as ruas; vêdes aquele subir e descer as calçadas, vêdes aquele entrar e sair sem quietação nem sossego? Pois tudo aquilo é andarem buscando os homens como hão-de comer, e como se hão-de comer.”

E não só comer os vivos, nos mortos também há talhada:

“Morreu algum deles, vereis logo tantos sobre o miserável a despedaçá-lo e comê-lo. Comem-no os herdeiros, comem-no os testamenteiros, comem-no os legatários, comem-no os credores; comem-no os oficiais dos órfãos, e os dos defuntos e ausentes; come-o o médico, que o curou ou ajudou a morrer, come-o o sangrador que lhe tirou o sangue, come-o a mesma mulher, que de má vontade lhe dá para a mortalha o lençol mais velho da casa come-o o que lhe abre a cova, o que lhe tange os sinos e os que, cantando, o levam a enterrar; enfim, ainda o pobre defunto o não comeu a terra, e já o tem comido toda a terra.”

Embarca, como dissemos, o Padre António Vieira em segredo, rumo a Lisboa. E outra vez espreitam-no as tempestades, os corsários, o barco fica desfeito e os piratas roubam-lhe todos os seus pertences e os deixam na ilha Graciosa, tão despidos como chegaram ao mundo.

A reputação do orador faz que ele possa conseguir roupa e alimentos para os seus 40 companheiros de misérias, passou a Ilha Terceira e desta à de S. Miguel onde se entreteve evangelizando e dando sermões, entre eles, um, o de Santa Teresa onde narra com grande realismo as suas aventuras e desventuras. Por fim chega a Lisboa, mas o rei não está ali, senão muito enfermo em Salvaterra, e, mais um contratempo, lá se dirige o padre, e estas duas almas gémeas, tal para qual, reencontram-se. O rei recebe-o com grandes demonstrações de afecto e pede-lhe que fique junto a ele, mas o jesuíta diz que não pode, que desampararia assim a todos os seus índios.

O rei escuta-o e atende as suas petições. No ano de 1655 aprova uma nova lei para o estado de Maranhão:

proíbe-se a guerra ofensiva contra os indígenas salvo autorização expressa do rei, pois este tipo de guerras era a desculpa perfeita para organizar a “caça ao homem” e fazer escravos. A guerra somente pode ser defensiva, introduzindo-se o conceito de guerra justa. Ou seja, que já nem sequer é lícita a guerra “santa” para, ou com a desculpa de salvar as almas dos infiéis e pagãos.

As aldeias dos Índios ficam sob a jurisdição dos missionários jesuítas e constituiu-se a Junta das Missões na qual o Padre António Vieira é o chefe das mesmas (mas não o chefe da Junta, presidida pelo bispo do Japão, D. André Fernandes, e pelo governador do Estado de Maranhão, André Vidal de Negreiros, herói da guerra contra os holandeses). E dele depende o determinar quando e como entrar na floresta para evangelizar novos indígenas, terminando assim com esta fábrica de escravos.

No entanto, assim é a história e assim reinam as alienações em cada época, não se opôs inicialmente à escravatura dos negros procedentes de Angola, “gente por natureza serviçal, dura e capaz de todo trabalho”, disse-o; como base da economia do Brasil. Ainda que sim lutou destemidamente para que fossem tratados da maneira mais digna possível. Somente vários anos depois, sensibilizado por esta brutalidade, daria uma serie de discursos em relação com o culto do Rosário, e onde abordou com misericórdia e indignação o drama da nova escravatura dos negros. Estas prédicas foram conhecidas com o nome de Rosa Mística.

