O Pensamento Cátaro
Esta inquietante religião, surgida no país occitano, tem profundas raízes nas quais se apoiou e que nos permitem compreendê-la melhor.
O catarismo é uma forma religiosa que acredita em dois princípios: o principio do Bem e o princípio do Mal. Portanto, é constituída por um tronco comum a todas as religiões dualistas e é aqui que devemos procurar a sua origem. Os cátaros acreditavam na reencarnação como meio de aperfeiçoamento para voltar ao mundo do Espírito. De onde é que eles tiraram essa crença? Parece que se basearam em duas fontes. Por um lado, no budismo, que foi incluído pelos maniqueístas na sua doutrina sincrética. E, além disso, no druidismo, que tinha um foco mais representado na região do Garona, tal como tinham posteriormente os cátaros.
Mas compartilhavam com os Druidas não só a crença na transmigração das almas e da reencarnação após a morte. Também aceitavam ambos a prática de suicídios sagrados.
"Os "crentes", além disso, praticavam
a caridade, a humildade, o perdão
das infrações e, sobretudo, a verdade."
Um dos pontos mais delicados sobre a história e as origens dos cátaros, é a sua relação com o cristianismo. Para alguns, o catarismo, tal como o valdinismo, contemporâneo e seu conterrâneo, é apenas uma heresia dentro do Cristianismo. Para outros, no entanto, é uma religião à margem da Cristã, com alguns elementos em comum. Aceitam a figura de Cristo, mas negam categoricamente que ele era um homem de verdade. Jesus, uma vez que é Filho de Deus, ou pelo menos o seu mensageiro, não poderia ter qualquer relação com o mundo da matéria. Para os cátaros, a sua encarnação não é, pois, mais do que um símbolo. No que diz respeito à missão de Jesus, esta consistia em revelar aos homens que adorando o Criador, esse personagem de caráter terrível que descreve o Velho Testamento, era na realidade a Satanás aquele a quem rendiam culto sem saberem.
Nossa Senhora também não foi jamais uma mulher de carne e sangue, mas apenas um símbolo: da Igreja que acolhe em si a palavra de Deus.
Consideram, em franca oposição ao cristianismo, que o Credo, por atribuir a Deus a criação do mundo, comete um terrível erro do qual decorrem todos os outros. Eles rejeitam os sacramentos, e consideram especialmente a Eucaristia e o casamento como duas monstruosidades. O primeiro porque pretende encerrar Deus num pedaço de matéria, e o segundo, porque sua finalidade é a procriação, o que precipita as almas nas misérias e limitações deste mundo.
Dos pontos partilhados por ambas as formas religiosas, há dois que são os mais importantes. Em primeiro lugar, admitirem a validade dos Evangelhos, principalmente o de São João, em que Cristo aparece não como uma personagem histórica, mas mais como a Palavra de Deus eterno, luz do Espirito enviada à escuridão da matéria. Em segundo lugar, a aceitação da verdade da Revelação, anunciando a destruição do mundo material, e o estabelecimento do Reino do Espírito Santo ou Paráclito.
"O consolamento foi assim chamado porque
conferia o Espírito Santo, a que São João
dá o nome de Paráclito, ou seja, Consolador."
Aos "simpatizantes" apenas se pedia que ouvissem a pregação e praticassem o "melhoramento", que consistia em ajoelhar-se diante da passagem de um perfeito, pedindo-lhe a bênção e absolvição.
Os "crentes", além disso, praticavam a caridade, a humildade, o perdão das infrações e, sobretudo, a verdade. Eles foram instruídos no segredo do Pater, que tinham de recitar cada vez que comiam ou bebiam. Os cátaros acreditavam que o Pater era a oração das almas antes da queda, que uma vez precipitadas na matéria perderam o poder de a dizer, e que a sua recitação era um primeiro passo para a reintegração. Mas os crentes, antes de receber a oração sagrada, devem ser submetidos durante meses às mesmas proibições dos perfeitos. Também devem ocasionalmente praticar confissão pública.