Regressando ao tempo do encontro do rei e do padre António Vieira, ainda que o primeiro logo teve uma leve melhoria da sua enfermidade, devia saber, no íntimo, que pouco lhe restava de vida (de facto morreu um ano depois, a 06 de Novembro de 1656) e queria reter junto de si o seu amigo, quiçá inclusive como confessor. O Padre António Vieira tampouco deveu ignorar que era a última vez que via o seu rei, mas agora estava absorvido por outra missão, e o dever empurrava-o de novo para o Ultramar. Perante a insistência do rei, respondeu-lhe:

“Que dirão os que alentei e levei ao Maranhão, vendo que os meti no trabalho e que me recolho ao descanso? Que dirão aqueles a quem fiz trocar a Pátria pelas brenhas, se os deixo nas brenhas e fico na Pátria? Que dirão os Índios, que me têm por escudo, a quem disse que vinha buscar o seu remédio, sabendo que me fico na corte e lhes falto à palavra dada de que muito cedo estaria com eles?”

 Em 17 de Maio de 1655 chega de novo a Maranhão e começa um trabalho de cinco anos extremamente calmo e frutífero, pois trabalha lado a lado com o já mencionado André Vidal Negreiros, herói de guerra com vontade suficiente para sujeitar os colonos às leis, quisessem ou não. Depois, quando já no Brasil inteira-se da morte do soberano, escreverá um muito belo panegírico.

Com treze sacerdotes e sete irmãos começa um trabalho magnífico de evangelização entre os índios topinambares, catengos e garajus, aprendendo os seus idiomas, curando as suas feridas e protegendo-os da exploração selvagem dos outros brancos.

Naquele tempo, um grupo de soldados e colonos, seduzidos pela existência de ouro na serra Pacajá, fizeram uma expedição que se converteu num desastre. Voltaram exaustos, enfermos e famintos vários meses depois sem terem conseguido nada, e deixando vários dos seus companheiros, os menos resistentes, morrerem abandonados. O Padre António Vieira dedicou-lhes um dos seus mais belos discursos, alentando contra a miragem do ouro, e detalhando as dolências da alma com que infecta a quem o possuiu: “O ouro é agente de todas as tentações sobretudo das do luxo e da ostentação, que dissimulam as mais abomináveis misérias morais” (12)

Em 1658 o Padre António Vieira evita com a sua oratória que os nheengaíbas se aliem com os holandeses, e pouco depois continua evangelizando na ilha de Maranhão, e em 1660 reorganiza a missão da serra de Ibiapaba para regressar incansável em direcção ao Pará, onde também o esperavam as missões.

Em 1661 estala a revolta dos colonos na cidade de S. Luís de Maranhão. Fartos das políticas dos jesuítas que os impediam de tratar os negros e os nativos a seu antojo, assaltam o Colégio da Companhia, em fatídica conivência com o governador civil, o comandante e o mesmo procurador-geral nomeado por lei para proteger os índios. O Padre António Vieira tratou de interceder, desde onde estava, em Belém, mas mantendo-se firme com respeito ao trato digno aos nativos, o que provocou a rebelião dos brancos da cidade e quase o lincharam. Depois de várias vicissitudes embarcaram-no junto com outros jesuítas em direcção a Lisboa, onde chegou no mês de novembro desse mesmo ano, exausto de tantas viagens e desgostos, e outra vez victima das tempestades.

Em Portugal, e após a morte do rei D. João IV, Luísa de Gusmão é regente, pois o rei Afonso VI, seu filho, ainda não governa e o infante D. Pedro é ainda menor de idade. Reina grande agitação na corte, porque na realidade há duas cortes enfrentadas, a dela e uma de adventícios em redor de Afonso, que era meio demente, e um títere nas mãos dos seus bajuladores e companheiros de orgias e jogos.

A Inquisição prepara um ataque definitivo contra o sacerdote jesuíta, e a acusação principal, o “corpo do delito” é o manuscrito de um livro enviado ao seu amigo, o bispo do Japão, André Fernandes, no qual afirma a ressurreição de D. João IV e com ela o reinado final do Quinto Império.

Não sabemos a que se refere esta “ressurreição”, é uma “reencarnação” do mesmo?

É o seu poder espiritual transferido, como na cerimónia do Ka de Horus no Egipto, algo assim como o espirito da realeza mesmo encarnada?

É um regresso em espirito, à maneira de um Cristo, para seguir guiando o seu povo, como o fez o mestre Galileu aos seus discípulos, livre agora das debilidades e limitações da carne?

Num momento em que quase se declara a guerra civil entre os partidários da rainha prudente e do seu filho, Mª Luisa Gusmão renuncia. Sendo ela a protectora do nosso herói, a Inquisição lança-se sobre ele, processa-o, encarceram-no no Colégio da Companhia em Coimbra onde passou grande parte do ano 1663 escrevendo uma obra certamente curiosa, A História do Futuro, baseando-se nas profecias bíblicas, nas de Bandarra e do santoral ainda castelhano, é uma espécie de Bíblia do futuro protagonismo dos portugueses, destinados a serem os reis do mundo inteiro como os verdadeiros guardiães da fé católica, numa nova Idade de Ouro.

Transcrevemos do artigo El padre António Vieira, diplomata, político e profeta, de Julieta de Oliveira Lo Greco a seguinte explicação do mesmo:

“Vieira começa por falar da curiosidade que sempre, ao longo da História, levou o homem a sondar o futuro e convida os leitores a lerem a obra para poderem saciar tal desejo. Será assim uma História, escrita no presente, onde se falará não de impérios e reinos e vitórias passadas, mas que ainda hão-de vir: de impérios não já fundados, senão que se hão-de fundar; de vitórias não já vencidas, mas que se hão-de vencer, de nações não já domadas e rendidas, senão que se hão-de render e domar.”

Dirige-se o autor, em seguida, aos Portugueses, a quem esta História interessará especialmente, porque nela ocuparão uma posição privilegiada, recordando-lhes a idade de ouro das aventuras e das façanhas em novos mares e em novas terras. Se é útil saber a história do passado, ainda é mais importante poder conhecer o que o futuro revelará e o próprio Deus deu a conhecer em tantas ocasiões.

Vieira recorda então a Batalha de Ourique e a victória dos Portugueses contra um inimigo muito mais numeroso. Os sinais do céu tinham encorajado D. Afonso Henriques: antes do nascimento de Portugal apareceu o mesmo Cristo a El-Rei (que ainda o não era) D. Afonso Henriques, e lhe revelou como era servido de o fazer rei, e a Portugal reino; do mesmo modo, a Restauração tinha sido pré-anunciada pela boca de um sapateiro de Trancoso. Para Vieira, Deus revela aos homens os seus intentos para convidá-los a colaborar na sua realização. Por isso é que as profecias têm eficácia. Quem recebe a revelação consegue com a sua fé dar força aos outros e vencer os obstáculos que se oponham à sua realização: Lerão os portugueses, e todos os que lhe quiserem ser companheiros, este prodigioso livro do futuro, e com ele embaraçado numa mão e a espada na outra, posta toda a confiança em Deus e em sua palavra, que conquista haverá que não empreendam?

Finalmente comparece ante a Inquisição e é encarcerado. Pede autorização para escrever a sua defesa por escrito, no seu opusculo “Defesa do livro titulado Quinto Império”. Depois de vários interrogatórios em que deveu defender-se como um leão – não esqueçamos que era Mestre em Teologia, em Retórica e em Dialéctica, e o mais importante de tudo, não tinha medo a nada quando a causa era justa, como havia provado em todos os momento da sua vida – é condenado a 23 de dezembro de 1667 ao silêncio, proibindo-o de escrever e predicar; e tendo que renegar de todos os princípios e afirmações proféticas contidas nas suas obras, a validez profética de Bandara, a existência futura do Quinto Império e a ressurreição do rei D. João IV.

Quando Afonso VI, o rei incapaz, é afastado do poder numa hábil manobra politica que deixa como rei o seu irmão D. Pedro II, os olhos do novo monarca voltam-se, benévolos e protectores para o Padre António Vieira. Benévolos e protectores, sim, ainda que um pouco desconfiados, pois o novo governante tem por confessor um dominicano que o deve ter prevenido da suma inteligência do jesuíta, unidos a intrigas e uma audácia que ele como rei, não devia descuidar. Em todo o caso, já não está atado de pés e mãos, nem com a espada de Dâmocles da Inquisição pendente de um fio sobre ele. Tem liberdade suficiente para ir a Roma e reclamar uma condenação que considera injusta.