Mas o que torna o crente um "investido", um “perfeito”, é o único sacramento do Catarismo, o consolamento. Para poder receber o consolamento, os candidatos devem ser iniciados. Através da iniciação ia-se revelando aos fiéis, de um modo progressivo e segundo o seu grau de progresso espiritual, uma doutrina esotérica, que como tal, foi mantida em segredo pelos "homens bons".
Dos escritos secretos dos cátaros, dois chegaram até nós, o livro dos dois Princípios, de clara inspiração maniqueísta, e a Ceia Secreta, em que o apóstolo João questiona Jesus Cristo, o qual revela que o seu nascimento, o seu batismo e a sua crucificação, são simples imagens de significado esotérico. Além disso, a iniciação Cátara compreendia o conhecimento de técnicas de êxtases para separar a alma do corpo, semelhantes ao Yoga hindu.
O consolamento foi assim chamado porque conferia o Espírito Santo, a que São João dá o nome de Paráclito, ou seja, Consolador. Para os cátaros este sacramento opunha-se ao batismo católico, e constituía uma espécie de ordenação do iniciado, que a partir desse momento tinha o poder de absolver os pecados, e expulsar os demónios para dar por sua vez o consolamento. Este carregava consigo tantas e tão pesadas tarefas que geralmente só era dado na hora da morte aos fiéis que não tinham uma vocação infalível.
O ritual do consolamento é muito simples. Num lugar isolado, com um perfeito vestindo túnicas negras cingidas por um cordão (este era o traje do investido antes perseguição; posteriormente só se usava uma corda de linho ou lã, os homens sobre a camisa e as mulheres sobre o corpo, por baixo do peito), instruíam o requerente sobre o significado da natureza e os efeitos do batismo espiritual que ia receber, assim como os duros deveres que ia contrair. Então ele pergunta: “João (ou Joana) (que era o nome tipo dado ao iniciado no ritual cátaro), tens vontade de receber o santo batismo de Jesus Cristo, conforme a forma como era revelado e era dado, para preservá-lo toda a tua vida com pureza no coração e no espírito e não faltar a esse compromisso seja porque motivo for?». De seguida o requerente responde: «Sim, eu tenho essa vontade.». De imediato, o oficiante coloca-lhe sobre a cabeça o livro dos Evangelhos, enquanto os fiéis presentes lhe impõem a mão direita. A cerimônia termina com a recitação do Evangelho de São João.
O candidato já é um perfeito, membro do clero cátaro. Mas, ao contrário do clero
católico, não está consagrado, ou seja, não pode abençoar ou absolver, nem consolar os fiéis, se estiver ele mesmo em estado de pecado.
Este compromisso pessoal de perfeição faz do consolamento um ato transcendente. Cientes do facto, os Cátaros instituíram um substituto, de conveniência. Os fieis desejosos de serem consolados, mas cuja condição os levou a fazer o mal (por exemplo os homens de armas), poderiam fazer uma simples declaração de intenções. Isto feito, poder-se-ia consolá-los no momento da morte, ainda que estivessem inconscientes. Mas, se sobrevivessem não ficavam ligados ao voto, salvo se se comprometessem de novo. E se bem que se rogasse para que o fizessem, não era exercida sobre eles a menor pressão a este respeito.
Há na doutrina e no ritual dos cátaros uma situação que, dada a sua finalidade, tem
atraído muita atenção dos autores que lidaram com essa religião. Trata-se de uma forma de suicídio ritual que os albigenses chamavam de “endura”.
Poderia pensar-se, dada a visão do mundo pessimista que sustinham, que era uma forma rápida de se libertarem de uma vida a que não tinham nenhum apego. Nada poderia estar mais longe da intenção dos poucos perfeitos que praticaram endura. Para eles era um passo que era preciso dar quando se tinha alcançado um nível evolutivo espiritual de tal modo que ela não poderia avançar ligada ao corpo material.
Normal era que, ao praticar endura, não se chegasse à morte, mas se praticasse um prolongado jejum de dois meses. Mas, quando praticada até as suas últimas consequências, era realizada de cinco formas diferentes: por um jejum prolongado, abrindo as veias, alternando mergulhos em banhos de água fria e quente (assim morriam de congestão pulmonar), atirando-se de um penhasco e envenenando-se.