Em 15 de Agosto de 1669 parte para Roma com o objectivo de lavar a sua honra e nome e para despojar-se legalmente da mordaça que a inquisição lhe colocara na sua boca e nas suas mãos. Quer também lavar a sua consciência pelo facto de o terem obrigado a renegar, sob tortura ou ante a ameaça de reclusão em vida ou ainda sob pena de morte. Com temível inimigo se enfrentava a Inquisição, não deixaria de lutar por aquilo que considerava válido e justo até ao último alento. E não vai lutar somente por si próprio, senão para arrebatar poder à própria Inquisição, ia ser ele quem atasse as suas mãos a esta fábrica de medos e fantasmagorias tão hábeis em torturar.

E tudo através da questão chave da divisão de cristãos novos e velhos, obstáculo que empequenecia todos os actos nobres e generosos desta nação restaurada politicamente, mas que vivia no seio da Idade Média no religioso. Vai atacar, e na própria Roma, os seus procedimentos: eliminar a crueldade dos processos, fazer que os testemunhos de acusação sejam públicos e não ocultos (a mão que atira a pedra e depois se esconde), que já não possam mais confiscar os bens dos mercadores inculpados (antes ainda da sentença de condenação). Num discurso diz que todos os países católicos veem como a nossa fé tinha degenerado em loucura. E noutro texto tem a audácia de invocar o mesmo nome dos reis já falecidos: “Diziam o rei e a rainha que no céu estão, que depois de recuperado e restituído o reino somente faltava uma fortaleza que conquistar, que era a do Rossio (onde se encontrava a Inquisição) onde se encontravam aquartelados tantos traidores como naquele tempo se experimentou e hoje se experimenta”

A sua estância em Roma é uma marcha triunfal, pois ali onde vai, todos ficam rendidos aos seus pés, ou melhor, ante a sua boca de ouro, ou melhor ainda, ante as cadeias de ouro da sua retórica e bondade, como as de um Hercules galo.

Depois de dar vários sermões aos portugueses na Igreja de Santo António, em Roma, o próprio superior dos jesuítas, o General da Ordem, seu admirador e amigo, primeiro pede-lhe e em seguida exige-lhe (perante a sua recusa) que dê um sermão em italiano (!!!) e logo, imagino que em latim, no próprio Colégio de Cardiais. O predicador do Papa quer que o Pontífice o nomeie seu sucessor no cargo.

A cultíssima rainha, discípula de Descartes quer convertê-lo no seu próprio orador, e celebra no seu palácio em Roma um torneio filosófico-retórico sobre “qual dos dois filósofos tinha razão, se Heraclito que por tudo chorava, ou Demócrito que de tudo se ria”. Um jesuíta, seu colega, portanto, defendeu o riso de Demócrito e ele as lágrimas de Heráclito, mais em consonância com a saudade portuguesa, o seu grande espirito de ajuda ao oprimido e ao próprio signo Peixes que rege a sua natureza, segundo os astrólogos.
Destacamos algumas linhas do dito discurso, um pouco alterado pois foi pronunciado em italiano, depois traduzido em espanhol, depois em português:

“Entrando, pois, na questão, se o mundo é mais digno de riso ou de pranto, e se à vista do mesmo mundo tem mais razão quem ri, como ria Demócrito, ou quem chora, como chorava Heráclito, eu, para defender, como sou obrigado, a parte do pranto, confessarei uma coisa e direi outra. Confesso que a primeira propriedade do racional é o risível, e digo que a maior impropriedade da razão é o riso. O riso é o sinal do racional, o pranto é o uso da razão. Para confirmação desta, que julgo evidência, não quero mais prova que o mesmo mundo, nem menor prova que o mundo todo. Quem conhece verdadeiramente o mundo, precisamente há-de chorar, e quem ri, ou não chora, não o conhece.

Que é este mundo, senão um mapa universal de misérias, de trabalhos, de perigos, de desgraças, de mortes? E à vista de um teatro imenso, tão trágico, tão funesto, tão lamentável, aonde cada reino, cada cidade e cada casa continuamente mudam a cena, aonde cada sol que nasce é um cometa, cada dia que passa um estrago, cada hora e cada instante mil infortúnios, que homem haverá - se acaso é homem - que não chore? Se não chora, mostra que não é racional; e se ri, mostra que também são risíveis as feras.
Mas, se Demócrito era um homem tão grande entre os homens, e um filósofo tão sábio, e se não só via este mundo, mas tantos mundos, como ria? Poderá dizer-se que ele ria, não deste nosso mundo, mas daqueles seus mundos.

E com razão, porque a matéria de que eram compostos os seus mundos imaginados, toda era de riso. É certo, porém, que ele ria neste mundo, e que se ria deste mundo. Como, pois, se ria ou podia rir-se Demócrito do mesmo mundo e das mesmas coisas que via e chorava Heráclito?

A mim, senhores, me parece que Demócrito não ria, mas que Demócrito e Heráclito ambos choravam, cada um a seu modo.

Que Demócrito não risse eu o provo: Demócrito ria sempre; logo nunca ria. A consequência parece difícil, e é evidente. O riso, como dizem todos os filósofos, nasce da novidade e da admiração, e cessando a novidade, ou a admiração, cessa também o riso; e como Demócrito se ria dos ordinários desconcertos do mundo, e o que é ordinário, e se vê sempre, não pode causar admiração nem novidade, segue-se que nunca ria rindo sempre, pois não havia matéria que lhe motivasse o riso.” (13)

Em 1674 o Papa Clemente X escreve um documento pontifício (um “breve”) pelo qual suspende os autos de fé e as condenações de factos ainda não julgados. Noutro exime o Padre António Vieira “perpetuamente da jurisdição inquisitorial” depois de anular o processo ao qual fora submetido. Fica liberado de toda a culpa e protegido perpetuamente. Poderia falar e escrever o que quisesse do que quisesse sem que a Inquisição pudesse persegui-lo ou obriga-lo a retractar-se. Dependia somente das regras da sua Ordem.

O golpe sobre a Inquisição em Portugal foi tal, que esta, por decisão de Roma manteve-se suspensa durante sete anos, e Inocêncio XI, o Papa que sucedeu a Clemente X “ameaçou-a de a suspender definitivamente, se no prazo de dez dias não lhe remetesse os processos dos cristãos-novos para os rever.” (14)

Depois de mais de cinco anos de estância em Roma, volta a Lisboa, passando por França, no ano de 1675. O recebimento da corte e do rei é frio, indiferente, apesar de ser uma das personagens portuguesas mais destacadas internacionalmente. Volta à sua cela no Mosteiro, com 70 anos, e é afectado por febres incessantes que ameaçam a sua vida. Os médicos aconselham-no que regresse ao Brasil, e assim o faz, partindo até à sua terra amada a 27 de janeiro de 1681, depois de editar o primeiro volume dos seus sermões dois anos antes.

Acompanha-o o seu amigo José Soares, que nunca o abandonou desde que ambos foram expulsos do Brasil e que vai estar sempre junto a ele até ao momento da sua morte: “É a amizade mais fiel que Vieira encontra neste Mundo de perfídias e ciladas. Modesto, discreto e dedicado, segue-o sem rumor nem estorvo, como uma sombra benéfica.” (15) Tem 74 anos e está exausto de tantos trabalhos e com a saúde sempre confrontando a morte e sempre sobrevivendo. Dedica-se à contemplação, a escrever e ordenar os seus sermões, na propriedade de Tanque, nos arredores da cidade da Baía.

 Na sua ausência, organizam uma campanha de difamação contra ele, os inquisidores conseguem que o Papa Inocêncio XI anule o breve ditado pelo seu antecessor e reiniciar as suas actividades infames, o populacho da cidade de Coimbra queima a imagem do padre António Vieira, no pátio da universidade já que não podem fazê-lo pessoalmente… e os ecos de tudo isto chegam até ao seu retiro. Numa carta ao marquês de Gouveia, queixa-se, amargurado e irónico:

“Não merecia Antonio Vieira aos Portugueses, depois de ter padecido tanto por amor da sua pátria e arriscado tantas vezes a vida por ela, que lhe antecipassem as cinzas e lhe fizessem tão honradas exéquias.”
O seu irmão de sangue, Bernardo Vieira Ravasco, é acusado falsamente de homicídio pelo governador da Bahia por opor-se, como Secretario de Estado do lugar, às suas arbitrariedades e injustiças, e o nosso sacerdote jesuíta vai ipso facto defender o seu nome e o seu irmão. O rei fica descontente com o sucedido e acusa o Padre António Vieira desde Lisboa… e isto não o pode suportar o orador.

Numa carta desabafa:

 “Grande miséria e que não bastem os serviços, o amor e a verdade para conservar a graça dos príncipes, e que basta a calúnia para se perder.”

E ao próprio rei D. Pedro queixa-se:

 “Tendo sempre ânimo para suportar outros grandes golpes, não posso deixar de confessar a Vossa Majestade que só nisto fraqueou a minha constância”.

Pois nada mais inteirar-se da má disposição do rei a seu respeito, tal é a sua sensibilidade moral, teve um acesso de febre, entrou em delírio e esteve a ponto – segundo o próprio narra – de perder o juízo.
Finalmente o rei mudou o governador da Bahia e repôs no seu cargo o irmão do Padre António Vieira. Com o novo governador chegou a notícia da morte da rainha Mª Luísa Saboia, e ainda que exausto, pede-lhe que dê como sermão uma oração fúnebre. Ainda que ao princípio apenas podia manter-se em pé, no final fá-lo com uma eloquência arrebatadora rendendo assim um último atributo a quem foi sua amiga de alma e Senhora, como rainha de Portugal.

Muito pouco depois, outra vez são expulsos os jesuítas de Maranhão e aí se alça a palavra de Vieira para defende-los e repô-los no seu cargo, e mais importante ainda, para defender os seus Índios – que o chamavam de “Grande Pai” – da cobiça e brutalidade dos seus povoadores. Quiçá o resultado disto é que é nomeado pelo General da Ordem Jesuíta, e com 80 anos, chefe religioso de todo Brasil. E em vez de ficar-se pelo administrativo, outra vez retorna à acção, desde março de 1688, percorrendo em difíceis caminhadas as selvas e as serras e numa barca adentrando-se pelos rios na espessura.

E assim durante três anos, e dando o exemplo continua as suas tarefas de evangelização, reorganizando também as missões de Maranhão e Pará, reformando os planos de estudo e as regras das escolas e dos noviços, enquanto continua revisando os seus Sermões (dos quais já haviam sido editados 6 volumes) e escrevendo Clavis Prophetorum, até que em Maio de 1691, completamente extenuado, vê-se obrigado a renunciar ao seu cargo.

Está aniquilado com tantos esforços e quer-se retirar já do mundano ruido e da agitação… mas não o consegue. Numa conversa privada menciona amistosamente, e sem grandes pretensões, qual seria para ele o melhor candidato de procurador da Ordem em Roma, e chegado isto aos ouvidos das autoridades jesuítas da Bahia, acusam-no oficialmente de promover votos em favor de determinado nome e é condenado à perda “da voz activa e passiva”. Com 87 anos que tem, como diz Mário Domingues, a quem seguimos muito de perto neste artigo, o velho leão abatido alça de novo o seu poder e combatividade. Apela ao General da Companhia para que revisem este processo, faz todos os trâmites, difíceis e longos, e fica tranquilo com a sua consciência, pois o que decidam os seus superiores já não depende dele.

Três anos depois, e ainda em plena actividade epistolar, ainda que já não veja nem ouça quase nada, morre nos braços do seu inseparável amigo José Soares a 18 de Julho de 1697, com 90 anos cumpridos.

Dois anos antes um cometa tinha passado deixando atrás de si o seu rasto de mudanças históricas, a 27 de Outubro de 1695, e a sua alma e sensibilidade de artista e ainda de profeta reage ante a sua passagem. Se a história responde com grandes transformações na presença destes semeadores dos céus que são os cometas, como não o iria fazer ele, que era uma fibra ardente dessa mesma história. Escreveu um opúsculo chamado “Voz de Deus a Portugal e a Bahia”.

O cometa é símbolo de fim dos tempos e anúncio de novos, não necessariamente melhores, nem piores, quem pode subjugar o karma? E assim o pressentiu o padre jesuíta:

“Acabem-se os ódios, reconciliem-se as inimizades, perdoem-se as injúrias, componham-se as demandas, restitua-se a fazenda mal adquirida, e a fama. Paguem os poderosos o suor que estão devendo aos pequenos; cessem as opressões dos pobres, que clamam ao Céu, e cesse o luxo e vaidade que se sustenta do seu sangue.

Dêem-se as esmolas, que muito aplacam a Deus, e não só aos que as pedem pelas portas, senão também, e muito mais aos que a portas fechadas padecem necessidades. Guarde-se a imunidade das pessoas, lugares e bens eclesiásticos, que são próprios de Deus; que os dá, e os tira, e castiga como sacrílegos os que se atrevem a tocar neles. Enfim, Baía, que se veja em ti tal reforma de justiça, tal melhora de costumes e tal emenda nas vidas, que assim como hoje te quadra o nome de civitas vanitates [cidade da vaidade], assim mereças o de civitas justi [cidade dos justos].

E terminamos com Mário Domingues, tal e como ele concluiu no seu magnífico livro:

“Tempo depois, concluída a revisão do processo instaurado na Baía pela inveja dos seus confrades, o Geral dos jesuítas proclamava a sua inocência [a do Padre Antonio Vieira] e, nesse sentido, mandava ler uma circular à província de Portugal, com especial menção de que se fizesse leitura desse documento no Colégio máximo, em Coimbra, ali, naquela cidade onde o queimaram em efígie.

Mesmo depois de morto, o padre António Vieira triunfava dos seus inimigos.”

Jose Carlos Fernández
7 de agosto de 2014, Almada


(1) O da celebração do aniversário da rainha D. Maria Francisca de Sabóia.

(2) Maravilhosa obra, copiada no todo ou na sua maior parte, por certo dos poemas de amor de Egipto, como foi há pouco tempo demonstrado: “Coisas vereis, Sancho, que farão falar as pedras”

(3) Mário Domingues, O Drama …

(4) Diz Mário Domingues na sua obra citada que o rei estava determinado a pagar 900.000 cruzados, do seu património real e das consignacões que lhe tocavam, bastando assim que as três classes dessem o restante, um milhão e quinhentos mil cruzados.

(5) Na relação destes dados, como em geral neste artigo, sigo de perto a obra de Mário Domingues já mencionada.

(6) Toda a sua vida se esforçou em que se legislasse para que as acusações da Inquisição fossem com nome e apelido e públicas, não ocultas. Em 1649, e devido a este memorando, o rei D. João IV aboliu a confiscação inquisitorial; e no ano seguinte, concede a administração fiscal a um Conselho Público, retirando assim este privilegio aos inquisidores. A Inquisicão se vingaria e excomungaria o rei depois de morto… e as percussões aos cristãos novos se agravariam.

(7) Mário Domingues, obra citada, página 221

(8) Idem

(9) Numa das suas cartas ao rei, o Padre Antonio Vieira disse que Maranhão é “uma terra onde Vossa Majestade é nomeado, mas não obedecido”, lacónica expressão que diz tudo.

(10) Sigo nesta relação o trabalho O padre António Vieira: diplomata, político e profeta, de Julieta Oliveira Lo Greco, inserido na Enciclopédia da Historia de Portugal dirigida por João Medina Volume VII (com o título “Portugal Absolutista”)

(11) Antiga insígnia de capitão, espécie de lança curta.

(12) Mário Domingues, obra mencionada, pág. 281

(13) Do livro de Mário Domingues já citado, página 350

(14) Idem, pág. 351

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 
 
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